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Diálogos com Estudantes 2

Second Disussion with Students at Rishi Valley

Tuesday, December 18, 1984

Krishnamurti: Sobre o que vamos conversar? Sobre o que vocês gostariam de falar?

Student: Morte

Krishnamurti: Quer falar sobre a morte? Não são muito jovens para falar sobre a morte?

Student: Vamos continuar com o que conversamos na última vez.

Krishnamurti: Falamos sobre o que na última vez?

Student: Preconceito e insegurança.

Krishnamurti: Isso mesmo. Vocês têm muitos preconceitos? Têm, não têm? Muitos. Eles são divertidos? Vocês gostam deles? Sabem o que o preconceito faz? Suponham que eu tenha preconceito contra alguém. Contra quem vocês gostariam que eu tivesse preconceito? Alguma sugestão? Vamos supor que eu tenha preconceito contra Rajesh. Lá está ele, eu vi seu olhar! Sabem o que acontece se eu tiver preconceitos contra ele? Não vou entendê-lo, não é? Meus preconceitos me atrapalham compreender Rajesh.

Student: Preconceitos a favor dele?

Krishnamurti: Você, venha para cá. Vamos!

Student: Preconceito a favor dele?

Krishnamurti: Contra ele. Seja porque eu gosto dele e por isso tenho preconceitos a seu favor... ... ou seja porque eu não gosto dele e tenho preconceitos contra ele. Certo? Agora, o que acontece se eu tenho preconceitos?

Student: Você não o compreende.

Krishnamurti: Não o compreendo, não vejo com clareza o que ele diz. Não quero entendê-lo. Portanto, é como um vidro escuro – entendem? Se tenho um vidro escuro na janela... ... não posso ver o sol com clareza, não é?

Student: Não.

Krishnamurti: Então, os preconceitos atuam desse modo. Tenho preconceitos contra ele, eles se tornam um bloqueio. Certo? Portanto, não o entendo. Agora, você deixará de ter preconceitos... ...se eu parar de ter os meus? Pense nisso com calma. Todos vocês vão deixar de ter preconceitos... ...e tentarão entender alguém? Se seus preconceitos forem a meu favor... ... vocês não vão me compreender. Certo? Se forem contra mim, também não me entenderão. Certo? Então, vocês deixarão de ter preconceitos?

Student: Quando nós dois temos preconceitos um contra o outro... ... então como sabemos o que... [inaudível]

Krishnamurti: Primeiro, não tenham preconceitos e aprendam o que acontece. Certo? Vão aprender? Ou são muito jovens?

Student: Mas é muito difícil abandonar as opiniões quando já estão formadas.

Krishnamurti: Você pode abandoná-las, não pode?

Student: Como?

Krishnamurti: Vocês têm opiniões contra mim, a meu favor? Vocês têm?

Student: Senhor, se esperamos algo do senhor, temos uma opinião sobre o senhor?

Krishnamurti: Não, não. Se você espera que eu lhe dê boas notas porque... ...eu gosto de você, isso é um preconceito.

Student: Suponha que eu espere que você não faça uma hora chata. Isso é um preconceito?

Krishnamurti: Não entendi a última palavra. Devagar.

Student: Suponha que eu espere que o senhor não faça uma hora chata. Tenho uma hora de aula com o senhor, vamos dizer. E eu não quero que ela seja chata.

Krishnamurti: Você não quer que ela seja chata, e daí?

Student: Então, isso é preconceito, eu esperar que ela não seja chata?

Krishnamurti: Isso não é preconceito, meu rapaz.

Student: Como quando se prejulga.

Krishnamurti: Prejulgamento não é preconceito. É quase um preconceito. Se eu prejulgo você, não posso ver você diretamente, não é?

Student: Senhor, não é preconceito se eu espero que a aula seja interessante?

Krishnamurti: Venha para cá, esse é o seu castigo!

Student: Não é preconceito... ... se eu espero que a aula seja interessante e acho que ela não é?

Krishnamurti: Eu não vi você aqui no outro dia?

Student: Sim.

Krishnamurti: Sim, tudo bem. O que você estava dizendo?

Student: Não é preconceito se eu espero que a aula... ...seja interessante e a acho chata?

Krishnamurti: Isso não é preconceito. Quero lhe ensinar algo sobre as flores. Olhe para todas aquelas flores. Maravilhosas, não é? Quero conversar com você sobre isso e você poderia achar chato. Isso não é preconceito.

Student: Mas, então, é um prejulgamento da aula.

Krishnamurti: Não, quero lhe dizer: olhe aquelas lindas flores, como parecem bonitas ... e a grama verde, a cerca viva verde, quero mostrá-las a você.

Student: Mas não estou esperando nada delas.

Krishnamurti: Estou pedindo para você olhar e você nem mesmo olha. Isso não é preconceito. Estou lhe pedindo: olhe aquelas flores... ... o verde, os diferentes tipos de verde, e as flores amarelas. E, então, digo: olhe para todas as pessoas à sua volta... ... todos esses garotos e garotas, olhe para eles cuidadosamente. Todos eles: aqueles meninos que estão sentados lá fora... ... que não querem conversar... ... e todas aquelas pessoas que estão sentadas aqui, observe todas elas. Isso é preconceito? Ou você não quer observá-las e.. ...por isso, considera que é uma enorme chatice.

Student: Não, não sei de nada, então eu...

Krishnamurti: Apenas observe-as. Você não sabe nada sobre aquelas flores, sabe?

Student: Não.

Krishnamurti: Você vê a beleza disso. Vê a beleza de tudo isso? O verde, as variedades de flores, cores. A cor significa algo para você?

Student: Bem, parece bonito nas árvores e nas flores.

Krishnamurti: Não, eu disse cor... ... não a flor que é especialmente bela, apenas a cor. Agora, quem tem a cor mais brilhosa aqui? Aquela menina com a blusa vermelha. A cor significa algo pra você?

Student: Pode significar muitas coisas.

Krishnamurti: Não, estou perguntando sobre uma coisa, minha jovem. Estou perguntando a vocês, senhores, lá fora... ...aquelas cores neste vale e a rocha naquela colina... ...não sei como vocês chamam aquela colina... ... e aquela rocha iluminada pelo sol da manhã. Isso significa algo pra vocês? Quando olham toda essa beleza em torno de vocês, significa alguma coisa? Vocês apreciam todo este vale extraordinário?

