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São o Desejo e o Tempo Responsáveis pelo Medo?

Fifth Public Talk in Saanen

Tuesday, July 17, 1979

Antes de continuarmos com a conversa das últimas quatro palestras, estivemos pensando, e você também deve ter se perguntado por que nós, que nos reunimos aqui, que ouvimos por tantos anos: por que não mudamos? Qual a causa básica disto? Existe uma causa, ou muitas causas? Sabemos o que o mundo se tornou externamente, mais e mais fragmentado, mais e mais violento, mais louco, um grupo brigando com outro grupo, onde não se pode partilhar toda energia do mundo com todas as pessoas, você sabe o que está acontecendo. E qual nossa relação com isso, com o mundo e conosco mesmos? Estamos separados de tudo isso? Se estamos, o que questiono, se estamos, somos tão radicalmente diferentes do mundo a nossa volta? Os gurus rivais, as religiões rivais, as ideias contraditórias opostas e assim por diante, o que podemos fazer juntos para mudarmos? Pergunto isto com toda seriedade: por que levamos nossas vidas assim, nossos ideais mesquinhos, vaidades, e todas as tolices que acumulamos, por que continuamos neste caminho? É por termos medo de mudar? É por não termos desejo ou intenção ou o impulso de descobrir um modo diferente de viver? Por favor, faça estas perguntas a si mesmo. Estou fazendo estas perguntas por você, não pergunto por mim. Por que? Qual é a essência desta deterioração da mente humana e consequentemente a desintegração na ação? Compreende? Por que existe esta mente que se tornou tão pequena, inclusiva, que não considera tudo e opera a partir do todo mas vivendo num pequeno quintalzinho? Qual a origem disto? Vamos senhores, reflitam, vamos discutir um pouco. Outro dia você perguntou: por que eu ouvi você por 52 ou 40 anos e não mudei absolutamente? Tem havido pequenas mudanças, modificações, talvez eu não seja mais um nacionalista, não pertença mais a nenhum grupo religioso organizado em particular, não pertença superficialmente a nenhuma seita ou guru, a todo aquele circo que continua. Mas profundamente a pessoa continua mais ou menos a mesma. Talvez mais refinada, o egocentrismo está um pouco menos ativo, menos agressivo, mais refinado, mais complacente, um pouco mais ponderado, mas a raiz permanece. Você notou isto? Por que? Estamos falando sobre a erradicação daquela raiz não dos adornos periféricos e dos recortes periféricos. Estamos falando da própria raiz do egocentrismo ativo da pessoa, consciente ou inconsciente. É porque precisamos de tempo? Por favor, entre nisso. Tempo, isto é, me dê tempo. O homem existe há milhões e milhões de anos, essa raiz não foi arrancada e posta de lado. O tempo não resolveu isto. Certo? Por favor, aplique sua mente nisto. A evolução, que é o movimento do tempo, não resolveu isto. Temos melhores banheiros, melhores comunicações e por aí vai, mas o homem, o ser humano é essencialmente o que era há um milhão de anos atrás. É uma coisa trágica se a pessoa percebe isso. E se a pessoa é séria, não só enquanto está aqui nesta tenda, mas séria em toda sua vida, em sua vida diária, não pergunta: pode esta atividade egocêntrica com todos os seus problemas acabar? Se você perguntou seriamente, e se percebe o tempo, o pensamento examinamos isto no outro dia – tempo e pensamento são similares, são o mesmo movimento, e pensamento e tempo não resolveram este problema. E esse é o único instrumento que temos. E parecemos nunca perceber esse instrumento, que é o movimento do pensamento, limitado, esse movimento não pode resolver os problemas. E contudo nos prendemos a isso. Nós nos prendemos ao antigo instrumento. Certo? O pensamento criou todos estes problemas. Certo? Isso é óbvio. Os problemas de nacionalidade, problemas que a guerra cria, problemas de religiões, tudo isso é movimento do pensamento que é limitado. E esse mesmo pensamento criou este centro. Certo? Obviamente. E contudo não parecemos capazes de encontrar um novo instrumento. Certo? Não encontramos um novo instrumento e não