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No fim do sofrimento está a paixão

Second Public Talk in Washington D.C.

Sunday, April 21, 1985

Podemos continuar de onde paramos ontem? Estávamos falando sobre o medo e o fim do medo. Também estivemos falando sobre a responsabilidade de cada um de nós... ...diante do que está acontecendo no mundo... ...a terrível, a assustadora confusão em que estamos. E somos todos responsáveis por ela... ...individualmente, coletivamente, nacionalmente... ...religiosamente – e tudo que fizemos no mundo... ...depois de milênios e milênios, depois de uma longa evolução, ainda continuamos... ...bárbaros, ferindo-nos uns aos outros, matando e destruindo uns aos outros. Temos tido liberdade para fazer exatamente o que gostamos... ...e isso tem criado destruição no mundo. Liberdade não é fazer o que se gosta... ...mas, antes, ser livre de toda a batalha da vida, dos problemas... ...o que investigamos ontem de manhã... ...das nossas ansiedades, das nossas feridas psicológicas... ...de todo o conflito que toleramos por muitos, muitos , muitos milênios. E também ser livre do medo. Falamos sobre todas essas coisas ontem à tarde. E também dissemos que estas reuniões, este encontro não é uma conferência... ...sobre um tema particular, para informar, para instruir... ...para colocar num certo padrão. Mas, antes, é de nossa responsabilidade, juntos... ...investigar, explorar todos os problemas da nossa vida, da nossa vida diária. Não alguns conceitos especulativos ou filosofias... ...mas compreender a dor quotidiana, o aborrecimento, a solidão, o desespero... ...a depressão, e o interminável conflito com o qual o homem tem vivido. E, nesta manhã, temos muito chão a percorrer. E também apontamos ontem que isso não é um encontro no qual... ...o orador estimula vocês intelectual... ...emocionalmente, ou de qualquer outra forma. Dependemos muito de estimulação; é uma forma de comércio: ...drogas, álcool, e todos os vários meios de sensação. E não só queremos sensação, mas também excitação, estimulação. Assim, este não é um encontro desse tipo. Estamos juntos para investigar nossa vida, a nossa vida diária; ...isto é, compreender a nós mesmos, o que de fato somos, não teoricamente... ...não de acordo com algum filósofo ou algum psiquiatra, etc. Se pudermos colocar de lado tudo isso e olhar realmente para nós mesmos... ...para o que somos, e não ficarmos deprimidos ou exaltados... ...mas observar, o que é compreeder toda a estrutura psicológica... ...do nosso ser, da nossa existência. E falamos sobre isso ontem, que uma das coisas que os seres humanos... ...passam em toda sua vida, é uma forma de medo. Entramos nisso muito cuidadosamente: ...que o tempo e o pensamento são a raiz do medo. E entramos no que o tempo e o pensamento são. O tempo não é somente o passado, o presente e o futuro.... ...mas no agora, no presente, todo o tempo está contido. Porque o que somos agora seremos amanhã a menos que... ...haja uma grande e fundamental mutação na própria psique... ...nas próprias células cerebrais. Falamos sobre isso. E também deveríamos falar esta manhã, conversar juntos nesta manhã... ...por favor, se podemos apontar, você e o orador... ...estão viajando juntos, fazendo uma longa e complicada viagem. E para fazer esta viagem não devemos estar apegados a... ...qualquer forma particular de crença. Senão esta viagem não é possível. Nem apegados a qualquer fé, ou a alguma conclusão ou ideologia nem conceitos. É como escalar o Everest... ...ou alguma das grandes e maravilhosas montanhas do mundo; ...temos que deixar para trás muita coisa... ...não levar todas as nossas cargas montanha acima, montanhas íngremes. Assim, ao fazer a viagem juntos – e o orador quer dizer juntos, ...não que ele esteja meramente falando e vocês concordando ou discordando; ...se pudermos colocar completamente de lado estas duas palavras... ...então podemos fazer a viagem juntos. Alguns podem querer caminhar muito rapidamente e outros podem ficar atrás... ...mas é uma mesma viagem juntos. Também devemos conversar juntos por que os seres humanos... ...sempre buscaram o prazer, em oposição ao medo. Nunca investigamos o que é prazer... ...por que queremos prazer que dure para sempre... ...em formas diferentes: sexual, sensorial, intelectual... ...o