Student: [inaudível]

Krishnamurti: Venha cá, há muito espaço aqui! Sente aqui, vamos, minha jovem, não seja tímida. Muito bem.

Student: Quando você vê tudo isso todas as manhãs e se sente feliz... ...significa que você viu algo agradável. Então isso realmente significa algo para você... ... seu coração pode se regozijar.

Krishnamurti: Mas você se acostuma com isso?

Student: Sim, você se acostuma a vê-lo.

Krishnamurti: Por que se acostuma com isso?

Student: Porque vê todos os dias.

Krishnamurti: Eu sei. Apenas ouça: se você se acostuma comigo... ... e eu me acostumo com você, o que acontece? Não escuto o que você está falando... ... e você não escuta o que eu estou falando. Não é?

Student: Não entendo. Sempre se pode escutar alguém. Posso estar saindo com uma pessoa todos os dias... ...mas ainda assim posso conhecer aquela pessoa... ...isso significa não conhecer aquela pessoa.

Krishnamurti: Claro.Não se acostume com nada. É o modo de se manter viva. Se você olha para aquelas flores. Olhe para elas. Vire-se e olhe para elas. Olhe com cuidado. Olhe para o Kabir, sentado lá adiante... ... e a Sra. Jayakar e Radhikaji, ali, contra o fundo. Não é bonito? E você se acostuma com isso?

Student: Sim.

Krishnamurti: Sim, por quê?

Student: Porque vejo isso todo dia.

Krishnamurti: Não, beleza não é ver alguma coisa todo dia... ...que mais tarde, no mesmo dia, vai estar totalmente diferente, não é?

Student: Sim.

Krishnamurti: No meio da tarde vai estar muito mais brilhante... ...e, conforme for anoitecendo, terá cores totalmente diferentes, não é? Pode se acostumar com isso? Não pode, pode? Portanto, não se acostume com nada: ...não se acostume com seu pai, sua mãe ou seus professores.

Student: Mas, temos uma rotina na escola... ...e nos acostumamos a ela. O que é diferente numa rotina diária?

Krishnamurti: Então sua mente se torna rotina... ...sua mente fica dando voltas como um toca-discos.

Student: Bem, isso não significa que eu penso da mesma maneira todo dia... ...mas a rotina, as coisas que fazemos todo dia, levantamos às 5:30h... ...tomamos café da manhã, vamos para as aulas, isso é uma rotina.

Krishnamurti: Não, espere um pouco. Espere um pouco. Por que você chama isso de rotina?

Student: Porque é o que acontece todo dia.

Krishnamurti: Escute o que estou falando, não responda tão depressa. Por que você chama isso de rotina?

Student: Porque nós fazemos isso todo dia.

Krishnamurti: Você faz tudo todo dia e chama isso de rotina... ...ou você está consciente do que está fazendo todo dia? Sabe o que está fazendo? Acordar de manhã às 5:30... ...higiene e tudo mais. Você está consciente de que está fazendo isso? Você presta atenção ao que está fazendo? Ou faz tudo casualmente e prossegue?

Student: Sim, faço tudo casualmente.

Student: Nem sempre.

Krishnamurti: Estou perguntando se você faz tudo isso todo dia... ... consciente, atento, sabendo o que você está fazendo... Quando está escovando os dentes, você sabe que está escovando os dentes? Você observa bem cuidadosamente?

Student: Não.

Krishnamurti: Por quê? Se você observar atentamente, nunca vai se tornar rotina. Entende o que estou dizendo? Você ainda está aqui? Bom! Você observa cuidadosamente tudo o que está fazendo todos os dias? Por quê? Se você observa tudo que faz todo dia, isso lhe dá muito mais... ...consciente, você observa tudo então. Você vê todos aqueles pés de tamarindo com seus frutos... ...e aquela rocha que está lá. É algo extraordinário de se ver.

Student: É.

Krishnamurti: Você vai fazer isso?

Student: Eu faço isso.

Krishnamurti: Todo dia, todo minuto, não apenas um dia, casualmente. Observe o tempo todo, observe as pessoas o tempo todo, ...observe o que elas dizem... ...como se vestem e todas as rochas aqui, e as árvores. Observando você aprende muito mais. Vai fazer isso? Se me disser que vai fazer isso... ...se prometer, deverá manter sua promessa. Ou, então, não prometa. Certo? Não prometa se não pode cumprir. Vai prometer? Cuidado!

Student: Não.

Krishnamurti: Certíssimo! Quando você não observa cuidadosamente tudo o que está fazendo... ...o que você diz, como se veste... ...como escova os dentes, e assim por diante... ...sua mente torna-se rotineira, mecânica. Entende? Se sua mente se torna observadora... ...então tudo o que você está fazendo torna-se muito mais divertido.

Student: Não é um algo mecânico mesmo se você observa?

Krishnamurti: Não, depende de como observa. Nada se torna mecânico se sabe como observar.

Student: Como se observa?

Krishnamurti: Vou lhe dizer. Vai fazê-lo primeiro?

Student: Vou tentar.

Krishnamurti: Não tente, faça.

Student: É fácil falar.

Krishnamurti: Sei que é fácil. Todos vocês querem estar bem confortáveis, tranqüilos. Mas eu lhes direi como observar -não « como'- o que significa observar. Vou lhes dizer o que significa observar. Vocês vão acompanhar com atenção?

Student: Senhor, observar, então, não se tornará uma rotina?

Krishnamurti: Claro que não. Mas ainda não lhes disse o que significa observar. Aí, então, vocês podem chamar ou não de rotina. Certo? Vocês vão aprender a partir do que eu estou dizendo? Aprender, descobrir, vão? Pedi a você, olhe aquelas flores... ...veja a beleza delas, veja sua cor, desfrute-a, divirta-se com isso. Não as machuque. Sabe? Vou lhe dizer. Os cientistas, os biólogos... ...descobriram que as árvores se comunicam entre si. Se uma árvore adoece – entende?... ...ela diz para as outras: tomem cuidado, protejam-se de mim. Entende? Elas são muito mais inteligentes que os seres humanos em alguns aspectos... porque quando você adoece, não fala para os outros: fiquem longe de mim!