podemos largar o antigo e nos prendendo a ele esperamos encontrar o novo. Compreende? Você tem que largar uma coisa para descobrir a nova. Certo? Se você vê uma trilha levando ao topo da montanha e ela não leva você até lá, você investiga. Não fica preso àquela trilha. Então perguntamos: que é isto, por que os seres humanos são tão incrivelmente estúpidos? Eles têm guerras, têm esta fragmentação de nacionalidades, de religiões, todo o resto, e ainda vivem nestes conflitos, disputas, miseráveis, infelizes, brigando – entende? Ora, o que fará um ser humano abandonar o velho instrumento e buscar o novo? Compreende? Buscar o novo. É por sermos preguiçosos? É por termos medo? É por, se eu deixar este, você garantirá o outro? Compreende? Significando que a pessoa viveu com este pensamento limitado e pensa que encontrou segurança aí, e tem medo de largar isso e é só quando se abandona o velho que você pode encontrar o novo. Obviamente. Então é isso, estamos perguntando, é isso o medo? Porque você vê a multiplicação de gurus mundo afora garantindo segurança – « Faça isto, siga aquilo, pratique isto, e você terá alguma coisa no final ». Ou seja, prêmio. A promessa de um prêmio tem certo fascínio e a esperança que você encontrará naquela segurança. Mas quando você olha um pouco mais de perto e não é tão ingênuo, não engole tudo que o colega diz, então você descobre muito claramente que o prêmio é a reação do castigo, compreende? Porque somos treinados na ideia de prêmio e castigo. Certo? Isto é óbvio. Então para fugir do castigo, que significa dor, aflição e tudo isso, buscamos o prêmio e esperamos assim achar aí algum tipo de segurança, algum tipo de paz, algum tipo de felicidade. Mas quando você entra nisso, não encontra. Os gurus e sacerdotes podem prometer, mas são apenas palavras. Certo? Então como nós, seres humanos, entramos juntos nesta questão de se é possível erradicar totalmente esta venenosa atividade egocêntrica, de interesse próprio? Certo? Não sei se você alguma vez fez essa pergunta. Quando pergunta isso você já começou a ser um pouco mais inteligente. Naturalmente. Então esta manhã vamos, juntos, refletir sobre este problema, juntos. Pensar juntos, não eu falo e você aceita, ou rejeita, mas juntos descobrir se este movimento do ego, do eu, pode acabar. Certo? Estão interessados nisto? Não, não, não digam é... balancem suas cabeças. Este é um problema muito sério. Você pode ser estimulado pelo orador enquanto está na tenda e espero que não seja. Mas você pode ser estimulado e ficar empolgado e diz, « Sim, concordo com você. Devemos fazer isto. » – e quando sai da tenda esquece tudo e continua do seu jeito antigo. Então juntos, você deixa de lado seu preconceito particular, seus gurus particulares, suas conclusões particulares juntos nós vamos investigar esta questão. Para investigar você deve estar livre. Certo? É óbvio, não é? Você deve estar livre para examinar, deve estar livre dos bloqueios que impedem seu exame. Impedimentos são seu preconceito, experiência, seu próprio conhecimento ou o de outras pessoas, tudo isso aje como impedimento e então você não pode ter a capacidade de examinar ou pensar em conjunto. Certo? Ao menos intelectualmente veja isto. O orador não tem nenhum destes problemas: ele não tem preconceito, nem crença. Acabou. Só podemos nos encontrar assim, se você está também nessa mesma posição. Então vamos examinar, refletir, pensar juntos. Refletir juntos sobre a questão por que os seres humanos mundo afora, permaneceram egocêntricos sabendo de todos os problemas que isto traz, sabendo de toda confusão, miséria, sofrimento que envolve, eles se prendem a isto. Certo? Agora perguntamos: é desejo? Você sabe o que o desejo é. Estamos perguntando, a raiz desta atividade egocêntrica é o desejo? O que é desejo? Todos desejamos muitas coisas: desejo de iluminação, desejo de felicidade, desejo de boa aparência, desejo de um mundo que será pacífico, desejo de se realizar e evitar frustração compreende? – desejo, que impulsiona todos os seres