prazer da posse, o prazer de adquirir uma grande habilidade... ...o prazer que obtemos ao possuirmos grande... ...quantidade de informação, conhecimento. ...e a gratificaçao final é o que chamamos de Deus. Como dissemos, por favor, não fiquem zangados ou irritados... ...ou querendo atirar algo no orador. (Risos) Este é um mundo violento. Se você não concorda eles o matam. Isso é o que está acontecendo. E aqui não estamos tentando matar uns aos outros... ...não estamos fazendo nenhum tipo de propaganda ou convencendo-os de nada. Mas vamos encarar a verdade das coisas, não viver em ilusões. E sem ilusões é muito difícil observar. Se você está se iludindo e não encarando os fatos... ...então torna-se impossível olhar para si mesmo como se é. Mas gostamos de ilusões, todas as formas de engano... ...porque estamos com medo de olhar para nós mesmos. Como dissemos, olhar para nós mesmos de forma muito clara, acurada, precisa... ...somente é possível no espelho do relacionamento; ...é o único espelho que temos. Quando você olha para si mesmo penteando seu cabelo ou... ...fazendo a barba ou seja lá o que esteja fazendo em seu rosto – desculpem. Você olha para o seu espelho – desculpem – (K começa a rir – mais risos) (K ri – risos) (K ri) Desculpem! (risos e aplausos) Estou contente que vocês aprovam. (Risos) ...quando você está se barbeando, olhando seu rosto, ou penteando o cabelo; ...este espelho reflete exatamente o que você é, sua face, como você está. E, psicologicamente, existe um espelho... ...no qual você possa ver exatamente, precisamente, de fato o que você é? Como dissemos, existe esse espelho que é o nosso relacionamento... ...por mais íntimo que seja; com um homem ou uma mulher... ...nesse relacionamento você vê o que você é... ...se você se permitir ver o que você é. Você vê como fica zangado, a sua possessividade e tudo o mais. Assim, o prazer, o homem tem sempre... ...perseguido infinitamente, em nome de Deus... ...em nome da paz, em nome da ideologia e do prazer do poder... ...ter poder sobre os outros – poder político. Notaram que o poder é uma coisa horríve... ...quando se domina o outro de qualquer forma: Quando a mulher domina o marido ou o marido domina a muher. O poder é uma das coisas maléficas na vida. E o prazer é o outro lado da moeda do medo. Quando compreendemos profundamente, seriamente a natureza do medo... (como entramos nisso ontem, portanto não o faremos novamente) ...então o prazer, que é deleite – ver algo bonito... ...ver o pôr-do-sol ou a luz da manhã, o entardecer, as cores maravilhosas... ...o reflexo do sol nas águas, isso é um deleite. Mas fazemos disso uma memória e cultivamos essa memória como prazer. E também, como dissemos... – apenas olhem para isso, não façam nada com isso. Não sei se vocês já entraram na questão da ação. O que é ação? Somos todos tão ativos de manhã até de noite, não apenas fisicamente... ...mas psicologicamente, o cérebro tagarelando o tempo todo... ...indo de uma coisa para outra, sem fim... ...durante o dia e durante a noite... ...os sonhos; o cérebro nunca está em repouso... ...ele está perpetuamente em movimento. Não sei se vocês já entraram esta questão da ação. O que é ação, o fazer? A própria palavra « fazer » é o presente, não é « fiz » ou « farei ». Ação significa o fazer agora, de forma correta, precisa, completa, holística... ...- se posso usar esta palavra- ação que é inteira, completa, não parcial. Quando a ação é baseada em alguma ideologia, não é ação, é? É ajustamento a um certo padrão que você estabeleceu... ...e portanto é ação incompleta... ...ou de acordo com alguma memória, alguma conclusão. Se você agir de acordo com certa ideologia, padrão ou conclusão... ...a ação é ainda incompleta; existe uma contradição em tudo isso. Assim temos que investigar este complexo problema da ação. A ação está relacionada com a desordem ou com a ordem? Entendem? Vivemos em desordem; nossa vida é desordenada, confusa; ...contraditória: dizer uma coisa e fazer outra; ...pensar uma coisa e agir exatamente na direção oposta. Assim, o que é ordem e desordem? Talvez vocês não tenham pensado sobre todas estas questões, ...então vamos pensar juntos sobre tudo isso... ...e, por favor, não me deixem falar para mim mesmo. Ainda é de manhã bem cedo e vocês têm um dia inteiro