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Sobre a mente e o pensamento

Jiddu Krishnamurti
Sobre a Mente e o Pensamento
ON MIND AND THOUGHT
Tradução: PEDRO S. DANTAS JR.

A inteligência não é a busca esperta da argumentação, de opor contradi­ções e opiniões — como se através de opiniões fosse possível encontrar a verdade, o que não é o caso — mas é, isto sim, perceber que a atividade do pensamento, com todas as suas capacidades, sutilezas e sua extraordinária e incessante atividade, não é inteligência.

Brockwood Park, 4 de setembro de 1982


Table of Contents

Prefácio

Jiddu Krishnamurti nasceu na índia em 1895 e, com treze anos, foi aceito pela Sociedade Teosófica, que o considerou talhado para o papel de “mestre do mundo”, cujo advento vinha anunciando. Em pouco tempo Krishnamurti despontaria como professor vigoroso, independente e original, cujas palestras e escritos não se ligavam a nenhuma religião específica nem eram próprias do Ocidente ou do Oriente, mas de todo o mundo. Repudiando com firmeza a imagem messiânica, em 1929 ele dissolveu dramaticamente a ampla organização monista que se constituira à sua volta e declarou ser a verdade um “território inexplorado”, do qual não era possível aproximar- se através de nenhuma religião formal, filosofia ou seita.

Pelo resto de sua vida, Krishnamurti rejeitou com vigor a condição de guru que lhe tentavam impingir. Ele continuou a reunir grandes multidões em todo o mundo, mas não se atribuía nenhuma autoridade, não desejava discípulos e falava sempre como um indivíduo dirigindo-se a outro. No âmago de seus ensinamentos encontrava-se a constatação de que mudanças fundamentais na sociedade só podem ser conseguidas através da transformação da consciência individual. Krishnamurti acentuava constantemente a necessidade do autoconhecimento e da compreensão das influências restritivas e separatistas das religiões, bem como das condicionantes da nacionalidade. Krishnamurti apontava sempre para a urgente necessidade de se manter o espírito aberto e para o “amplo espaço da mente em que há inimaginável energia”. Esse parece ter sido o manancial de sua própria criatividade e a chave para o poder catalítico que exercia sobre uma tão grande variedade de pessoas.

Fez palestras, sem cessar, por todos os cantos do mundo até sua morte, em 1986, aos noventa anos de idade. Suas conferências e diálogos, diários e cartas foram reunidos em mais de sessenta livros e em centenas de gravações. Desse vasto corpo de ensinamentos compilou-se esta série de livros-tema. Cada livro focaliza um assunto que possui particular relevância e urgência em nossa vida diária.

Seattle, 23 de Julho de 1950

O pensamento nunca é original, mas o relacionamento sempre é original; e o pensamento aborda o relacionamento, que é cheio de vida, real e novo, com todo o conhecimento acumulado do antigo. Ou seja, o pensamento tenta compreender o relacionamento através das recordações, dos padrões e dos condicionamentos do antigo — e daí surge o conflito. Antes que possamos compreender o relacionamento, é preciso compreender os antecedentes daquele que pensa, e isso significa estar ciente do processo inteiro do pensamento, sem escolher; ou seja, precisamos ser capazes de ver as coisas tais como são, sem traduzi-las de acordo com as nossas recordações, com as nossas idéias preconcebidas, que são produto de condicionamentos passados.

Sendo assim, pensar é a resposta dos antecedentes, do passado, da experiência acumulada; é a resposta da memória em diferentes níveis, tanto individual quanto coletiva, particular ou racial, consciente ou inconsciente. Tudo isso é o nosso processo de pensár. Portanto, nosso pensamento jamais pode ser novo. Não pode haver uma idéia “nova”, porque o pensamento nunca poderá renovar a si mesmo; pensar jamais poderá ser algo novo, porque é sempre a resposta dos antecedentes — nossos condicionamentos, nossas tradições, nossas experiências, nossas acumulações pessoais e coletivas. Assim, quando encaramos o pensamento como um meio de descobrir o novo, percebemos a total futilidade disso. O pensamento pode descobrir apenas a sua própria projeção, não pode jamais descobrir algo novo. O pensamento pode reconhecer apenas aquilo que já vivenciou; não pode reconhecer o que não vivenciou.

Não se trata aqui de nada metafísico, complicado ou abstrato. Um exame mais atento da questão mostrará que enquanto o “eu” — a entidade que é constituída de todas essas recordações — estiver vivenciando, não pode haver nunca a descoberta do novo. O pensamento, que é o “eu”, jamais pode vivenciar Deus, pois Deus, ou a realidade é o desconhecido, é o inimaginável, o ainda não-formulado; não há rótulo nem palavra que possa designá-lo. A palavra Deus não é Deus. Assim, o pensamento jamais poderá vivenciar o novo, o incognoscível; ele só pode vivenciar o conhecido; só pode operar nos domínios do conhecido, não pode operar além desses domínios. No momento em que surge o pensamento acerca do desconhecido, a mente se agita; ela procura sempre trazer o desconhecido para os domínios do conhecido. Mas o desconhecido nunca poderá ser trazido para o conhecido, e disso resulta o conflito entre o conhecido e o desconhecido.

Londres, 7 de Abril de 1952

O que vem a ser “pensar”? Quando dizemos “eu penso”, o que queremos dizer com isso? Quando é que passamos a ter consciência desse processo de pensar? Damo-nos conta dele, certamente, quando há um problema, quando nos sentimos ameaçados, quando nos fazem uma pergunta, quando existe atrito. Nós percebemos sua existência como um processo autocons- ciente. Peço que não me ouçam como se eu fosse um conferencista fazendo um discurso; vocês e eu devemos examinar o nosso próprio processo de pensamento, que utilizamos como instrumento em nossa vida diária. Espero, portanto, que vocês observem o seu próprio processo de pensamento, e não apenas ouçam o que lhes digo — isso não adianta nada. Não chegaremos a lugar algum se vocês apenas escutarem o que eu digo, se não tomarem consciência de seu próprio pensamento e não observarem a maneira pela qual surge, como ele se produz. Isso é o que pretendemos fazer, vocês e eu — descobrir o que é esse processo de pensar.

Não há dúvida de que pensar é uma reação. Se eu lhe faço uma pergunta e você responde a ela, você responderá de acordo com a sua memória, com os seus preconceitos, com a sua formação, com o clima, com todos os antecedentes do seu condicionamento; e é de acordo com tudo isso que você responde, é de acordo com isso que você pensa. Não importa que você seja cristão, comunista, hindu ou quem quer que seja — quem responde são esses antecedentes — e, evidentemente, esse condicionamento é o causador do problema. O núcleo desses antecedentes é o “eu”, presente no processo da ação, enquanto os antecedentes não forem compreendidos, enquanto o processo do pensamento, esse si-mesmo causador do problema não for compreendido e não tiver tido fim, continuaremos fadados a enfrentar conflitos, dentro e fora, no pensamento, na emoção, na ação. Nenhuma solução, de nenhum tipo, por mais sagaz ou bem pensada que seja, jamais poderá pôr fim ao conflito entre homem e homem, entre você e eu.

E, verificando isso, tendo tomado ciência de como o pensamento nasce e de que fonte ele se origina, perguntamos então: “Pode o pensamento chegar a ter fim?”

Esse é um dos problemas, não é verdade? Pode o pensamento resolver os nossos problemas? Ter pensado bastante sobre o problema fez você resolvê-lo? Problemas de qualquer natureza — econômicos, sociais, religiosos — terão sido realmente solucionados pelo pensamento? Em sua vida do dia-a-dia, quanto mais você pensa sobre um problema, mais complexo, insolúvel e incerto ele se torna. Não é isso o que se passa na nossa vida diária e real? Você pode, se pensar sobre certos aspectos do problema, perceber com maior clareza o ponto de vista de outra pessoa, mas o pensamento não pode enxergar a plenitude e a totalidade do problema; ele pode apenas ver parcialmente, e uma resposta parcial não é uma resposta plena; logo, não há solução.

Quanto mais pensamos sobre um problema, quanto mais o investigamos, analisamos e discutimos, mais complexo ele se torna. Assim, será possível olhar para o problema de forma plena e totalmente abrangente? E como será isso possível? Essa, segundo penso, é a nossa maior dificuldade. Sim, pois os nossos problemas se multiplicam — há uma ameaça iminente de guerra, há todo tipo de complicações nos nossos relacionamentos — e como poderemos compreender tudo isso de forma plena, como um todo?

Isso, evidentemente, só poderá ser solucionado quando o examinarmos como um todo — não em compartimentos, não de forma dividida. E quando será isso possível? Sem dúvida, isso só será possível quando o processo do pensamento — que tem sua origem no “eu”, no si-mesmo, nos antecedentes da tradição, do condicionamento, do preconceito, da esperança, do desespero — tiver chegado ao fim. Poderemos então compreender esse si-mesmo, não por meio da análise, e sim enxergando o fato tal como ele realmente é, tendo consciência dele como um fato, e não como uma teoria? Não buscando dissolver o si-mesmo de maneira a atingir um resultado, mas enxergando a atividade do si-mesmo, do “eu”, constantemente em ação? Podemos olhar para isso sem nenhum movimento para destruir ou encorajar? Esse é o problema, não é mesmo? Se, em cada um de nós, não existir o centro do “eu”, com seu desejo de poder, de posição, de autoridade, de continuidade e de autopreservação, nossos problemas certamente terão fim!

O si-mesmo é um problema que o pensamento não pode resolver. É preciso haver uma percepção que não parta do pensamento. Estar ciente, sem condenação ou justificativa, das atividades do si-mesmo — apenas estar ciente — é o bastante. Enquanto você se mantiver ciente visando descobrir a forma de resolver o problema, com o intuito de transformá-lo, de produzir um resultado, você estará ainda no campo do si-mesmo, do “eu”. Enquanto buscarmos um resultado, seja por meio da análise, ou por meio da consciência, ou através de um exame constante de cada pensamento, continuaremos ainda no campo do pensamento, o qual se encontra no campo do “mim”, do “eu”, do ego.

Rajghat, 23 de Janeiro de 1955

Questionador: Quando profere essas palestras, suas ideias nascem do seu pensamento. Como, segundo suas afirmações, todo pensamento é condicionado, não serão também condicionadas as suas idéias?

Krishnamurti: O pensamento, evidentemente, é condicionado. Pensar é a resposta da memória, e a memória é o resultado de uma experiência e conhecimento anteriores, e isso é condicionamento. Logo, todo pensamento é condicionado. E o questionador indaga: “Uma vez que todo pensamento é condicionado, o que você afirma agora não será também condicionado?” Trata-se realmente de uma questão interessante, não é verdade?

Para pronunciar determinadas palavras é preciso ter memória, é claro. Para haver comunicação entre nós, vocês e eu precisamos saber inglês, hindi ou alguma outra língua. O conhecimento de uma língua é memória. Esse é um aspecto da questão. Mas, estará a mente do orador, eu mesmo, no caso, usando as palavras apenas para se comunicar, ou estará a mente fazendo um movimento de recordação? Haverá, no caso, não apenas a recordação de palavras, mas também de algum outro processo, e estará a mente usando as palavras para comunicar esse outro processo? Vocês acharão o problema bastante interessante, se o acompanharem integralmente.

Como vocês sabem, o conferencista possui seu estoque de informações, de conhecimentos, e ele os distribui; isto é, ele se recorda. Ele acumulou, leu, guardou; ele formou certas opiniões em função de seus condicionamentos, de seus preconceitos, e então usa a linguagem para comunicá-las. Todos nós conhecemos o processo habitual. Agora, pergunto, estará isso ocorrendo aqui? E é isso o que o questionador deseja saber. A afirmação do questionador é: “Se você simplesmente se recorda de suas experiências e de seus estados, e transmite essas recordações, então o que você diz é condicionado” — e essa é uma afirmação verdadeira.

