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Tristeza, paixão e beleza

Krishnamurti em diálogo com o Dr. Allan W. Anderson. J. Krishnamurti nasceu no sul da Índia e foi educado na Inglaterra. Nos últimos 40 anos tem falado nos Estados Unidos, Europa, Índia, Austrália, e outras partes do mundo. Desde o início de sua vida de trabalho ele repudiou todas as conexões com religiões organizadas e ideologias e disse que seu único interesse era libertar o homem absoluta e incondicionalmente. Ele é autor de vários livros, entre eles « O Despertar da Inteligência », « A Urgência da Mudança », « Liberte-se do Passado », e « O Voo da Águia ». Este é um de uma série de diálogos entre Krishnamurti e o Dr. Allan Anderson, que é professor de estudos religiosos na Universidade de San Diego onde ensina escrituras indianas e chinesas e a tradição oracular. Dr. Anderson, um poeta publicado, recebeu sua graduação na Universidade de Columbia e no Seminário de União Teológica. Foi homenageado com o distinto Prêmio de Ensino da Universidade da Califórnia.

A: Sr. Krishnamurti, em nossa última conversa juntos passamos da discussão sobre o medo e a relação entre isso e a transformação da pessoa individual que não depende de conhecimento ou tempo, e daí chegamos ao prazer, e assim que chegamos ao fim dessa conversa a questão da beleza surgiu. E se você concordar, eu gostaria muito que explorássemos isso juntos.

Krishnamurti: Pensamos muitas vezes por que os museus estão tão cheios com pinturas e estátuas. É porque o homem perdeu o contato com a natureza e, portanto, tem que ir a estes museus para ver as pinturas de outras pessoas – pinturas famosas e algumas delas são realmente maravilhosamente belas? Por que de fato existem museus? Estou só perguntando. Não estou dizendo que devem ou não devem existir. E estive em muitos museus no mundo todo, levado por especialistas, e sempre senti como se estivessem me mostrando e olhando para coisas que eram muito artificiais para mim, a expressão de outras pessoas, o que elas consideravam belo. E eu me perguntava o que é beleza? Porque quando você lê um poema de Keats, ou realmente um poema que um homem escreve com seu coração e com um sentimento muito profundo, ele quer transmitir alguma coisa a você do que ele sente, o que ele considera ser a mais extraordinária essência da beleza. E eu vi muitas grandes catedrais, – como você deve ter visto – pela Europa, e novamente, esta expressão de seus sentimentos, sua devoção, sua reverência, em alvenaria, em pedras, em prédios, em maravilhosas catedrais. E olhando para tudo isto eu ficava sempre surpreso, quando as pessoas falam de beleza, ou escrevem sobre beleza, se é alguma coisa criada pelo homem, ou uma coisa que você vê na natureza, ou não tem nada a ver com a pedra, ou com a pintura, ou com a palavra, mas alguma coisa profundamente interior. E assim, muitas vezes, discutindo com os chamados profissionais, dialogando com eles, me parece que isso está sempre em algum lugar do lado de fora, a pintura moderna, música moderna, o pop, e assim por diante, é sempre de algum modo terrivelmente artificial. Posso estar errado. Então, o que é beleza? Deve ser ela expressada? Essa é uma questão. Precisa ela da palavra, da pedra, da cor, da pintura? Ou é alguma coisa que não pode ser expressada em palavras, numa construção, numa estátua? Então se pudermos entrar nesta questão do que é beleza. Eu sinto, para realmente entrar nisto muito profundamente, a pessoa deve saber o que é sofrimento. Ou compreender o que é sofrimento, porque sem paixão você não pode ter beleza. Paixão no sentido, não luxúria, não... a paixão que vem quando há imenso sofrimento. E ficar com esse sofrimento, não fugir dele, traz essa paixão. Paixão significa o abandono, o completo abandono do « eu », do ego. E, portanto, uma grande austeridade, não a austeridade de... – a palavra significa cinza, severo, seco, que as pessoas religiosas transformaram nisto – mas antes a austeridade de grande beleza.

A: Sim, estou acompanhando, realmente estou.

