Sugestão
Subscribe to the Subscribe
And/or subscribe to the Daily Meditation Newsletter (Many languages)
Print   pdf Pdf
                         Diaspora      rss 

Medo na Consciência

Sixth Small Group Discussion, Malibu, USA

Sunday, March 22, 1970

Krishnamurti: Vamos continuar onde deixamos ontem? Temos que passar por isso, quer gostemos quer não, desculpe. Estávamos perguntando: como acontece que as camadas profundas escondidas no subconsciente são expostas? Essa era a questão que estávamos perguntando e receio que não a tenhamos aprofundado completamente. Quer seja através dos sonhos, através da atenção, através da consciência, através da análise, e por aí afora. Não sei até que ponto vocês aprofundaram isto, sobre isto com vocês mesmos desde ontem. Então podemos discutir isto, abri-lo?

PJ: Senhor, acho que não exaurimos a questão dos sonhos.

Krishnamurti: Vamos chegar a isso, senhor – nem sequer tocamos nisto ainda. Apenas tocamos ontem. Sabe, este é um assunto muito sério, tudo isto. Não sei quão levemente o tomam. O que estamos discutindo é muito, muito sério porque quando você entra nisto tudo não pode apenas brincar com isso. Ou vai até ao fim disso ou não toque nisto. Certo? Por favor, estou falando sério. Ou vai mesmo até ao fim disso ou não o toque de todo. Não pode tomar pequenas partes disso e dizer, « Vou usar isto ». Ou você vai do início até ao fim ou não comece de todo. Por favor... Pode ver-se que é... que pode-se não analiticamente observar o condicionamento superficial. Estamos usando a palavra « condicionamento » para explicar tudo o que discutimos ontem, para não termos que repetir tudo isto outra vez. Mas torna-se extremamente sutil e árduo explorar as coisas escondidas da vida. Como se faz isto? Os motivos escondidos, impulsos escondidos, ambições, e todos os fatores destrutivos, deterioradores que estão no inconsciente, lá no fundo.

PJ: Quando você está envolvido em alguma coisa, o escondido está apto a vir para fora quando você está envolvido ... [inaudível]

Krishnamurti: Quando você está envolvido, diz o Dr. Weininger, vêm para fora. Então você deve, segundo ele, empenhar-se, envolver-se em alguma ação, para que as partes escondidas do ser fiquem expostas. Isto é, empenhe-se em alguma atividade, e através dessa atividade, olhe as suas próprias respostas, e estas respostas serão das camadas mais profundas. Isso quer dizer que depende-se da ação, de um compromisso, de um envolvimento em alguma atividade. Certo, senhor?

PJ: Ou numa relação.

Krishnamurti: Ou em alguma relação. Não sei o que vocês todos sentem. Por favor, senhor, não me deixe falar incessantemente.

PJ: Parece-me – não sei se as palavras estão completamente corretas, poderia soar como se tivéssemos que fazer alguma coisa para, mas a mim parece-me que estamos a relacionarmo-nos todo o tempo, e quando nós... E eu não sei se percebo exatamente esta idéia de compromisso, o que quer dizer com compromisso, mas se você... Geralmente eu penso, ou...resistimos ao compromisso – a vida é compromisso, penso eu, no sentido em que estamos a falar, e que resistimos ao compromisso por causa desses... por causa do que... o escondido, por causa do escondido. Não diz, « Vou comprometer-me, » você apenas tem consciência das relações de momento a momento. Você tem consciência da relação com tudo. E isso é compromisso, de alguma maneira.

Krishnamurti: O que dizem, senhores? Está dizendo, senhor, que como toda a vida é relação, viver é relação, e portanto já está comprometido, envolvido?

Questioner: Num sentido...

Krishnamurti: Sim. Você já está envolvido, e aí está.

PJ: Mas escondemo-nos dele. De certa maneira escondemo-nos dele, retiramo-nos dele.

PJ: E é aí que se vê o escondido disso. Quando você vê que está se escondendo, vê que isso está escondido.

Krishnamurti: O que é que estamos discutindo? Gostaria de estar claro sobre isto mais uma vez.

PJ: Não estamos discutindo a resistência a... chamamos resistência à coisa escondida, o que chamamos o inconsciente, as coisas que nos impedem de nos relacionar, ou de...

PJ: Penso que estamos falando da revelação do inconsciente e se é preciso comprometer-se com alguma ação em particular ou estar envolvido em atividade para ver-se a si mesmo.

PJ: Poderíamos estar a falar simplesmente dessas partes do nosso ser de que não temos consciência? Por exemplo, estou numa certa situação e começo a comportar-me de uma certa maneira, e não tenho de todo consciência de como me comporto, quase adormecido. E então posso pensar que estou consciente de repente falando sozinho, e fingir que estou olhando, mas realmente todas as ações, se você as visse num espelho, você nem sequer teria consciência de que você as estava fazendo. E depois, noto quando passo um dia muitas vezes, que minha mente tende a concentrar-se em coisas, e conforme começa a concentrar-se em coisas, começa a eliminar outras coisas, e começa a focar-se num particular objetivo ou numa particular atividade, que começo a perder consciência do som, e vista, e toda a espécie de atividade que acontece à minha volta. E até perco consciência de como eu estou realmente me comportando nessa situação, e assim a minha mente está tão focada numa certa coisa com que está ocupada. Estou consciente...inconsciente... Quase adormecido.

PJ: O que, penso, poderá levantar a questão se, sabe, atividade ulterior é na verdade uma distração mais do que um processo de autorrevelação.

PJ: A vida não é ação? A vida é ação. Quero dizer atividade, se pensarmos nisso como uma conferência, algo que fazemos, mas agimos todo o tempo. Estamos agindo. Isso é parte do problema, acho – estamos separando... como a ação é algo que fazemos, não que somos ação.

PJ: Bem, não é verdade que a ação pode resultar do conflito ou pode resultar da totalidade? E se resulta do conflito então há partes de nós das quais não temos consciência.

PJ: Mas vemos isso. Temos consciência disso o minuto que agimos, o minuto que acontece. Você pode senti-lo, pode sentir as resistências.

PJ: Sim, mas a ação pode às vezes ser uma forma de fechar a mente, alguma parte de nós.

PJ: Mas então você tem consciência disso.

PJ: Da parte que é negada?

PJ: Porque parece-me que sempre que agimos para ir para outro lado de onde estamos então há uma resistência, porque você fica dividido. Estou sempre dividido entre... Posso senti-lo no minuto que estou agindo, quando não estou agindo de acordo com, o que você diz – totalidade. Você pode ver isto e depois tem consciência da resistência.

