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Como é compreender e viver a liberdade?

Third Public Talk at Brockwood Park

Saturday, September 2, 1978

Krishnamurti: Estivemos falando sobre várias coisas relativas à nossa vida diária. Não estamos cedendo a nenhuma forma de teorias, crenças, ou entretenimento ideológico, especulativo. Estamos de fato profundamente interessados – espero – com nossa vida diária e em descobrir se é realmente possível produzir uma mudança radical nos rumos de nossa vida. Porque nossa vida não é o que deveria ser. Somos confusos, infelizes oprimidos pelo sofrimento, lutando, lutando dia após dia até morrermos. E essa parece ser nossa sina. Este conflito infindável não só em nossas relações pessoais mas também com o mundo que se deteriora dia após dia se tornando mais e mais perigoso, mais e mais imprevisível, incerto, onde os políticos e as nações estão buscando o poder.

E também deveríamos conversar juntos esta manhã, eu acho, sobre liberdade: se o homem ou a mulher, quando uso a palavra « homem », incluo a mulher, espero que não se importem, « Women's Lib » (riso). Parece-nos, quando observamos no mundo, em nossa vida diária, que a liberdade está se tornando menor e menor. Mais e mais restritivos estamos nos tornando, nossas ações são limitadas, nossas perspectivas são muito estreitas ou amargas, cínicas, ou muito, muito esperançosas e nunca parecemos estar livres de nosso próprio conflito diário e tristeza, completamente livres de toda labuta da vida. E acho que deveríamos conversar juntos sobre esta questão da liberdade. Naturalmente nos estados totalitários não há liberdade. Aqui no mundo ocidental e no mundo oriental, parcialmente há um pouco mais de liberdade, liberdade para mudar de emprego, liberdade para viajar, dizer do que você gosta, pensar no que gosta, expressar o que gosta, escrever o que gosta. Mas mesmo esta liberdade que se tem está se tornando mais e mais mecânica,

não é mais liberdade. Então acho que deveríamos, se você é de fato sério, entrar nesta questão bastante profundamente. Isto é, se você estiver disposto. As Igrejas, as religiões tentaram dominar nosso pensar: a igreja católica no passado torturou pessoas pela crença delas, queimou-as, excomungou-as e mesmo hoje a excomunhão é uma forma de ameaça para aqueles que são católicos. O que é a mesma coisa que está acontecendo nos estados totalitários – controle de sua mente, seus pensamentos, seu comportamento, sua ação. Eles estão mais interessados no controle da mente, controle do pensamento, e quem discorda disso, diverge, é banido, ou torturado ou mandado para hospitais psiquiátricos e assim por diante. Exatamente a mesma coisa que fez o mundo católico no passado. Agora estão fazendo isso nos chamados estados políticos, econômicos. Então a liberdade é algo que temos de descobrir o que significa e se é possível para nós ser livres não só internamente, profundamente, se é realmente possível internamente, psicologicamente, sob a pele, por assim dizer, mas também nos expressarmos corretamente, com verdade, com exatidão. Então talvez compreenderemos o que é liberdade.

Liberdade é o oposto de escravidão? Liberdade é o oposto de prisão, de cativeiro, de repressão? Liberdade é fazer o que você quer? Por favor, como dissemos outro dia, e conversamos juntos, o orador está apenas expressando – espero – verbalmente o que todos estamos questionando portanto você não está ouvindo o orador, mas ouvindo as questões que está fazendo a si mesmo portanto o orador não está aqui. Liberdade é o oposto de não-liberdade? E assim existe de fato um oposto? Compreende? Ou seja, se saímos do mau para o bom e pensamos que isso é liberdade, o bom sendo a liberdade, se aceitamos o bom, que podemos examinar agora, o que é o bom, e o mau. É o bom, a bondade o oposto daquilo que não é bom, que é maligno, que é mau? Se há opostos, então há conflito. Se não sou bom, tentarei ser bom. Farei todo o esforço para ser bom, isto é, se sou um pouco consciente, um pouco sensato, não muito neurótico. Então estamos perguntando: liberdade é o oposto de alguma coisa? Ou se a liberdade tem um oposto, então é liberdade? Por favor, examinem juntos este assunto. Isto é, qualquer oposto, o bom e o mau, o oposto do mau que é o bom, o bom tem em suas raízes o mau. Entre nisso, por favor. Considere isso junto.