humanos. Você entende isto? Perguntamos, é essa uma das causas básicas desta existência egocêntrica com toda sua confusão e miséria? E as religiões mundo afora disseram que você deve suprimir o desejo. Certo? Deve se tornar monge, à serviço de Deus, e para chegar a essa coisa suprema, não deve ter desejo. Compreende? Esta tem sido a constante repetição de todas as chamadas pessoas religiosas no mundo. E sem entender qual é a estrutura e natureza do desejo, criaram este ideal que para servir ao princípio mais elevado, « Brahman » na Índia, Deus ou Cristo neste mundo, no mundo cristão, ou outras formas de tolice religiosa sectária, suprimir, controlar, dominar o desejo. Certo? Agora vamos juntos ver o que é desejo. Ora quando você examina o que é desejo por favor ouça com cuidado – quando você examina o que é desejo ou analisa está usando o pensamento como meio de análise. Ou seja, entrando no passado. Entende tudo isto? E assim está usando o antigo instrumento que é o pensamento limitado, e olhando para o passado passo a passo, que é o processo psicanalítico como um todo. Entende tudo isto? Mas para examinar o desejo você deve ver a realidade dele, não recuar. Compreende o que estou dizendo? Por favor, venha comigo um pouco. Você tem que estar muito esclarecido neste ponto. O processo psicanalítico introspectivo de auto-exame é retroceder, esperando assim descobrir a causa. Certo? Para fazer isso você usa o pensamento. Certo? E o pensamento é limitado, o antigo instrumento, e você usa o antigo instrumento para descobrir a raiz do desejo. Estamos dizendo agora uma coisa inteiramente diferente. Por favor dê um pouco de atenção a isto. Estamos dizendo que a análise pela pessoa ou pelo profissional, não leva a lugar algum, a menos que você seja levemente neurótico e todo o resto, ela pode ajudar um pouco. Talvez todos nós sejamos levemente neuróticos! Estamos dizendo: observe a natureza do desejo. Não analise, apenas observe. Você compreende a diferença? Está claro? Vou lhe mostrar. Veja, tudo deve ser explicado, o que é muito mau. Você não chega nisso e diz, « Sim, entendi! ». Tudo que você diz é, « Explique, e entenderei. Explique todo o movimento do desejo, use palavras, as palavras certas, descreva precisamente e eu entenderei ». O que você entende é a clareza da explicação, clareza das palavras, mas isso não lhe dá a observação total do movimento do desejo. Entendeu? Então você pode parar de analisar e apenas observar? Compreende? Entendeu? Estamos nos entendendo? Podemos descrever a beleza da montanha, a neve branca, o céu azul, sua maravilhosa dignidade e glória, os vales, os rios, os riachos, flores, e a maioria de nós se satisfaz com as explicações. Não dizemos, « Irei lá, levantar, subir e descobrir ». Vamos entrar nesta questão do desejo com muito cuidado, não o movimento de rastreá-lo e assim esperar descobrir a natureza do desejo. Compreende? Mas ativamente juntos olhar para ele. O que é desejo? Olhe para ele você mesmo. Juntos estamos fazendo isto. O que é desejo? Você deseja um vestido, que vê na vitrine, e há a resposta. Você gosta da cor, da forma, da moda, e o desejo diz, « Deixe-me ir e comprá-lo ». Então o que aconteceu de fato naquele momento? O que não é análise, mas observar realmente a reação ao ver aquele vestido na vitrine, e a resposta a isso. Você está entendendo isto? Sim? Está entendendo isto? Não durma por favor! Você vê aquele vestido, gosta da cor, gosta do modelo – o que aconteceu ali? Você observa, há a sensação. Certo? Há contato, você o toca, então surge o desejo através da imagem que o pensamento construiu: você usando o vestido. Certo? Entendeu isto? Ver, sensação, contato e o pensamento imaginando aquele vestido em você, e o desejo. Você acompanha isto? Não, não me acompanhar, mas a realidade disto. Eu apenas dei uma explicação, palavras, mas a resposta real, estamos falando da resposta real; o ver, contato, sensação, o pensamento imaginando o vestido em você e nasce o desejo. Compreende? Entendeu isto? Não, não, sua, não minha.