Krishnamurti: Senhor, não estávamos discutindo ontem à tarde que um dos fragmentos – porque estamos quebrados – um dos fragmentos assume a responsabilidade do ator, do censor, o que resiste, e domina outros fragmentos dos quais somos feitos. Nos estávamos perguntando ontem: como acontece olhar sem o censor? Observar todos os diversos fragmentos, não deixar que um fragmento assuma superioridade sobre os outros mas observar. Nesta observação, dizíamos, não há censor, não há resistência, nem o passado, com o todo o seu conhecimento e tradição, e experiência. É isso que estávamos dizendo ontem, em que todos – não concordamos – nós vimos o que está envolvido nisso. E isto, dissemos, é atenção. Certo? Estamos dizendo que nós... A isto chamamos atenção. Nesta atenção não há concentração – a concentração sendo uma forma de resistência, exclusão, construindo muro contra o outro – pensamentos, impulsos, e por aí afora. E dissemos que isso é relativamente fácil de fazer superficialmente. É relativamente fácil observar a idiotice nacionalista externamente, e eliminá-la. Mas estávamos nos interrogando sobre as mais, ou camadas mais profundas de toda esta estrutura chamada o « eu ». Estávamos nos interrogando se estas camadas podem ser expostas sem análise. Porque dissemos que a análise implica tempo, e há... sabe Deus quantas camadas se têm, e você leva um número infinito de dias, anos, e no fim disso está-se pronto para a cova. Então dissemos: existe uma percepção que elimina ou que não está envolvida no tempo, na análise, na resistência ou julgamento? Foi isso que dissemos.

PJ: Não dissemos também, Krishnaji, que qualquer ato de descrição era um ato do censor.

Krishnamurti: Ah sim, claro. Qualquer ato de descrição, explicação, não é a coisa descrita ou explicada. Assim a palavra não é a coisa. Foi isso que dissemos. Certo. Ora, como acontece isto? Vê-se muito claramente se há alguma divisão, separação, entre as camadas do... as camadas profundas e as camadas superficiais, então tem que haver conflito constante. E aparentemente essa é a nossa vida. Superficialmente podemos ser muito polidos, por que as circunstâncias o exigem, a sociedade, a industrialização, isto ou aquilo, que deveríamos ser mais ou menos externamente civilizados. Civilizados no sentido de não cuspir uns nos outros realmente. Mas lá no fundo cuspimos uns nos outros. Desfazemo-nos uns aos outros verbalmente e não verbalmente. Tendo presente que nesta observação não há o dar um nome, não há aplicação verbal àquilo que é visto – certo? Nos estamos percebendo uns aos outros?

PJ: Examinamos esse ponto, porque, digamos, a coisa simples, dizemos sempre que o nacionalismo é fácil de ver, mas como temos de fato a percepção do nacionalismo em nós mesmos sem palavras, sem dar-lhe um nome? O que acontece no pensamento?

Krishnamurti: Oh, isso é relativamente simples, não é? Nascido numa particular cultura, sociedade, nível econômico, e por aí afora, todo o resto, o nacionalismo, que é uma forma de tribalismo, é profundamente enraizado na maioria das pessoas. Algum tribalismo, não... Certo. Certamente se tomarmos consciência disto, tem-se o sentimento disto, não? O sentimento sem a palavra: « meu país ».

PJ: Mas isso é em si a palavra.

Krishnamurti: Ah, não, não – o sentimento.

PJ: O conceito surge com o sentimento.

Krishnamurti: Espere, olhe, o sentimento é resultado do conceito, idealização verbal, ou o sentimento de « meu país » é separado da palavra? Tem que descobrir isto.

PJ: Não é um conceito em qualquer dos casos? Ou é um sentimento que se tem, olhando para as montanhas ou a bandeira, seja lá o que for, é promovido por um sentimento, porque não existe nenhum país – é um conceito que é feito pelo homem. Então não há inevitavelmente um conceito nisso, para se ter consciência disso a qualquer nível?

Krishnamurti: Senhora, está dizendo: somos regidos por conceitos, fórmulas e uma das fórmulas é o nacionalismo. Existe um sentimento de nacionalismo sem a fórmula? É isso que você...

PJ: É possível. É possível ser diretamente condicionado sem mesmo saber que você está sendo condicionado.

PJ: E então você tem um conceito em curso do mesmo modo.

Krishnamurti: Sim, você ainda é regido por um conceito.

PJ: Separado.

PJ: Não, você não teria um conceito, está apenas diretamente condicionado a...

Krishnamurti: Que é o resultado de um conceito.

PJ: Bem, isso são as camadas dos conceitos, não? O condicionamento é um conceito. Se você é condicionado...

PJ: Somente se você pensar no condicionamento, mas você pode estar condicionado a ter uma resposta emocional e tudo o que você tem é a resposta emocional sem qualquer idéia...

PJ: Se você está condicionado a isto, isto não estabelece uma ou uma multiplicidade de conceitos? O que de outro modo condicionaria você, exceto...

PJ: Pode ser uma banda a tocar ou uma bandeira a agitar.

PJ: Sim, mas tem que haver, para a reação em você, isto tem que ter alguma associação, que é o conceito.

PJ: É uma resposta do condicionamento.

PJ: Você tem medo que alguma coisa vá varrer...

PJ: Se eu respondo ao toque de uma banda, essa minha percepção da banda tocando, você está dizendo que isso é um conceito?

PJ: Bem, se tem uma associação com a bandeira, ou a banda, ou seja lá o que for, isso é algo já estabelecido em sua memória, seja lá com o que estiver ligado, seja lá qual for sua cadeia de associação.

PJ: Ou não você não reagiria.

PJ: Não eu não tenho que ter... Eu não tenho que estar associado a um conceito. Posso estar diretamente condicionado sem qualquer conceito nisso.

PJ: Se nunca ouviu uma banda de todo, o momento que a ouvisse estaria condicionado por ela?

PJ: Eu penso que isso poderia acontecer.

PJ: Até chegar a sua consciência, teria sido condicionado?

PJ: Até chegar a sua consciência de você, teria sido condicionado?

PJ: Se é uma reação, isso não é o mesmo que o condicionamento, que o elemento tempo não é necessariamente inerente ao condicionamento. Pode ser terrivelmente rápido. Posso fazer caras para você agora mesmo e você pode ser instantaneamente condicionado por isso num minuto.

PJ: Sim.

PJ: Então é o mesmo processo. Não sei, este é o mesmo...