Se sou ciumento, invejoso, o oposto do ciúme é um estado de mente que não é ciúme – um estado de sentimento. Mas se ele é o oposto do ciúme esse oposto tem em si seu próprio oposto. Nós vemos isso? Porque queremos nesta manhã examinar a questão de o que é amor. Se tal coisa existe de fato. Ou é meramente sensação que chamamos de amor. Assim, para compreender o completo significado e a natureza e a beleza dessa palavra que usamos como amor, devemos compreender, eu acho, qual é o conflito entre os opostos, se este conflito é ilusório nessa ilusão estamos presos o que se torna um hábito ou existe apenas « o que é » e portanto não existe oposto dele. Espero que isto não esteja ficando muito intelectual, está? Ou muito verbal, ou muito sem sentido.

Porque enquanto vivermos nos opostos, ciúme e não-ciúme, o bom e o mau, o ignorante e o iluminado, haverá este constante conflito na dualidade. Naturalmente existe dualidade: homem, mulher, luz e sombra, escuro, luz e escuridão, manhã e tarde e assim por diante mas psicologicamente, internamente perguntamos se existe realmente um oposto. A bondade é o resultado daquilo que é mau? Se ela é o resultado daquilo que é mau, maligno, não gosto de usar a palavra « maligno » porque é terrivelmente mal usada como é toda outra palavra na língua inglesa. Se bondade é o oposto do mau então essa própria bondade é o resultado do mau portanto não é bondade. Certo? Vemos em nós mesmos, não como ideia, como conclusão, como uma coisa que alguém lhe sugeriu mas de fato vemos que qualquer coisa nascida de um oposto deve conter seu próprio oposto? Certo? Então se é assim existe apenas « o que é », que não tem oposto. Certo? Alguém está me entendendo? Estamos nos entendendo?

Assim, enquanto tivermos um oposto não pode haver liberdade. Bondade é totalmente sem conexão com o que é maligno, que é mau – entre aspas « mau ». Enquanto somos violentos ter o oposto que é não-violento cria conflito e a não-violência é nascida da violência. A ideia da não-violência é o resultado de ser agressivo, abrasivo, irado e assim por diante. Assim existe apenas violência, não seu oposto. Então podemos lidar com a violência. Enquanto temos um oposto então tentamos alcançar o oposto. Será que você vê isso?

Assim, a liberdade é o oposto da não-liberdade? Ou liberdade nada tem a ver com seu oposto? Por favor, temos que entender isto muito cuidadosamente porque vamos entrar em uma coisa, que é: o amor é o oposto do ódio, o oposto de ciúme, o oposto de sensação? Assim, enquanto vivemos neste hábito de opostos, o que fazemos – eu devo, eu não devo, eu sou, eu deverei ser, eu tenho sido e no futuro alguma coisa acontecerá, tudo isto é a atividade, o movimento dos opostos. Certo, senhor? Estamos... Podemos continuar?

Então estamos perguntando: liberdade é totalmente desconectada do que chamamos não-liberdade? Se é, então como essa liberdade deve ser vivida, entendida e agida, de onde a ação acontece? Nós sempre agimos dos opostos. Certo? Estou na prisão e devo me libertar dela. Devo sair. Estou escravizado a um hábito psicologicamente bem como fisiologicamente e devo me libertar dele para me tornar outra coisa. Certo? Então estamos presos ao hábito deste interminável corredor de opostos e assim nunca há um fim para o conflito, a luta para ser isto e não aquilo. Acho que está bastante claro. Podemos continuar daqui? Você não está ouvindo a mim: está descobrindo isto por si mesmo. Se está, tem significado, sentido e pode ser vivido diariamente mas se você está meramente aceitando a ideia de outro, do orador, então está meramente vivendo no mundo das ideias e portanto os opostos permanecem. A palavra « ideia », seu significado original, dos gregos e por aí vai é observar. Veja o que fizemos dessa palavra! Apenas observar, e não concluir ou fazer uma abstração do que você observou em ideia. Então estamos presos em ideias e nunca observamos. Se observamos, fazemos uma abstração disso numa ideia.