I: Não entendi.

Krishnamurti: Agora espere, acompanhe cuidadosamente. No momento em que o pensamento cria a imagem, dessa imagem nasce o desejo. Certo? Compreende isto? Por favor compreenda. Oh, estou cansado. Estou farto de explicações! Vou me fixar naquele vestido, ou camisa. Veja que há a percepção dele na vitrine, o ver, a resposta visual ótica, então entrar, tocar o material e o pensamento diz, « Que bom seria se eu o tivesse ». E imagina que você o está vestindo. Esse é o momento do desejo. Certo? Você vê isto realmente, não minha explanação e através dela você vê? Isso está claro, que você mesmo observa o acontecimento? Agora a pergunta é – por favor examine com cuidado por que o pensamento cria a imagem de você tendo aquela camisa, aquele vestido, e então ir buscá-la? Olhem. Reflitam. Entrem nisso. Exercitem seus cérebros. A pessoa vê uma camisa azul. Então você a vê, vai e a pega, sente o material, e o pensamento chega e diz, « Que beleza ». Agora, a pergunta é: o pensamento pode abster-se de criar a imagem? Compreende minha pergunta? Vou explicar, espere, vou entrar nisso. Estamos examinando todo o movimento do desejo porque perguntamos: o desejo é a própria raiz desta existência auto-centrada, egoísta? E daí perguntamos: é o desejo? E então dizemos: o que é desejo? E o orador se opõe totalmente à supressão porque isso não resolve o problema. Ele diz não fuja dele indo para um monastério, fazendo promessas e todos os tipos de coisas – isso é meramente evitar. Mas o que estamos dizendo é: examine, olhe isto não analiticamente mas enquanto está acontecendo, observe. A observação mostra, a resposta ótica ao vestido azul, camisa azul, o contato, dentro, entrando na loja, pegando o material e o pensamento cria a imagem e o desejo nasce. Só quando o pensamento cria a imagem é que o desejo surge. De outro modo ele não aparece. Você agora está junto nisto? Certo? Então o desejo surge e floresce no momento em que você cria a imagem, o pensamento cria a imagem. Você teve uma experiência agradável, sexual ou qualquer outra. E ele criou uma imagem, um quadro e você vai ao encalço dela. Uma é uma forma de prazer a outra é o movimento de desejos contraditórios. Certo? Você deseja aquele vestido – ou deseja grande sucesso e por aí vai. Agora você pode observar este fato que no momento em que o pensamento cria a imagem, nasce o desejo? Você está cônscio disto? Você vê realmente quando acontece como o pensamento cria através da imaginação o desejo de ir até o final. Certo? Você de fato agora sentado aí, observa este fato por si mesmo? Obviamente, é muito simples. Certo? Então surge a pergunta: pode o pensamento não criar a imagem? Esse é o ponto crucial. Compreende? Estou tornando isto terrivelmente difícil? Interrogante: Posso sugerir que o novo instrumento é o objeto? Krishnamurti: Um momento senhor, deixe-me acabar e depois continuamos. Posso acabar? Posso acabar o que estou falando? E então você pode fazer perguntas se houver tempo e teremos cinco debates depois que as palestras terminarem. Então você pode me maltratar! (Riso) Até lá tenha paciência. Chegamos ao ponto em que você mesmo observa o surgimento do desejo. Certo? Percepção, ver, contato, sensação. Até aqui não há desejo. É apenas uma reação. Entende? Mas no momento em que o pensamento cria a imagem todo o ciclo começa. Você vê isso? Se você vê claramente então surge a pergunta: por que o pensamento sempre cria esta imagem? Compreende minha pergunta? Por que? Você vê uma camisa, vermelha, azul, branca, o que seja, logo gosta e desgosta, isto é, o pensamento tem a experiência prévia, gostar e por aí. Então pode você observar a camisa azul, o vestido na vitrine, e perceber a natureza do pensamento e ver que no momento em que o pensamento surge, o problema começa? Não só a camisa azul ou o vestido, seu sexo, suas experiências sexuais, a imagem, os quadros, a reflexão. Ou a imagem que você tem de uma posição, um status, uma função. Entende? Então desejo é isso. Então pode você observar sem o desejo ardente aparecer? Compreende minha pergunta? Entre nisto, você verá. Você pode fazê-lo. Esse é o novo instrumento, que é observar. Então o desejo de segurança – entende – a mesma coisa... segurança em termos de uma casa grande, pequena, conta no banco que pode ser necessária, e