Por favor, isso é muito interessante porque é uma revelação do processo da mente. Se você observar a sua mente, entenderá o que estou dizendo. A mente é o resíduo da memória, da experiência, do conhecimento, e é a partir desse resíduo que ela se exprime; existem os antecedentes, e é a partir desses antecedentes que ela se comunica. O questionador quer saber se o orador tem esses antecedentes e se está, pois, meramente repetindo, ou se fala sem a recordação de experiência anterior e, portanto, vivência à medida que fala. Veja, você não está observando a sua mente. Investigar o processo do pensamento é uma questão delicada; é como examinar um ser vivo ao microscópio. Se você não examinar a sua mente, seu comportamento será o de um espectador observando de fora alguns jogadores no campo. Mas, se todos examinarmos as nossas mentes, isso, então, terá um enorme significado.

Se a mente, por meio de palavras, comunica uma experiência que está sendo recordada, essa experiência recordada é, evidentemente, condicionada; não é algo vivo, em movimento. Se está sendo recordada, é porque pertence ao passado. Todo conhecimento é do passado, não é mesmo? O conhecimento não pode jamais ser do agora; ele vive sempre retroagindo ao passado. Bem, o questionador quer saber se o orador está simplesmente distribuindo aquilo de que se abasteceu no poço do conhecimento. Pois, nesse caso, o que ele comunica é condicionado, porque todo conhecimento é do passado. O conhecimento é estático; você pode fazer-lhe acréscimos, mas trata-se de algo morto.

Sendo assim, será possível, em vez de uma comunicação do passado, comunicar o vivenciar, o viver? Sem dúvida, é possível atingir um estado de vivência direto, sem nenhuma reação condicionada ao vivenciar, e usar as palavras apenas para comunicar aquilo que é vivo e que se vivência, e não o passado.

Quando você diz a alguém: “Eu te amo”, você está comunicando uma experiência passada? Você usou as palavras habituais: “Eu te amo”; mas a comunicação é de algo que você lembrou ou será de um fato real que você comunicou imediatamente? Isso significa, na verdade, perguntar: pode a mente deixar de ser um mecanismo usado para acumular, armazenar e, então, repetir aquilo que aprendeu?

Questionador: Tenho verdadeiro terror da morte. Posso vir a não ter medo da inevitável aniquilação?

Krishnamurti: Por que você toma como certo que a morte é aniquilação ou continuidade? Qualquer conceito é fruto de um desejo condicionado, não é mesmo? Um homem miserável, infeliz e frustrado dirá: “Graças a Deus, em breve tudo terminará. Não terei mais com que me preocupar.” Ele quer a aniquilação total. Mas o homem que diz “Eu ainda não terminei, eu quero mais”, desejará a continuidade.

Bem, mas por que a mente assume algo em relação à morte? Logo examinaremos a questão do motivo pelo qual a mente teme a morte: antes disso, entretanto, vamos libertar a mente de qualquer conceito que ela possua a respeito da morte, pois só então, é claro, você poderá compreender o que é a morte. Se você acredita em reencarnação, que é uma esperança, uma forma de continuidade, então você jamais compreenderá o que é a morte, não mais do que o faria se fosse um materialista, um comunista e acreditasse na aniquilação total. Para compreender o que é a morte, a mente precisa ter-se libertado tanto da crença na continuidade quanto da crença na aniquilação. Esta não é uma resposta capciosa. Se você quer compreender algo, você não deve abordá-lo partindo de uma opinião formada. Se quer saber o que é Deus, você não pode ter uma crença acerca de Deus; você precisa colocar tudo isso de lado e examinar. Se alguém quer saber o que é a morte, sua mente deve se libertar de quaisquer conceitos a respeito, sejam eles favoráveis ou desfavoráveis. Mas pode sua mente ficar livre de conceitos? E se a mente se libertou de conceitos, existe o medo? Sem dúvida, são os conceitos que o amedrontam e, diante disso, ocorre a invenção das filosofias.

Eu gostaria de dispor de mais algumas vidas para terminar o meu trabalho, para me tornar perfeito e, sendo assim, deposito minhas esperanças na filosofia da reencarnação. Eu digo: “Sim, eu renascerei; terei outra oportunidade”, etc. Dessa forma, no meu desejo de continuidade, crio uma filosofia ou aceito uma crença que se torna o sistema a que a mente fica aprisionada. E se eu não quero prosseguir, porque a vida para mim é muito penosa, então procuro uma filosofia que me assegura a aniquilação. Esse é um fato simples e evidente.

Mas, quando a mente está livre de ambas, qual é o seu estado em relação ao fato denominado “morte”? Para a mente isenta de conceitos, existe a morte? Sabemos que os mecanismos se desgastam com o uso. O organismo X pode durar cem anos, mas ele se desgasta. Não é com isso que nos preocupamos. Mas interiormente, psicologicamente, queremos que o “Eu” continue; e o “Eu” é feito de conceitos, não é verdade? A mente possui uma série de esperanças, de determinações, de vontades, de conceitos — “Eu cheguei”, “Quero continuar a escrever”, “Quero encontrar a felicidade” — e ela quer que estes conceitos continuem, ou seja, ela tem medo de que eles terminem. Mas, se a mente não tem conceitos, se ela não diz: “Eu sou alguém”, “Eu quero que o meu nome e minhas propriedades prossigam”, “Quero realizar-me através de meu filho”, etc. — tudo isso são desejos, conceitos — então não se encontra a própria mente em um estado em que se morre constantemente? E para uma mente assim, existe a morte?

Não concordem. Não se trata de uma questão de concordar, nem isso é pura lógica. É uma experiência real. Quando sua mulher, ou seu marido, ou sua irmã morre, ou quando você perde uma propriedade, logo descobrirá o quanto você é apegado ao conhecido, mas quando a mente se liberta do conhecido, então não é a própria mente o desconhecido? Afinal, temos medo é de deixar o conhecido, entendendo-se por conhecido tudo aquilo que concluímos, que julgamos, que comparamos, que acumulamos. Eu conheço a minha mulher, a minha casa, a minha família, o meu nome; eu cultivei certos pensamentos, experiências, virtudes, e tenho medo de que tudo isso se vá. Assim, enquanto a mente tiver qualquer tipo de conceito, enquanto ela se mantiver presa a um sistema, a uma fórmula, a um conceito, ela não poderá saber o que é a verdade. A mente que acredita é a mente condicionada, e quer ela acredite na continuidade ou na aniquilação, não poderá descobrir o que é a morte. E é apenas agora, enquanto você vive, não quando estiver inconsciente, morrendo, que você pode descobrir a verdade desse extraordinário fenômeno chamado morte.

Rajghat, 6 de Fevereiro de 1955

E muito importante compreender todo o processo do nosso pensamento, e essa compreensão não surge através do isolamento. Não existe uma vida isolada. A compreensão do processo do nosso pensamento surge quando nos observamos nos nossos relacionamentos diários, nas nossas atitudes, nas nossas crenças, a maneira como falamos, a maneira como olhamos as pessoas, a maneira como tratamos nossos maridos ou nossas esposas e nossos filhos. O relacionamento é o espelho no qual se refletem os processos do nosso pensamento. Nos fatos do relacionamento se encontra a verdade, não fora do relacionamento. Não existe, é claro, a vida isolada. Podemos, cuidadosamente, eliminar diversas formas de relacionamento físico, mas, ainda assim, a mente permanecerá relacionada. A própria existência da mente implica relacionamento, e o autoconhecimento advém de se enxergarem os fatos do relacionamento tais como eles são, sem inventar, condenar ou justificar. No relacionamento, a mente faz certas avaliações, julgamentos e comparações; ela reage ao desafio de acordo com várias formas de recordação, e essa reação é chamada de pensamento. Você descobrirá que, se a mente puder ao menos estar ciente de todo esse processo, o pensamento se imobiliza. A mente fica então bastante quieta, bastante silenciosa, sem incentivo, sem movimento em qualquer direção, e, nessa quietude, a realidade adquire existência.

Ojai, 21 de Agosto de 1955

Questionador: A função da mente é pensar. Passei muitos anos pensando sobre tudo aquilo que todos nós sabemos — negócios, ciência, filosofia, psicologia, artes, e assim por diante — e agora penso muito em Deus. A partir do estudo dos escritos de inúmeros místicos e de outros pensadores religiosos, convenci-me da existência de Deus, e sei que posso contribuir com meus próprios pensamentos sobre o assunto. O que há de errado nisso? Será que pensar em Deus não ajuda a produzir a compreensão de Deus?

D. Bohm: Você pode pensar em Deus? E você pode convencer-se da existência de Deus porque leu todas as evidências? O ateu também tem suas evidências; ele talvez tenha estudado tanto quanto você, e afirma que Deus não existe. Você acredita que Deus existe e ele acredita que Deus não existe; ambos têm crenças, ambos gastam seu tempo pensando em Deus. Mas antes de pensar em algo que você não conhece, é indispensável descobrir o que vem a ser o pensar, não é? Como você pode pensar em algo que não conhece? Você pode ter lido a Bíblia, o Bhagavad Gita, ou outros livros nos quais diversos estudiosos eruditos descreveram o que é Deus, afirmando isso e negando aquilo; mas, enquanto você não conhecer o processo de seu pensamento, aquilo que você pensa sobre Deus pode ser estúpido e insignificante e, em geral, o é. Você pode acumular grande quantidade de provas sobre a existência de Deus e escrever artigos muito lúcidos sobre o assunto; mas, com certeza, a primeira questão é: como saber que é verdadeiro aquilo que você pensa? E alguma vez o pensamento pode produzir a experiência daquilo que é incognoscível? Isso não quer dizer que você deva aceitar emocional ou sentimentalmente qualquer tolice sobre Deus.

Então, pergunto: em lugar de buscar o que é incondicionado, não será mais importante descobrir se a sua mente está condicionada? Por certo, se sua mente está condicionada — e isso na realidade ocorre — não importa quanto ela possa investigar sobre a realidade de Deus, ela só poderá reunir conhecimentos ou informações de acordo com esse condicionamento. Sendo assim, pensar sobre Deus é uma grande perda de tempo, é uma especulação desprovida de qualquer valor. É algo como eu ficar sentado aqui neste bosque e querer estar no topo daquela montanha. Se eu na verdade quiser saber o que existe no topo da montanha, ou além dela, precisarei ir até lá. De nada adianta eu permanecer sentado aqui, especulando, construindo templos, igrejas e ficando excitado com elas. O que preciso fazer é levantar-me, caminhar, lutar, empurrar, chegar até lá e descobrir; mas, como a maioria de nós não quer fazer isso, nos contentamos em ficar sentados aqui e em especular sobre algo que não conhecemos. E eu afirmo que essa especulação é um estorvo, é uma deterioração da mente, e não tem valor algum: só o que faz é produzir mais confusão e mais sofrimento para o homem.

Sendo assim, Deus é algo sobre o qual não se pode falar, que não pode ser descrito, que não pode ser colocado em palavras, porque deve permanecer sendo sempre o desconhecido. No momento em que ocorre o processo do reconhecimento, você voltou ao campo da memória. Digamos, por exemplo, que você tem uma experiência momentânea de algo extraordinário. Naquele preciso momento não existe nenhum pensador que vá afirmar: “Eu preciso me lembrar disso.” Existe apenas o momento vivenciado. Mas, quando esse momento se desfaz, o processo do reconhecimento se faz presente. A mente diz: “Tive uma experiência maravilhosa e gostaria de poder ter mais dela”, e então tem início a luta do “mais”. Por diversas razões, faz-se presente o instinto aquisitivo, a busca possessiva do “mais” — porque lhe dá prazer, prestígio, conhecimento, porque você se torna uma autoridade, e todas as outras tolices desse tipo.