Então estamos dizendo: liberdade não tem conexão com escravidão seja a escravidão de um hábito físico ou psicológico, a escravidão do apego e assim por diante. Então existe apenas liberdade, não seu oposto. Se compreendemos a verdade disso então lidaremos apenas com « o que é » e não com « o que deveria ser » que é seu oposto. Entendeu? Estamos nos entendendo de algum modo? Certo?

I: Sim.

Krishnamurti: Podemos prosseguir?

I: Sim.

Krishnamurti: Então se isso está bem claro que existe apenas o fato, « o que é », e não existe oposto a « o que é ». Veja, se você entende isso basicamente, a verdade disso, está lidando com fatos não emocionalmente, não sentimentalmente, então você pode fazer alguma coisa. O fato em si fará alguma coisa. Mas enquanto nos afastarmos do fato, o fato e o oposto continuarão. Compreendeu? Então estamos perguntando agora se isso está claro não porque alguém disse porque você descobriu isto por si mesmo fundamentalmente, é seu, não meu. Então podemos prosseguir na investigação de toda esta questão que é muito complexa: o que é amor? Se somos sentimentais, românticos e imaginativos e Rafaelitas e meio vitorianos então nem mesmo faremos tal pergunta. Mas se deixamos de lado todo sentimento, toda reação emocional a essa palavra ou ter algumas conclusões sobre essa palavra, então podemos prosseguir sensatamente, saudavelmente, racionalmente nesta questão do que é amor. Compreende? Certo? Então primeiro, estamos todos abordando a questão sem um motivo, sem sentimento, sem preconceito? Porque a abordagem importa imensamente mais do que o objeto em si. Certo? Concordamos nisto? Estou pondo todos vocês para dormir ou o quê? (riso)

Então sabemos como abordamos esta questão? Estamos cônscios de nossa abordagem a ela? Dizemos, « Sim, eu sei o que o amor é » e assim você parou de investigar. Então, como dissemos, a abordagem do problema é mais importante do que o problema em si. Não transforme isso num lema ou clichê pois então você perdeu. Então estamos esclarecidos sobre como abordamos esta questão? Se a abordagem é correta, exata no sentido de que não há conclusão pessoal, ou opinião, ou experiência, então você está abordando novamente, então está abordando com um sentido de profunda investigação.

Então estamos dizendo: o que é amor? Teólogos escreveram volumes sobre ele. Os sacerdotes mundo afora deram significação a ele. Todo homem e mulher mundo afora dá um significado específico a ele. Se são sensuais dão esse significado e assim por diante. Então estar cônscio de como o abordamos abertamente, livremente, sem nenhum motivo então a porta está aberta para perceber o que ele é. Certo? Fechamos a porta à percepção se chegamos com uma opinião, com alguma conclusão, com nossa pequena experiência pessoal. Nós fechamos a porta e não há nada, você não pode investigar, mas se você chega abertamente, livremente, avidamente para descobrir, então a porta se abre, você pode olhar por ela. Certo? Por favor, estamos fazendo isto? Porque penso que isto pode resolver todos os nossos problemas humanos. A abordagem e o que é amor. No mundo mecânico ele não existe. Para os povos totalitários essa palavra é provavelmente uma abominação, eles só a conhecem como amor pelo país, amor pelo Estado. Ou se você é cristão, você tem amor por Deus ou amor por Jesus, ou amor por alguém. Na Índia é o amor por seu guru particular ou sua divindade particular e assim por diante. Então estamos perguntando, deixando tudo isso de lado, não com ignorância mas vendo o que eles fizeram, o que as religiões fizeram com essa palavra e talvez com o sentimento por trás dessa palavra, estando cônscios de tudo isso, devemos entrar nisto. Certo?