Student: Claro que se faz isso, senhor

Krishnamurti: Você faz?

Student: Se você está com conjuntivite...

Krishnamurti: Um minuto. Agora eu vou lhe mostrar como observar, vai aprender?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Sim? Bom. Primeiro você observa com os olhos, não é? Olhe para aquelas amendoeiras, pés de tamarindo, olhe para elas, olhe-as. Você as vê?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Agora, espere, observe. E você vê as rochas lá atrás?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Agora, como você observa isso? Você está pensando enquanto observa?

Student: Não, senhor.

Krishnamurti: Você aprendeu alguma coisa, não é? Que não está pensando enquanto observa.

Student: Certo.

Krishnamurti: Certo? Então, você observa apenas com os olhos? Ou observa de forma completa? Não apenas com os olhos, mas a percepção da coisa, sua cor... ...a profundidade das árvores, as sombras... ...as pequenas sombras, você as vê? Vê aquelas libélulas voando?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Então, você vê tudo quando está observando. Certo? Concorda? Então, quando você observa com muito cuidado... ...desse modo que estou lhe mostrando... ...então você me observa, ou observa outra pessoa... ...com muito cuidado, o que acontece? Você tem um amigo aqui, não tem?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Observe-o.

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Quem é o seu amigo, é aquele garoto?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Certo. Achei que era... ...achei que era seu amigo, você dois sentaram juntos e sorriram juntos. Agora, observe-o, ou observe outra pessoa. Observe-os com cuidado, como sentam, a aparência deles.

Student: Não consigo observá-los, senhor, eles estão rindo.

Krishnamurti: Estão rindo? Então, veja-os rindo. De modo que quando você observa com muito cuidado... ...começa a ver coisas que nunca tinha visto antes. Certo? Se observou com cuidado, você viu todas aquelas libélulas, você viu as... ...as sombras bem lá embaixo, há um homem andando de bicicleta, você vê?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Então quando você observa, começa a aprender muito mais. Agora, o próximo passo é não apenas observar com os olhos... ...mas também escutar todos os ruídos. Ouça com cuidado. Pessoas tossindo, pessoas se mexendo... ...nunca ficam sentadas e quietas. Certo? Veja e escute. Certo? Então, observe, escute e aprenda.

Student: Há aprendizado enquanto você está observando e escutando?

Krishnamurti: Ainda não terminei, meu rapaz. Descubra o que é aprender. Agora escute com cuidado, escute com cuidado. Quando você observa e escuta, está aprendendo, não apenas memorizando... ...está aprendendo a ver todas as coisas que acontecem à sua volta. Certo? Está fazendo isso? Quem está ali? Olhe, você aprende com os livros, não é? Ou aprende Matemática?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: O que mais está aprendendo?

Student: História, nós estamos aprendendo biologia, química, geografia.

Krishnamurti: Já é muito! Inglês, matemática, geografia, história, química.

Student: Biologia.

Krishnamurti: Biologia.

Student: Física.

Krishnamurti: Você deve ser um grande homem! Agora – estou brincando, certo?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Quando você está aprendendo, o que está acontecendo? Você tem um livro, seu educador aponta, o professor informa você. Você está memorizando, não está?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: O que é memorizar? Você está gravando, assim como está gravado em um disco de toca-discos. Entende o que estou dizendo?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Você tem um toca-discos na sua escola, não tem?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Você coloca um disco e ele repete, repete, repete. Certo?

Student: Certo.

Krishnamurti: Você está fazendo isso?

Student: Enquanto estudo, sim.

Krishnamurti: Você está memorizando, não aprendendo. Você está memorizando. Certo? Porque no final do período... ...você vai ser examinado. E precisa responder rapidamente, então você memoriza. Agora, memorizar é uma gravação em um toca-discos... ...repetindo, repetindo, repetindo. Certo?

Student: Sim.

Krishnamurti: Isso é aprender?

Student: Quero dizer que quando você está começando a memorizar... ... então está aprendendo.

Krishnamurti: Não. No começo. Posteriormente, você repete.

Student: Sim, posteriormente não é aprender.

Krishnamurti: Finalmente. Entendeu? Aprendeu isso? Você vê algo? Suponha que eu não fale alemão. Não sei alemão, eu falo italiano, francês, um pouco de inglês... ...um pouco de francês, um pouco de italiano. Se eu quiser aprender alemão, tenho que estudar alemão, não tenho? Tenho que prestar atenção às palavras... ...como são pronunciadas, seu significado... ... os verbos irregulares e assim por diante, tudo que eu estudo... Certo? Meu cérebro grava tudo – todas as palavras alemãs... ...a sintaxe, os verbos irregulares, ele memoriza, ou seja, grava. O cérebro grava e então, ao fim de quatro meses... ...três meses, seja lá quantos forem, você começa a falar alemão. Certo? Quando você grava desse modo o tempo todo... ...é como um toca-discos que está gravando.

Student: Então, isso é apenas memorizar, não é aprender.

Krishnamurti: É isso, isso é tudo o que estou dizendo. Memorizar não é aprender.

Student: Então, pela observação, você aprende.

Krishnamurti: Espere, primeiro veja isso. Primeiro veja que memorizar não é aprender.

Student: Até você terminar...

Krishnamurti: Espere! Você está muito rápido. Mas você vê esse fato, que memorizar não é aprender? Memorização é repetição, porque você tem que passar num exame... ...tem que conseguir um trabalho. Certo? Então, aprender não é memorizar. O que é aprender, afinal?

Student: Senhor, isso significa que cada vez... ...que você observa, está aprendendo algo?

Krishnamurti: Isso mesmo. Certo, você disse uma verdade. Cada vez que observa, está aprendendo, porque as coisas mudam. Entende? Se você está observando aquelas árvores de manhã bem cedo... ...elas têm uma luz bem diferente, não têm? Mais à tarde, têm uma outra luz, há um movimento diferente... ...sombras diferentes, cores diferentes, você está aprendendo.

Student: Cada vez que você...

Krishnamurti: Venha cá! Vou acabar tendo toda a classe aqui em volta. Dê um lugar para ela, meu rapaz.

Student: Senhor, quando você vê pessoas, quando as vê todos os dias...

Krishnamurti: Não se acostume a ver as pessoas todos os dias. Observe-as.

Student: Mas nem sempre há algo novo nelas.