A mente persegue aquilo que vivenciou; mas o que vivenciou já terminou, morreu, já foi, e, para descobrir aquilo que é, a mente precisa morrer para o que vivenciou. Isso não é algo que se possa cultivar dia após dia, que possa ser reunido, acumulado, mantido, e sobre o qual se possa então falar e escrever. Tudo o que podemos fazer é verificar que a mente está condicionada e, através do autoconhecimento, compreender o processo do nosso próprio pensamento. Eu preciso me conhecer, não como eu, ideologicamente, gostaria de ser, mas como eu sou na realidade, não importa se feio ou bonito, mesmo que invejoso, ciumento, ambicioso. Mas é muito difícil ver apenas o que se é, sem querer mudá-lo, e esse próprio desejo de mudança é outra forma de condicionamento; e assim seguimos, passando de um condicionamento para outro, jamais vivenciando algo além do que é limitado.

Questionador: Ouço as suas palestras há muitos anos, e me tornei bastante eficiente em observar os meus próprios pensamentos e em ter consciência de tudo o que faço. Mas jamais vivenciei ou toquei as águas profundas da transformação a que se refere. Por quê?

Krishnamurti: Acredito que é bastante claro o motivo pelo qual nenhum de nós vivência algo que se encontra além do simples observar. Podem ocorrer raros momentos de um estado emocional no qual enxergamos, por assim dizer, a claridade do céu por entre as nuvens, mas não me refiro a nada desse gênero. Todas essas experiências são temporárias e não têm maior significado. O questionador quer saber por que, após tantos anos de vigilância, não encontrou ainda as águas profundas. E por que haveria de encontrá-las? Compreendem? Vocês acreditam que, por vigiar seus próprios pensamentos, terão uma recompensa — se fizerem isso, ganharão aquilo. Na verdade, você não vigia nada em absoluto, porque sua mente continua preocupada em obter uma recompensa. Você acredita que, por vigiar, por ter consciência, se tornará mais amoroso, sofrerá menos, será menos irritadiço, atingirá algum ponto superior; assim, sua vigilância é um processo de compra. Com esta moeda você compra aquilo, ou seja, sua vigilância é um processo de escolha; logo, não se trata de vigilância, não se trata de atenção. Vigiar é observar sem escolher, é enxergar você tal como você é, sem que o desejo de mudar faça qualquer movimento, e fazer isso é de extrema dificuldade; mas não significa que você continuará no seu estado atual. Você não sabe o que acontecerá se puder se enxergar tal como é e não quiser promover uma mudança naquilo que vê.

Vamos dar um exemplo e trabalhar nele, e entenderão. Digamos que eu seja violento, como muitas pessoas são. Toda a nossa cultura é violenta, mas não vou deter-me agora na anatomia da violência, porque não é esse o problema de que nos ocupamos. Eu sou violento e verifico que sou violento. O que acontece? Minha resposta imediata é a de que preciso fazer algo a respeito, não é verdade? Digo que preciso tornar-me não-violento. Isso é o que qualquer professor de religião nos vem ensinando há séculos — que, se alguém é violento, precisa tornar-se não-violento. Então eu pratico, sigo todos os preceitos ideológicos. Mas agora percebo o absurdo disso, pois a entidade que observa a violência e quer transformá-la em não-violência ainda é violenta. Portanto, devo me preocupar, não com a expressão da entidade, mas com a própria entidade.

Bem, mas o que vem a ser a entidade que diz: “Preciso deixar de ser violento”? Será essa entidade diferente da violência que observou? Serão dois estados diferentes? Sem dúvida, a violência e a entidade que diz “Preciso mudar a violência em não-violência” são ambas a mesma. Reconhecer este fato é acabar com qualquer conflito, não é mesmo? Deixa de existir o conflito de tentar mudar, porque percebo que o movimento da mente na direção da não-violência é, ele próprio, resultado da violência.

E o questionador quer saber por que não pode ir além das disputas superficiais da mente. A explicação é simples: é porque, de forma consciente ou inconsciente, a mente vive sempre a buscar algo, era própria busca produz violência, competição, a sensação de uma enorme insatisfação. Apenas quando a mente atinge o silêncio absoluto existe a possibilidade de tocar as águas profundas.

Rajghat, 25 de Dezembro de 1955

Questionador: A pergunta é: Onde termina o pensamento e onde começa a meditação?

D. Bohm: Muito bem, senhor. Onde termina o pensamento? Espere um momento; estou investigando sobre o que é o pensar, e afirmo que essa investigação já é uma meditação. Não se trata de haver primeiro o fim do pensamento e em seguida o começo da meditação. Por favor, acompanhe- me, passo a passo. Se eu puder descobrir o que vem a ser o pensamento, então eu jamais perguntarei como meditar, porque no próprio processo de descobrir o que é o pensamento existe a meditação. Mas isso significa que preciso dedicar atenção total ao problema; não basta concentrar-me nele, o que é uma forma de distração.

Para tentar descobrir o que é o pensamento, preciso dedicar atenção total, atenção na qual não pode haver esforço nem atrito; porque no esforço, no atrito, há distração. Se estou realmente decidido a descobrir o que é o pensamento, essa própria questão produz uma atenção na qual não existe desvio, ou conflito, ou sentimento ao qual eu deva prestar atenção.

Bombaim, 28 de Fevereiro de 1965

Por favor, ouçam. Façam isso, enquanto eu falo. Não pensem apenas em fazê-lo. Ou seja, tomem ciência das árvores, da palmeira, do céu; ouçam os corvos a crocitar; vejam a luz nas folhas, a cor do sari, o rosto das pessoas, e em seguida concentrem-se em seu interior. As coisas exteriores vocês podem observar, podem dar-se conta delas sem fazer escolhas. É muito fácil. Mas concentrar-se em seu interior e tomar ciência sem condenação, sem justificativas, sem comparações, é mais difícil. Limitem-se a inteirar-se do que se passa dentro de vocês — de suas crenças, de seus medos, de seus dogmas, de suas esperanças, de suas frustrações, de suas ambições e de todo o resto. Tem início então o desdobrar da consciência e do inconsciente. Você não precisa fazer absolutamente nada.

Perceba apenas; isso é tudo o que precisa fazer: sem condenar, sem forçar, sem tentar mudar aquilo que percebe. Você verá então que isso é como uma maré subindo. Você é incapaz de impedir: pode construir um muro ou fazer o que quiser, e a maré, ainda assim, subirá com tremenda energia. Da mesma forma, se você percebe sem fazer escolhas, todo o campo da consciência começa a se desenrolar. E, à medida que ele se desenrola, você precisa acompanhar, e este acompanhar torna-se extremamente difícil — acompanhar no sentido de acompanhar o movimento de cada pensamento, de cada sentimento, de cada desejo secreto. Torna-se difícil a partir do momento em que você diz: “Isto é feio”, “Isto é bom”, “Isto eu manterei”, “Isto eu não guardarei”.

Assim, você começa com o exterior e move-se para o interior. E a seguir descobrirá, quando se mover para o interior, que o interior e o exterior não são diferentes, que a percepção exterior não é diferente da percepção interior, e que ambas são uma só. Então verá que está vivendo no passado; não há nunca um momento de viver real, no qual nem o passado nem o futuro existem — este seria o momento real. Descobrirá que está sempre vivendo no passado — o que você sentiu; o que você foi; se foi esperto, bom ou mau — e que está vivendo nas recordações. Isso é memória. Portanto, você precisa compreender a memória, não negá-la, suprimi-la, não fugir dela. Se um homem fez voto de celibato e se apega a essa recordação, quando não obedece a essa recordação ele se sente culpado; e isso asfixia sua vida.

Então você passa a estar atento a tudo e, assim, toma-se muito sensível. Portanto, ao escutar — ao reparar não apenas no mundo exterior, no gesto exterior, mas ao escutar também a mente interior que olha e, portanto, sente — quando você toma ciência assim, sem escolhas, não existe esforço. É muito importante compreender isso.

De A Única Revolução

Será o sexo um produto do pensamento? Será o sexo — o prazer, o deleite, o companheirismo, a ternura nele envolvida — , será tudo isso uma lembrança fortalecida pelo pensamento? No ato sexual, existe o esquecimento de si mesmo, o abandono de si mesmo, um sentido da não-existência do medo, da ansiedade, das preocupações da vida. Ao lembrar esse estado de ternura e de esquecimento de si mesmo, e ao exigir sua repetição, você pensa com insistência nele, por assim dizer, até a próxima ocasião. Será que isso é ternura, ou será uma mera recordação de algo que já acabou e que você, através da repetição, espera captar novamente? E a repetição de algo, por mais prazeroso que seja, não será um processo destrutivo?

De repente, o jovem conseguiu falar: “Sexo é uma necessidade biológica, como o senhor mesmo disse; e, se isso é mau, então comer não será igualmente mau, uma vez que se trata também de uma necessidade biológica?”

Uma coisa é a pessoa comer quando tem fome. Mas, se a pessoa tem fome e o pensamento diz: “Preciso sentir o gosto dessa ou daquela comida”, então isso é pensamento, e é isso que é a repetição destrutiva.

“No sexo, como se pode saber qual a necessidade biológica, semelhante à fome, e qual a exigência psicológica, semelhante à cobiça?”, perguntou o jovem.

Por que você distingue a necessidade biológica da exigência psicológica? E há ainda uma outra questão, uma questão bastante diferente: por que você diferencia o sexo do perceber a beleza de uma montanha ou o encanto de uma flor? Por que você atribui tanta importância a um e negligencia por inteiro o outro?

“Se o sexo é algo totalmente diferente do amor, como o senhor parece afirmar, haverá então qualquer necessidade de se fazer algo em relação ao sexo?”, perguntou o jovem.

Jamais dissemos que amor e sexo são coisas distintas. Afirmamos que amor é totalidade, não pode ser partido; e o pensamento, por sua própria natureza, é fragmentário. Quando o pensamento predomina, sem dúvida não há amor. O homem, em geral, conhece o sexo do pensamento — e talvez apenas esse — que vem a ser o ruminar do prazer e de sua repetição. Logo, é preciso perguntar: Existirá algum outro tipo de sexo que não seja o do pensamento ou do desejo?

O sannyasi ouvia tudo isso com silenciosa atenção. E então falou: “Eu resisti a ele, fiz votos contra ele, pois por tradição, pela razão, percebi que é preciso ter energia para a vida dedicada à religião. Mas agora vejo que essa resistência exigiu grande dose de energia. Passei mais tempo resistindo, e consumi mais energia nisso do que jamais gastei com o sexo propriamente dito. Portanto, essa sua afirmação — de que qualquer tipo de conflito é um desperdício de energia — eu agora a compreendo. O conflito e a luta enfraquecem muito mais do que a visão do rosto de uma mulher, ou mesmo do que o próprio sexo.”

Existirá amor sem desejo, sem prazer? Existirá sexo sem desejo, sem prazer? Existirá um amor que seja pleno, sem que o pensamento interfira? Será o sexo algo do passado ou será sempre uma experiência nova? O pensamento, evidentemente, é antigo e, portanto, vivemos sempre a contrastar o antigo e o novo. Fazemos perguntas a partir do antigo e queremos respostas em termos do antigo. Assim, quando perguntamos se existe sexo sem que todo o mecanismo do pensamento opere e trabalhe, não indicará esta pergunta que ainda não nos afastamos do antigo? Estamos de tal modo condicionados pelo antigo que não sentimos o nosso caminho em direção ao novo. Dissemos que o amor é plenitude, e que é sempre novo — novo, não no sentido de ser oposto ao antigo, pois isso, mais uma vez, é o antigo. Qualquer afirmação de que existe sexo sem desejo é desprovida de valor; mas se você percebeu todo o papel que o pensamento desempenha, talvez então você compreenda o que eu quero dizer. Se, entretanto, você exige ter seu prazer a qualquer preço, então não existirá o amor.

O jovem disse: “Aquela necessidade biológica a que o senhor se referiu é exatamente essa exigência, pois, embora ela possa ser diferente do pensamento, ela gera o pensamento.”