Krishnamurti: Penso que está certo. Vamos continuar da mesma maneira.

PJ: Mas há uma diferença entre percepção de uma coisa digamos assim objetiva, como uma árvore, e o momento que vamos para algo como o nacionalismo, que é uma abstração, não estamos imediatamente no reino dos conceitos por oposição a...

Krishnamurti: Certamente. Pode-se olhar para essa árvore não-verbalmente, sem a imagem da árvore que vi antes – dar-lhe um nome e todo o resto. Posso... observar a árvore sem a palavra, isso é comparativamente fácil se você já brincou com isso. Ora, o nacionalismo é subjetivo, interior, e é uma ideia, uma fórmula – meu país, meu governo, minha gente, minha tribo, com os seus rituais particulares, e por aí afora. Tudo isso é... me condicionou desde criança. Posso eliminar isso externamente mas no fundo ainda está lá – a fórmula, ainda existe.

PJ: Em outras palavras, quando você diz olhe para essa fórmula sem palavras, ainda pode olhar para a sua relação com o conceito mas não utiliza palavras quando olha para essa relação.

Krishnamurti: Estamos perguntando, senhor – essa é a questão – como... Estamos perguntando... uma observação em que não há verbalização ou formulação.

PJ: Mas isso não quer dizer que você tenha que eliminar a palavra « país »...

Krishnamurti: Deixe isso por enquanto. Veja isto. Como você pode observar a árvore sem a fórmula, e portanto nisso não há resistência, não há divisão, e se realmente observou muito de perto, o espaço entre o observador e a coisa observada desaparece.

PJ: Senhor, pode ser verdade com a árvore mas quando se está olhando...

Krishnamurti: Espere, senhor. Faça-o, senhor! Faça-o antes com a árvore. Você vai ver o que isso implica. Você quer imediatamente ir para algo mais complexo. Olhe para essa árvore, ou qualquer arbusto, ou qualquer flor, e veja se é possível – não, não « possível » – ver, observar sem a fórmula, sem espaço, sem a palavra. E quando realmente observa, veja o estado da mente que observa isto – não como você como observador mas a mente em si que observa a árvore.

PJ: Posso perguntar porque, quando alguém fez isto, por que é mais difícil para alguém observar o nacionalismo...

Krishnamurti: Vou chegar a isso, senhor. Primeiro vamos fazer isto, ver o que isso implica. Uma observação na qual a fórmula não existe – sendo a fórmula o passado, o passado com o qual um dos fragmentos do « mim » se identificou como o observador, o censor, o conhecedor, o ator, o experimentador, e com esses olhos do passado olho para essa árvore. E assim existe a árvore separada do observador. O observador, olhando sem a palavra não se torna a árvore, o que seria absurdo, mas olha sem qualquer interferência do pensamento – sendo o pensamento a resposta da memória, que é o passado. Ora, faça isso, veja o que acontece. Depois interrogue-se sobre o estado da mente que olha para isto, olhando para essa árvore com essa qualidade. Ora, se pudermos chamar isso de atenção, em que o observador com todos os seus compromissos, associações, está ausente – isso é relativamente fácil de fazer porque não se relaciona comigo, não vai interferir, não vai me insultar, não vai me magoar, não vai me assassinar, não vai me fazer todo o tipo de coisas. Mas observar todo o movimento de mim mesmo dessa maneira torna-se incrivelmente difícil.

PJ: O momento que você sugere observar a própria observação da árvore, então penso, pelo menos muitos de nós, estão em apuros, porque torna-se imediatamente outra coisa, quando havia apenas a árvore, e depois de repente torna-se: o que é minha ação, o que é minha consciência, o que é minha observação – e isso torna-se uma ...

Krishnamurti: Não, não, mas veja... Olhe, por favor ouça isto, é bastante... Olhar, observar todo o movimento de mim mesmo é necessário para a aprendizagem do « eu » – certo? Aprender sobre mim mesmo, o que é essencial porque eu mesmo sou a sociedade, o mundo, a família, a mulher – eu sou tudo isso – olhar para mim com o passado é sempre ou condenatório ou justificativo, e por isso nunca há fim ao conflito. Não sei se você está percebendo isto tudo. Mas observar sem o observador é aprender – que é não acumular porque a coisa que está sendo observada está em constante movimento. Certo? Posso apenas observar de forma muito desapaixonada, objetivamente, com algo que está morto, que não interfere, suscita várias reações em mim. Posso... é – estas palavras! – observar sem a reação do passado. Não sei se você tentou fazer isto tudo, ou o fez. Se você não fizer isto, o conflito é inevitável, obviamente. Porque quando há um observador separado da coisa observada não há apenas espaço, tempo, e todas as reações, e portanto divisão, e assim conflito. Isto é simples. Eu tenho uma imagem da minha mulher e ela tem uma imagem de mim, que cada um de nós construiu ao longo de vinte anos, trinta anos, ou dez anos, ou dez dias, e a relação é entre estas duas imagens, e por isso conflito. Por isso toda relação vai inevitavelmente criar conflito. Certo. Isto é assim. Estão todos calados. São todos muito casados, não são? [Risos] eu não sou, por isso está bem. Ora, estas imagens – eu tenho uma imagem sobre mim mesmo, e tenho uma imagem sobre o mundo, e tenho uma imagem baseada em inúmeras fórmulas do que deveria ser – o que foi, o que é e o que deveria ser – Tenho tantas imagens. Todas estas imagens são eu. Certo? E estas imagens invariavelmente dividem-se entre elas, por isso o conflito interior. Cada imagem é inevitável – essa é uma maneira de viver. Ora, encontrar uma vida em que não há imagem nem conflito – é isso que estamos investigando. Tal como se pode observar a árvore de uma forma desapaixonada, sem dar nomes, e tudo isso, e se observar mais atentamente, o espaço também desaparece – realmente desaparece, se alguma vez brincou com esse tipo de coisa. O espaço, que é o intervalo de tempo entre a observação e o contato, desaparece totalmente. Isto também pode ser produzido através de químicos. – LSD e outros tipos de guerra química [Risos] – que é artificial e do qual se depende mais e mais, e depois há muito medo, e tudo o que está envolvido. Ora, está-se perguntando se isso é... pergunta-se: a observação de si mesmo, que está em movimento constante, sem o elemento tempo, sem a verbalização do que é visto, sem o censor, a resistência, e por aí afora, assim que entre o observador e o observado o espaço desaparece interiormente. Não sei se percebe isto.