Significa que devemos não só olhar o que outros fizeram com a palavra, como impuseram certas conclusões em nossas mentes através dos tempos, e também quais são nossas inclinações, estando cônscios de tudo isso, vamos abordá-la experimentalmente. O que é amor? É prazer? Vamos, senhor, examine, mergulhe em si mesmo e descubra. É prazer? Para a maioiria de nós é prazer sexual que é chamado amor, prazer sensorial. E esse prazer sensorial, prazer sexual foi chamado de amor. E isso aparentemente domina o mundo. Domina o mundo porque provavelmente em nossas próprias vidas nos domina. Então nós identificamos o amor com essa coisa chamada prazer, e amor é prazer? O que não significa que amor não é prazer. Você deve examinar isto, pode ser totalmente, algo inteiramente diferente. Mas primeiro devemos examinar. Certo? Amor é desejo? Amor é lembrança? Por favor. Quer dizer, é amor a experiência lembrada como prazer e a demanda do pensamento como desejo, com sua imagem e a busca dessa imagem é chamada amor. Isso é amor? Certo, senhor?

E estar apegado a uma pessoa, ou a um país, a uma ideia, isso é amor? Apego, dependência. Por favor, olhe em você mesmo, não me ouça. Não vale a pena. Mas o que é significativo, o que vale é que você ouça a si mesmo quando estas questões são apresentadas você tem que respondê-las para si mesmo porque é sua vida diária. E se apego não é amor e se apego é amor quais são as implicações envolvidas nele? Compreende minha pergunta? Se dizemos que amor é prazer então devemos ver todas as consequências e implicações dessa afirmação. Então dependemos inteiramente da excitação sensorial sexual, que é chamada amor. E com isso vai junto o sofrimento, a angústia, o desejo de possuir e desse desejo possessivo, apego. E onde você está apegado, existe medo, medo de perder. E daí surge o ciúme, ansiedade, raiva, ódio gradual. Certo?

E também devemos ver quais as consequências se ele não é prazer. Então o que é amor que não é ciúme, apego, lembrança, busca de prazer através da imaginação e desejo e assim por diante? É o amor então o oposto de tudo isto? Entende? Estou perdido!

Dissemos que amor é o oposto de prazer, de apego, de ciúme. Se amor é isso, então esse amor contém ciúme, apego e todo o resto. Portanto amor, vendo todas as implicações do apego, busca de desejo, o contínuo movimento das lembranças: eu amei e eu não sou amado, eu lembro daquele particular prazer sexual ou daquele incidente particular que me deu deleite então a busca daquilo e o oposto do que é chamado amor, o amor é então o oposto de ódio? Compreende? Ou amor não tem oposto. Está acompanhando tudo isto? Está quente.

Então estamos descobrindo, por favor acompanhe, você verá uma coisa extraordinária sair disto. Eu mesmo não sei o que está saindo disso mas posso sentir algo extraordinário vindo daí. Se vocês todos escutarem a vocês mesmos, de fato. E as religiões criaram o amor de deus, amor de Jesus, amor de Krishna, amor do Buda entende? – totalmente sem relação com a vida diária. E nós estamos interessados em compreender e descobrir a verdade de nossa vida diária, a totalidade dela, não apenas sexo ou poder ou posição ou ciúme, ou algum complexo idiota que a pessoa tenha mas toda a estrutura e a natureza da extraordinária vida em que vivemos.

Assim como dissemos, o oposto não é amor. Se compreendemos isso, que pela negação do que não é ou seja, não negar ou recusar no sentido de repelir, resistir, controlar, mas compreender toda a natureza e a estrutura e as implicações do desejo, do prazer, da lembrança. A partir daí vem o sentido de inteligência que é a própria essência do amor. Certo? Estamos nos entendendo, senhor?

Você diz que isto é impossível. Eu sou jovem, estou cheio de vida e estou cheio de sexo, e quero ceder a isso. Você pode chamar do que quiser, mas gosto disso. Até eu pegar alguma doença ou algum homem ou mulher fugir com outro então todo o circo começa, ciúme, ansiedade, medo, ódio e assim por diante. Então, o que se deve fazer quando se é jovem, cheio de vida, todas as glândulas altamente ativas, o que se faz? Não olhe para mim! (Riso) Olhe para si mesmo. Significando – por favor, ouça significando que você não pode possivelmente depender do outro para descobrir a resposta. Você tem que ser uma luz para si mesmo. Tem que ser uma luz para si mesmo na compreensão do desejo, lembrança, todo o apego e tudo isso – compreender isso, viver isso, descobrir. Descobrir como o pensamento busca o prazer incessantemente. Se você entende a profundeza e a plenitude e a clareza de tudo isso então não se estará num estado de perpétuo controle e culpa e remorso – entende? Tudo pelo que a pessoa passa quando é jovem, se é sensível. Se você está meramente procurando prazer, bem essa é uma questão diferente.