“Talvez eu possa responder ao meu jovem amigo”, disse o sannyasi, “pois passei por tudo isso. Durante anos me exercitei a não olhar para uma mulher. Controlei a exigência biológica com muita rudeza. A necessidade biológica não gera o pensamento; o pensamento se apossa dela, se utiliza dela; o pensamento constrói imagens e figuras a partir dessa necessidade — e então a necessidade se torna escrava do pensamento. É o pensamento que gera a necessidade na maior parte do tempo. Como já afirmei, começo a ver a natureza extraordinária do nosso logro e desonestidade. Existe em cada um de nós uma grande dose de hipocrisia. Não podemos jamais ver as coisas tais como elas são; precisamos sempre criar ilusões acerca delas. O que nos está dizendo, senhor, é que olhemos para tudo com os olhos claros, sem a recordação de ontem; o senhor já repetiu isso inúmeras vezes em suas palestras. A vida, então, não se transforma em um problema. Na minha idade avançada, começo a perceber isso.”

O jovem não se mostrava ainda completamente satisfeito. Ele queria que a vida estivesse de acordo com os seus termos, de acordo com a fórmula que com tanto cuidado construíra.

É por isso que é muito importante conhecer a si mesmo, não de acordo com qualquer fórmula ou de acordo com qualquer guru. Essa constante percepção sem fazer escolhas termina com qualquer ilusão ou hipocrisia.

Chovia torrencialmente então, e o ar mostrava-se muito parado. O único ruído era o da chuva caindo sobre o telhado e sobre as folhas.

Saanen, 23 de Julho de 1970

Precisamos também descobrir qual é a função, qual é o sentido do pensamento, qual a sua substância e estrutura, pois o pensamento pode ser o responsável por divisões e, para descobrir uma resposta através do pensamento, através da razão, ele precisa, evidentemente, separar cada problema e tentar encontrar uma resposta para cada um. Por que nos sentimos sempre inclinados a resolver nossas questões em separado, como se elas não estivessem interligadas? Algumas pessoas desejam uma revolução física para acabar com a ordem social, com o intento de produzir uma ordem melhor, e esquecem o todo da natureza psicológica do homem. Assim, é preciso fazer a pergunta: Por quê? E qual é a resposta a esta pergunta? Será a resposta produzida pelo pensamento, ou será ela fruto da compreensão da totalidade dessa imensa e vasta estrutura da vida humana?

Eu quero descobrir por que existe esta divisão. Já examinamos esse assunto em outras ocasiões sob o aspecto do observador e do observado; vamos esquecer isso, deixar isso de lado e abordar a questão de um ângulo diferente. O pensamento cria a divisão? E, se concluirmos que o pensamento cria a divisão e que procura encontrar resposta para cada determinado problema, ele permanece sendo um problema separado dos outros problemas. Será que estamos caminhando juntos? Por favor, não concorde comigo; não se trata aqui apenas de concordar, trata-se de enxergar por si próprio a verdade ou a falsidade disso, e não de aceitar. Em nenhuma circunstância aceite o que o orador diz, em nenhum momento. Não existe autoridade quando falamos juntos sobre esses assuntos, nem você nem o orador possuem autoridade. Estamos ambos investigando, observando, olhando, aprendendo — logo, não se trata de concordar ou de discordar.

É preciso descobrir se o pensamento, por sua própria natureza e estrutura, não divide a vida em muitos problemas; e também se, ao tentar descobrir uma resposta através do pensamento, ela não continuará sendo uma resposta isolada, gerando, desse modo, novas confusões e desgraças. E preciso, em primeiro lugar, que cada um descubra por si mesmo — livremente, sem preconceitos, sem conclusões prévias — se o pensamento opera dessa forma. Porque a maioria de nós tenta encontrar uma resposta intelectual, ou emocional, ou “intuitiva”. É preciso tomar muito cuidado ao empregar a palavra intuição, porquanto ela dá margem a muita impostura. A pessoa pode ter uma intuição ditada por suas esperanças, medos, amarguras, vontades ou desejos; sendo assim, é preciso tomar cuidado com essa palavra e jamais utilizá-la. Tentamos, então, encontrar uma resposta intelectual ou emocional, como se o intelecto fosse algo separado da emoção, e a emoção, algo separado da reação física, e assim por diante. E, como toda a nossa educação e cultura baseiam-se na abordagem intelectual da vida, resulta que todas as nossas filosofias estão assentadas em conceitos intelectuais, o que é uma grande bobagem. Toda a nossa estrutura social se baseia na divisão, tal como ocorre com a nossa moralidade.

Bem, mas, se o pensamento divide, como é que ele divide? Não se limite a brincar com isso; tente realmente observar isso em você mesmo. É muito mais divertido, e logo verá que descobrirá algo extraordinário para você mesmo. Você se iluminará, será um ser humano integrado, e não ficará a olhar para os outros, esperando que alguém lhe ensine o que fazer e pensar, e como deve pensar.

Então o pensamento divide? E o que é o pensamento? O pensamento pode ser de extraordinária racionalidade, pode raciocinar conseqüentemen- te, e precisa fazer isso de forma lógica, objetiva e sadia, pois precisa funcionar perfeitamente, como um computador que trabalha sem nenhum obstáculo ou conflito. A razão é necessária, e a sanidade é parte dessa capacidade de raciocinar. E o que é esse pensar, o que é o pensamento?

Pode o pensamento, em algum momento, ser novo, original? Pois cada problema é novo e original. Cada problema humano — não os de cunho científico ou mecânico — cada problema humano é sempre novo. E sendo a vida original, o pensamento tenta compreender, alterar, traduzir, fazer algo a respeito. Sendo assim, é preciso que cada um descubra por si mesmo o que é o pensamento. E por que o pensamento divide? Se realmente sentíssemos de forma profunda, se realmente amássemos uns aos outros, e não apenas da boca para fora — e isso só pode ocorrer se não houver condicionamento, se não existirem centros como o “eu” ou o “você” — toda a divisão podería então chegar ao fim. Mas o pensamento, que é a atividade do intelecto, do cérebro, não pode, em nenhuma hipótese, amar. Ele pode raciocinar de forma lógica, objetiva, eficiente. Para chegar à Lua, o pensamento precisa ter operado da forma mais extraordinária, embora não se saiba se valeu ou não a pena ir à Lua — essa é uma outra questão. O pensamento, por conseguinte, precisa ser compreendido. E a nossa pergunta foi: pode o pensamento enxergar algo novo? Ou, ao contrário, não existe pensamento original e o pensamento é sempre velho? E quando deparamos com um problema da vida, que é sempre novo, ele não pode perceber a novidade que existe nisso, porque tenta imediatamente traduzir o que observou em termos do seu próprio condicionamento.

O pensamento é, pois, necessário; ele precisa funcionar de maneira lógica, saudável, sadia, objetiva, não-emocional, não-pessoal; e, no entanto, esse mesmo pensamento distingue o “eu” do “não-eu”, e tenta solucionar o problema da violência em si mesmo, como se ele não se interligasse a todos os outros problemas da existência. Assim, o pensamento é o passado. O pensamento é sempre o passado; se não possuíssemos um verdadeiro gravador de fitas que é o cérebro, que acumulou todo tipo de informação e experiência, pessoal e coletiva, não seríamos capazes de pensar ou de responder. Porventura percebemos isso? Não de forma verbal, mas realmente? Nessas condições, quando o passado encontra o presente, o presente precisa ser traduzido em termos do passado e, desse modo, ocorre a divisão.

Você pergunta: por que o pensamento divide, por que o pensamento interpreta? Se o pensamento é o resultado do passado —- e o pensamento é o resultado do ontem, com todas as suas informações, conhecimentos, experiências, lembranças, etc. — ele trabalha em um problema e o recorta, como se fosse algo separado dos outros problemas. Certo? Você não se sente muito seguro. Vou fazer com que tenha essa certeza, não porque eu queira afirmar-me, o que seria tolice, ou porque queira demonstrar que o meu ponto de vista é melhor do que o seu, o que seria tolice idêntica, mas sim porque pretendemos descobrir a verdade disso, “o que é” realmente. Bem, deixe tudo de lado por um momento, e observe o seu pensamento. O pensamento é a resposta do passado. Se você não tivesse um passado, não haveria pensamento; havería um estado de amnésia. O passado é pensamento e, desse modo, o passado irá, por certo, dividir a vida em presente e futuro. Enquanto existir o passado como pensamento, esse mesmo passado dividirá a vida no tempo em passado, presente e futuro.

Limite-se a acompanhar o que estou dizendo. Vou examinar a questão passo a passo; não se antecipe. Tenho um problema com a violência, quero compreendê-lo de forma absoluta e total, de maneira que a mente fique completa e inteiramente livre da violência, e só é possível alcançar isso através da compreensão do que vem a ser a estrutura do pensamento. O pensamento produz a violência — a “minha” casa, a “minha” propriedade, a “minha” mulher, o “meu” marido, o “meu” país, a “minha” crença, um amontoado de grandes tolices. Quem está fazendo isso, criando esse “eu” permanente que se opõe ao resto? Quem está fazendo isso? A educação, a sociedade, a igreja, o sistema vigente, todos são responsáveis por isso, pois eu faço parte de tudo isso. E o pensamento, que é matéria, que é o resultado da memória, vive na mesma estrutura e nas células do cérebro. A memória é o passado, que pertence ao tempo. Sendo assim, quando o cérebro entra em ação, seja em termos psicológicos, sociais, religiosos ou econômicos, ele tem, invariavelmente, que agir em termos de tempo, de passado, de acordo com o seu condicionamento.

O pensamento é essencial, precisa funcionar dentro da mais absoluta lógica, de forma totalmente objetiva, impessoal; e, no entanto, eu percebo o quanto o pensamento divide, quer em termos psicológicos, quer em termos de tempo. O pensamento fatalmente tem de dividir; veja aonde ele levou. O pensamento declara; “O nacionalismo é algo muito podre; ele acabou por conduzir a todo tipo de guerra e de discórdia. Vamos formar uma irmandade, vamos todos nos unir.” Então o pensamento funda uma Liga das Nações, ou Nações Unidas, mas o próprio pensamento opera ainda de forma sepa- rativa e mantém a separação: você é um italiano, mantém a soberania italiana, etc. Fale sobre fraternidade, mas mantenha-se separado, o que é hipocrisia; fazer jogos duplos consigo mesmo é uma das funções do pensamento.

O pensamento não é saída, o que não implica que se deva matar a mente. Mas, então, o que é que pode ver cada novo problema que surge como um problema total? Se a pessoa tem um problema sexual, esse é um problema total, relacionado com a cultura, com o caráter, com várias outras formas ou temas da vida, que não existe apenas em si mesmo. Bem, mas qual é a mente que vê cada problema como um problema total, não como um fragmento?

As Igrejas, as diferentes religiões têm afirmado: “Busque Deus e tudo se resolverá.” É como se Deus, de acordo com eles, fosse algo separado da vida. Assim, tem havido essa constante divisão e, ao observar isso, eu digo a mim mesmo: eu não leio livros, mas basta observar a vida para aprender mais com isso do que através de qualquer livro, tanto exteriormente quanto interiormente, se você sabe como olhar — então, o que é que olha a vida como um todo? Estamos progredindo? O que é? Conhecendo a extensão, a vastidão do pensamento, e sabendo, observando que o pensamento forçosamente estabelece uma distinção entre o “eu” e o “não-eu”, e que o cérebro é resultado do tempo e, por conseguinte, do passado, e que, quando toda a estrutura do pensamento está em ação, ela não pode, em hipótese alguma, enxergar a totalidade, o que é então que enxerga a vida como um todo, não dividida em fragmentos? Compreendeu a minha pergunta?

Questionador: Fica ainda uma questão.

Krishnamurti: Compreendemos, mas ainda resta uma questão — há ainda uma questão. Bem, mas quem a faz? O pensamento? Fatalmente. Você afirma ter compreendido e que, entretanto, ainda resta uma questão — será que isso é possível? Se compreendeu totalmente, em qualquer nível, do mais alto ao mais baixo, o que o pensamento faz, se você vê o que o pensamento faz e diz: “Eu compreendí isso muito bem”, então, quando alega que ainda ficou uma questão, quem a formula? Só existe uma questão, a de que este cérebro, todo o sistema nervoso, a mente que cobre tudo isso afirma: “Compreendí a natureza do pensamento.” O próximo passo é: Pode esta mente olhar para a vida, com toda a sua vastidão, complexidade, com todo o seu sofrimento, aparentemente interminável, pode a mente perceber a vida como um todo? Essa é a única questão. E não é o pensamento que faz essa pergunta; a mente faz a pergunta porque observou toda a estrutura do pensamento, e reconhece o valor relativo do pensamento, e se acha, portanto, apta a indagar: Pode a mente olhar com olhos não influenciados pelo passado?