PJ: Tenho uma pergunta, senhor. Essa observação está no campo do conhecido? quero dizer, é, se você está observando você mesmo a esse nível, isso está – bem, esta é a única maneira em que consigo dizer – faz algum sentido? – isto está no campo do conhecido?

Krishnamurti: Não, não está, obviamente. O conhecido é o passado. Todo o conhecimento é o passado. Sempre se está adicionando ao passado, e a nossa vida é o passado, não é? E o passado, modificado no presente: o futuro – e por aí fora. Ora, aprender sobre si mesmo requer esta qualidade de atenção em que não há distorção na observação. Certo? Quando há uma observação da condenação, do censor, da resistência, a resistência, a condenação o censor, é uma distorção. Certo? E aprendo sobre a distorção. Então pede-se a si mesmo que se observe sem distorção.

PJ: Pode-se perguntar se não há antes da aprovação ou condenação – que poderia ser uma espécie de julgamento – um segundo passo? Na percepção efetiva do que acontece, existe uma imagem nisso? Isto é onde eu... Como percebemos?

Krishnamurti: Como você observa...

PJ: Não dizendo que é bom ou mau...

Krishnamurti: Como observa com – ah, não – está perguntando: a observação em si é o produto da imagem?

PJ: Não há um fator imagem nisso?

Krishnamurti: Penso que não. Penso que não. Faça-o. Descobrirá se o fizer.

PJ: Isso era a minha questão, o que estava perguntando antes: se é no campo do conhecido. Esse imediato, essa percepção, que tem que ser no campo do conhecido...

Krishnamurti: Estou olhando, senhor, estou olhando para mim mesmo com uma imagem que tenho? O olhar em si é o produto da imagem. Está perguntando isso?

PJ: Estou tentando perguntar o que acontece realmente quando olhamos. Se olharmos para uma coisa objetiva, certamente que uma imagem vai através do nervo ótico, e por aí afora. Depois ela ativa associações, conhecimento, e por aí afora, que, segundo percebo, você chama de conhecido, a imagem, e isto é introduzido, na maior parte de nós, ou se você estiver olhando diretamente de alguma maneira percebemos sem ativar isso tudo. Mas quando olhamos para algo que não tem esse mecanismo simples de uma coisa exterior, é uma abstração. Não consigo perceber como você pode examinar isso, examinar...

Krishnamurti: Não, não! A questão é: depois ainda há alguma coisa a ser examinada? Enquanto eu tiver uma imagem então há examinação de outra imagem. Se não existir nenhuma imagem – sendo a imagem o censor, a resistência, aprovação, e todo o resto – o que há?

PJ: Não há instruções então.

Krishnamurti: Não, não, por favor,...

PJ: Além de... [inaudível]

Krishnamurti: Se eu não tenho opinião sobre você, nenhuma opinião, qual é a nossa relação? Ou, melhor, qual é o estado da mente que não tem opinião? Não é uma mente obtusa, não é uma mente vaga, uma mente antropomórfica, ela viu a futilidade das opiniões e está livre disto. Então uma mente assim pode olhar muito mais claramente do que a mente que está cheia de dúzias de opiniões.

PJ: Mas, senhor, nesse exemplo há pelo menos um ser humano objetivo, um « você », alguém que está sentado aí. Ao passo que se se tenta olhar para uma abstração – nacionalismo, ou qualquer abstração não há, no nosso domínio de pensamento, não há uma coisa, outra coisa, é um conceito. Por isso ainda estou preso em como se examina sem fragmentação.

Krishnamurti: Vou mostrar-lhe. Vou mostrar-lhe. Por que temos conceitos afinal? Por que temos fórmulas afinal? Por favor... Por que os tem? Existe Deus, não existe Deus, o Estado é o mais... etc. – sabe, dúzias e dúzias de fórmulas – por quê?

PJ: Dá-nos segurança.

Krishnamurti: Não sei. Não adivinhe, descubra. Por que temos fórmulas? Como cidadão americano, como Hindu, Católico – para quê?

PJ: É apenas condicionamento.

Krishnamurti: Ah, não, senhor, olhe: viver na Itália, se você não for católico, pertencendo à ordem estabelecida, você vai achar isto tremendamente difícil – você não encontra trabalhos tão facilmente, você não pode casar seu filho ou filha, ou seja lá o que for – as coisas tornam-se extremamente difíceis. Pode rir da Igreja – percebe, senhor? – mas a fórmula do Católico torna-se muito importante, e assim você adere a ela – é rentável. Então há segurança física de um lado e segurança psicológica do outro. As fórmulas são para a segurança. Deus existe – acabou. Acredito nisto. Ou não existe Deus e eu acredito nisto. Uma segurança tremenda. Mas se você não acreditar em nenhum Deus numa comunidade muito crente, você é jogado fora. Então temos fórmulas – certo? Temos consciência destas fórmulas, primeiro? Não de como livrarmo-nos delas, tem-se consciência destas fórmulas?

PJ: Não se estivermos condicionados a elas.

Krishnamurti: Ah, você pode apontar para mim e dizer, « Veja, você está condicionado por uma crença como Brâmane vivendo na Índia com certa tradição. » Isto tem sido repetido. Eu digo, « Você tem toda a razão, posso jogá-las fora. » Não é que vou me tornar Católico – vou jogar tudo fora. Se for relativamente inteligente ou consciente jogo tudo fora. Mas as raizes disto, as respostas profundas, instintivas do condicionamento ainda estão aí. Assim voltamos para a pergunta: Como se expõe todo o conteúdo das camadas? Não responderam à minha pergunta. Vocês são os « experts », senhores.

PJ: Poderíamos talvez olhar a possibilidade de existir uma causa de raiz para tudo...

Krishnamurti: Claro, senhor, existe.

PJ: Uma causa de raiz singular.

Krishnamurti: Uma raiz singular.

PJ: Tornaria isto mais simples.

Krishnamurti: Ah, não, não uma questão de simplicidade! [Risos]

PJ: O medo parece estar na raiz de quase tudo isto. Medo. Temos conceitos e fórmulas óbvios e a razão pela qual nos agarramos a eles é por que nos tornamos muito dependentes de todos eles...

Krishnamurti: Está bem, senhor, tenho medo – veja isso. Tenho medo e por isso dependo – de uma fórmula, de um amigo ou da minha mulher, e por aí afora. Esta dependência eu chamo de amor e tudo o mais. Certo? Há medo por detrás disto. Ora, posso observar medos superficiais e talvez eliminá-los. As camadas mais profundas do medo, o medo muito profundo, do qual posso estar inconsciente, não consciente, como trago isto para fora? Porque até trazer isto para fora vivo no escuro – percebe? – Vou depender de alguma fórmula, não desta fórmula em especial mas de qualquer outra coisa. Como faço... como a mente desenraiza profundamente o medo?