pela frente; ...assim, juntos, vamos dar atenção a esta questão: ...o que é ordem e o que é desordem... ...e qual é a relação da ação com a ordem e a desordem? Explicamos mais ou menos o que é ação; ...a própria palavra « agir » significa o presente, agir: vocês estão sentados aí. E qual é a relação com a desordem? O que é desordem? Olhem para o mundo, por favor; o mundo está em desordem. Coisas terríveis estão acontecendo. Bem poucos de nós sabem realmente o que está acontecendo no mundo científico, ...no mundo da arte da guerra... ...e todas as coisas terríveis que estão acontecendo na Rússia; ...e a pobreza em todos os países, o rico e o terrivelmente pobre; ...sempre a ameaça de guerra, um grupo político contra outro grupo político. Assim, existe essa tremenda desordem. Isso é uma realidade, não é uma invenção ou uma ilusão. E criamos essa desordem, porque nossa própria vida, o viver, é desordenado. E estamos tentando socialmente produzir ordem... ...através de todas as reformas sociais, etc, etc... Sem compreender e sem acabar com a desordem, tentamos encontrar ordem. É como uma mente confusa tentando encontrar claridade. Uma mente confusa é uma mente confusa, ela não pode nunca encontrar claridade. Assim, pode haver um fim à desordem em nossa vida, em nossa vida cotidiana? Não ordem no céu ou em outro lugar, mas na nossa vida diária, pode haver ordem? O fim da desordem, e quando existe o fim da desordem existe ordem naturalmente. Essa ordem é viva, ela não é de acordo com um certo padrão ou modelo. Assim, estamos investigando... ...olhando para nós mesmos e aprendendo sobre nós mesmos. Aprender é diferente de adquirir conhecimento. Por favor, isso é bastante... se puderem gentilmente dar sua atenção... ...a isso, um pouquinho – este aprender é um processo infinito... ...um processo ilimitado, ao passo que o conhecimento é sempre limitado. E o aprender implica não apenas observar visualmente, opticamente... ...mas também observar sem qualquer distorção... ...vendo as coisas exatamente como são. Isso requer essa disciplina – por favor, a palavra disciplina... ...como dissemos ontem, quer dizer – a palavra vem da palavra « discípulo ». Discípulo é aquele que está aprendendo... ...não a disciplina terrível da ortodoxia, da tradição... ...ou do seguir certas regras, preceitos, etc., é aprender; ...aprender através da clara observação sem distorção. Ouvir as coisas exatamente como a outra... ...pessoa está dizendo, sem qualquer distorção. E o aprender não é acumulativo porque você está em movimento. Entendem tudo isso? Assim, ao aprender o que é desordem em nós mesmos... ...então a ordem vem muito naturalmente, facilmente, sem ser esperada. E quando existe ordem, ordem é virtude. Não existe outra virtude a não ser ordem completa... ...isto é moralidade completa, não uma moralidade imposta ou ditada. Então devemos também conversar juntos sobre toda essa questão do sofrimento. Tudo bem? Porque o homem e a mulher, as crianças, por todo o mundo, estejam eles... ...vivendo por detrás da Cortina de Ferro (o que é muita infelicidade para eles)... ...vivam eles na Ásia, Índia, Europa ou aqui, cada ser humano... ...seja rico ou pobre, intelectual ou apenas um simples leigo como nós... ...todos passamos por toda forma de sofrimento. Vocês alguma vez já olharam para pessoas que choraram por séculos? Pelas milhares de guerras? O marido, a mulher, os filhos. Existe um imenso sofrimento no mundo. Não que não haja também prazer, alegria, etc.... ...mas no entendimento e talvez no fim.. ...do sofrimento, encontraremos algo muito maior. Assim, devemos entrar nesta complexa questão do sofrimento. E se ele pode alguma vez terminar... ...ou se o homem está condenado a sofrer para sempre; ...sofrer não só fisicamente, que depende do quão ordenadamente você leva a vida... ...se seu corpo está drogado: álcool, tabaco, nicotina, álcool... ...e tudo isso, se o corpo vem sendo destruído. Psicologicamente, interiormente, temos sofrido enormemente... ...sem talvez dizer uma palava sobre isso. Ou chorando em prantos. E durante essa longa evolução... ...a evolução do homem, desde o começo dos tempos até agora... ...cada ser humano nessa terra tem sofrido. O sofrer não é meramente a perda de alguém... ...que você pensa que gostava ou amava... ...mas também o