Então amor não é o oposto de ódio, de desejo, ou prazer. Então amor é algo inteiramente diferente de tudo isso porque amor não tem oposto. Se você realmente entende isto, entra nisto, não pega meu entusiasmo, minha vitalidade, meu interesse, minha intensidade, então você descobrirá o que é muito mais inclusivo que isso, é compaixão. A própria palavra é paixão por tudo, pela pedra, pelo animal abandonado, pelos pássaros, pelas árvores, pela natureza, pelos seres humanos. Como essa compaixão se expressa, quando existe essa compaixão, de fato não teoricamente e toda essa tolice quando existe de fato esse estado de compaixão, toda ação vinda daí é ação da inteligência. Porque você não pode ter amor se não compreendeu a totalidade do movimento do pensamento. Não se pode captar a completa beleza, o significado e a profundeza dessa palavra sem compreender a totalidade da questão do apego não intelectualmente mas de fato se você está livre do apego pelo homem ou mulher, pela casa, por um tapete em especial ou uma coisa ou outra em particular que você possui. Certo?

Assim a partir dessa investigação e consciência de todo o significado disso, daí vem a inteligência não nascida de livros e de pensamento astuto e discussões e expressões hábeis e tudo isso mas a compreensão do que o amor não é e pôr tudo isso de lado. Não dizer bem, vou descobrir gradualmente quando estiver morto e cremado, ou pouco antes que o apego... Agora, hoje, descobrir enquanto você está sentado aí ouvindo a si mesmo, ficar livre completamente de todo apego à sua esposa, ao seu marido, sua namorada, apego – entende? Você pode? Não resistir a ele, não jogá-lo fora vou lutar com ele, vou exercer minha vontade, resistir e assim por diante. Vontade é parte do desejo.

Então pode você pôr de lado apego, dependência e não se tornar cínico, amargo, recolher-se e resistir? Porque você compreendeu o que o apego implica e na própria compreensão, ele se afasta e se afasta porque você é inteligente, existe inteligência. Essa inteligência não é sua ou minha, é inteligência.

Assim, então a ação da compaixão só pode chegar pela inteligência. É como aquelas pessoas que amam animais, protegem os animais – e vestem suas peles, certo? Você viu tudo isto, não viu?

Quando compreendermos isto em toda sua profundeza então poderemos continuar a investigar este problema do medo em relação à morte. Certo? Você quer entrar nisso? Não, não por favor, não (risos) não diga casualmente, « sim, vamos fazer isso, de brincadeira ». Porque a maioria de nós sejamos jovens ou idosos, sejamos doentes, ou mancos ou cegos ou surdos ou ignorantes, pobres, nós temos medo da morte. É parte de nossa tradição, parte de nossa cultura, parte de nossa vida diária evitar esta coisa chamada morte. Nós lemos tudo sobre ela. Vimos pessoas morrendo, você derramou lágrimas sobre elas e sentiu esta enorme sensação de isolamento, solidão e o medo de tudo isso. E daí vem este grande sofrimento, tristeza, não só o sofrimento humano de dois seres humanos mas também há este grande sofrimento, sofrimento global, sofrimento no mundo. Não sei se você está cônscio de tudo isto. Tivemos recentemente duas guerras, isso não criou imenso sofrimento para a humanidade? Não? Pense em quantas mulheres, crianças, pessoas choraram e derramaram lágrimas. Não são suas ou minhas lágrimas, mas lágrimas humanas, da humanidade. Então existe um sofrimento global, o sofrimento do mundo e um ser humano particular com seu sofrimento.

Vocês estão ficando hipnotizados por mim? Estou um pouco ansioso, questiono isto o tempo todo porque você está muito silencioso e espero que esse silêncio indique o não-movimento, do movimento físico e o não-movimento do pensamento ele indica que você está realmente profundamente interessado, inquirindo profundamente, pondo todo seu coração e mente e tudo que você tem na compreensão de tudo isto?