Krishnamurti: Um grande senso de dignidade, beleza, isso é essencialmente austero. E ser austero, não verbalmente ou ideologicamente, ser austero significa o total abandono, deixar ir o « eu ». E não se pode deixar essa coisa acontecer se não se compreendeu profundamente o que é sofrimento. Porque paixão vem da palavra « sofrimento ». Não sei se você entrou nisto, examinou essa palavra, o significado original da palavra « paixão » é sofrimento, do sofrer.

A: Sentir.

Krishnamurti: Sentir. Veja, senhor, as pessoas fugiram do sofrimento. Eu penso que ele está profundamente relacionado com beleza – não que nós devemos sofrer!

A: Não que nós devemos sofrer mas – sim.

Krishnamurti: Isto é, não, devemos ir um pouco mais devagar. Estou indo muito rápido. Primeiro, admitimos que sabemos o que é beleza. Vemos um Picasso, ou um Rembrandt, ou um Michelangelo, e pensamos, « Como isso é maravilhoso ». Nós pensamos que sabemos. Lemos isto em livros, os especialistas escreveram sobre isto, e assim por diante. A pessoa lê e diz, sim. Nós absorvemos isto através de outros. Mas se a pessoa estiver realmente inquirindo no que é beleza, deve haver um grande sentido de humildade. Ora, eu não sei o que é beleza de fato. Posso imaginar o que é beleza. Aprendi o que é beleza. Eu fui ensinado nas escolas, nas faculdades, lendo livros, e indo em viagens, viagens guiadas, e todo o resto, visitanto milhares de museus, mas realmente para descobrir a profundeza da beleza, a profundeza da cor, a profundeza do sentimento, a mente deve começar com um grande senso de humildade: eu não sei. Realmente a pessoa não sabe o que meditação é. A pessoa pensa que sabe. Quando discutirmos meditação chegaremos nisto. Então a pessoa tem que começar, eu acho, se está examinando a beleza, com um grande senso de humildade, não saber. Esse próprio « não saber » é beleza.

A: Sim, sim, estive ouvindo e e fiquei tentando me abrir para esta relação que você está fazendo entre beleza e paixão.

Krishnamurti: Veja, senhor, vamos começar, certo? O homem sofre, não só pessoalmente, mas existe imenso sofrimento do homem. É uma coisa que está impregnando o universo. O homem sofreu fisicamente, psicologicamente, espiritualmente, de todo modo, séculos após séculos. A mãe chora porque seu filho foi morto, a esposa chora porque seu marido foi mutilado na guerra ou acidente – existe tremendo sofrimento no mundo. Não sei se as pessoas estão cônscias ou mesmo sentem este imenso sofrimento que existe no mundo. Elas estão tão preocupadas com seu próprio sofrimento pessoal, elas ignoram o sofrimento de um pobre homem numa pequena vila na Índia, ou na China, ou no mundo oriental, onde eles possivelmente não têm uma refeição completa, roupas limpas, cama confortável. E existe este sofrimento de milhares de pessoas sendo mortas na guerra. Ou, no mundo totalitário, milhões sendo executados por ideologias, tirania, o terror de tudo isso. Então, existe todo este sofrimento no mundo. E há também o sofrimento pessoal. E sem realmente compreender isto muito, muito profundamente e resolver isto, a paixão não virá do sofrimento. E sem paixão, como você pode ver beleza? Você pode apreciar intelectualmente uma pintura, ou um poema, ou uma estátua, mas precisa desse grande sentido de ardente paixão interior, explodir de paixão. Isso cria em si mesmo a sensibilidade que pode ver a beleza. Então, eu penso, que é bastante importante compreender o sofrimento. Penso que isto está relacionado – beleza, paixão, sofrimento.

A: Estou interessado na ordem dessas palavras. Beleza, paixão, sofrimento. Se a pessoa está em relação com a transformação de que temos falado, chegar à beleza, eu pego isto, é uma passagem do sofrimento para a paixão para a beleza.

Krishnamurti: Está certo, senhor.

A: Sim, sim. Por favor, continue. Eu compreendo.