Bem, iremos examinar isso. Pode a mente, pode o cérebro — que é resultado do tempo, da experiência, de mil formas de influência, de conhecimento acumulado, de tudo o que foi colecionado através do tempo, entendido como o passado — pode a mente, este cérebro permanecer em completo silêncio para observar a vida, que pode ter problemas? Eis uma questão bastante séria; não se trata apenas de passatempo. Para descobrir isso, a pessoa precisa dedicar toda a sua energia, capacidade, vitalidade, paixão e vida, e não apenas sentar-se e fazer-me perguntas. Você precisa dar a vida para descobrir isso, pois essa é a única resposta, a única saída para essa terrível brutalidade, para essa terrível violência, sofrimento, degradação, tudo o que está corrompido. Pode a mente, o cérebro, que é, ele mesmo, corrompido pelo tempo, pode tudo isso ficar em silêncio de tal forma que possa ver a vida como um todo e, portanto, sem problemas?

Quando você vê algo como um todo, como pode haver um problema? O problema só aparece quando você vê a vida de forma fragmentária. Veja a beleza que há nisso. Quando você vê "a vida como um todo, não existe problema de nenhuma natureza. Apenas a mente, o coração e o cérebro, que são transformados em fragmentos, podem criar problemas. O núcleo desse fragmento é o “eu”, e o “eu” é produzido pelo pensamento, que não possui realidade em si mesmo. O “eu”, a “minha” casa, a “minha” mobília, a “minha” amargura, o “meu” desapontamento, o “meu” desejo de me tomar alguém, o meu “eu” é produto do pensamento — os “meus” apetites sexuais, a “minha” amargura, a “minha” ansiedade, a “minha” culpa — o “eu”, que é produto do pensamento, divide. E pode a mente olhar sem o “eu”? Não sendo capaz de fazer isso, de olhar a vida sem “eu”, o próprio “eu” diz: “Vou me dedicar a Jesus, a Buda, a isso ou àquilo” — você compreende? “Vou me tornar um comunista que irá se preocupar com o mundo como um todo.” O “eu”, que se identifica com aquilo que considera ser o maior, é, ainda assim, parte do “eu”.

Saanen, 26 de Julho de 1970

Queremos que a mente examine a si mesma e perceba a sequência do medo, suas atividades, seus perigos. Iremos então examinar, não só os medos físicos, como também os medos muito complexos que existem nas camadas profundas, abaixo da mente consciente. A maioria de nós já teve medos físicos, fossem eles medos de doenças passadas, com todas as suas dores e ansiedade, ou já nos vimos diante de um perigo físico. E quando você depara com um perigo do tipo físico, existe medo? Por favor, investiguem, não basta dizer: “Sim, existe medo” — descubram. Na índia, na África, em regiões selvagens da América, quando você encontra um urso, ou uma cobra, ou um tigre, ocorre uma ação imediata. Não é verdade? Quando você encontra uma cobra, existe ação imediata; não se trata de uma ação consciente ou deliberada, mas instintiva.

Bem, mas isso é medo? Ou será inteligência? Pois pretendemos encontrar a ação que é inteligência e a ação nascida do medo. Quando você encontra uma cobra, há uma resposta física instantânea. Você foge, transpira, tenta fazer algo a respeito. Essa é uma resposta condicionada, porque você aprendeu, ao longo de inúmeras gerações, a se precaver contra as cobras, a se precaver contra os animais selvagens. É uma resposta condicionada e, assim, o cérebro, os nervos, respondem instintivamente para se proteger. Proteger-se é uma resposta natural e inteligente. Estão acompanhando o que digo? É necessário proteger o organismo físico, e uma cobra é um perigo, e responder a ela de forma precavida é uma ação inteligente.

Vamos olhar agora o outro caso, o da dor física. Você teve uma dor física ontem, ou no ano passado, e tem medo de que ela volte. O medo, nesse caso, é causado pelo pensamento. Pensar sobre algo que ocorreu há um ano atrás, ou ontem, e pode ocorrer de novo amanhã, é um medo provocado pelo pensamento. Examinem isso, por favor, pois queremos investigar juntos o assunto. Isso significa dizer que vocês examinam as suas próprias respostas, quais foram as suas atitudes. Nesse caso, o medo é produto do pensamento consciente ou inconsciente — o pensamento entendido como tempo. Não se trata do tempo cronológico medido pelo relógio, mas do tempo entendido como o pensamento que pensa sobre o que aconteceu ontem ou há algum tempo e do medo de que isso ocorra de novo. Assim, pensamento é tempo. E pensamento gera medo: posso morrer amanhã, ou algo que fiz na noite passada pode vir à tona. Pensar sobre isso produz medo. Bem, isso acontece com vocês? Vocês tiveram uma dor, fizeram algo no passado que não querem que seja revelado, ou querem realizar ou completar algo no futuro que são incapazes de fazer, e tudo isso é produto do pensamento e do tempo. É isso o que acontece com a maioria das pessoas.

E, pergunto, pode terminar o movimento do pensamento que produz o medo no devido tempo e o medo como tempo? Entenderam a minha pergunta? Existe a ação inteligente de proteção, de autopreservação, a necessidade física de sobreviver, que é uma resposta natural e inteligente. A outra, o pensamento que pensa sobre algo e projeta a possibilidade de que isso ocorra ou não outra vez, produz medo. E a questão é: Pode esse movimento do pensamento, tão instintivo, tão imediato, tão insistente, tão per-suasivo, chegar espontaneamente ao fim? Não através de oposição! Se você se opõe a ele, isso é ainda produto do pensamento. Se você diz: “Eu não vou pensar assim”, quem é a entidade que diz: “Eu não vou”? Continua a ser o pensamento, porquanto, com a interrupção desse movimento, ele espera alcançar algo diferente, que é, porém, ainda um produto do pensamento. Dessa forma, o pensamento pode fazer uma projeção e pode não ser capaz de atingi-la e, então, existe medo envolvido nisso.

Nossa pergunta, portanto, é se é possível o pensamento, que produziu esse medo psicológico — não apenas um medo, mas muitos medos se é possível, de maneira espontânea, fácil, sem esforço, chegar ao fim toda essa atividade. Porque, se você faz um esforço, isto ainda é pensamento e, portanto, produtor de medo, e ainda está preso ao campo do tempo. Sendo assim, é indispensável encontrar um meio, compreender ou aprender um meio pelo qual o pensamento, espontaneamente, termine e deixe de produzir medo. Estão me entendendo? Não sei! Talvez, de forma verbal, vocês tenham visto a idéia com clareza, a divisão com clareza, mas não se trata disso. Não estamos apenas verbalizando, mas falando acerca do seu medo, da sua vida diária; é disto que falamos — da sua vida, e não da descrição da sua vida. Porque a descrição não é o descrito, a explicação não é o explicado. A palavra não é a coisa. Mas trata-se da sua vida, do seu medo; e isso não é exposto por quem fala; ao ouvir, você aprendeu a discernir o que é o medo e como o pensamento cria o medo.

Nossa pergunta, pois, é se, de maneira espontânea, alegre e fácil, sem resistência, sem nenhuma atividade da vontade, se é possível, nestas condições, ter fim o pensamento, a atividade do pensamento, que gera, produz, sustenta e alimenta o medo.

Bem, antes que possamos completar essa questão descobrindo a resposta verdadeira, precisamos também investigar a busca, consciente ou inconsciente, do prazer, porque é o pensamento, mais uma vez, que sustenta o prazer. Você passou um momento adorável ontem quando apreciou o pôr-do-sol. Você disse: “Que pôr-do-sol maravilhoso!” Você sentiu um grande encantamento com esse pôr-do-sol. Então o pensamento se intromete e diz: “Como foi bonito, eu gostaria de repetir esta experiência amanhã” quer se trate de um pôr-do-sol ou de alguém que o lisonjeie; quer se trate de uma experiência sexual, ou de algum outro prazer que você tenha desfrutado, você quer continuar a ter esse prazer. O prazer não é apenas o prazer sexual; existe o prazer derivado da conquista, de conseguir ser alguém, o prazer do sucesso, o prazer da realização, o prazer do que você irá fazer amanhã, o prazer de algo que você vivenciou artisticamente, ou sob diferentes formas, e que você quer que se repita. Tudo isso é prazer. E a nossa moralidade social baseia-se no prazer, não é mesmo? A moralidade social está baseada no prazer e, portanto, não é moralidade de espécie alguma; é imoral. Você descobrirá isso — o que não significa que, pelo fato de se revoltar contra a moralidade social, você se tomará bastante moral, fará o que quiser, dormirá com quem quer que você goste. Trabalhem com tudo isso, que vocês descobrirão.

Portanto, se você pretende compreender o medo e livrar-se dele, é preciso também compreender o prazer, porque ambos estão inter-relacionados. Isso não quer dizer que você deva abrir mão do prazer. Você sabe que todas as religiões organizadas — e elas têm sido a ruína da civilização — têm dito que você não deve sentir prazer, não deve ter sexo. Deus não permitirá, você precisa aproximar-se de Deus como um ser humano torturado. Sendo assim, você não deve olhar para uma mulher, você não deve olhar para uma árvore, você não deve olhar para a beleza do céu, você não deve olhar as adoráveis linhas de uma montanha, que poderíam fazer com que você recordasse o sexo e as mulheres. Você não pode sentir prazer, ou seja, você não pode ter desejos. Pegue então sua Bíblia quando o desejo se manifestar, mergulhe nela, ou no Gita, ou repita algumas palavras, e todas essas tolices.

Para compreender o medo, portanto, é preciso examinar a natureza do prazer. Se você não sentir prazer amanhã, você terá medo, ficará frustrado.

Você sentiu prazer ontem, sexual ou de outra natureza, e, se não puder obtê-lo de novo amanhã, fica zangado, aborrecido, histérico, o que é uma forma de medo. Logo, medo e prazer são duas faces da mesma moeda, voce não pode livrar-se de um sem se livrar também do outro. Sei que vocês querem sentir prazer durante a vida toda e querem se livrar do medo isto é tudo com que se preocupam. Mas vocês não percebem que, se não obtiverem prazer amanhã, se sentirão frustrados, insatisfeitos, ficarão zangados, ansiosos, se sentirão culpados e aparecerão todas as desgraças psicológicas. Portanto, é preciso olhar para ambos.

Para compreender o prazer, você precisa compreender também o que é a alegria. Será que o prazer é alegria? Será que o prazer é divertimento? Será o prazer algo totalmente diferente do encantamento da existência como um todo? Iremos descobrir tudo isso. Em primeiro lugar queremos saber se o pensamento, com todas as suas atividades, que produzem medo e mantêm o medo, consciente ou inconsciente, se isso pode ter fim, de maneira espontânea, sem esforço. Existem medos conscientes, bem como medos inconscientes, dos quais não temos conhecimento. Esses medos, dos quais não temos conhecimento, desempenham papel muito mais importante na vida do que aqueles dos quais temos conhecimento. Bem, mas como vocês farão para descobrir os medos inconscientes? Como é que irão trazê-los à luz? Pela análise? Quem então irá analisar? Se você diz: “Analisarei os meus medos”, quem é que analisa? Parte do fragmento do medo. Logo, analisar o próprio medo não tem valor algum. Não sei se percebem isso. Se você vai a um analista para ter seus medos analisados, o analista, tal como você, foi condicionado por especialistas, por Freud, Jung e Adler, e por X Y Z. Ele analisa de acordo com seus próprios condicionamentos. Certo? Portanto, ele não o ajuda a se livrar do medo. Como dissemos, toda análise é uma negação da ação.