Assim, antes de entrarmos na questão da morte devemos também compreender a natureza do sofrimento: por que derramamos lágrimas, por que racionalizamos o sofrimento, por que nos prendemos a ele. No mundo cristão o sofrimento é posto na cruz e está acabado. Você idealizou ou afastou aquele sofrimento através de uma pessoa e aquela pessoa vai redimi-lo do sofrimento. Você conhece tudo isto, não conhece? Assim, a pessoa nunca entra em toda esta questão do sofrimento. No mundo asiático o sofrimento é explicado através de várias teorias – muito inteligentes, muito astutas. Existe grande possibilidade nas teorias deles mas contudo, no mundo asiático inclusive na Índia, ainda existe sofrimento. Assim estamos perguntando se o homem pode se libertar dele. Porque estamos fazendo esta pergunta para descobrir seu lugar certo o lugar certo do sexo, dinheiro, segurança física, conhecimento tecnológico e assim por diante. Tudo isto tem seu lugar certo. Quando você põe estas coisas em seu lugar certo, a liberdade vem.

Assim, sofrimento: a palavra sofrimento nisso está envolvida a paixão. Paixão, não luxúria mas aquela qualidade da mente quando o sofrimento é completamente, totalmente compreendido e visto, ver o total significado dele então a partir daí vem a paixão. Não pintar quadros – não quero dizer todo esse tipo de coisa. A paixão aquela qualidade de energia que não depende de coisa alguma meio ambiente, boa comida e assim por diante é essa tremenda qualidade de energia que pode ser denomida paixão. Ela vem da compreensão deste fardo que o homem tem carregado por milênios. Por que sofremos, psicologicamente? Você pode ter dor física, ferida, doença, deformação e é possível – por favor ouça com calma é possível colocar a dor, dor física em seu lugar certo e não deixá-la interferir com o estado psicológico da mente – você entende o que estou dizendo?

Tem-se muitas vezes dor física sob diferentes formas. Pode-se ter doenças sérias ou deformações e essa enfermidade, essa doença, e assim por diante não permitir que tudo isso interfira com a liberdade, com o frescor da mente. Isso requer tremenda atenção, vigilância para que a dor física não seja registrada compreende? – psicologicamente. Estamos nos entendendo? Você já foi ao dentista – não foi? eu também, todos nós fomos e há considerável dor ao sentarmos lá por uma hora e não registrar absolutamente aquela dor. Então, se você a registra então fica com medo de ir lá novamente, o medo surge. Por outro lado, se você não registra a dor, compreende? uma qualidade totalmente diferente de mente, o cérebro entra em ação. Então chegamos na questão do registro muito claramente, cuidadosamente, então não entrarei nela agora.

Do mesmo modo vivemos com o sofrimento e talvez isso está ficando mais e mais expansivo, pelo divórcio, as pessoas são divorciadas e seus filhos passam por um período terrível, as crianças sofrem neuróticas, tudo isso acontece com as crianças. Eles ficam cansados de sua esposa atual e por várias razões sexuais e outras razões e escolhem uma outra mulher, ou homem você entende tudo isto? – isto está acontecendo. E, então há um tremendo sofrimento no mundo, as pessoas que estão nas prisões, os pobres que existem na Índia e Ásia, incrível pobreza. E o sofrimento de um mundo daqueles que vivem nos estados totalitários. Falávamos outro dia com uma pessoa na Suiça nós as encontramos e fizemos uma pergunta, dizendo como você tolera tudo isto? Ela disse, « nós nos acostumamos ». Não, não, veja quais são as implicações. Nós nos acostumamos com a opressão, supressão, medo vendo sempre o que estamos dizendo, nos acostumamos. Como nos acostumamos com nosso próprio pequeno meio particular você entende o que estou dizendo?

Então, é possível estar totalmente livre do sofrimento? Se a mente, se o cérebro é capaz de não ceder à sua própria miséria, sua própria solidão, suas próprias angústias, esforço e luta e você conhece o medo e tudo isso portanto não há centro de onde você age. O centro sendo o « eu » com todas as coisas que nós incluímos nele, enquanto isso existir, deve haver sofrimento. Assim, o fim do sofrimento é o fim do « eu », do ego. O que não significa que o fim do « eu » implica dureza, indiferença – ao contrário.