Krishnamurti: Como sabe?

Student: Senhor, acho que não. Sempre as mesmas...

Krishnamurti: Sabe, suas células corporais estão mudando... ...portanto, as pessoas estão mudando. Não sou o mesmo que você viu ontem, posso ter mudado... ...ter me transformado, poderia fazer todo tipo de coisas. Sou um ser vivo, apenas as coisas mortas não mudam.

Student: E, se observarmos as pessoas, então podemos descobrir?

Krishnamurti: Correto. Se as observa, você aprende, porque quando observa aquelas árvores... ...logo de manhã cedo, elas estão diferentes. Certo? Cor diferente, movimento diferente, intensidade de luz diferente. Certo? Sombras diferentes. É exatamente como o ser humano.

Student: Senhor, vejo a mudança nas árvores... ...mas não sei porque não vejo isso nas pessoas.

Krishnamurti: Porque você é preguiçosa... ...porque não quer olhar cuidadosamente para as pessoas. Certo?

Student: Sim.

Krishnamurti: Então, observar, escutar e, por isso, aprender, não memorizar. Está claro?

Student: Sim.

Krishnamurti: Mas faça isso. Na Índia, particularmente, eles têm muitas teorias, sobre Deus... ...sobre o paraíso, sobre muitas dessas coisas... ...nada a ver com suas vidas diárias. Certo? A vida cotidiana conta muito mais que seus deuses e teorias. Certo? Então, observe sua vida. Quando prometer alguma coisa, sempre cumpra. Então, não prometa sem compreender que deve manter a promessa.

Student: Então, você observa o que diz, observa o que está fazendo. Como quando eu observo um pé de tamarindo... ...devo ter dentro de mim a compreensão de que também estou observando.

Krishnamurti: Sim, você está se observando. Estou observando aquelas árvores e também a mim mesmo. Estou observando o que estou dizendo... ..se digo a verdade ou minto, estou observando meus vários aborrecimentos ...incômodos, raiva, ciúme, medo, estou consciente de tudo isso. Entende? Enquanto tenho consciência daquelas flores... ...tenho consciência também de mim mesmo. Certo? É muito mais divertido se observar porque você está mudando... ...você está diferente. Uma manhã está deprimido... ...na manhã seguinte, feliz, na terceira manhã está irritado. Certo? Vai fazer tudo isso ou apenas diz que sim, sim, e continua tudo na mesma?

Student: Tenho me observado.

Krishnamurti: Vai fazê-lo?

Student: Sim.

Krishnamurti: Promete?

Student: Sim, eu vou fazer.

Student: Não. Vou tentar.

Krishnamurti: Promete? Cuidado!

Student: Acho que vou, senhor.

Krishnamurti: Não diga, « você acha que vai ». Mas promete fazer isso todos os dias? Significa que deve manter a promessa. Não prometa agora.

Student: Vou tentar fazer.

Krishnamurti: Tentar não. Ou vai fazer ou não vai.

Student: Mas eu quero fazer.

Krishnamurti: Então faça. Veja, apenas escute, se você fizer isso... ... vai se tornar extraordinariamente vivo... ...seu cérebro se tornará extraordinário, muito sensível. Certo?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Vocês não são sensíveis. São muito jovens, não são sensíveis.

Student: Às vezes, quando estou pensando em alguma coisa... ...não percebo que estou pensando... ...de tão envolvida com aquele pensamento. Ao passo que outras vezes, suponha que esteja observando uma árvore... ...eu sei que estou observando uma árvore. Estou consciente de que estou observando uma árvore... ...e estou observando-a ao mesmo tempo. Já em outras vezes, estou pensando e não percebo que estou pensando. Portanto, não estou me observando naquele momento.

Krishnamurti: Espere, espere. Perceba que você está pensando. Observe seu pensar. Por que pensa, o que faz você pensar daquele jeito... ...observe, observe tudo que está fazendo.

Student: Senhor, mas, às vezes, estou tão envolvida com aquele pensamento.

Krishnamurti: Apenas ouça atentamente. Agora ouça. Estamos conversando, não estamos? Então estamos pensando também. Certo? E podemos pensar silenciosamente e colocar isso em palavras. Certo? É isso o que estamos fazendo agora. Você pensa e coloca isso em palavras. E você quer me dizer algo... ...de modo que tenho muito cuidado ao expressar o que quero lhe dizer.

Student: Senhor, mas às vezes você não pensa e expressa em palavras... ...as palavras vêm.

Krishnamurti: Sim. Por que é assim?

Student: Senhor, não se torna mecânico novamente?

Krishnamurti: É exatamente o que estou dizendo: não se torne mecânico. Não se torne mecânico. Você usa óculos, certo? Descubra se você pode enxergar sem óculos.

Student: Não posso.

Krishnamurti: Não diga que não pode.

Student: Não consigo ver nada sem meus óculos.

Krishnamurti: Descubra, minha jovem! Estou nos noventa e não uso óculos. Sabe por quê?

Student: Porque pode enxergar sem eles.

Krishnamurti: Você está maluca!

Student: Senhor, mas ela sabe que não pode ver sem óculos, ela já tentou tudo.

Student: Sim, é por isso que uso óculos.

Krishnamurti: Descubra se pode ver claramente sem óculos. Se não consegue, então descubra se pode fazer exercícios para os olhos.

Student: Eu faço.

Krishnamurti: Isso pode ajudar. Mas se continuar dizendo « Eu preciso usar óculos, eu preciso usar óculos ».

Student: Não, não faço isso.

Krishnamurti: Mas está fazendo quando diz « Não posso ver sem meus óculos ».

Student: É porque é um fato... ...mas estou fazendo exercícios para ver sem óculos.

Krishnamurti: Então tire os óculos e faça um esforço.

Student: Uma pergunta, senhor: pediu-nos... ...para começar a aprender e parar de memorizar.

Krishnamurti: Memorizar, como lhe expliquei... ...rapaz – ouça com atenção – memorizar torna-se mecânico. Certo?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: O cérebro, que está aqui dentro do crânio, está sempre gravando.

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Eu digo: esta é amarela, esta é verde. Certo? Aquelas são calças. Está gravando. Certo?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Essa gravação se torna mecânica.

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: E, então, sendo mecânico, toda a sua vida se torna mecânica.