sofrimento dos mais pobres, do analfabeto. Se você vai à Índia ou a outras partes do mundo... ...você vê pessoas caminhando milhas e milhas para ir à escola... ...meninas e meninos. Eles nunca serão ricos, nunca vão andar de carro... ...provavelmente nunca tiveram um banho quente. Eles têm um vestido ou um sari, o que fôr que estiverem usando, é só o que têm. E isso é sofrimento. Não para o homem que passa de carro, mas este homem olha para isso... ...e ele está em sofrimento, se ele é, de alguma forma, sensível, atento. E o sofrimento da ignorância; não a ignorância de escrever, de literatura... ...e tudo o mais, mas o sofrimento de um homem que não conhece a si mesmo. Há várias formas de sofrimento. E estamos perguntando: pode este sofrimento acabar em cada um? Há o sofrimento da própria pessoa, na pessoa, e o sofrimento do mundo. Milhares de guerras, pessoas mutiladas, feridas, uma pavorosa crueldade: ...não uma forma particular de crueldade, da qual estamos falando muito... ...sobre uma forma particular, e você se rebela contra essa forma particular... ...mas você nunca se pergunta: há um fim para a crueldade? Toda nação na terra tem (inaudível) cometido crueldades, pavorosas. E ainda estamos perpetuando essa crueldade. E a crueldade traz enorme sofrimento. Vendo tudo isso – não de um livro, não de um viajante... ...não de um turista (turistas vão ao estrangeiro só para se divertirem... ...para ver locais interessantes, para passarem um bom tempo, férias)... ...mas se você está viajando como um ser humano, apenas observando... ...estando atento, sensível a tudo isso, o sofrimento é uma coisa terrível. E pode este sofrimento acabar? Por favor, coloquem essa questão para vocês mesmos. O orador não está estimulando vocês a sentir o sofrimento... ...o orador não está dizendo a vocês o que é sofrimento... ...ele está na nossa frente, aí mesmo dentro de você. Ninguém precisa apontá-lo, se você mantiver os olhos abertos... ...se você fôr sensível, atento ao que está acontecendo neste mundo monstruoso. Por favor, faça a você mesmo esta pergunta: ...se o sofrimento pode alguma vez acabar. Porque como o ódio, quando há sofrimento, não há amor. Quando você está sofrendo, preocupado com... ...o próprio sofrimento, como pode haver amor? Assim, devemos fazer essa pergunta... ...mesmo que seja tão difícil de encontar – não a resposta, mas o fim do sofrimento. O que é sofrimento? Não só a dor física e a dor contínua, uma pessoa que está paralisada ou... ...mutilada ou doente, mas também o sofrimento de perder alguém: a morte. Falaremos da morte em seguida. O sofrimento é autopiedade? Por favor, investigem. Não estamos dizendo que é ou não é, estamos perguntando... ...o sofrimento que vem da auto-piedade é um dos fatores? O sofrimento que vem pela solidão? Sentir-se desesperadamente isolado; não estar só: « estar só » significa « ser um ». Mas sentir-se isolado, nessa solidão não ter qualquer relação com coisa alguma. O sofrimento é apenas uma coisa intelectual? A ser racionalizado, explicado? Ou é para viver com ele sem qualquer desejo de conforto? Vocês entendem? Viver com sofrimento, não fugir dele, não racionalizá-lo... ...não encontrar conforto exclusivo ou ilusório: ...religioso ou alguma fuga romântica, ilusória... ...mas viver com algo que tem um tremendo significado. O sofrimento não é só um choque físico... ...quando se perde o filho ou o marido, mulher ou filha, seja lá o que fôr... ...é um tremendo choque biológico. A pessoa fica paralizada. Vocês não sabem disso tudo? Há também o senso de solidão desesperada. Você pode olhar o sofrimento como ele é, de fato, em nós... ...e ficar com ele, segurá-lo, e não se desviar dele. O sofrimento não é diferente daquele que sofre. A pessoa que sofre quer fugir, escapar, fazer todo tipo de coisas. Mas olhar para o sofrimento como você olha para uma criança, uma linda criança... ...segurá-lo, nunca escapar dele. Então você verá, por você mesmo, se realmente olhar profundamente... ...que existe um fim para o sofrimento. E quando há um fim para o sofrimento, há paixão; ...não a luxúria, não a estimulação sensorial, mas paixão. Bem poucos têm esta paixão, porque estamos... ...tão consumidos pelas próprias aflições... ...pelas nossas próprias dores, nossa auto-piedade, vaidade e tudo mais. Temos uma