também segurança que o desejo criou da pessoa, a imagem que você tem de si mesmo, e a realização dessa imagem em ação, aí estão implicados muitos tipos de frustrações e apesar das frustrações, apesar dos conflitos, miséria, desejos perseguidos, pois o pensamento está sempre criando a imagem onde existe sensação envolvida. Certo? Pergunto se você vê isto! Então fazemos a próxima pergunta: o desejo é responsável pelo medo? Nós buscamos segurança através do desejo e a realização desse desejo em Deus, psicologicamente – não quero continuar nesta tolice medonha – e inconscientemente, no fundo pode-se estar cônscio que as coisas em que você investiu, o desejo investiu não têm valor de fato. E não tendo valor, você tem medo. Compreende? Está acompanhando? Porque novamente, não estamos analisando o medo. Esse é um velho jogo estúpido. Estamos observando o fato real do medo. E quando ele surge, observar, perguntar, qual a raiz dele? Não descobrir sua raiz analiticamente mas na própria observação você descobre a raiz. Entendeu? Você está acompanhando? Você parece bem indeciso. Vou entrar nisto. O homem aceitou e viveu com medo, externa e internamente: medo da violência, medo de se ferir fisicamente, externamente. Psicologicamente, medo de não se adaptar a um padrão, medo da opinião pública, medo de não conseguir, não se realizar e por aí vai, você sabe, psicologicamente. Estamos perguntando – o que é um fato pode você observar esse fato sem a mente analítica funcionar sobre o fato e observar todo o movimento do medo quando ele surge? Compreende? Você está ficando cansado? Mais dez minutos. Aguente! Porque você vê que é possível estar psicologicamente livre do medo, absolutamente. Não aceite minha palavra, é a sua vida não a minha, é a de vocês, você tem que descobrir. Então tem que perguntar: o que é medo? Ele tem suas raízes no desejo? Entre nisso devagar, não diga não. Entre nele. Desejo sendo o que dissemos: o pensamento criando a imagem e então perseguindo essa imagem podendo realizá-la ou não. Compreende? Se a realiza não há medo ou pelo menos há outras calamidades envolvidas nisto. Mas quando não há realização há frustração e o medo de não ser capaz de realizar. Compreende? Quero dizer toda esta complexa realização sexual que aparentemente o mundo está agora descobrindo e fazendo o maior barulho – promíscua e todo o resto. Então perguntamos: o medo é produto do desejo? Desejo sendo a formação da imagem e a realização dessa imagem em ação. Certo? Ou o medo – por favor siga com cuidado – é parte do tempo? Compreende? O medo é movimento do tempo? Então desejo e tempo são responsáveis pelo medo? Compreende? Oh, meu Senhor! Vou explicar, vou explicar. Vá devagar. Desejo é o movimento do pensamento com seu imaginário. Ou seja, o movimento do pensamento criando a imagem e o movimento dessa imagem, que é tempo – certo? Não? Não tempo cronológico, tempo psicológico. E perguntamos: o tempo também é responsável pelo medo? O tempo do desejo – ah, estou entendendo! Você entende? O tempo que o desejo cria e o pensamento, que criou o desejo e sendo ele também tempo, pensamento e desejo são responsáveis pelo medo. Percebe isso? Receio o que você pode fazer comigo. Receio que você possa me ferir psicologicamente. Receio que aquele cão me morda. Mas no momento da mordida (risos), o tempo chega a um fim. Compreende? É apenas: o cão pode me morder. Criei a imagem, o pensamento criou a imagem do cão mordendo, o que é tempo, no futuro. Você está acompanhando? Então o desejo tem seu futuro e tempo naturalmente é futuro, o passado, presente e futuro. Então a pergunta é: o pensamento pode perceber seu movimento criando medo? Compreende – o pensamento perceber sua própria natureza. Quando ele percebe sua própria natureza como o princípio ativo no medo, o que acontece? Fica apenas aquilo que está de fato acontecendo. Pergunto-me se você vê isso. Por favor, vamos! Porque valeria a pena se pudéssemos refletir juntos sobre este assunto. Então você deixará a tenda tendo entendido o movimento do medo e percebido a natureza do desejo e a natureza do pensamento limitado criando tempo, que é medo. Compreende? Você percebe? Ou simplesmente aceitou as palavras? Compreende? Se você percebe, a coisa está acabada. Não há gurus, nem Deus, toda essa tolice.