Student: Senhor, mas não é um fato que…

Krishnamurti: Espere, querida, não terminei com este rapaz. Você me interrompeu antes de eu ter terminado. Certo? Faça sua pergunta depois. Lembre-se dela. Entende? Se eu estou gravando o tempo todo – verde, branco, vermelho, amarelo... ...ele é meu amigo, ele não é meu amigo – certo – é como um toca-discos.

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Certo? Portanto, memorizar não é aprender. Aprender é sempre alguma coisa nova.

Student: Como quando você está estudando algo.

Krishnamurti: Você tem que aprender aquilo. Tem que estudar aquilo.

Student: Temos que memorizar em seguida.

Krishnamurti: Espere um minuto. Eu sou seu professor. E quero lhe ensinar História. Certo?

Student: Sim.

Krishnamurti: Quero lhe ensinar História. Você deve saber todos os reis e toda aquela bobagem. Certo?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: É uma bobagem. Precisar saber quem foi o rei da Índia... ...no século XV e assim por diante. Certo?

Student: Por que o senhor chama isso de bobagem?

Krishnamurti: É tolice. No final das contas, isso não afeta sua vida em nada, não é?

Student: Mas se quiser tornar-se alguma coisa ou fazer um curso.

Krishnamurti: É isso,você memoriza para se tornar um professor universitário.

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Sim, senhor. Você memoriza para ganhar mais dinheiro.

Student: Ganhar o quê?

Krishnamurti: Dinheiro, emprego melhor.

Student: Não necessariamente, senhor.

Krishnamurti: Ah, sim. Se não tiver boa memória, não terá um bom trabalho. Já observou os carpinteiros? Aqueles que fazem mobílias lindas? Eu já. Eles têm que conhecer a qualidade da madeira. Certo? A qualidade da textura e assim por diante, e o instrumento que usam. Eles são muito atentos para poderem memorizar... ...primeiro tornam-se aprendizes de um outro carpinteiro... ...aprendem com ele, memorizam e, então, se tornam bons carpinteiros. Certo? Agora quero lhe ensinar História – apenas ouça quieto, está bem? Vai ouvir ou está em algum outro lugar?

Student: Estou ouvindo, sim.

Krishnamurti: Bom. Quero lhe ensinar História. História significa narrativa. Certo? É uma história de todos os reis do passado... ...rainhas, todas as guerras etc., etc.

Student: Certo, senhor.

Krishnamurti: História também significa história sobre você mesmo.

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: História sobre o que está acontecendo no mundo... ...e também história sobre você mesmo. Sua história é muito mais interessante que a história de todos os reis.

Student: Eu concordo, senhor.

Krishnamurti: Concorda? Certo, senhor. Então, não vou falar apenas sobre a História de acordo com os livros... ...mas vou também lhe falar sobre a sua própria história.

Student: Mas não é o que damos em aula.

Krishnamurti: Eu sei que não dão. Eu disse que se eu fosse seu professor, faria isso. Entende?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Eu combinaria os dois – o livro e também sobre você mesmo.

Student: É uma possibilidade muito remota o senhor vir a ser professor.

Krishnamurti: O quê? Devagar. Devagar.

Student: Senhor, o senhor jamais poderia ser professor.

Krishnamurti: Por que não?

Student: Não de uma matéria como essa.

Krishnamurti: Ah, eu disse que combinaria ambos. Combinaria o livro. Certo? E também combinaria a história de alguém. A história de alguém é a história de toda a humanidade. Certo?

Student: Então, a história da humanidade é a história de alguém.

Krishnamurti: Que é você.

Student: Então, se estudarmos a humanidade toda, estaremos estudando nós mesmos.

Krishnamurti: Correto.

Student: Então estamos estudando a humanidade toda.

Krishnamurti: Você não está escutando o que estou falando, rapaz. Estou falando, dizendo-lhe, se eu fosse um professor de História... ...história vem do latim « storia » – storia significa história. Em italiano é storia, vem do latim. Agora, vou falar sobre o que? Quem foi seu rei no século XV.

Student: Existem tantos reis, senhor.

Krishnamurti: Muitos reis, correto. Dê-me um de seus nomes. Vamos, pessoal.

Student: Babu.

Krishnamurti: Barbeiro?

Student: Não, B-a-b-u.

Krishnamurti: Achei que você disse um barbeiro! Tudo bem, é uma brincadeira. Então, eu lhe ensinaria, diria, Babu era o pai de Humula, certo? E o filho de Humula era Agba – certo? Então falaria sobre isso tudo. Certo. Também diria, e sobre você? Você também é história, você é uma grande história, muito maior que Agba. Certo?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Portanto, eu conversaria com você sobre você. Eu diria, o que você é? Você tem um livro sobre você dentro de você. Aprenda a ler esse livro, entende?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Tem certeza de que entende o que estou dizendo? Não diga: sim, senhor. Estou dizendo, o livro sobre Agba... ...existem muitos volumes que foram escritos sobre Agba. E existe também um volume dentro de você, o que você é.

Student: Então o senhor disse que…

Krishnamurti: Você está ouvindo o que estou dizendo?

Student: Sim.

Krishnamurti: Há um livro dentro de você que deve aprender a ler. Mas você negligencia a leitura desse livro. Vou cuidar para que você aprenda a ler esse livro... ...não apenas o livro de Agba, mas o livro sobre você mesmo. Então, vou examinar isso. Eu lhe ensinaria desse modo. É a maneira mais maravilhosa de aprender... ... não apenas o que está acontecendo no mundo fora de você... ...mas o livro extraordinário que você tem dentro de si... ...o livro que é o resto da humanidade – não apenas a história da Índia.

Student: Senhor, então, por que isso não acontece?

Krishnamurti: Porque seus professores não fazem isso.

Student: O senhor é o Presidente da Fundação, por que não faz alguma coisa?

Krishnamurti: Sou o Presidente da Fundação... ...ele diz, por que não faz alguma coisa sobre isso? Você está certíssimo, senhor. Mas eles não darão atenção. Espere, eles não darão atenção.

Student: Mas eles são como nós.

Krishnamurti: Certíssimo.