Krishnamurti: Você sabe, no mundo cristão – se não me engano – o sofrimento é delegado a uma pessoa, e através dessa pessoa de algum modo escapamos do sofrimento, ou seja, nós esperamos escapar do sofrimento. E no mundo oriental o sofrimento é racionalizado através da afirmação do carma. Você sabe que a palavra « carma » significa fazer. E eles acreditam em carma. Ou seja, o que você fez na vida passada paga no presente ou é recompensado no presente, e assim por diante. Assim, há estas duas categorias de fugas. E há milhares de fugas – uisque, drogas, sexo, sair para assistir à missa, e assim por diante. O homem nunca ficou com uma coisa. Ele sempre ou buscou conforto numa crença, numa ação, na identificação com alguma coisa maior do que ele mesmo, e assim por diante, mas ele nunca disse, « Olhe, devo ver o que é isto, devo penetrar nisto e não delegar a outra pessoa. Devo entrar nisto, devo encarar isto, devo olhar para isto, devo saber o que é isto ». Assim, quando a mente não foge deste sofrimento, seja pessoal ou o sofrimento do homem, se você não foge dele, se não o racionaliza, se você não tenta ir além dele, se você não fica com medo dele, então você permanece com ele. Porque qualquer movimento de « o que é », ou qualquer movimento para longe de « o que é », é uma dissipação de energia. Isto impede você de realmente compreender « o que é ». O « o que é » é sofrimento. E nós temos meios, e formas, e astuciosas evoluções de fugas. Ora, se não há qualquer fuga, então você fica com isto. Não sei se você já fez isto. Porque na vida de todo mundo há um incidente que traz tremendo sofrimento, um acontecimento. Pode ser um incidente, uma palavra, um acidente, um perturbador sentido de absoluta solidão, e assim por diante. Estas coisas acontecem, e com isso vem o sentimento de completo sofrimento. Agora, quando a mente pode ficar com isso, não se afastar disto, a partir daí chega a paixão. Não a paixão cultivada, não a tentativa artificial de estar apaixonado, mas o movimento da paixão nasce deste não afastamento do sofrimento. É o total... ficar completamente com isso.

A: Estou pensando que também dizemos, quando falamos de alguém sofrendo, que eles estão desconsolados.

Krishnamurti: Sim. Desconsolados.

A: Desconsolados, e imediatamente achamos que o antídoto para isso é se livrar do « des », não ficar com o « des ». E, na conversa anterior, falamos sobre duas coisas relacionadas uma com a outra em termos de lados opostos da mesma moeda, e enquanto você falava eu estava vendo a interrelação num sentido antagônico entre ação e paixão. Paixão sendo capaz de suportar, capaz de ser mudada. Ao contrário, a ação é feita para efetivar a mudança. E este seria o movimento do sofrimento para a paixão no ponto preciso, se eu entendi você corretamente, onde eu me torno capaz de superar o que está ali.

Krishnamurti: Assim, quando não há fuga, quando há desejo de buscar conforto longe de « o que é », então, a partir dessa absoluta e inescapável realidade vem esta chama da paixão. E sem isso não existe beleza. Você pode escrever inumeráveis volumes sobre beleza, ou ser um maravilhoso pintor, mas sem essa qualidade interna de paixão que é resultado de grande compreensão do sofrimento, não vejo como a beleza pode existir. Também, se observa, o homem perdeu seu contato com a natureza.

A: Oh sim.

Krishnamurti: Completamente, especialmente nas grandes cidades, e mesmo em pequenas vilas, cidades, e aldeias, o homem está sempre indo externamente, para fora, no encalço de seus próprios pensamentos, e, assim, perdeu mais ou menos o contato com a natureza. A natureza nada significa para ele: « Sim, é muito encantador, muito belo ». Certa vez eu estava com alguns amigos e meu irmão muitos anos atrás no Grand Canyon, olhando a coisa maravilhosa, incrível, as cores, a profundidade e as sombras. E um grupo de pessoas chegou, e uma senhora disse, « Sim, não é maravilhoso », e a outra disse, « Vamos embora e tomar chá ». E elas foram embora para casa. Entende? É isso que está acontecendo no mundo. Nós perdemos completamente o contato com a natureza. Não sabemos o que isto significa. E nós também matamos. Você me entende? Matamos por alimento, matamos por diversão, matamos pelo que é chamado esporte. Eu não entrarei nisso tudo. Então existe essa falta de relação íntima com a natureza.