I: Meu pensamento não pára. Estive ouvindo...

Krishnamurti: Não, não, pensamento, não é uma questão do pensamento parar. Não, não, não diga pensamento – vamos falar disso um pouco mais tarde quando falarmos de meditação, se estiver interessado. Mas esse não é o ponto. Estou dizendo: o pensamento em si percebe o que ele está fazendo? Que ele criou o desejo, e a realização desse desejo é tempo. E nisso o medo está envolvido. E também o pensamento criou o que pode acontecer. Houve dor espero que não haja dor outra vez, o que é futuro. Então o pensamento criou o futuro. Certo? E o futuro é a própria natureza do medo. Será que você entende! Olhe senhor: se eu morro agora, não há medo. Se tenho agora um ataque do coração – phht (riso) acabou, não há medo. Mas, meu coração está fraco, eu posso morrer, o que é futuro. O futuro é o movimento do medo. Entende? Veja a verdade disso, não sua conclusão, não você dizer « Sim, vejo ». – a verdade disso. Então essa própria verdade opera. Você não tem que fazer nada. Se você vê essa verdade e essa verdade sendo um fato então o pensamento diz, « Tudo bem, eu acabei ». O pensamento não pode operar num fato. Ele pode operar em algo que é um não-fato. Então você depois de ter ouvido esta verborragia (risos) percebeu a natureza do medo? Veja a verdade dele. Se você de fato vê a verdade dele, o medo passou. Não é que você controle o pensamento. Você é o pensamento. Compreende? Este é um de nossos condicionamentos peculiares, que você é diferente do pensamento, e daí diz, « Vou controlar o pensamento ».

I: Se somos diferentes do pensamento...

Krishnamurti: Mas quando você percebe que o pensamento é o « eu » e que o pensamento criou este futuro, que é medo, e vê a verdade disso, não vê a verdade intelectualmente, você não pode vê-la intelectualmente. Você pode ver intelectualmente a clara exposição verbal, mas isso não é a verdade. A verdade é o fato que o futuro, todo o movimento do futuro está gerando medo. Agora você ouviu isto, talvez de diferentes formas e diferentes exposições em diferentes ocasiões, e está aqui reunido outra vez, e ouviu esta manhã uma exposição muito clara, que não é análise, e você está livre do medo? Esse é o teste. Se você ainda o leva, diz, « Tenho medo de... » – você sabe... todo o resto desse negócio, então você de fato não ouviu. Podemos continuar com isto na quinta-feira, depois de amanhã de manhã? Podemos?

Fifth Public Talk in Saanen

Tuesday, July 17, 1979

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