PJ: Senhor, eu noto que no meu caso particular, o que geralmente é produtivo deste trazer para fora os símbolos ou o censor, é que eu divido o mundo nos bocados que eu gosto e os bocados que eu não gosto. E para chegar aos bocados que eu gosto, tenho este universo simbólico que criei para chegar a eles. Mas isso deixa os bocados que não gosto do outro lado então. Mas eu tenho uma questão que resulta disto, se me permite. Que é que não há como sair disso, porque estamos como que presos nisso, vivendo numa sociedade como a que temos, e a maior parte de nós trabalha em algum tipo de área tecnológica na qual passamos a maior parte do nosso tempo e na qual temos que viver num universo simbólico, digamos assim. Bem, agora, a minha pergunta é: como pode-se viver num universo simbólico, um universo tecnológico, pensar de uma forma tecnológica para ganhar a vida, etc, e ainda assim ter consciência desse processo ao mesmo tempo?

Krishnamurti: Tem-se que ganhar a vida no mundo tecnológico e também viver uma vida em que não há medo. Certo? É isso que estamos investigando. Estamos dizendo: lá no fundo há muitos medos. A libertação destes medos torna a mente obviamente extraordinariamente inteligente. E essa inteligência vai funcionar quer no campo tecnológico e mesmo assim não provocar medo. Não sei se... Então por isso é que temos que investigar esta questão se o medo pode ser totalmente exposto, até ao fundo até à raiz do nosso ser. Força, senhores, estou fazendo. Procedam. Como isto acontece?

PJ: A minha questão antes, ou a minha afirmação antes sobre uma causa de raiz – talvez se encontrássemos uma causa de raiz de todos os medos...

Krishnamurti: Estamos chegando a isso, senhor, estamos chegando a isso. Vai ver por si daqui a um minuto.

PJ: Talvez exista quase que um gargalo no processo em que há, digamos, uma massa de medos inconscientes, e todo o resto do condicionamento? Mas no momento em que isso funciona, no momento em que isso entra no seu pensamento, entra na sua ação, realmente, não é nesse momento que se pode lidar com isso? Como você disse ontem, não podemos explorar o infindável do nosso próprio inconsciente...

Krishnamurti: Veja, senhora...

PJ: O momento em que surge, como uma bolha à superfície, não podemos lidar com isto então?

Krishnamurti: Isso quer dizer um por um.

PJ: Não – bem, um por um em cada momento do viver...

Krishnamurti: Ah, não tenho tempo, isso é muito longo. Quero livrar-me dessa coisa terrível por completo.

PJ: Sim, mas o tempo seria um fator nisso se fosse imediatamente...

PJ: Bem, pode demorar um ano até que um determinado sentimento apareça.

PJ: Está bem, mas nós...

Krishnamurti: Iremos descobrir, vamos descobrir.

PJ: Senhor, poderia ser que para olhar realmente...

Krishnamurti: Não adivinhe, senhor, não adivinhe...

PJ: Não estou adivinhando.

Krishnamurti: ... porque senão estamos perdidos.

PJ: Mas eu noto que continuo a evitar de olhar para isto, estas coisas, porque a própria coisa da qual estou fugindo, assim que estou olhando para o medo, fico com medo. Mas se não estou olhando para esse medo, esse medo que me impede de ir até ao fundo...

Krishnamurti: Vamos descobrir, senhor.

PJ: Parece-me que o medo tem uma espécie de estigma associado a si, de maneira que não posso olhar para ele sem o condenar. Quero dizer – percebe? – esse parece ser o verdadeiro problema.

Krishnamurti: Não, sejamos mais eficientes e práticos. Você tem medos, não tem? O que quer dizer com isso – medo?

PJ: Resistência.

Krishnamurti: Não, não. Veja, não o verbalize imediatamente. Você tem medo.

PJ: Isso não quer dizer, senhor, de um par de opostos que nós criamos, de um par de alternativas, uma polaridade, queremos um lado mas queremos evitar o outro? E enquanto perseguimos um lado temos medo que o outro possa acontecer.

Krishnamurti: Sim senhor, percebo isso tudo. O que é medo para você?

PJ: Parece-me que o medo é insegurança grave.

Krishnamurti: É uma abstração?

PJ: Reação. Uma ação em que você...

Krishnamurti: É uma abstração ou está em relação com alguma coisa?

PJ: Em relação com o desconhecido.

Krishnamurti: Conhecido, desconhecido, futuro, passado, presente. Está em relação com alguma coisa, não é assim? Não é uma abstração em si. Certo? Ora, em relação a quê?

PJ: Mas não é...

Krishnamurti: Olhe para ele! Quero apenas ir... apenas ir devagar um bocado, um bocado devagar. Não quero manter a minha posição com o meu... Pode ter o seu... um segundinho mais tarde. É em relação a alguma coisa – certo? – o passado, o futuro, trabalho sabe, a sua mulher correndo... morte, amor. Certo. Em relação entre o quê?

PJ: Eu mesmo?

Krishnamurti: Não, olhe para ele, senhor, não... Entre o quê?

PJ: Temos a nossa imagem do mundo e temos a nossa imagem de nós mesmos, e os conflitos que essas imagens produzem em nós, o sentimento, é medo.

Krishnamurti: Meu caro amigo, só um minuto. Estou perguntando a você – saia desse canto – Estou perguntando a você: quando tem medo, acontecem duas coisas. Você e a coisa de que tem medo, o medo de alguma coisa. Estes dois, qual é a relação destes dois?

PJ: Ilusão.

PJ: Há espaço.

Krishnamurti: Olhe para ele, senhor, não... Olhe para ele um pouco mais de perto, leve tempo, um pouco. Tenho medo – medo. O medo existe apenas em relação a alguma coisa – a relação entre dois. Ora, que são estes dois? Que são estes dois?

PJ: Medo das consequências.

Krishnamurti: Um é permanente – veja! – um é permanente, o outro é uma relação com o impermanente que pode trazer perigo.

PJ: Poderia dizer isso novamente de outra forma?

Krishnamurti: Estou perdido. Veja, senhor. Tenho medo do passado, medo do passado. Por isso, uma relação entre alguma coisa que é permanente, que é agora, e algo que aconteceu ontem. Certo?

PJ: Não vejo como o permanente pode ser ameaçado por...