Student: Provavelmente, eles…

Krishnamurti: Apenas ouça com atenção. Os professores são como vocês, apenas muito mais crescidos. Certo? Não estou insultando-os. Entende? Sou muito educado, respeitoso, respeito as pessoas, não as insulto. Eles são como vocês, portanto, aprendam uns com os outros. Entende? Estou aprendendo agora com vocês. Por que vocês dizem coisas e não falam sério? Entende?

Student: Sim,senhor.

Krishnamurti: Por que diz sim, senhor, sim, senhor, sim, senhor, e não fala sério?

Student: Sim, eu falo sério.

Krishnamurti: Isso significa que você vive isso.

Student: Meu « sim » significou que eu entendi aquilo.

Krishnamurti: Primeiro entenda, mas viva isso. Certo?

Student: Então eu não tenho essa espécie de....

Krishnamurti: Ouça, meu jovem, não diga nada em sua vida se você não viver isso. Se você não vive isso, você torna-se um hipócrita. Certo? Dizer uma coisa e fazer outra, isso é hipocrisia. Certo?

Student: Senhor, não estou dizendo nada... ...estou dizendo que entendo o que o senhor está dizendo.

Krishnamurti: Eu lhe disse: entenda o que estou dizendo. Eu disse: não diga nada que você não leve a sério. Se você fala sério, diga alguma coisa, e se estiver certo, seja honesto. Se você diz « Eu minto », diga « Eu menti, senhor ». Isso é honestidade. Certo? Se você está zangado, « Sim, eu estou zangado », não finja. Os adultos fingem. Esta é a única diferença.

Student: Todo mundo é diferente. Certo? Ninguém pode ser igual.

Krishnamurti: Sim, senhor.

Student: Quero dizer que eu digo a todos honestamente como estou zangado... ...eu sou isso, ninguém vai dizer que está zangado também.

Krishnamurti: O quê?

Student: Suponha que estou brigando com alguém...

Krishnamurti: Por que você briga com alguém?

Student: Porque ele…

Krishnamurti: Ei! Por que você briga com alguém?

Student: Porque discordamos sobre alguma coisa.

Krishnamurti: Por que acontece essa discórdia com você? Aprenda, não diga, eu discordo dele e brigo com ele, aprenda. Se você brigar agora... ...quando crescer, também vai brigar, o que se torna violência. Você sabe que a violência está se espalhando... ...pelo mundo todo, sabe disso, não sabe? Estão matando uns aos outros, guerras, terroristas, você sabe. Entende? Estão matando uns aos outros, isso é uma tremenda violência no mundo. Portanto, não seja violento, não se zangue. Quando você se zangar, diga « Estou zangado, peço desculpas », não brigue.

Student: Se você não brigar, o outro pode tirar vantagem de você e agredi-lo.

Krishnamurti: Talvez não. Se eu não ficar zangado com o homem... ...que quer ficar zangado, ele poderia se acalmar.

Student: Poderia.

Krishnamurti: Poderia, eu disse, poderia.

Student: Mas, depois…

Krishnamurti: Espere, espere.

Student: Mas suponha que a outra pessoa vai me bater... ...exatamente porque não me zanguei com ela?

Krishnamurti: Se eu não reagir, entende? Você está zangado comigo – certo? Suponha que você esteja zangado comigo, não vou reagir a você... ...não vou ficar zangado, não vou bater-lhe de volta: veja o que acontece.

Student: Senhor, algumas vezes isso pode irritar a pessoa.

Krishnamurti: Não « algumas vezes ». Veja o que acontece se você ficar zangado comigo... ...e eu não ficar zangado com você também, algo acontece entre nós. Certo? Se você me chama de bobo... ...eu não reajo chamando você de bobo também, não reajo, fico quieto. Então, o meu ficar quieto afeta você... ...nem sempre, porque as pessoas não são gentis o suficiente. Então, você aprende. Meu deus! Eu queria conversar sobre algo totalmente diferente disso tudo.

Student: Senhor, não entendo onde tudo isso está nos levando.

Krishnamurti: Você não entende – ela me fez uma pergunta. Ela diz: eu não sei onde tudo isso está nos levando. Não estou levando vocês a lugar nenhum.

Student: Sobre o que estamos falando?

Krishnamurti: Estou falando sobre o seguinte: aprenda a observar... ...que é uma das coisas mais difíceis de se fazer. Aprenda a escutar e a descobrir o modo de viver... ...não apenas repetir, repetir. Certo? É isso que estou dizendo esta manhã: não se torne mecânico.

Student: Senhor, disse que queria falar sobre algo diferente. Por que não começa o assunto? Por que não começa a falar sobre alguma coisa?

Krishnamurti: Porque, senhor, eu queria descobrir o que vocês queriam primeiro. Certo? Eu queria descobrir – não é mais educado... ...descobrir sobre o que vocês queriam conversar?

Student: Bem, queremos descobrir sobre o que o senhor quer falar.

Krishnamurti: Muito bem. Agora eu posso conversar com vocês sobre isso. Certo?

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Primeiro eu lhe pergunto. Certo? Sirvo o chá primeiro a você, não a mim.

Student: Sim, senhor.

Krishnamurti: Do mesmo modo, pergunto-lhe sobre o que gostaria de conversar... ...e você passa a dizer todo tipo de coisas. Depois que você terminar... ...se houver tempo, eu vou falar sobre o que quero conversar.

Student: Sobre o que você quer conversar?

Krishnamurti: Sobre o que eu queria conversar esta manhã? Se me lembro corretamente.. ...era: vocês são sensíveis?

Student: A quê?

Krishnamurti: Sensível. Veja, sua resposta imediata é: a quê? Não estamos falando sobre « o que ». Mas dentro de si, você é sensível? Sabe o que significa ser sensível?

Student: Sentir.

Krishnamurti: Sentir.

Student: Alerta.

Krishnamurti: Alerta.

Student: Entender.

Krishnamurti: Você é sensível àquelas flores, não é? Você é sensível às pessoas?

Student: Pessoas…?

Krishnamurti: Todos em volta, esses rapazes e moças, adultos, você é sensível... ...para ver o que eles estão sentindo... ...ou como eles parecem, o que fazem, sensível?

Student: Senhor, somente às pessoas que estão à minha volta... ...a maior parte do tempo.

Krishnamurti: Sim. Nem mesmo essas.

Student: Nem todo o tempo.