Então sabemos o que é sofrimento e nunca fugir dele apenas viver com ele, captá-lo, compreendê-lo, entrar nele no momento, não alguns dias depois depois de você passar por todo tipo de luta apenas nunca se afastar do fato. Então não há conflito em relação a ele. Então a partir daí chega um tipo de energia totalmente diferente que é a paixão.

Então agora temos que ver, se tivermos tempo, Desculpe?

I: Vinte e sete minutos...

Krishnamurti: Oh, temos algum tempo. Então podemos entrar na questão do que é morte. Tudo isto é necessário para descobrir o que é meditação compreende? Estar livre de feridas, mágoas, psicologicamente, estar livre do medo, compreender a totalidade do movimento do prazer, a natureza e a estrutura do pensamento e o pensamento que criou a divisão: o « eu » e a coisa que é observada não é « eu » entende? – todas as divisões. Entender tudo isto e estabelecer a base então a pessoa pode realmente meditar de outra forma você vive em ilusões, algum tipo de utopia fantasiosa. Ou você vai para o Japão, ou Birmânia, não sei se você pode ir para a Birmânia hoje em dia, Japão e aprende meditação Zen. É tudo tão sem sentido! Porque a menos que você ponha sua casa em ordem, a casa que está queimando, que está sendo destruída, a menos que você ponha sua casa, que é você mesmo, em ordem sentar sob uma árvore de pernas cruzadas na posição de lótus, ou que posição fizer, é totalmente sem significado. Você pode se enganar, pode ter ilusões em abundância. Então é por isso que é importante compreender e estar livre da angústia, medo, apego e se é possível descobrir o fim do sofrimento.

Então podemos entrar na questão da morte. Pergunto por que temos tanto medo dela. Você já perguntou: o que significa acabar alguma coisa? O que significa acabar com o apego? Acabar com ele. Digamos neste momento, sentado aqui, observando a si mesmo muito cuidadosamente e percebendo que você é apegado a uma pessoa ou a uma coisa ou outra, ideias, sua experiência e assim por diante. Acabar com esse apego agora sem argumentação, sem etc, etc. Apenas acabá-lo. Então o que acontece? Você compreende minha pergunta? Sou apegado a esta casa, atrás de mim – espero que não! E percebendo que sou apegado não teoricamente ou como abstração, mas de fato o sentimento de possuir isso, ser alguma coisa ali, toda essa tolice. Observar isso, estar cônscio desse apego e findá-lo instantaneamente. O findar é tremendamente importante. O fim de um hábito, fumar ou qualquer hábito que a pessoa tenha, findá-lo. Assim, a pessoa tem que entender o que significa findar uma coisa sem esforço, sem vontade, sem perguntar, « Se acabo com isso conseguirei aquilo? » assim você está num mercado. Quando está no mercado você diz, « Eu lhe dou isto, me dê aquilo » o que a maioria de nós consciente ou inconscientemente faz. Isso não é findar. Findar e descobrir o que acontece.

Assim, do mesmo modo, a morte. Por favor, fique com isso por um momento, não diga, « Existe vida depois da morte? » « Você acredita em reencarnação? » Como eu disse, não acredito em nada. Ponto final. Inclusive reencarnação. Mas quero descobrir, deve-se descobrir o que significa morrer. Deve ser um estado extraordinário. Isso é liberdade do conhecido, compreende isto? Conheço minha vida, sua vida. Você conhece sua vida muito bem, se a examinou, observou, cuidadosamente olhou todas as reações e seu comportamento, sua falta de sensibilidade ou sendo sensível, fugir para a insensibilidade e assim por diante. Você conhece sua vida muito bem, se a olhou. E tudo isso vai acabar. Certo? Seu apego vai acabar quando você morrer. Você não pode levá-lo com você mas você pode querer tê-lo até o último momento. Certo? Então, pode você acabar seu hábito, um hábito sem argumentar, racionalizar, brigar, você sabe, dizer « finit terminat », encerrado, fim? Então o que acontece? Você descobrirá apenas se não exercitar a vontade. Certo? « Eu desistirei » qualquer que seja seu hábito particular. Então você está lutando com ele, brigando com ele, fugindo dele, suprimindo-o e todo o resto que se segue. Mas se você diz « Sim, acabarei com ele, não importa, acabarei com ele » veja o que acontece.