Krishnamurti: Espere, senhor, olhe para isso, posso estar a dizer isso erroneamente. Você vai descobrir. Percebe? Há uma divisão entre ontem e hoje. O hoje tem medo do ontem, e o hoje tem medo do amanhã. O hoje comparou-se com o passado, que diz, « Eu não gosto disso, é tremendamente perigoso, isso. Que eu era doente, doloroso, com dor, hoje não gosto disto. » O hoje não gosta do ontem. Então hoje é mais importante que ontem. Certo?

PJ: Isso quer dizer que não existe o hoje.

Krishnamurti: Espere! Isso é uma teoria, senhor. Veja o que está acontecendo. Gostaria que fosse devagar – você não é... Senhor, o hoje está julgando o passado, a relação é entre hoje e ontem. Hoje é – vamos chamar-lhe por enquanto – permanente. Hoje é a única coisa que interessa, porque não estou magoado neste momento. Neste momento estou saudável. Neste momento não perdi o emprego. Neste momento a minha mulher não me deixou. Neste momento acredito. Este momento, em relação ao passado, diz, « há o medo. » Obviamente – isto é simples. Não?

PJ: Ou amanhã, você disse, medo do amanhã.

Krishnamurti: Claro, claro.

PJ: Mas o medo é no futuro, porque não se pode ter medo de alguma coisa que é agora. Temos que ter medo do que acontecerá.

Krishnamurti: Então hoje tem medo em relação ao amanhã. Hoje tem medo em relação a ontem. Comparando hoje – saúde perfeita, felicidade perfeita, estou vivendo. Ontem não estava vivendo – fiz algo terrível, não deve acontecer de novo, tenho medo disso. Sabe, tudo isso. Certo? Não, não aceitem isto, por favor. Certo, senhor.

PJ: Posso pedir cinco minutos?

Krishnamurti: Sim, senhor. Então podemos dizer que a comparação entre hoje, e ontem, e amanhã, a comparação é medo? Certo?

PJ: Não se pode ter medo do hoje?

Krishnamurti: Não, vai ver daqui a um minuto, senhor. Não pergunte – veja o que fazemos, o que está acontecendo em si mesmo. Se houvesse – estas palavras! A comparação fez isto. Ontem era infeliz, hoje sou feliz. Ontem não era saudável, dor, hoje estou bem. « Por amor de Deus, não nos tem que acontecer outra vez » – tenho medo do amanhã. Esta comparação entre « o que é » com « o que foi » e « o que será, » é o processo do medo. Certo? Ora, pode a mente livrar-se da comparação?

PJ: Para livrar-se de comparação você deveria livrar-se do pensamento.

Krishnamurti: Não, espere, não complique, senhor – olhe, investigue. veja o problema envolvido nisto. Quão difícil é livrar-se da comparação, porque fomos criados desde crianças condicionados a comparar. Você é inteligente, eu não sou, você tem melhores notas que eu, você é o... Eu sou o pior da escala, você é o mais alto – nota A, B, C. Percebe? Desde crianças somos condicionados a comparar.

PJ: E a comparação é conceitual.

Krishnamurti: Não. Antes veja como comparamos, não o que faz. Este carro é melhor que aquele. Você é mais bonito que eu. Esté é um creme melhor para seu rosto do que este. Tudo é comparação. Melhor escritor, melhor crítico, mais dinheiro. Percebe? Então comparação. E toda uma vida baseia-se nisto, é condicionada por isto. Então pergunto: o medo existe enquanto existir este olhar comparativo, e o olhar comparativo existe enquanto existir uma medida. Certo? Medida significa, medida de acordo com os nosso gosto e desagrado – que é uma ilusão. Percebem tudo isto? Não, senhor.

PJ: É sempre de acordo com o gosto e o desagrado, Krishnaji? Por exemplo, se eu tenho de fazer uma tarefa, se tenho que abrir uma lata de feijão, se não consigo, não me ocorre que esteja sendo burra nisso, que esteja fazendo algo errado. Isso é comparação?

Krishnamurti: Não, não. Não, por favor, comparação – por favor atenha-se a esta coisa. Comparo dois tecidos para uma camisa. E eu escolho. Digo, « Gosto mais deste. » Não há conflito nisso. Não há medo nisso. Mas quando você vem e diz, « Essa camisa fica terrivelmente feia em você rapaz. » então você diz, « Caramba... » – começa todo o resto. Ora, aqui vejo muito claramente – por favor, não concordem comigo, isto exige muita penetração – que o medo existe enquanto existir uma perspectiva comparativa, observação comparativa entre hoje, e ontem, e amanhã. Então hoje é a medida de ontem e de amanhã. Certo? Certo? Por que a mente tem esta medida? Porque a mente tem que estar completamente livre do medo, se não é uma mente morta – certo? – se não vive-se na escuridão, todo o resto – medo. No minuto em que há medo procura-se segurança – na crença, nisto ou naquilo, na neurose, de diferentes maneiras. Então o medo é o bloqueio absoluto da vida. E a mente tem que se livrar dele totalmente. Ora, vejo comparação, por isso há uma medida. A medida é o permanente. Certo? Vou variá-la, vou cortá-la numa medida longa ou numa medida curta, mas haverá sempre uma medida. E essa é a causa do medo. A minha medida pode ser de uma polegada e a sua pode ser de uma jarda, mas ainda é uma medida. Estou a dominá-lo? Não, por favor, senhor...

PJ: Não é necessário desviar a sua atenção do medo para a comparação?

Krishnamurti: Ah, não! Quem é que a desvia? Não seja pego nisto outra vez. Vejo o simples fato de que enquanto houver uma perspectiva comparativa tem que haver medo. Vamos nos agarrar a isso. A perspectiva comparativa que é: hoje é importante por que hoje sinto-me bem, não há perigo, ainda tenho o meu trabalho, a minha mulher ainda está comigo, não há guerra, não há... um dia bonito, domingo. [Risos]

PJ: Mesmo que ela fosse embora continua sendo um dia bonito.

Krishnamurti: Ah, não, não, não. Então o dia fica escuro, fico deprimido, sinto-me sozinho, faz-me falta a companhia, não tenho ninguém que mande em mim ou em quem eu mande – sabe, todo esse negócio. Então, a medida é hoje. Veja, senhor, onde isto está chegando. Certo? A medida é o estado da minha mente de hoje. Hoje ninguém descobriu a mentira ou a coisa que fiz ontem. Tenho medo que a possam descobrir amanhã. Por isso, hoje. Certo, senhor? Tem certeza? Não aceitem isto, por favor.