Você pode, ao longo do dia, limitar-se a observar todo o movimento de suas atividades, pensamentos e sentimentos, sem interpretações, limitando-se apenas a vigiar? Você perceberá, então, que os sonhos têm muito pouco significado, você raras vezes sonhará. Se durante o dia você se mantiver desperto, e não meio adormecido — se você não for tomado pelas suas crenças, pelos seus preconceitos, pelas suas vaidades e orgulhos, pequenos e absurdos, e pelo seu insignificante conhecimento, mas simplesmente observar todo o movimento da sua mente consciente e inconsciente em ação — descobrirá que não apenas os seus sonhos terminarão, mas que também o pensamento começará a ceder, não mais procurando ou sustentando o prazer ou fugindo do medo.

E sua mente não ficou um pouco mais sensível? Antes você apenas caminhava, carregando a carga de medo e prazer. Ao conhecer o peso da carga, não a terá você deixado de lado, não a terá tirado dos ombros e, depois disso, não caminha você com mais cuidado? Se você realmente seguiu isso, escutou isso, compartilhou isso com outras pessoas, aprendeu com outras pessoas, sua mente, ao observar — não através da determinação, não através do esforço, mas apenas observando — ficou mais sensível e, por conseguinte, muito inteligente. Por favor, não concordem; se a mente de vocês não estiver sensível, não está sensível — não façam disso um jogo.

Assim, na próxima vez em que aparecer o medo, e isso vai acontecer, a inteligência reagirá a ele, não em termos de prazer, de repressão ou de fuga. A mente sensível e inteligente, que nasceu do examinar, do aprender, do olhar para a carga, colocou-a de lado e, por conseguinte, tornou-se muitíssimo viva e sensível; e ela pode agora formular uma pergunta bastante diferente, que é: Se, como tem sido para a maioria de nós, o caminho da vida não for o prazer, não se tornará ela bastante árida? Será a vida algo seco? Ou, em outras palavras, qual é a diferença entre prazer e alegria? Isto significa que eu não posso jamais desfrutar a vida? Por favor, não concordem, descubram. Vocês antes desfrutaram a vida em termos de prazer e medo. O prazer instantâneo, o sexo, a bebida, o comer, o matar animais, o entupir-se de carne, e tudo mais. O prazer instantâneo. Esta tem sido a sua forma de vida. E subitamente você descobre, ao examinar e olhar, que o prazer não é, ém hipótese alguma, o caminho, porque conduz ao medo, à frustração, à desgraça, ao sofrimento, a grandes distúrbios, tanto sociais quanto pessoais, e assim por diante. E você faz agora uma pergunta bastante diferente. Você pergunta: O que é a alegria?

Existirá alguma alegria em que o pensamento e o prazer nem de leve resvalaram? Porque, se for tocada pelo pensamento, ela mais uma vez se torna prazer e, é claro, medo. Existirá uma maileira de viver o dia-a-dia depois de se ter compreendido o prazer e o medo, ou seja, um modo de viver alegre e com divertimento, mas não constituído apenas pela continua­ção do prazer e do medo, dia após dia?

Você sabe o que vem a ser contentamento? Olhar para aquelas montanhas, para a beleza do vale, para a luminosidade sobre as colinas, e as árvores, e o rio a correr, desfrutar isso. E quando é que você desfruta isso? Quando a mente, quando o pensamento não usa isso como um meio de obter prazer. Você pode olhar para aquelas montanhas, ou para o rosto de uma mulher, para o contorno de um vale, para o movimento de uma árvore, e sentir enorme deleite nisso. Quando você tiver feito isso, terminou; mas se o levar adiante, então a dor e o prazer têm início. Será que você pode olhar e terminar com isso? Tome cuidado, fique bem atento. Desse modo, você pode olhar para aquela montanha — não ficar absorto pela sua beleza, como um garoto que fica absorto por um brinquedo e insiste em voltar à sua ilusão — mas olhar aquela beleza e satisfazer-se em apenas olhar, com o deleite apenas nisso, e não levá-lo adiante, desejando-o também para amanhã. Isso significa — eis o perigo — que você pode sentir um grande prazer e dizer que ele terminou. Mas terá mesmo terminado? Não estará a mente, de forma consciente ou inconsciente, elaborando, ruminando, pensando sobre o assunto, querendo que ele logo aconteça de novo? O pensamento não tem rigorosamente nada que ver com a alegria. Por favor, tudo isso é uma tremenda descoberta para você mesmo; não basta ouvir sobre isso. Existe, pois, uma enorme diferença entre deleite, contentamento, alegria, felicidade e prazer.

Você pode, portanto, observar tudo isso e descobrir a beleza de viver, e essa beleza existe — é uma beleza na qual não há esforço, mas sim o viver em grande êxtase, uma vida da qual o prazer, o pensamento e o medo não fazem parte de maneira alguma.

42

Saanen, 18 de Julho de 1972

É espantosamente belo e interessante o fato de o pensamento estar ausente quando se tem uma idéia nova. O pensamento é incapaz de ter essa idéia. Só é possível se ter essa idéia quando a mente não está atuando de forma mecânica, segundo a estrutura do pensamento. Depois de ter tido uma idéia, o pensamento forma um conceito ou juízo a partir dessa idéia. E, em seguida, o pensamento age, mas o pensamento é mecânico. Preciso, pois, descobrir se é possível ter uma nova idéia acerca de mim mesmo, ou seja, acerca do mundo, e não formar conceitos a partir dele. Se formo um conceito, estou agindo sobre uma idéia, ou imagem, ou símbolo, o que é a estrutura do pensamento, e vivo sempre me impedindo de ter idéias, ou seja, de entender os fenômenos tal como eles são na realidade. Preciso então examinar toda a questão do motivo pelo qual o pensamento interfere e forma um conceito quando há uma percepção.

Percebo que algo é verdadeiro, percebo que estabelecer controle — ouçam isso com atenção — estabelecer controle produz em mim uma cisão entre o controlador e o controlado e, por conseguinte, produz um conflito. Tenho uma idéia brilhante sobre isso, isso é verdadeiro, mas todo o meu processo de pensar está condicionado pela idéia de controlar; minha educação, minha religião, a sociedade em que vivo, a estrutura familiar, tudo me diz para controlar: esse foi o conceito que me foi transmitido, o conceito que também adquiri, e eu ajo de acordo com esse conceito, que é mecânico. E vivo, portanto, em permanente luta. Bem, eu agora tenho uma nova idéia acerca de todo o problema do controle. E essa idéia surgiu quando a mente ficou livre para observar, quando não estava condicionada; e, no entanto, toda a estrutura do condicionamento ainda permanece. Existe, então, uma mente que diz: Por Deus, eu enxerguei isso com clareza, mas vejo-me também presa do hábito do controle.” Trava-se uma batalha — o mecânico e o não-mecânico. Mas por que o pensamento se aferra a toda a estrutura do controle? Porque o próprio pensamento produziu a idéia de controle.

O que significa controlar? Implica repressão, uma divisão na pessoa, ou seja, uma parte, um segmento de mim diz: “Preciso controlar os outros segmentos.” O pensamento cria a divisão. O pensamento diz: “Preciso me controlar, caso contrário não me adaptarei ao ambiente, ao que as pessoas dizem, e assim por diante; portanto, preciso controlar.” Então o pensamento, que é a resposta da memória — e a memória é o passado, é a experiência, é o conhecimento, todos eles mecânicos — tem um grande poder. Trava-se então uma batalha constante entre a percepção, a nova idéia e o condicionamento.

Mas, como deve proceder a mente? Eis o nosso problema. Você vê algo novo, mas o antigo ainda permanece — os velhos hábitos, as velhas idéias, as crenças, tudo isso representa um peso enorme. Bem, mas como pode a mente manter uma nova idéia sem formar um conceito em algum momento? Pois, se tenho um conceito, isso é mecânico, é o resultado do pensamento, é o resultado da memória. Da memória surge uma reação, que é o pensamento. Logo em seguida ele se torna mecânico e pouco depois deixa de ser novo. Por favor, façam a experiência comigo.

Existe essa nova idéia, e ela permite que vejamos algo totalmente novo, claro, bonito; e existe o passado com todas as suas lembranças, experiência, conhecimento, e daí brota o pensamento, que é cauteloso, vigilante, medroso, sempre imaginando modos de trazer o novo para o domínio do antigo. E quando vocês percebem isso com clareza, o que acontece? Somos o resultado do passado; e, embora a geração mais jovem tente romper com o passado e se julgue livre para criar um mundo novo, ela não se libertou do passado. Ela vive reagindo contra o passado e, portanto, continuando com o passado.

Então, eu percebo isso. Reconheço o papel do pensamento, mas há também a clara percepção de que só existe essa idéia nova quando há ausência de pensamento. Bem, como resolver o problema? Não sei se pensaram a respeito; talvez estejam encarando isso pela primeira vez. De que modo você, de que modo a mente, responde a isso?

Deixe-me apresentar a questão de outra maneira. A mente precisa ter conhecimento: eu preciso saber onde moro. Ela precisa conhecer a língua que fala. Ela precisa exercitar o pensamento — pensamento que é a resposta da memória, da experiência, do conhecimento; pensamento que é o passado. Ela precisa agir; de outra forma, se eu não conseguisse pensar com clareza, não haveria comunicação entre você e eu. Então, eu percebo que o conhecimento é necessário para que se possa atuar no mundo mecânico. Ir daqui para o lugar onde moro, falar uma língua, agir com conhecimento, agir a partir de todo tipo de experiência, isso é mecânico. E esse processo mecânico precisa, até certo ponto, ter continuidade. Eis a idéia nova, a descoberta. Perceberam? Quando há uma descoberta, portanto, não existe contradição entre conhecimento e libertação do conhecimento.

A descoberta que eu fiz agora é a de que o conhecimento é necessário, e também de que existe aquele tipo de idéia que surge quando o pensamento está ausente. Portanto, há percepção, há uma idéia o tempo todo, e não há nenhuma contradição.

Percebam a dificuldade de colocar em palavras o que eu desejo comunicar. O que eu quero transmitir a vocês é: a mente que está sempre operando a partir de conceitos torna-se inevitavelmente mecânica e, sendo mecânica, precisa refugiar-se em algum tipo de ilusão, em algum tipo de mitologia, em algum tipo de circo religioso. E vocês têm uma idéia acerca disso. Vocês dizem: “Por Deus, como isso é verdadeiro.” Bem, mas se vocês formam conceitos a partir dessa idéia, vocês tiraram conclusões, mas isso ainda é mecânico. Portanto, quando vocês têm uma idéia que é nova e constante, sem conceitos, este estado da mente é criativo — não a mente em conflito e que, através do conflito, produz quadros e livros. Essa mente jamais poderá ser criativa. Bem, mas se vocês percebem isso, esta é uma descoberta, não é mesmo?

Como sabem, na literatura, no mundo das artes, é muito comum ouvir falar de um grande artista, ou de um grande escritor criativo. Mas, se examinarem o que há por trás da sua literatura, verão que o autor vive em conflito diário — com a mulher, com a família, com a sociedade, ou é ambicioso, cheio de cobiça, deseja poder, posição, prestígio. E ele possui certos talentos para escrever. Através das tensões, através do conflito, ele pode escrever bons livros, mas não é criativo no verdadeiro sentido da palavra: não me refiro à criatividade que se manifesta na expressão, ou seja, escrever um livro, uma poesia, etc., mas sim a ter uma idéia nova sem formar conceitos a partir dela, de tal modo a mover-se sempre de uma idéia para outra, de uma ação para outra. Isso é espontaneidade.