grande quantidade de energia – olhem o que está acontecendo no mundo – ...tremenda energia para inventar coisas novas, instrumentos e maneiras de matar. Para ir à lua é preciso tremenda energia e concentração... ...tanto intelectual como real. Temos tremenda energia, mas a dissipamos... ...através do conflito, através do medo... ...através da interminável falação sobre nada. E a paixão tem uma tremenda energia. Essa paixão não é estimulada, ela não busca estimulação... ...ela está aí, como um fogo ardente. Ela só vem quando existe o fim do sofrimento. E quando você tem o fim deste sofrimento, ele não é pessoal... ...porque você é o resto da humanidade, como dissemos ontem à tarde. Todos sofremos. Todos passamos pela solidão, cada ser humano nesta terra... ...rico ou pobre, letrado ou ignorante... ...todos passam por ansiedades tremendas, conscientes ou inconscientes. Sua consciência não é sua, ela é a consciência humana. No conteúdo dessa consciência estão todas as suas crenças... ...seus sofrimentos, suas penas, suas vaidades, sua arrogância... ...sua busca de poder e tudo isso. Tudo isso é a sua consciência, que é compartilhada por todos os seres humanos. Portanto não é sua consciência particular. E quando você realmente percebe isso não verbalmente ou intelectualmente... ...ou teoricamente ou como um conceito, mas como uma realidade... ...então você não só não matará o outro, não ferirá o outro... ...mas você terá alguma outra coisa que é totalmente diferente... ...de uma dimensão completamente diferente. Devemos conversar juntos também sobre o que é amor. Espero que tudo isto não esteja aborrecendo vocês. ( Risos) Se quiserem tomar fôlego, tudo bem. Como o orador disse, devemos aprofundar esta grande questão do que é amor. Usamos a palavra « amor » tão facilmente, ela se tornou meramente sensual, sexual; ...o amor está identificado com prazer. E para encontrar esse perfume devemos entrar na questão do que não é amor. Através da negação você chega ao positivo, não o contrário. Estou sendo claro? Através da negação, através do que não é amor... ...então você chega a isto que é imensamente verdade, que é o amor. Assim, o amor não é ódio, isso é óbvio. Amor não é vaidade, arrogância. O amor não está em mãos do poder. As pessoas que estão no poder, querendo poder... ...não importa se é sobre uma criança ou querendo poder... ...ou sobre todo um grupo de pessoas ou uma nação, isso seguramente não é amor. Amor não é prazer, amor não é desejo. Não sei, se tivermos tempo, entraremos na questão do desejo. Talvez possamos. Amor certamente não é pensamento. Assim, você pode colocar de lado tudo isso: sua vaidade, senso de poder... ...por menor que seja, é como um verme. E quanto mais poder você tem, mais terrível – e, portanto, nisso não há amor. Quando se é ambicioso, agressivo, assim como vocês todos foram criados: ...para serem agressivos, serem bem sucedidos, famosos, conhecidos... ...tudo isso tão infantil – do ponto de vista do orador. (Risos) Como pode haver amor? Assim, o amor é algo que não pode ser convidado ou cultivado. Ele vem naturalmente, facilmente, quando as outras coisas não estão. E no aprender sobre si mesmo chega-se a isto: ...onde há amor, há compaixão; ...e a compaixão tem a sua própria inteligência. Esta é a forma suprema de inteligência, não a inteligência do pensamento... ...a inteligência da esperteza, do engano e tudo o mais. É somente quando há completo amor e compaixão... ...que há esta excelência da inteligência que não é mecânica. Então devemos falar sobre a morte. Vamos? Vocês estão interessados em descobrir – (Risos) – o que é a morte? Qual é o significado desta palavra; o morrer; a morte; o terminar. Não só o terminar, mas o que acontece depois da morte? Nós carregamos as memórias das nossas próprias vidas? Todo mundo asiático acredita na reencarnação. Isto é, eu morro, eu vivi uma vida miserável... ...talvez fazendo um pouquinho de bem aqui e ali... ...e, na próxima vida, eu serei melhor, eu farei mais bem. É baseado em recompensa e castigo, como tudo mais na vida. Eu farei o bem nesta vida e estarei melhor na próxima vida. É baseado na palavra « carma »... ...provavelmente vocês ouviram falar sobre isto. A palavra « carma » significa em sânscrito « ação » – não entrarei nisto. Assim, há toda esta crença