A: Eu lembro de um choque, um profundo choque que sofri em meus dias de faculdade. Eu estava parado nos degraus do prédio da administração e vendo um pôr-de-sol muito, muito bonito, e um de meus colegas me perguntou o que eu estava fazendo, e eu disse, « Bem, não estou fazendo nada, estou olhando o pôr-do-sol ». E você sabe o que ele me disse? Isto me chocou tanto que é uma daquelas coisas que você nunca esquece. Ele disse simplesmente, « Bem, não há nada para impedir isto, há? »

Krishnamurti: Nada?

A: Nada para impedir isso, existe? Sim, eu sei. Entendo você.

Krishnamurti: Então, senhor, você vê, nós estamos nos tornando mais e mais artificiais, mais e mais superficiais, mais e mais verbais, uma direção linear, não vertical realmente, mas linear. E então naturalmente, as coisas artificiais se tornam mais importantes: teatros, cinemas, você sabe, a coisa toda do mundo moderno. E muito poucos tem o sentido da beleza neles mesmos, beleza na conduta. Compreende, senhor?

A: Oh sim.

Krishnamurti: Beleza no comportamento. Beleza no uso de sua linguagem, a voz, a maneira de caminhar, o sentido de humildade – com essa humildade tudo se torna tão delicado, calmo, cheio de beleza. Nós não temos nada disso. E, contudo, vamos aos museus, somos educados com museus, com pinturas, e perdemos a delicadeza, a sensibilidade da mente, do coração e do corpo, e assim, quando perdemos esta sensibilidade, como podemos saber o que é a beleza? E quando não temos sensibilidade, vamos para algum lugar aprender a ser sensitivo. Você sabe disto.

A: Oh, eu sei.

Krishnamurti: Ir a uma faculdade, ou algum « ashram », ou algum buraco fétido, e lá eu vou aprender a ser sensitivo. Sensitivo pelo toque, pelo... você sabe. Isso se torna desagradável. Então, agora como nós podemos... como você é professor e mestre, como pode você, senhor, educar – isto se torna muito, muito importante – os alunos para ter esta qualidade? Portanto pergunta-se, para que nós somos educados? Para que estamos sendo educados? Todo mundo está sendo educado. provavelmente 90% das pessoas na América estão sendo educadas, sabem o que ler e escrever, e todo o resto, para quê?

A: E contudo, isto é um fato, pelo menos em minha experiência de ensino, turma após turma, ano após ano, que com toda esta proliferação de publicações e as chamadas técnicas educacionais, os estudantes não têm muito cuidado com a palavra escrita e com a palavra falada como foi o caso que eu posso lembrar distintamente anos atrás. Ora, talvez outros mestres tenham tido uma experiência diferente, mas eu vi isto em minhas turmas, e a resposta habitual que eu obtenho quando falo com meus colegas sobre isto é: bem, o problema está nas escolas secundárias. E então você fala com um pobre professor da escola secundária, e ele diz que é a pobre escola básica. Então nós temos a pobre escola básica, a pobre escola secundária, a pobre faculdade, a pobre universidade, porque estamos sempre retomando onde largamos, que é um pouco mais baixo no ano seguinte do que era antes.

Krishnamurti: Senhor, é por isso que quando falava em várias universidades, e assim por diante. Eu sempre pensava: para que estamos sendo educados? Apenas para nos tornarmos funcionários glorificados?

A: É isso que acaba acontecendo.