Bem, mas essa mente deve, é claro, permanecer só — não no sentido de isolar-se. Vocês sabem distinguir entre isolamento e estar só? Eu me isolo quando construo um muro de proteção ao meu redor. Eu resisto. Resisto a qualquer crítica, a qualquer idéia nova. Tenho medo, quero me proteger, não me machucar. E, portanto, isso produz na minha ação uma atividade que gira em torno de mim mesmo, e esse é um processo isolador. Ficou claro? E a maioria de nós vive se isolando. Eu fui ferido e não quero ser ferido. A lembrança dessa ferida permanece e, portanto, eu resisto. Ou eu acredito em Jesus, ou em Krishna, ou em qualquer outro, e resisto a qualquer dúvida à minha crença, a qualquer tipo de crítica, porque adquiri segurança na minha crença. Isso isola. Esse isolamento pode incluir milhares de pessoas, milhões de pessoas, mas ainda assim é isolamento. Quando me digo católico, comunista ou algo equivalente, estou me isolando. A solidão, porém, é algo bastante diferente; ela não é o oposto do isolamento, mas sim — ouçam-me com atenção — ter uma revelação acerca do isolamento. Essa revelação é solidão.

Como vocês sabem, a morte é o estado final do isolamento completo.

Você vai deixar tudo para trás, todos os seus trabalhos e idéias; e você fica totalmente isolado pelo medo disso. E esse isolamento é totalmente diferente do isolamento que resulta da compreensão da natureza da morte. Se você tem uma revelação acerca disso, você está sozinho.

Portanto, a mente que é livre tem idéias novas a cada instante, a mente livre não tem conceitos e, portanto, é não-mecânica; e permanece em ação, ação não-mecânica, porque enxerga o fato, tem idéias revela- doras acerca de tudo, a cada instante. Por conseguinte, ela está em constante movimento, é viva. E uma mente assim mantém-se jovem, fresca e incapaz de se machucar, ao passo que a mente mecânica pode se machucar.

O pensamento, então, sobre o qual repousam todas as nossas civiliza­ções, toma-se mecânico; todas as nossas civilizações são mecânicas. E, conseqüentemente, são corruptas. Sendo assim, fazer parte de qualquer organização é tornar-se corrupto, ou deixar-se corromper. Bem, essa é uma idéia, não é mesmo? Mas, poderá você ir desta idéia para outra idéia e manter-se neste movimento — e isso é vida — de modo tal que os relacionamentos sofram completa mudança? Nossos relacionamentos são baseados em conceitos, não é verdade? Examinem isso, por favor, pensem acerca disso, e verão uma mudança extraordinária ocorrendo no relacionamento de vocês.

Em primeiro lugar, nosso relacionamento é mecânico, isto é, baseia-se em idéias, conceitos e imagens. Eu tenho uma imagem da minha mulher, ou ela tem uma imagem de mim — imagem no sentido de conhecimento, de conceito, de experiência — e ela age a partir desse conceito, dessa imagem e, através da ação, ela só faz acrescentar à imagem, ao conceito, tal como eu também faço. O relacionamento, portanto, é entre dois conceitos.

Sendo assim, é mecânico. Você pode chamá-lo de amor, vocês podem dormir juntos, mas ele é mecânico. Sendo mecânico, vocês querem excitação excitação religiosa, psicológica — e algum modo de se entreter, de fugir do relacionamento mecânico. Você se divorcia, e tenta encontrar outra mulher ou outro homem que tenha algo novo, mas isso também logo se torna mecânico.

Dessa forma, nossos relacionamentos se baseiam nesse processo mecânico. Mas, se vocês tiverem uma idéia nova acerca disso, se enxergaram tudo como na verdade é — o prazer, o chamado “amor”, o assim chamado antagonismo, as frustrações, as imagens, os conceitos construídos por vocês a respeito dela e de você mesmo — se tiverem essa idéia, tudo isso desaparece, não é? Você não terá mais uma imagem, que é um conceito. Seu relacionamento passa a ser direto, e não mais através de uma imagem. Mas os nossos relacionamentos são baseados no pensamento, no intelecto, que é mecânico, e isso não tem absolutamente nada que ver com amor, evidentemente. Eu posso afirmar: “Amo minha mulher”, mas esse não é o fato real. Eu amo a imagem que tenho dela quando ela não está me atacando. Descubro, pois, que relacionamento significa viver livre de imagens, de conceitos; portanto, significa responsabilidade e amor. E esse não é um conceito, compreendem?

Meu cérebro, portanto, é um armazém de conhecimentos, de experiências diversas, de recordações, de feridas, de imagens, e tudo isso é pensamento certo? Vejam isso. E meu cérebro — e o seu, da mesma forma meu cérebro se condicionou ao longo do tempo, através da evolução, através do crescimento. E a sua função é viver em completa segurança, de forma espontânea, senão ele não pode funcionar. Sendo assim, ele constrói em tomo de si um muro de crenças, de dogmas, de prestígio, de poder, de posição — tudo isso; ele constrói tudo isso em tomo de si para se sentir seguro. Já examinaram o cérebro de vocês em ação? Se examinaram, perceberão que ele pode atuar maravilhosamente bem, com lógica, com juízo, quando não está com medo. Quer dizer, quando está em completa segurança. Bem, mas essa completa segurança existe? Diante disso, incerto quanto a essa completa segurança, ele procura concluir que existe segurança. Ele forma um conceito. E o conceito passa a ser a sua segurança. Estou assustado, sei que só posso funcionar, que o cérebro só pode funcionar quando existe realmente uma segurança feliz e que eu possa desfrutar. Mas não posso desfrutá-la porque ando assustado; posso perder meu emprego, minha mulher, vivo amedrontado — e, assim, por causa do medo, invisto minha energia numa crença, num conceito; isso passa a ser a minha segurança. A crença, o conceito pode ser uma ilusão, um mito, uma tolice, mas é a minha segurança. As pessoas acreditam em todo esse negócio de igrejas; isso é um verdadeiro mito, mas é a sua segurança. Sendo assim, eu encontro segurança em uma crença, ou em algum comportamento neurótico — pois comportar-se de maneira neurótica é também uma forma de segurança.

Então o cérebro só pode funcionar livremente, plenamente, se estiver em completa segurança. Ele precisa ter segurança, quer ela seja real ou falsa, ilusória ou não-existente — e, assim, ele inventará uma segurança. Bem, percebo agora que não existe segurança em uma crença, em um conceito, em qualquer pessoa, em qualquer estrutura social, em qualquer líder, em seguir este ou aquele. Descubro que não existe segurança nisso. E adquiro segurança em ver, em ter idéias. A segurança está na idéia, não no c o n c e ito Perceberam? Não a partir de mim, mas por vocês mesmos. Captaram o que eu quero dizer? Isso ficou claro para vocês?

Temos, pois, o problema da mente ou do cérebro, que só pode funcionar em completa ordem, em completa segurança, em completa certeza; caso contrário, a pessoa se desarranja, torna-se neurótica. Vejo, portanto, que qualquer pessoa, inclusive eu, ligada a qualquer organização, que deposite sua fé numa organização, ou em um líder, age de maneira neurótica. E qual é a segurança da mente que descartou tudo isso? Sua segurança está na idéia, que produz inteligência. Segurança é inteligência. Não é o conhecimento, nem a experiência, mas a certeza acerca do valor do conhecimento que é a capacidade de inteligência sustentada, e nisso reside a segurança. Essa inteligência, portanto, essa idéia jamais sente medo.

Seria extraordinário se pudéssemos, todos juntos, compreender apenas isso: a natureza da plena consciência, a natureza da percepção, a natureza da compreensão. Porque então a mente se acha livre para viver. Para viver, não para viver em conflito, em batalhas, com suspeitas, medo, sendo ferida, e todas as outras desgraças.

Saanen, 20 de Julho de 1972

Penso que o problema central da nossa existência é o pensamento, todo o mecanismo do ato de pensar. Nossa civilização, tanto no Oriente como no Ocidente, baseia-se no pensamento, no intelecto. O pensamento é bastante limitado; é mensurável, e produziu feitos extraordinários — todo o mundo da tecnologia, a ida à Lua, a possibilidade de construir casas confortáveis para todos. Mas o pensamento criou também um grande número de males — todas as máquinas de guerra, a destruição da natureza, a poluição da terra — e também, se examinarmos a fundo, criou as assim chamadas religiões por toda a terra. O pensamento foi responsável pela mitologia dos cristãos, com o Salvador, os papas, os padres, a salvação e todo o resto. Além disso, o pensamento foi responsável por um tipo especial de cultura, com seu desenvolvimento tecnológico e artístico, e com sua crueldade, a brutalidade nos relacionamentos, a divisão de classes, etc. Esse mecanismo do pensamento é mecânico, é uma filosofia mecanicista, uma física mecanicista. O pensamento dividiu os seres humanos em “eu” e “não- eu”, em “nós” e “eles”, em hindu, budista, comunista, jovem e velho, hippies e não-hippies, a ordem estabelecida, etc. Toda esta estrutura é resultado do pensamento. Para mim tudo isso é bastante claro, seja na área da religião ou na área civil, política ou nacional.

O pensamento criou um mundo extraordinário — cidades maravilhosas, embora em decadência, transporte rápido. E o pensamento também dividiu os seres humanos no seu relacionamento. O pensamento, que é a resposta da memória, da experiência, do conhecimento, separa os seres humanos. Ou seja, no relacionamento com o outro, o pensamento criou, por meio de uma série de incidentes e atividades, as imagens do “eu” e do “você”, imagens essas que existem em constante interação durante todo o relacionamento. As imagens são mecanicistas e, portanto, o relacionamento torna-se mecânico.

Dessa forma, não existe no mundo exterior apenas a divisão que nasce do pensamento, mas existe também divisão no interior do ser humano. E, no entanto, sabemos que o pensamento é necessário, absolutamente indispensável; caso contrário, você não pode ir para casa, não pode escrever um livro, não pode falar. Pensar, então, é a resposta da memória, da experiência, do conhecimento, que é o passado. O pensamento projeta o futuro através do presente, modelando-o, planejando-o como futuro.

O pensamento tem, portanto, função lógica e eficiente, se não for pessoal. Existe o conhecimento armazenado na forma de ciência e todas as idéias acumuladas. Mas, embora tenha a sua importância, o conhecimento, o conhecido, impede a mente de ir além do presente e do passado. O pensamento só pode funcionar no campo do conhecido, embora possa projetar o desconhecido de acordo com seu condicionamento, com o conhecimento do conhecido. E você observa a ocorrência desse fenômeno em todo o mundo — o ideal, o futuro, o “que deveria ser”, o que deve acontecer de acordo com os antecedentes, com os condicionamentos, com a educação, com o ambiente. E o pensamento também é responsável pelo comportamento, pela vulgaridade, pela crueza, pela brutalidade e pela violência em todos os relacionamentos. Assim, o pensamento é mensurável.

O Ocidente é a explosão da cultura dos gregos, que pensavam em termos de medidas. Para eles, a matemática, a lógica e a filosofia eram o resultado de medições, que é pensamento. Se não se entender por completo o mecanismo do pensamento e seu enorme significado, e também onde ele se torna inteiramente destrutivo, a meditação não tem sentido. A menos que realmente compreenda, que tenha uma profunda idéia acerca de todo o mecanismo do pensamento, você não conseguirá em hipótese alguma, ir além dele. No Oriente, a índia se irradiou por toda a Ásia. (Não a índia moderna, mas a índia antiga — os indianos de hoje são idênticos a vocês — românticos, vulgares, supersticiosos, assustados, aferrados ao dinheiro, lutando por posição, poder, prestígio, seguindo algum guru, e tudo aquilo que vocês sabem que ocorre no resto do mundo — com a diferença de que eles são de cor diferente, vivem num clima diferente, têm uma moralidade um pouco diferente). Os antigos indianos, portanto, afirmavam que a men- suração era ilusão, porque tudo o que pode ser medido é limitado; e se toda a sua estrutura, toda a moralidade, toda a existência se basear na mensuração, que é pensamento, então você jamais poderá ser livre. Desse modo, pelo menos de acordo com o que observei, eles diziam que o imensurável é o real e o mensurável é o irreal, que chamavam de Maya.