PJ: Não, não, não tenho certeza disso. Por que se eu realmente comparo uma ação com algo que fiz ontem, digamos, por exemplo, ontem fofoquei sobre meus vizinhos e hoje estive numa situação em que poderia ter fofocado mas não o fiz, por isso aprendi.

Krishnamurti: Ah, espere, veja o que aconteceu. Ontem fofocou sobre seu vizinho, e se seu vizinho vier a saber disso, diz, « você é um outro... » – você tem medo disso.

PJ: Não, não tenho medo, porque hoje aprendi que não tinha que fofocar sobre meus vizinhos...

Krishnamurti: Sim, mas você o fez. Você o fez.

PJ: Eu fiz...

Krishnamurti: Por isso o vizinho ouve isto hoje, e por isso volta para você e diz, « Que diabos queria você dizer com isto? » Então você tem medo. Pode ter aprendido.

PJ: Não, não teria medo se estivesse totalmente consciente do que tinha feito ontem – e isso é comparação.

Krishnamurti: Não. Se tivesse... Aprendeu a não fofocar. Mas fofocou. Isso vai magoar você. E espera que seu vizinho não ouça sobre isso.

PJ: Se mudar seu comportamento então talvez você não tenha medo. Se realmente mudar seu comportamento. Se mudar seu comportamento por que teria medo por se sentir livre?

Krishnamurti: Hoje mudei meu comportamento – certo?

PJ: Sim.

Krishnamurti: Mas eu fiz algo errado ontem. Bati em você ontem.

PJ: Não importa se aprendeu. Se aprendeu que algo...

Krishnamurti: Ah, não, não!

PJ: Senhor, não estamos...

Krishnamurti: Não, veja, veja o que aconteceu.

PJ: Estamos associando o que somos neste momento com o que éramos antes. Aí está. E se você não associa, acabou com isto.

Krishnamurti: Ou seja, se você diz, « Desculpe, acabei, nunca mais vou fofocar. »

PJ: Bem, sim...

Krishnamurti: Espere, espere, espere. Ou seja, aprender completamente sobre a fofoca – nunca vai fofocar. E quando a senhora voltar, ou o vizinho voltar, e disser, « Que diabos queria você dizer com isto? » Eu digo, « Sinto muito de o ter feito, » acabou. Não há medo nisso, se você acabou.

PJ: Mas isso é porque o que vimos e o que fizemos ontem, pensamos que isso é permanente. Isso somos nós hoje e seremos nós amanhã, mas isso não é verdade.

Krishnamurti: Sim, senhor, sim, senhor. Mas se eu...

PJ: Por que não é verdade?

PJ: Por que não somos... Eu não sou o que eu era ontem...

PJ: Mas se aprendeu, por que isso não é verdade?

PJ: Se você não é um fofoqueiro, o que estou a dizer está voltando, eu estou dizendo você é um fofoqueiro.

PJ: Você não está ouvindo.

PJ: Sim.

PJ: Não.

PJ: Ok, continue – o quê?

PJ: Se você aprendeu, por que não é verdade?

PJ: É verdade o que era ontem – o fato está aí. Mas voltam para você dizendo, « Olhe, você me fez isto ontem. » Esse « você » agora é um espírito, é... esse « você » não é...

Krishnamurti: Sim, senhor, mas você levou meu dinheiro ontem.

PJ: OK, podem punir você, podem fazer coisas desprezíveis.

Krishnamurti: Não, espere. O que estamos dizendo é: medo – não que eles podem fazer isto ou aquilo – medo. O medo existe se não acabei com o ontem. E eu não posso acabar com o ontem enquanto estiver comparando tudo com ele... com o presente com ontem. Só isso. Seu eu acabei com o ontem, está bem, senhor, o que pode fazer? Já o fiz, já o fiz. Mas enquanto tiver uma avaliação comparativa vai haver sempre medo.

PJ: Mas o que ela estava dizendo...

Krishnamurti: Ah!

PJ: Não, espere. O que estava dizendo quando estava olhando para... Que você pode esquecer... A ação foi feita. Foi feita. E nós estamos tentando estar seguros, estamos tentando dizer, se esquecemos de... se não fofocarmos hoje ninguém virá amanhã dizer que não fofocávamos há dez anos, quando estávamos fofocando. Não há segurança nisso. Não pode dizer que alguém não virá punir você, ou o que quiser, por... não sabemos. Poderiam voltar, o vizinho poderia voltar.

PJ: Você quer segurança. Você não aprendeu nada. Quer alguns contratos e garantias.

PJ: Não, estou dizendo o que você está dizendo. Estou dizendo que estamos preocupados com isso – não sabemos. O fato é que não sabemos se alguém voltará porque fofocamos antes.

PJ: Mas não interessa, se tiver...

PJ: Está certo, não interessa.

PJ: Maravilha. [Inaudível]

Krishnamurti: Isso é, senhor, morrer para ontem a cada dia, então não há comparação e por isso não há medo. Certo?

PJ: E portanto amor?

Krishnamurti: Vamos chegar... Espere, senhor, não « portanto. » Então, medo. Estamos discutindo, estamos tentando perceber se é... se a mente pode ficar completamente livre do medo – não « livre » – perceber o medo e de uma vez por todas nunca ter medo. Morrer a cada dia para todos os dias – certo? – de modo que não haja comparação.

PJ: Uma vez disse que se estivesse em curso de uma doença terminal – - sabe, morrendo – vai estar olhando para ver se surgem os medos escondidos.

Krishnamurti: Estamos fazendo isso agora – espere, senhor. Quando não há qualquer comparação – nenhuma, exceto em coisas técnicas, não coisas psicológicas – onde está o medo então? Então voltamos para a palavra, para o verbo « ser/estar. » O verbo « ser/estar » condicionou-nos tão profundamente – ideia de alcançar, tornar -se, chegar. Certo? Então, a esse verbo também está associada a avaliação comparativa. Eu estava infeliz ontem, eu estou feliz hoje, espero por Deus estar feliz amanhã. E amanhã é tão incerto, por isso tenho medo. Por isso pergunto-me se a mente pode observar sem comparação – eu mesmo com outro, eu mesmo com – sabe, comparação. Experimente, faça-o, e verá que se pode viver completamente dessa maneira. E portanto muito mais vivo, mais eficiente, mais direto, mais energia.