Do mesmo modo, a morte implica o fim. O fim de tudo que a pessoa juntou durante a vida: a mobília, o nome, a forma, suas experiências, suas opiniões, seus julgamentos seus ciúmes, seus deuses, sua adoração, suas preces, seus rituais, tudo chega ao fim. O cérebro, que carregou lembranças imemoriais e tradição e pensamentos, esse cérebro na falta de oxigenação se esgota. Ou seja, o « eu » que juntou tanto, o « eu » é a reunião de tudo isto. Certo? Isso é óbvio. Não? O « eu » é meu medo, o'eu » é meu apego, minha raiva, meu ciúme, meus medos, prazer, meu apego, minha amargura, minha agressão isso é o « eu ». E esse « eu » vai chegar ao fim. Esse « eu » é projetado pelo pensamento que é o resultado do conhecimento, o conhecimento de meus 50, 60, ou 30 ou 20 ou 80 ou 100 anos, esse é o fato, o conhecimento, o conhecido. O fim do conhecido que é a liberdade do conhecido, é morte, não é? Não?

E assim a pessoa tem que descobrir se a mente pode ficar livre do conhecido. Não ao fim de 30 anos, mas agora. O fim do conhecido que é o « eu », o mundo em que vivo, tudo isso. O « eu » é memória – por favor ouça tudo isto, o « eu » é memória, experiências, o conhecimento que adquiri através de quarenta, sessenta, trinta, vinte, ou cem anos, o « eu » que lutou, o « eu » que está apegado a esta casa, a esta mulher, a este homem, a esta criança, a esta mobília, a este tapete, o « eu » que é a experiência que reuni durante anos, o conhecimento, a dor, e a ansiedade, as lágrimas, os ciúmes, as feridas, a crença sendo cristão, amor de Jesus, amor do Cristo, tudo isso é o « eu ». E esse « eu » é apenas uma porção de palavras – não? Uma porção de memórias.

Então, posso me libertar do conhecido, acabar com o conhecido agora não quando a morte chegar e disser « Cai fora companheiro, chegou sua hora ». Agora. Mas nós nos prendemos ao conhecido porque não conhecemos nada mais. Nós nos prendemos a nossos sofrimentos, nos prendemos a nossa vida, a vida que é dor, ansiedade, você conhece tudo isso, conhece tudo isto, essa é nossa vida diária, miserável. E se a mente não se prende a tudo isso, há um fim para tudo isso. Mas infelizmente nunca acabamos. Estamos sempre dizendo « Sim, tudo bem, eu acabarei mas o que vai acontecer? » Assim, queremos conforto no final, vocês entendem, senhores? Então alguém chega e diz, « Companheiro, acredite nisto, isso lhe dará tremendo conforto ». Todos os sacerdotes mundo afora chegam e batem no seu ombro ou seguram sua mão quando você chora, eles lhe dão conforto, o amor de Jesus ou ele lhe salvará, faça isto e faça aquilo, Compreende? Estamos dizendo, o fim no qual não existe tempo, o fim do tempo, que é morte – compreende?

Então, o que acontece quando há o fim do « eu », do conhecido, e quando há liberdade do conhecido? Isso é possível? Só é possível quando a mente compreender e colocar tudo no seu lugar certo, assim não há conflito. Quando há liberdade do conhecido o que há? Você entende minha pergunta? Você faz essa pergunta? Eu acabarei com meu apego a esta casa, a essa mulher, ou a esse rapaz ou moça, acabarei com isto. E então o quê? Você não pergunta isso? Se você pergunta, « então o quê » abordou todo o problema inadequadamente. Você nunca perguntará, « então o quê ». A própria pergunta, « então o quê » implica que você de fato absolutamente não largou, não acabou com alguma coisa. É a mente preguiçosa que diz, « então o quê ». Suba a montanha e você descobrirá o que está do outro lado. Mas a maioria de nós senta em nossas confortáveis cadeiras e escuta a descrição e fica satisfeita com a descrição. Acabou. Certo?

Third Public Talk at Brockwood Park

Saturday, September 2, 1978

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