Krishnamurti: Não. Então você é sensível? Você diz, de vez em quando, eu sou sensível. Isso não é o suficiente. É como ter uma batata ruim. Então, eu ia falar sobre sensibilidade. Depois ia falar sobre qual é o seu relacionamento, você entende a palavra ...qual é o seu relacionamento com o que está acontecendo no mundo? Entende o que estou perguntando? Seu relacionamento. Você se relaciona com sua mãe e seu pai. Certo? Você se relaciona de algum modo com o resto do mundo... ...com o que está acontecendo no mundo?

Student: Sim.

Krishnamurti: Espere, espere, me escute. 2500 pessoas foram mortas em Bhopal, e centenas de milhares... ...de pessoas feridas, o que você sente sobre isso?

Student: Sinto-me triste.

Krishnamurti: Sente-se triste, e então o quê?

Student: Você sente que a indiferença acontece em toda parte. Só por um pequeno vazamento de informações, enorme indiferença.

Krishnamurti: Então você é – ouça atentamente o que estou perguntando... ...você é sensível ao sofrimento das outras pessoas?

Student: Não, senhor.

Krishnamurti: Espere, fiz uma pergunta. Você é sensível ao sofrimento das outras pessoas?

Student: Senhor, com muita freqüência, sou eu que inflijo o sofrimento.

Krishnamurti: Você está sendo muito inteligente, meu rapaz. Estou lhe fazendo um pergunta, você está também perguntando outra coisa. Estou perguntando – sou tão inteligente quanto você – estou perguntando.. ...você é sensível ao sofrimento das outras pessoas, de estranhos?

Student: Não tanto quanto outros.

Krishnamurti: Você não é. É isso. Você não é. Por quê? Sabe, ontem, anteontem, eu estava andando por aí e... ...havia duas garotas, em azul com listras brancas, estudantes. Elas caminham dez quilômetros para ir e dez para voltar, vinte por dia. Você é sensível a como elas se sentem por caminharem todos os dias?

Student: Não, senhor, porque isso não me afeta. Não afeta minha vida.

Krishnamurti: Muito bem. Então você não é sensível aos outros.

Student: Só a mim mesmo.

Krishnamurti: Você é egoísta.

Student: Freqüentemente você é sensível. Sente pesar por alguém, como quando as pessoas morreram em Bhopal.

Krishnamurti: Eu lhe disse, olhe, não seja inteligente comigo... ...você está consciente daqueles rapazes e moças andando 20 km por dia... ...sem terem alimento suficiente, eles estão sofrendo... ...como você se sente sobre tudo isso? Não se importa?

Student: Eu me importo.

Krishnamurti: Então, o que você faz?

Student: O que posso fazer, senhor?

Krishnamurti: Não pode fazer muito, mas pode falar com a Sra. Thomas e Sra. Radhikaji ...e dizer « olhem, vamos encontrar um modo de ajudá-los... ...vamos achar um ônibus para eles, de modo que possam ir e voltar. Você trabalha por isso, faz alguma coisa, não diz, sim. Certo? Certo? Vai fazer isso?

Student: Senhor…

Krishnamurti: Espere um minuto, estou perguntando. Você vai até as senhoras Thomas e Radhikaji... e vai dizer « por favor, senhoras, devemos fazer alguma coisa sobre isso ». Vai? Ei, você vai? Ou você não se importa?

Student: Eu realmente me importo, senhor.

Krishnamurti: Então, vá até elas, como estou indo até elas. Quero conseguir um ônibus para aquelas crianças. Eu as pegaria e as levaria de ônibus... ...ou ter uma escola para todas elas aqui ou lá – não apenas lá! Estou trabalhando, vou falar... ...vou criar problema se eles não fizerem isso.

Student: O senhor pode.

Krishnamurti: Você vai fazer, vai me ajudar a fazê-lo, não vai?

Student: Se você me disser, vou.

Krishnamurti: Não vou lhe dizer, você vai e faz. É aí que está sua independência.

Krishnamurti: Então, quero falar com vocês sobre sensibilidade... ...quero falar com vocês sobre o seu relacionamento com o mundo. Vocês estão crescendo, vão deixar este lugar adorável... ...Rishi Valley, e vão para a faculdade, universidade, casar, filhos... ... e empregos, e brigas, e miséria, tudo isso, o que sua vida vai ser... ...e qual é o seu relacionamento com o resto do mundo... ...com a violência, com a política, com a enorme corrupção nesse país? Certo?

Student: Então, você seria tão egoísta se tivesse tudo aquilo...

Krishnamurti: Você não se torna egoísta, você está preocupado. Você está preocupado com essa tremenda corrupção.

Student: Senhor, o que podemos fazer sobre isso?

Krishnamurti: Não sejam corruptos.

Student: Sim, mas como…

Krishnamurti: Espere, você não ouviu, você está muito ligeiro. Não seja corrupto... ...lute por isso, não apóie algo que você acha que é errado.

Student: E se alguém discordar, eu luto?

Krishnamurti: Eu quis dizer lutar no sentido de não tornar-se corrupto.

Student: Então eu não me corrompo mas…

Krishnamurti: Isso não importa, deixe os outros, não seja você um corrupto.

Student: Não serei.

Krishnamurti: Quando você for adulto. Agora você pode dizer, sim... ...não vou me tornar corrupto, mas quando for adulto e lidar com negócios.

Student: Não terá nenhuma utilidade se só uma pessoa não for corrupta.

Krishnamurti: Comece por você mesmo primeiro.

Student: OK, então você não é corrupto – estou apenas dando um exemplo... e você vai procurar um emprego e lá está um diretor entrevistando você.. ...e ele diretamente, pede uma propina ou não vai lhe dar o emprego.

Krishnamurti: Não pegue o emprego. Por que você não faz valer alguma coisa?

Student: Sem um emprego não posso viver.

Krishnamurti: Não viva.

Student: Então, qual é o propósito de vir ao mundo?

Krishnamurti: Descubra. Veja que vocês todos são tão fracos, vocês cedem. Suponha que você diga, « não, sinto muito... ...não vou ser corrupto » e você atrai pessoas... ...para perto de você, trabalha por isso.

Student: Senhor, mas se houver só cinco pessoas à minha volta...

Krishnamurti: Já é suficiente. Comece.

Student: Senhor, suponha que haja uma pessoa que é incorrupta... ...mas é insensível, e todos à sua volta são insensíveis... ...como vão saber o que ele está tentando fazer?