PJ: Senhor, posso citar uma experiência pessoal aqui sobre este ponto? Tenho tentado, e acho que o obstáculo é o trabalho tecnológico, porque parece haver um conflito entre a não-comparação o não-suscitar ontem, apenas consciência de agora – em termos banais – e ter que trabalhar num trabalho de tipo simbólico. Parece que não posso fazer estas coisas juntas – tenho que ser simplesmente ineficiente no trabalho ou tenho que viver uma espécie de existência esquizóide – uma agora, uma agora.

Krishnamurti: Não, senhor, dissemos isto. Voltamos ao mesmo problema. Dissemos que a mente que não tem medo pode trabalhar no campo tecnológico eficientemente porque é uma mente inteligente. Não? Agora – por favor, continuem, senhores – ora, quão profundamente está enraizada esta comparação? Como voltamos para o mesmo problema. O quê, senhor?

PJ: Algo em mim me diz para sobreviver.

Krishnamurti: A sobrevivência é matéria de comparação?

PJ: Eu acho que sim. Acho que estão relacionados. Eu acho que se eu não tiver este comando de sobreviver, não tenho medo.

Krishnamurti: A sobrevivência, senhor – a sobrevivência é matéria de comparação?

PJ: Eu acho que a mente pensa assim.

Krishnamurti: Por favor, apenas olhe para isso. Eu sobrevivo porque comparo?

PJ: Eu acho que comparo porque preciso fazê-lo, para sobreviver. Vai associado ao sobreviver.

Krishnamurti: Para sobreviver deve-se comparar?

PJ: Mas a minha mente não pensa no mundo físico, mundo técnico... [inaudível]

Krishnamurti: Ah, isso é uma coisa diferente.

PJ: OK, mas para além disso eu criei uma imagem de mim mesmo, o meu ego, o que for, e pego os mesmos processos que funcionaram aqui e faço-os trabalhar cá em cima, e digo, tenho que proteger isto tal como faço com o meu corpo, e por isso comparo, faço imagens, e por aí afora.

Krishnamurti: Por isso você está vivendo com medo constante.

PJ: É verdade, mas parecem estar empilhados no topo...

Krishnamurti: Obviamente, senhor, obviamente. O mesmo mecanismo é transferido.

PJ: Certo.

Krishnamurti: A sobrevivência, quero dizer, a comparação é necessária para sobreviver? Ou porque nós comparamos, e pensando que é necessário para sobreviver, usando a comparação como sobrevivência produziu o perigo da não-sobrevivência. A América é mais forte do que a Rússia, A Índia é mais forte do que qualquer outro pequeno país, e por aí afora – dividir, dividir, dividir, o que nos está destruindo. A própria exigência de sobrevivência através da comparação – Eu sou mais forte que você – está nos destruindo. Por isso não nos está dando a sobrevivência. Não, não. Não nos está ajudando a sobreviver.

PJ: Acho que ele está falando sobre sucesso, comparado com a sobrevivência.

Krishnamurti: Ah, sucesso – essa é outra dessas palavras horríveis.

PJ: Eu acho que não teria nenhum medo se algo não me dissesse para sobreviver.

Krishnamurti: Quer dizer, a sobrevivência você equacioná-la com o sucesso, é assim senhor?

PJ: Não, o sucesso para mim é uma questão à parte, mas algo diz sobreviva, um impulso – algo de dentro.

Krishnamurti: O que quer dizer sobreviva? Você está sobrevivendo.

PJ: Sim. E essa é a origem do meu medo. Se eu não tivesse medo de morrer, eu não teria quaisquer outros medos.

Krishnamurti: Espere, senhor, veja – medo de morrer.

PJ: Sim.

Krishnamurti: O que quer dizer isso? Você está vivendo. Amanhã pode acontecer algo e você morrerá. Não você, quero dizer, claro. Por isso você tem medo, que quer dizer comparar. Senhor, é tão...

PJ: Sim.

Krishnamurti: Então pode a mente observar sem comparação? Senhor, faça isso e verá. Que quer dizer, nenhum herói, nenhum princípio, nenhuma fórmula, nenhum ideal, Percebe, senhor? Não amanhã. Experimente, você verá. Faça isso, verá que coisa extraordinária acontece – nenhum fator de comparação. Portanto se não há comparação, o que é bom ou mau? Oh, não devo abordar isso, isso é muito difícil. Percebe, senhor? O que é a virtude? Apenas conhecemos a virtude através da comparação. Certo? Se a mente estiver completamente livre de comparação, portanto medo, o que é a virtude? Oh!

PJ: Tenho uma pergunta e não tenho certeza de como pô-la claramente. Pergunto-me se é possível abordar inocentemente um problema tecnológico, quer dizer se se pode ter uma mente clara sem comparação.

Krishnamurti: Então está aprendendo sobre a coisa tecnológica cada dia que está fazendo isto.

PJ: Sim, mas agora digamos, aqui está um cogumelo, e eu o como ou não o como. Agora tenho que comparar.

Krishnamurti: Senhor, já o dissemos. Claro, porque senão você morre.

PJ: Certo, certo. Então no nível tecnológico eu posso...

Krishnamurti: Já dissemos isso. Exatamente, tenho que comparar porque senão serei...

PJ: Tem que saber que uma milha é maior que uma jarda.

Krishnamurti: Não, não, isto é muito interessante. Se a virtude existisse, no sentido simples e aceitável dessa palavra, quando não há medo e portanto não há comparação, ou melhor, quando não há comparação, portanto não há medo.

PJ: Sem bem ou mal de todo.

Krishnamurti: Não, não... Não, não... Obviamente há bem. Quero dizer, vê, o momento que você... Vamos encontrar-nos de novo do domingo... no próximo sábado e resolver isto. Não, não temos que deixar isto. Temos que aprofundar isto, seja o medo, a comparação, tão profundamente enraizados, é... Expô-lo completamente e ficar livre dele. Senão o medo tem que existir. Essa exposição acontece através dos sonhos, com todas as complicações dos sonhos, e a análise dos sonhos – embora a análise possa acontecer enquanto você está sonhando. Tudo isso implica gradualidade e portanto tempo, e portanto medo, não conseguir. Sim, senhor! Percebeu? Então, a percepção é uma questão de tempo? Ou ver a verdade ou a falsidade do medo, da comparação, ver isso, a verdade disso, a compreensão disso, é uma questão de tempo? Se eu perceber isto, percebi toda a estrutura do inconsciente. Oh, é melhor pararmos. Certo? Desculpem.

Sixth Small Group Discussion, Malibu, USA

Sunday, March 22, 1970

© 2016 Copyright by Krishnamurti Foundations

Exceto quando houver diferente indicação, o conteúdo deste site está licenciado sob a 'Creative Commons Attribution 4.0 International License'
Web Statistics