Krishnamurti: Naturalmente é. Homens de negócio glorificados e Deus sabe o que mais. Para quê? Quero dizer, se eu tivesse um filho, isso seria um tremendo problema para mim. Felizmente, eu não tive um filho, mas seria uma questão abrasadora para mim: o que eu faço com os filhos que tenho? Mandar para todas estas escolas onde nada lhes é ensinado mas apenas como ler, e escrever um livro, e como memorizar, e esquecer todo o campo da vida? Eles são instruídos sobre sexo e reprodução, e todo esse tipo de tolice. Mas e daí? Então, eu sinto, senhor, quero dizer, para mim esta é uma questão tremendamente importante, porque estou envolvido com várias escolas na Índia, e na Inglaterra há uma, e vamos criar uma aqui na Califórnia. É uma questão abrasadora: o que estamos fazendo com nossas crianças? Transformando-as em outro robô ou em outro funcionário esperto, astuto, grandes cientistas que inventam isto ou aquilo, e, assim, ser seres humanos comuns, desprezíveis, pequenos, com mentes sem valor. Entende, senhor?

A: Entendo, entendo.

Krishnamurti: Então, quando você fala sobre beleza, pode um ser humano contar ao outro, educar o outro para crescer em beleza, crescer em bondade, florescer em grande afeição e cuidado? Porque se não fizermos isso, estaremos destruindo a terra, como está acontecendo agora, poluindo o ar. Nós, seres humanos, estamos destruindo tudo que tocamos. Então esta se torna uma questão muito, muito séria quando falamos sobre beleza, quando falamos sobre prazer, medo, relação, ordem, e assim por diante – tudo isso, nenhuma destas coisas está sendo ensinada em qualquer escola!

A: Não. Eu levei isso para minha aula ontem, e fiz essa mesma pergunta diretamente a eles. E eles estavam muito dispostos a concordar que aqui estamos, e estamos numa divisão de curso superior, e nunca ouvimos falar nisto.

Krishnamurti: Trágico, entende, senhor?

A: E além disso, nós não sabemos se estamos realmente ouvindo isto pelo que realmente é, porque não ouvimos falar nisto, temos que passar por isso ainda para descobrir se estamos de fato ouvindo.

Krishnamurti: E se o mestre, ou o homem que é professor, é honesto o bastante para dizer: « Eu não sei. Vou aprender a respeito disto tudo ». Então senhor, é por isso que a civilização ocidental – não a estou condenando, apenas observando – a civilização ocidental está principalmente interessada com o comercialismo, consumismo, e uma sociedade que é imoral. E quando falamos da transformação do homem – não no campo do conhecimento ou no campo do tempo, mas além disso – quem está interessado nisto? Entende, senhor? Quem realmente se importa com isto? Porque a mãe sai para seu emprego, ganha o sustento, o pai sai, e a criança é apenas um incidente.

A: Agora, na realidade, sei que isto provavelmente vai parecer como uma afirmação assustadoramente extravagante para eu fazer, mas acho que estamos chegando agora ao lugar onde se alguém levantar esta questão ao nível em que você a levantou, como um jovem que está crescendo em seus anos de adolescência, digamos, e ele não deixará isto passar, ele vai perseverar nisto, como dizemos, a questão é seriamente levantada se ele é normal.

Krishnamurti: Sim, exato, exato.

A: E isto faz pensar em Sócrates, que foi muito claro que ele só sabia de uma coisa: que ele não sabia, e ele não precisou dizer isso muitas vezes, mas disse vezes suficientes para que o matassem, mas ao menos ele foi levado a sério o suficiente para ser morto. Hoje acho que ele seria posto em alguma instituição para estudo. A coisa toda teria que ser conferida.

Krishnamurti: É isso que está acontecendo na Rússia. Eles mandam você para um asilo...

A: Está certo.

Krishnamurti: ... hospital mental, e o destroem. Senhor, aqui... nós negligenciamos tudo por algum ganho superficial – dinheiro. Dinheiro significa poder, posição, autoridade, tudo – dinheiro.

A: Isto leva de volta a esta coisa de sucesso que você mencionou antes. Sempre mais tarde, sempre mais tarde. Num eixo horizontal. Sim. Eu quis partilhar com você, quando você falava sobre a natureza, uma coisa que tem certo humor distorcido em termos da história do conhecimento: Pensei naqueles maravilhosos hinos védicos à Alvorada.