Krishnamurti: Eu lhes direi. Estou fazendo isso. Ouçam-me. Eu rodo o mundo dizendo que as religiões... ...como elas são, não valem nada. Certo? Eles não gostam disso, eu não me importo. Se me disserem, você não pode entrar nesse país, não me importo. Posso sempre voltar a Rishi Valley – se me permitirem. Não me importo. Mas vocês se importam, vocês todos são muito medrosos.

Student: Senhor, mas não temos nada mais para fazer, se formos procurar emprego ...emprego e não conseguirmos, não teremos mais o que fazer.

Krishnamurti: Se vocês não conseguirem um emprego…

Student: Você não quer ser corrupto e não quer aceitar o suborno... ...não consegue o emprego, então o que você pode fazer depois?

Krishnamurti: Tornar-se um jardineiro. O que há de errado em ser jardineiro, qual é o problema de ser pobre? Pobre e educado – qual o problema?

Student: Como você vai viver?

Student: Qual a utilidade desta educação?

Krishnamurti: Qual a utilidade desta educação? Provavelmente nenhuma.

Student: Sendo culto, você não pode se dedicar a jardinagem.

Krishnamurti: Então você faz alguma coisa culta. Vocês nunca -vocês todos são assim... ...não vou usar certas palavras – vocês são todos tão medíocres. É isso que estou contestando.

Student: O que isso significa?

Krishnamurti: Medíocre significa – na língua inglesa... medíocre significa subir a montanha pela metade, nunca chegando ao topo. Entende? Não se torne medíocre.

Student: Por que damos tais posições às pessoas, como um jardineiro... ...dizemos que ele é algo diferente de nós, e nenhum de nós... ...quer ser jardineiro porque será algo...

Krishnamurti: Porque não me importo de ser jardineiro... ...não me importo com o que as pessoas pensam... ...se sou um ministro ou uma pessoa importante, não me importo. Faço o que acho que é certo.

Student: Então, se todos fizermos o que achamos que é certo...

Krishnamurti: Não, é muito difícil descobrir o que é certo... ...não o que você acha que é certo – o que é certo. Isso é muito difícil. Certo? Eu acho que isso é certo – pode ser errado.

Student: Todos à nossa volta nos dizem que precisamos fazer isso porque é certo.

Krishnamurti: Isso é apenas tradição, é a autoridade. Eu quero descobrir o que é certo – vocês não querem? Como vocês descobrirão?

Student: Senhor, não será essa uma opinião? O certo para um pode ser errado para outro.

Krishnamurti: Eu lhe disse, meu rapaz, você não ouviu, não ouviu. Todo mundo pensa que está certo à sua própria maneira. Certo? Você acha que isso é certo, o outro acha que aquilo é certo, ou errado... ...mas eu quero descobrir o que é certo – ouça com atenção... ...sob quaisquer circunstâncias, sob todas as pressões... sob a influência de tudo o que o povo diz – quero descobrir o que é certo. Você não quer? E é difícil descobrir o que é certo. Para descobrir o que é certo, você não pode ter opiniões... ...julgamentos, convicções. Certo? Assim, você percebe o que é certo quando há liberdade...

Student: Só quando se tem completa liberdade.

Krishnamurti: Completa liberdade, correto. Quando você tem completa liberdade então você vê o que é certo.

Student: Senhor, mas como se ganha a liberdade?

Krishnamurti: Como se ganha a liberdade? Não se ganha a liberdade. A liberdade existe, vem, se você não estiver apegada... ...se não estiver interessada só em você mesma- entende? Se não for egoísta.

Student: Aí você é livre.

Krishnamurti: Aí há liberdade, então o que você vê é o certo.

Student: Mas não posso viver sozinho no mundo.

Krishnamurti: Não me importo de viver sozinho no mundo.

Student: Não, senhor.

Krishnamurti: Você se importa, tem medo.

Student: Então como se livrar do egoísmo?

Krishnamurti: Como se livrar do egoísmo? Posso lhe mostrar um modo muito simples? Não seja egoísta!

Student: Mas não é a mesma coisa.

Krishnamurti: Ouça, apenas, jovem. Não seja egoísta. Sabe o que é o egoísmo. Não seja. Não diga « vou me livrar dele », não seja egoísta. Por isso, aprenda o que significa ser egoísta, observe.

Student: Tudo leva à observação.

Krishnamurti: Sim, senhor. Observar. Você aprende infinitas coisas observando. Eu aprendo muito ao observar você andando pela estrada... ...como anda, como fala, o que diz, se diz exatamente... ...o que quer dizer, ou tenta enganar – entende? – enrolar. Eu aprendo, eu observo. Essa é uma das coisas. Primeiro, queria descobrir se você é sensível; depois qual o seu... ...relacionamento com o mundo, depois se você é diferente do mundo. O mundo é violento. Você é violento? O mundo é corrupto. Você é corrupto? O mundo é violento. Você é violento? Certo? O mundo está dizendo, sou inglês... ...sou francês, sou indiano, sou russo, sou muçulmano. Certo? Por isso existe conflito entre eles. Portanto, não serei nenhum deles.

Student: Senhor, o mundo também está dizendo sou Chi, sou Gotham.

Krishnamurti: Claro que você é Gotham, você é um nome diferente, é natural. Mas não seja nacionalista.

Student: Não é a mesma coisa, senhor, quando digo que meu nome é esse... ...e digo que este é o meu país, não é a mesma coisa?

Krishnamurti: Certíssimo. Isso é egoísmo. Você se identifica com algo maior, mas o egoísmo ainda continua. Agora, espere um minuto, faltam quase quinze minutos. Certo, conversamos por uma hora e quinze minutos. Estão todos ficando agitados, então vamos parar. Vocês sentariam quietos agora por cinco minutos, absolutamente quietos? Não se movam, achem uma posição confortável e então sentem muito quietos ...realmente quietos, não tussam, fechem os olhos... ...e vejam o que estão pensando. Muito bem, senhores. Obrigado por me ouvirem.Certo? Obrigado, senhor. Obrigado, senhor. Você é Gotham, não é? Qual o seu nome?

Student: Ajip.

Second Disussion with Students at Rishi Valley

Tuesday, December 18, 1984

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