que a pessoa quando viveu esta vida... ...na próxima vida terá uma chance melhor, dependendo da vida que se tem agora: ...a recompensa e o castigo. E no cristianismo há todo este senso de ressureição, etc. Assim, se pudermos neste momento colocar tudo isso de lado... ...de fato colocar de lado, não se segurar... ...em uma coisa ou outra, então o que é morte? O que significa morrer? Não só biologicamente, fisicamente, mas também psicologicamente: ...toda a acumulação de memórias, as próprias tendências, as habilidades... ...as idiossincrasias, as coisas que se acumulam, seja dinheiro... ...seja conhecimento, amizade, o que você quiser; tudo que você adquiriu. E a morte chega e diz: « Desculpe, você não pode levar coisa alguma com você. » Assim, o que significa morrer? Podemos aprofundar esta questão? Ou vocês estão com medo? Assim, o que é a morte? Como vamos investigar isto? Entendem minha questão? Estou vivendo – por exemplo – estou vivendo, vou vivendo cada dia... ...é uma rotina, mecânica, miserável, feliz, infeliz,vocês sabem todo o negócio. E a morte chega, através de acidente ... ...através de doença, velhice, senilidade – o que é senilidade? É somente para o velho? Senilidade não é quando estamos apenas repetindo, repetindo, repetindo? Quando nós agimos mecanicamente, sem pensar? Não é isso também uma forma de senilidade? Assim a morte – porque temos tanto medo dela, nunca vemos a grandiosidade dela... ...a coisa extraordinária, como uma criança que nasce: ...um novo ser humano veio a existir. Este é um evento extraordinário. E esta criança cresce e se torna seja lá o que vocês todos se tornam. E depois morre. A morte é também algo muito extraordinário, tem que ser. E não veremos a profundidade e a grandeza dela se estivermos com medo. Assim, o que é a morte? Quero descobrir o que significa morrer enquanto estou vivendo. Não sou senil, tenho todas as capacidades mentais, sou capaz de pensar claramente... ...talvez de vez em quando eu saia dos trilhos... (Risos) ...mas sou ativo, claro, tudo isso. Assim, estou me perguntando – não estou perguntando a vocês -... ...estou apenas observando; se vocês também querem observar o que é a morte. Morte certamente significa o fim de todas as coisas: o fim de meu relacionamento... ...o fim de todas as coisas que construí em minha vida; ...todo conhecimento, toda experiência, a vida idiota que tenho levado... ...uma vida sem sentido, ou tentando descobrir um sentido intelectualmente; ...tenho vivido desse jeito... (não eu pessoalmente, estou pegando como exemplo) E a morte chega e diz, « Esse é o fim ». Mas estou com medo. Não pode ser o fim. Eu tenho tanto, ajuntei tanto, não apenas mobília... ...ou quadros – quando me identifico... ...com a mobília ou com os quadros ou com a conta no banco... ...eu sou a conta no banco, eu sou o quadro, eu sou a mobília. Certo? Quado vocês se identificam com algo tão completamente, vocês são aquilo. Talvez vocês não gostem de nada disso, mas, por gentileza, escutem. Assim, estabeleci raízes, estabeleci muitas coisas ao meu redor... ...assim a morte vem e faz uma limpeza geral em tudo isso. Assim, eu me pergunto, é possível viver com a morte todo o tempo... ...não ao fim de 90 ou 100 anos – o orador tem 90 – desculpem. Não no fim da vida, mas será que posso, com toda minha energia, vitalidade... ...e tudo que continua acontecendo, será que posso viver com a morte todo o tempo? Não cometer suicídio, não é isso – é muita tolice. Mas viver com a morte... ...que significa o terminar todo dia cada coisa que ajuntei; o terminar. Não sei se já entraram na questão... ...do que é continuidade e o que é terminar. Aquilo que continua nunca pode se renovar, renascer, é claro. Pode se reavivar, aquilo que é contínuo... ...como vocês estão fazendo neste país em relação à religião. Como dissemos, a palavra « reavivar » significa que algo... ...está definhando, morrendo e você o reanima. O que está ocorrendo neste país, o reviver da religião, estão fazendo um estardalhaço. E, não sei se notaram, as religiões organizadas e os gurus... ...todos eles são pessoas tremendamente ricas. (Risos) Muitas propriedades. Vocês podem ver – religiosos. Existe um templo no sul da Índia: ...a cada três dias eles ganham um milhão de dólares. Entendem? Deus é muito lucrativo. (Risos) Isto