Krishnamurti: Oh sim.

A: O modo como a Alvorada chega, pincelado de rosa, e os estudiosos expressaram surpresa que o número de hinos a ela são, por comparação, poucos comparados com alguns outros deuses, mas a atenção é dirigida no estudo não para a qualidade do hino, tão reveladora quanto seja que há cadências tão consumadamente belas associadas a ela, pelo que você precisaria apenas de uma, não precisaria, você não precisaria de 25. A coisa importante é, não é notável, que nós temos tão poucos hinos, e contudo eles são maravilhosamente belos. O que tem o número a ver com tudo isso é a coisa que nunca pude responder a mim mesmo em termos do meio no qual estudei sânscrito e o Vedas. A coisa importante é descobrir que deus, – neste caso « Indra » – é, no « Rig Veda », mencionado mais vezes. Agora, claro, não estou tentando sugerir que a quantidade devia ser negligenciada, de modo algum, mas se a questão foi abordada do modo que você a tem investigado, mais profundamente, mais profundamente, então, eu acho, que o conhecimento teria tido uma carreira muito, muito diferente. Nós deveríamos ser ensinados a como sentar e deixar esse hino revelar-se e parar de medi-lo. K Sim, senhor.

A: Sim, sim, por favor, continue.

Krishnamurti: É isso que eu vou dizer. Veja, quando discutimos beleza e paixão e sofrimento, devemos entrar também na questão do que é ação? Porque ela está relacionada com tudo isso.

A: Sim, naturalmente.

Krishnamurti: O que é ação? Porque vida é ação. Viver é ação. Falar é ação. Tudo é ação, sentar aqui é uma ação, falar, um diálogo, discutir, entrar nas coisas é uma série de ações, um movimento em ação. Então, o que é ação? Ação obviamente significa agir agora. Não ter agido ou agirá. É o ativo presente da palavra « ato », « agir », que é agir todo o tempo. É um movimento no tempo e fora do tempo. Nós entraremos nisso um pouco mais tarde. Agora, qual é a ação que não traz sofrimento? Entende? Deve-se fazer essa pergunta, porque toda ação, como fazemos agora, é ou remorso, contradição, um sentido de movimento sem significado, repressão, conformismo, e assim por diante. Então, isso é ação para a maioria das pessoas: a rotina, a repetição, as lembranças de coisas passadas, e agir segundo essa lembrança. Assim, a menos que se compreenda muito profundamente o que é ação, não se será capaz de comprender o que é sofrimento. Então, ação, sofrimento, paixão e beleza. Eles estão todos juntos, não separados, não uma coisa separada com a beleza no final, ação no início. Não é absolutamente assim, é tudo uma coisa. Mas olhar para isto, o que é ação? Tanto quanto se sabe, agora, ação é de acordo com uma fórmula, de acordo com um conceito, ou de acordo com uma ideologia. A ideologia comunista, a ideologia capitalista, ou a ideologia socialista, ou a ideologia de um cristão, Jesus Cristo, ou o hindu com sua ideologia. Assim, ação é a aproximação de uma ideia. Eu ajo segundo meu conceito. Esse conceito é tradicional, ou concebido por mim, ou concebido por um especialista. Lenin, Marx formularam e eles se adaptavam de acordo com o que pensavam Lenin, Marx ... E ação é de acordo com um padrão. Entende?

A: Sim, entendo. O que está me ocorrendo é que sob a tirania disso, se é literalmente dirigido.

Krishnamurti: Absolutamente. Dirigido, condicionado, brutalizado. Você não se importa com coisa alguma exceto com ideias e executar ideias. Veja o que está acontecendo na China – entende? – na Rússia.

A: Oh sim, sim, entendo.

Krishnamurti: E aqui também, a mesma coisa numa forma modificada. Então ação, como a conhecemos hoje, é conformidade à um padrão, ou no futuro, ou no passado, uma ideia que eu executo. Uma resolução, ou uma decisão, que eu realizo em ação. O passado está agindo, então não é ação! Eu não sei se estou...