não é cinismo, é um fato. Estamos diante da realidade, e não se pode ser cínico ou desesperado, é como é; ...também não ser otimista ou pessimista. Vocês têm que olhar para essas coisas. Assim, será que posso viver com a morte, o que significa que... ...cada coisa que eu fiz, ajuntei – dor, sofrimento – terminar. O terminar é mais importante que a continuidade. O terminar significa o começo de algo novo. Se você meramente continua, é o mesmo... ...padrão se repetindo em um diferente modelo. Já notaram outra coisa estranha? Fizemos uma grande confusão no mundo... ...uma tremenda confusão, e nos organizamos para arrumar essa confusão... ...política, religiosa, social e economicamente. E quando essa organização ou instituição não funciona... ...inventamos outra organização. E nunca arrumamos a confusão, mas criando novas organizações... ...novas instituições – e isso é chamado de progresso. (Risos) Não sei se já notaram tudo isso. Isso é o que estamos fazendo – milhares de instituições. Outro dia falamos nas Nações Unidas. A guerra continua, nunca pararam com ela, mas a estão reorganizando. (Risos) Vocês também estão fazendo exatamente a mesma coisa neste país. Nunca arrumamos a confusão. E dependemos de organizações para arrumá-la; ...ou novos líderes, novos gurus, novos sacerdotes, novas fés... ...e todo esse lixo que continua. Será que posso viver com a morte... – o que significa liberdade holística, completa, total. E, portanto, nessa liberdade existe grande amor e compaixão... ...e aquela inteligência que não tem fim, que tem um imenso... E também temos que conversar juntos sobre o que é religão. Podemos continuar? Não estão cansados? O orador não os quer convencer de coisa alguma, por favor creiam-me: nada! Não está tentando forçá-los através de estímulos, através de algum outro meio. Estamos olhando para o mundo, o mundo pessoal de vocês e o mundo ao seu redor. Vocês são o mundo, o mundo não é diferente de vocês. Vocês criaram esse mundo... ...e são responsáveis por ele, completamente, totalmente... ...seja você um político ou um homem ordinário na rua como nós. Também temos que conversar juntos o que é religião. O homem sempre buscou algo além dessa dor, ansiedade e sofrimento. Existe algo que é sagrado, eterno... ...que está além do alcance do pensamento? Esta tem sido uma das questões desde os tempos antigos. O que é sagrado? O que é isso que não tem tempo, que é incorruptível, que não tem nome; ...que não tem qualidade, limitação, o atemporal, o eterno? Existe essa coisa? O homem tem perguntado isso há milhares e milhares de anos. Assim, ele adorou o sol, a terra, a natureza, as árvores, os pássaros; ...tudo que está vivendo nesta terra o homem adorou desde os tempos antigos. Se você ouviu falar dos Vedas e Upanishades,etc... ...eles nunca mencionam Deus. Aquele que é supremo, dizem, não está manifestado... ...e assim por diante, não vou entrar nisso. Assim, vocês estão fazendo esta pergunta também? Vocês estão colocando a questão – existe algo sagrado? Existe algo que não é formado pelo pensamento... ...como todas as religiões são, organizadas (religião)... ...seja o cristianismo, o hinduismo, budismo, etc. No budismo não existe Deus. Entre os hindus, como disse, há cerca de 300.000 deuses. É uma grande diversão ter tantos. (Risos) Você pode brincar com eles todos. E há os deuses dos livros – o deus de acordo com a Bíblia... ...os deuses de acordo com o Corão, o mundo islâmico. Não sei se notaram que quando as religiões são baseadas nos livros... ...como a Bíblia ou o Corão, então você tem os fundamentalistas, então você tem... ...pessoas que são fanáticas, limitadas, intolerantes, porque o livro diz assim. Notaram tudo isso? Este país está tendo os fundamentalistas, voltando ao livro. Não fiquem zangados, por favor, apenas olhem para isso. Assim estamos perguntando: o que é religião? Não apenas o que é religião, mas o que é o cérebro religioso, a mente religiosa. Para investigar isso profundamente, não superficialmente... ...deve haver liberdade total, liberdade completa. Não liberdade de uma coisa ou outra, mas liberdade como um todo, por si. Então temos que perguntar também – desculpe -... ...a palavra religião etimologicamente não tem... ...eles não podem explicar esta palavra. Ela teve significados diferentes em