A: Sim, sim. Eu estou cônscio do fato que nós sofremos uma convicção radical que se nós não gerarmos um padrão, não haverá ordem.

Krishnamurti: Então, você entende o que está acontecendo, senhor? A ordem é em termos de um padrão.

A: Sim, preconcebido, sim.

Krishnamurti: Portanto é desordem, contra a qual uma mente inteligente luta, luta no sentido de revoltar-se. Então, é por isso que é muito importante, se tivermos de compreender o que é a beleza, devemos compreender o que é ação. Pode haver ação sem a ideia? Ideia significa – você deve saber disto pelo grego – significa ver. Veja o que fizemos, senhor. A palavra é « ver ». Isto é, ver e o fazer. Não o ver, tirar uma conclusão disso, e, então, agir de acordo com essa conclusão. Percebe?

A: Oh sim, sim.

Krishnamurti: Perceber, dessa percepção tirar uma crença, uma ideia, uma fórmula, e agir de acordo com essa crença, ideia, fórmula. Então, nós somos tirados da percepção, estamos agindo apenas de acordo com a fórmula, portanto, mecânica. Veja, senhor, como nossas mentes se tornaram mecânicas.

A: Necessariamente assim.

Krishnamurti: Sim, senhor, obviamente.

A: Eu pensei na escultura grega e seu caráter diferente da escultura romana, o mais belo da antiga escultura grega...

Krishnamurti: A era de Péricles e por aí vai.

A: ...é extremamente contemplativa. Algumas vezes foi notado que os romanos tinham um talento para o retrato em pedra e naturalmente...

Krishnamurti: Lei e ordem, e tudo isso.

A: Sim, e naturalmente se poderia ver a notável atenção deles pela personalidade. Mas o que me ocorreu enquanto ouvia isto, uma coisa que nunca me ocorreu antes, que a estátua grega com a qual às vezes se pergunta a si mesmo, bem, a face não revela uma personalidade. Talvez o olho imóvel reconheceu que você não coloca na pedra alguma coisa que deve surgir do próprio ato.

Krishnamurti: Exato, exato.

A: Porque você está fazendo uma coisa que você deve esperar que seja transmitida. Os gregos estavam certos. É uma expressão dessa relação com a forma que é uma forma interior. Maravilhosa compreensão disso. É uma compreensão que permite que o esplendor irrompa mais do que a noção que devemos representá-lo. Sim, estou acompanhando você, não estou?

Krishnamurti: Veja, senhor, é por isso que se deve fazer essa pergunta essencial: o que é ação? É uma repetição? É imitação? É um ajustamento entre « o que é » e « o que deveria ser » ou « o que foi »? Ou é uma conformidade a um padrão, ou a uma crença, ou a uma fórmula? Se é isto, então inevitavelmente deve haver conflito. Porque ideia – ação: há um intervalo, um atraso de tempo entre os dois, e nesse intervalo muitas coisas acontecem. Uma divisão, na qual outros incidentes acontecem, e, portanto, deve haver inevitavelmente conflito. Portanto, a ação nunca é completa, a ação nunca é total, nunca acaba. Ação significa acabar. Sabe, você usou a palavra « vedanta » outro dia. Ela significa o fim do conhecimento, me foi dito. Não a continuação do conhecimento, mas o fim. Então, agora, existe uma ação, que não está amarrada ao passado como o tempo, ou ao futuro, ou a uma fórmula, ou a uma crença, ou a uma ideia, mas ação? O ver é o fazer.

A: Sim.

Krishnamurti: Agora, o ver é o fazer se torna um extraordinário movimento em liberdade. O outro não é liberdade. E portanto, senhor, os comunistas dizem que não existe tal coisa como liberdade. Essa é uma ideia burguesa. Claro que é uma ideia burguesa, porque eles vivem em ideias, conceitos, não em ação. Eles vivem de acordo com ideias e executam essas ideias em ação, que não é ação, o fazer. Eu não sei se...

A: Oh sim, sim. Eu estava só pensando.

Krishnamurti: Isto é o que fazemos no mundo ocidental, no mundo oriental, por todo o mundo: agir de acordo com uma fórmula, ideia, crença, um conceito, uma conclusão, uma decisão, e nunca o ver e o fazer.

A: Eu estava pensando no gato, o maravilhoso animal gato.

Krishnamurti: O gato, oh sim.

A: A cara dele é quase toda olho.

Krishnamurti: Sim.

A: Não quero dizer isso medindo com o compasso, claro que não. E nós não treinamos gatos como tentamos treinar cães. Eu penso que corrompemos os cães. Gatos não serão corrompidos. Eles simplesmente não serão corrompidos. E me parece grande ironia que na Idade Média devêssemos queimar gatos junto com bruxas.

Krishnamurti: Os antigos egípcios adoravam gatos.

A: Sim. O grande olho do gato... Li certo tempo atrás que a estrutura do esqueleto do gato é entre os mamíferos, a mais perfeitamente adaptada a sua função.

Krishnamurti: Exato.

A: E eu penso que uma das mais profundas ocasiões de gratificação em minha vida foi viver com uma gata, e ela me ensinou como fazer um fim. Mas eu passei por muita agonia interior antes de chegar a entender o que ela estava fazendo. É como se se pudesse dizer dela que ela estava cumprindo uma missão, digamos, sem, claro, ser uma missionária no sentido comum dessa palavra.

Krishnamurti: Sim, senhor, veja, começa-se a ver o que é liberdade na ação.

A: Está certo.

Krishnamurti: E o ver no fazer é impedido pelo observador, que é o passado, a fórmula, o conceito, a crença. Esse observador fica entre a percepção e o fazer. Esse observador é o fator da divisão. A ideia e a conclusão em ação. Então, podemos nós agir somente quando houver percepção? Nós fazemos isto, senhor, quando estamos à beira de um precipício, ver o perigo é ação instantânea.

A: Se me lembro corretamente, a palavra « alerta » vem do italiano, que indica ficar no limite de um penhasco.

Krishnamurti: Penhasco, está certo.

A: Isso é bastante sério.

Krishnamurti: Veja, é muito interessante. Estamos condicionados ao perigo de um penhasco, de uma cobra, ou de um animal perigoso, e por aí vai, estamos condicionados. E também estamos condicionados a esta ideia: você deve agir de acordo com uma ideia, de outro modo não existe ação.

A: Sim, estamos condicionados a isso.

Krishnamurti: A isso.

A: Oh sim, terrivelmente.

Krishnamurti: Terrivelmente. Então, temos esta condição para o perigo. E condicionados ao fato de que você não pode agir sem uma fórmula, sem um conceito, uma crença, e por aí vai. Então estes dois são os fatores de nosso condicionamento. E agora, alguém chega e diz, olhe, isso não é ação. Isso é meramente uma repetição do que foi, modificada, mas não é ação. Ação é quando você vê e faz!

A: E a reação a isso é: oh, eu vejo, ele tem uma nova definição para ação.

Krishnamurti: Eu não estou definindo.

A: Sim, claro que não.

Krishnamurti: E eu fiz isso toda minha vida. Eu vejo uma coisa e faço.

A: Sim.

Krishnamurti: Digamos, por exemplo, como você deve saber, eu não estou sendo pessoal ou qualquer coisa, existe uma grande organização, organização espiritual, com milhares de seguidores, com muita terra, 5000 acres, castelos, e dinheiro, e por aí vai, foi formada a minha volta, quando garoto. E em 1928 eu disse, « Tudo isto está errado ». Eu a dissolvi, devolvi a propriedade, e por aí vai. Eu vi como estava errado – o ver; não as conclusões, comparação, digamos, como as religiões fizeram isto. Eu vi e agi. E portanto nunca houve um arrependimento.

A: Maravilha.

Krishnamurti: Nunca foi dito, « Oh, cometi um erro, porque não terei ninguém em quem me apoiar ». Entende?

A: Sim, entendo. Poderíamos na próxima vez, em nossa próxima conversa, relacionar beleza com ver?

Krishnamurti: Eu estava indo lá.

A: Oh, esplêndido. Sim, isso é maravilhoso.

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