tempos diferentes e épocas diferentes. Assim estamos perguntando, quando existe esta liberdade, é possível... ...viver neste mundo feio, é possível ser tão livre... ...da dor, do sofrimento, da ansiedade, da solidão e tudo o mais. Então você tem que descobrir também o que é meditação: ...contemplação no sentido cristão, e meditação no sentido asiático. Provavelmente a meditação foi trazida a este país... ...pelos iogues, gurus e todas aquelas pessoas supersticiosas... ...pessoas tradicionais; e portanto elas são mecânicas. Assim temos que descobrir o que é meditação. Vocês querem entrar nisso? Isso é uma diversão para vocês, ou querem realmente entrar nisso? É uma forma de entretenimento, a meditação? Primeiro deixe-me aprender meditação... ...descobrir, e então eu agirei apropriadamente. Entendem o jogo que a pessoa faz? Ou, se existe ordem na própria vida, ordem real, como explicamos... ...então o que é meditação? É seguir certos sistemas, métodos: ...o método zen, a meditação budista, a meditação hinduista... ...e o último guru com sua meditação? Eles são sempre barbudos, cheios de dinheiro, vocês sabem tudo o mais. Assim, o que é meditação? Se ela é determinada, se está seguindo um sistema, um método... ...praticando dia após dia, dia após dia, o que acontece com o cérebro humano? Ele se torna mais e mais embotado. Não notaram isso? Quando você repete, repete, repete – a nota pode ser falsa, mas você a repete. Como um pianista, se ele repete para si mesmo e toca a nota errada... ...ele ficará tocando a nota errada o tempo todo. Assim, a meditação é algo inteiramente diferente? Não tem nada a ver com tudo que é método, sistema, práticas; ...portanto ela nunca pode ser mecânica. Não pode ser meditação consciente. Entende o que estou dizendo? Por favor, entendam isso. É como um homem que conscientemente quer dinheiro e vai atrás do dinheiro; ...qual é a diferença entre os dois? Conscientemente você medita, querendo atingir a paz, o silêncio, e tudo isso. Portanto são a mesma coisa... – o homem que persegue o dinheiro, o sucesso, o poder... ...e o homem que persegue a assim chamada espiritualidade... Assim, existe uma meditação que não é determinada, praticada? Existe, mas requer uma enorme atenção. Aquela atenção é uma chama... ...e aquela atenção não é alguma coisa a que você chegue bem mais tarde... ...mas atenção agora a cada coisa, cada palavra, cada gesto, cada pensamento: ...prestar atenção completa, não parcial. Se você está ouvindo parcialmente agora, não está dando atenção completa. Quando você está assim completamente atento, não há ego, não há limitação. E – logo tenho que parar – o cérebro agora é cheio de informação... ...abarrotado, não há espaço nele... ...e a pessoa tem que ter espaço, tem que haver espaço. Espaço significa energia; quando não há espaço... ...sua energia é muito, muito limitada. E o cérebro – o orador não é um especialista em cérebro... ...embora tenha conversado sobre isso com outros cientistas, etc... ...não que isso seja uma recomendação – ...eles fazem experimentos com animais, teorias, acumulação de conhecimento; ...mas nós não somos cientistas, somos leigos... ...pessoas comuns, humildes, querendo descobrir. Existe uma meditação que não é determinada, colocada em um modelo... ...não vou entrar nisso. Assim, o cérebro, que agora está tão sobrecarregado... ...de conhecimento, teorias, poder, posição, tudo o mais... ...permanentemente em conflito, atulhado; ele não tem espaço. E a liberdade, liberdade completa, é ter aquele espaço ilimitado. O cérebro é extraordinariamente capaz, uma capacidade infinita... ...mas o tornamos tão pequeno e trivial. Assim, quando há aquele espaço e vazio e, portanto, uma energia imensa... ...energia é paixão, amor e compaixão e inteligência – ...então existe aquela verdade que é a mais santa, a mais sagrada; ...aquela que o homem buscou desde os tempos imemoriais. E aquela verdade não se encontra em nenhum templo... ...nenhuma mesquita, nenhuma igreja. E não há caminho para ela, exceto... ...através do próprio entendimento de si mesmo, investigação, estudo, aprender. Então existe aquilo que é eterno. Posso me levantar? Ou vocês se levantam? (Aplauso)

Second Public Talk in Washington D.C.

Sunday, April 21, 1985

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