Mas, vejam, o pensamento — na forma de intelecto, de capacidade de compreender, de observar, de ser capaz de pensar logicamente em conjunto, de planejar, de construir — o pensamento modelou a mente humana, o comportamento humano. Na Ásia dizia-se que, para encontrar o imensurável, você precisa controlar o pensamento, precisa modelá-lo através do comportamento, através da conduta correta, através de várias formas de sacrifício pessoal, etc. No Ocidente ocorre exatamente a mesma coisa. No Ocidente também se diz: controle-se, comporte-se, não fira, não mate; mas tanto o Oriente quanto o Ocidente matam, comportam-se mal — fazem de tudo.

Não se pode, de forma alguma, negar que o pensamento é o tema central da nossa existência. Podemos acreditar que temos uma alma, que Deus existe, que existe o céu, o inferno, mas inventamos tudo isso por meio do pensamento; as qualidades nobres e a feia existência não são mais do que produtos do mecanismo do pensamento. Surge então a pergunta: se o mundo, a existência exterior é resultado da filosofia mecanicista, da física mecanicista, que papel desempenha o pensamento no relacionamento, e que papel desempenha o pensamento na investigação do imensurável, se é que existe o imensurável? Vocês precisam descobrir, e é isso o que iremos fazer juntos.

Eu quero saber o que é o pensamento e que significado ele tem para a existência. Se o pensamento é mensurável e, por conseguinte, bastante limitado, ele pode investigar algo que não é do tempo, da experiência, do conhecimento? Compreendem o que eu quero dizer? Pode o pensamento investigar o imensurável, o desconhecido, o indescritível, o etemo, o duradouro? — Há dezenas de nomes, mas isso não importa. Visto que o pensamento é incapaz de investigá-la, o que vem então a ser a mente que é capaz de penetrar naquela dimensão onde não há palavras? Certo? Pois a palavra é pensamento. Usamos a palavra para transmitir determinadas idéias, determinadas sensações. Desse modo, o pensamento, que se ocupa com lembrar, imaginar, inventar, planejar, calcular e que, portanto, funciona a partir de um centro — que é o conhecimento acumulado em termos de “eu” — será este pensamento capaz de investigar algo que ele não consegue, de forma alguma, compreender? Pois ele só pode funcionar no campo do conhecido; caso contrário, fica perplexo, torna-se incapaz.

Então, o que é o pensar? Eu preciso ser bem claro comigo mesmo para descobrir o que é o pensar. E para descobrir ou para encontrar seu lugar correto. Dissemos que o pensar é a resposta da memória, da experiência, do conhecimento armazenado nas células do cérebro. O pensamento é, portanto, o resultado do desenvolvimento, da evolução, e isso é tempo. Logo, o pensamento é resultado do tempo, e só pode funcionar dentro do espaço por ele criado ao redor de si mesmo. E o espaço é bastante limitado; o espaço é o “eu” e o “não-você”. O pensamento, todo o maquinário do pensar, tem um lugar certo. E o pensamento, no relacionamento entre dois seres humanos, toma-se destrutivo. Percebem? O pensamento, produto do conhecimento, do tempo, da evolução, resultado da filosofia mecanicista, da ciência, e todos eles estão baseados no pensamento — embora vez ou outra aconteçam novas descobertas, nas quais o pensamento não toma parte, em absoluto. Ou seja, você descobre algo totalmente novo, e a descoberta não é uma descoberta do pensamento. Você então traduz o que descobriu em termos de pensamento, em termos do conhecido. Embora um grande cientista possa ter um grande conhecimento, esse conhecimento está ausente no momento de enxergar algo novo. Ele tem uma idéia acerca de algo novo, e em seguida traduz essa idéia para o conhecido, com palavras, em uma frase, em seqüências lógicas. E para isso o pensamento é necessário.

Assim, o conhecimento é absolutamente essencial. Você pode adicionar a ele, retirar dele, mas a imensidão do conhecimento é uma necessidade humana. Bem, mas será o conhecimento necessário no relacionamento entre os seres humanos? Nós nos relacionamos uns com os outros, somos seres humanos, vivemos na mesma terra; é a nossa terra, não a terra dos cristãos ou dos ingleses, ou dos indianos, é a nossa terra, com a beleza que há nela, com riquezas maravilhosas, é a nossa terra, para vivermos nela. E que papel desempenha o pensamento no relacionamento? Relacionamento significa estar relacionado com; relacionamento significa cada qual responder ao outro com liberdade, com responsabilidade. Então, qual o lugar do pensamento no relacionamento? O pensamento, que é capaz de lembrar, de imaginar, de inventar, de planejar, de calcular: qual o papel do pensamento no relacionamento humano? Terá ele algum tipo de papel nisso? Por favor, queremos investigar em nós mesmos e não em algum outro lugar, mecanicamente.

O pensamento é amor? Não respondam já. Nós queremos investigar, entrar no assunto. O que é o nosso relacionamento quando vivemos juntos numa casa, marido, mulher, amigos, o que é o nosso relacionamento? Será ele baseado no pensamento? — pois o pensamento é também sentimento: os dois não podem ser dissociados. Se for baseado no pensamento, então o relacionamento se torna mecanicista. E, para a maioria de nós, esse é o relacionamento que temos com os outros — mecanicista. Por mecanicista eu entendo a imagem criada pelo pensamento sobre você e sobre mim. As imagens que cada um cria, defende, ao longo de bom número de anos, ou de inúmeros dias. Você construiu uma imagem a meu respeito, e eu construí uma imagem a seu respeito, que é produto do pensamento. A imagem passa a ser a defesa, a resistência, o cálculo: eu construo um muro em volta de mim e um muro à sua volta, e você constrói um muro em torno de você e um muro em torno de mim — isso é chamado de relacionamento, e de fato é assim.

Desse modo, nosso relacionamento é produto do pensamento; é calculado, lembrado, imaginado, inventado. E será isso relacionamento? É fácil dizer: “Não, claro que não.” Apresentado assim com tanta clareza, sem dúvida a resposta é não. Mas o fato existe: isso é o nosso relacionamento.

Se nós não nos iludirmos, este é o fato. Eu não quero ser ferido, eu não me importo de ferir você e, então, construo uma resistência, e você faz o mesmo.

Esse processo de inter-relacionamento torna-se mecanicista e destrutivo. E, sendo um relacionamento mecanicista e destrutivo, tentamos escapar dele, conscientemente, ou inconscientemente.

Então eu faço uma descoberta: descubro que qualquer tipo de interferência do pensamento no relacionamento torna-se mecanicista. Eu descobri isso. Para mim este é um fato de suma importância — e esse fato consiste no efeito do pensamento quando ele interfere no relacionamento: ele é tão nocivo quanto uma cobra, um precipício ou um animal perigoso. Eu vejo isso. Então, como devo me conduzir? Eu vejo que o pensamento é necessário em certo nível, e que o pensamento no relacionamento é o que há de mais pernicioso. Ou seja, você me feriu, me disse desaforos, me lisonjeou, me deu prazer, sexual ou de outra natureza, me aborreceu, me incomodou, me dominou, me trouxe frustrações — estas são todas as imagens, os juízos que tenho a seu respeito. E quando eu o vejo, projeto tudo isso sobre você. Posso tentar controlar isso, posso tentar reprimir isso, mas isso continua sempre presente. Então, como proceder? Eu vejo, tenho uma idéia acerca de todo o mecanismo do pensar — todo o mecanismo, e não apenas numa direção, o mecanismo do pensar na existência humana, exterior ou interiormente, é o mesmo movimento. E se a mente pretende ir além dele, além e acima dele, como fazer para dar à mente um campo de ação suficiente para que ela possa agir sem causar a sua própria frustração? Vamos, vejam a beleza disso tudo!

Pois sem compreender, sem atingir esse estado que jamais pode ser alcançado pelo pensamento, a vida torna-se mecânica, rotineira, enfadonha, cansativa — vocês conhecem tudo isso. E, sabendo como isso é solitário e pavoroso, com uma ou outra alegria ou prazer ocasional, queremos escapar, fugir desse horror. E, assim, imaginamos, criamos mitos — e os mitos têm importância. O mito cristão manteve as pessoas unidas; os indianos têm grandes mitos, que produziram certa unidade; e quando eles são abandonados, ocorre a fragmentação, como acontece hoje no mundo. Se você pensar seriamente no assunto, verá que não possui mitos sobre Jesus ou Buda; você já abandonou tudo isso.

Como fará então a mente para produzir uma harmonia na qual deixe de existir a divisão entre o conhecido e a liberdade em relação ao conhecido? Entre o conhecido, que é conhecimento, o funcionamento do pensamento, e a liberdade em relação a isso. Os dois movendo-se em conjunto, em perfeita harmonia, em equilíbrio, na beleza do movimento. Compreenderam o que estou dizendo? Já tinham notado essa questão antes? E a beleza dessa questão? Não se trata de uma integração dos dois, que é impossível, pois integrar significa agrupar diversas partes, adicionar novas partes ou retirar partes antigas, o que implica uma entidade capaz de fazê-lo, um estranho, que é invenção do pensamento. Tal como a alma, ou o atman, na índia, etc., isto não deixa de ser pensamento. Minha pergunta, então, é: Podem eles ser como dois rios que se encontram, que se movem juntos — o conhecido e o desconhecido, o estar livre do conhecido, e uma mente que tem idéias numa dimensão na qual o pensamento não tem lugar em absoluto?

Será isso então possível? Ou será meramente uma idéia, uma teoria? Embora o sentido original de teoria, como é dado no dicionário, seja o de ter uma idéia, o de ter a capacidade de perceber num relance a verdade de algo, de contemplar. Pois bem, este é o problema: pensamento e não-pen- samento. Pensamento: quando preciso construir uma ponte, escrever um livro, fazer um discurso, calcular aonde irei, eu uso o pensamento. E, no relacionamento, absolutamente nenhum pensamento, porque isto é amor. Agora, podem os dois caminhar juntos o tempo todo?

Podem os dois viver juntos em harmonia, de forma que o comportamento não se baseie no pensamento já que neste caso ele se tornaria mecanicista, condicionado, um relacionamento entre imagens? Podem então existir os dois movimentos? O movimento do conhecimento — porque ele vive em permanente movimento, não é estático, você sempre acrescenta algo — e o movimento no qual o pensamento, como formador de imagens, não participa em absoluto? Se a questão ficou clara, você verá o pensamento, que está sempre em ação, dizer: para fazer isso, você precisa controlar.

Compreende? Você precisa controlar o pensamento; precisa agarrá-lo e não deixar que ele interfira no relacionamento; você precisa constmir um muro. O pensamento, então, calcula, imagina, lembra — lembra o que ouviu de alguém acerca da necessidade de esses dois movimentos caminharem juntos. Então o pensamento diz: “Eu me lembrarei disso; é uma idéia maravilhosa” — e, assim, ele armazena isso na forma de memória, e agirá de acordo com essa memória. Diante disso, ele declara: “Preciso controlar.” E isso — o controle — é a base de toda a filosofia mecanicista, da civilização, e de toda a estrutura religiosa; depois de você ter controlado, de ter reprimido o suficiente, você será livre, o que é uma tolice!

O pensamento, então, começa a criar um padrão de comportamento com o intento de possuir essa harmonia. Por conseguinte, ele a destruiu! Pois bem, eu agora descobri algo. Fiz uma descoberta acerca da questão: o controle não é o caminho — o controle implica repressão, implica a existência de uma entidade que controla, e que é ainda o pensamento, como controlador, como observador, o que vê, o que vivência, o que pensa. Tenho uma visão interior acerca disso. E a mente, o que faz?

Como é que você tem essa visão? O que é essa visão? Como ela acontece? Como vocês sabem, para mim, essa visão interior ou introvisão é quando você enxerga algo como sendo falso e algo como sendo verdadeiro, e enxerga tudo isso num relance. Você faz isso ocasionalmente. Você passa a ver algo de forma total e diz: “Por Deus, como isso é verdadeiro!” Muito bem, mas qual é o estado da mente que diz: “É isso mesmo”? — o que não tem nada que ver com o pensamento, não tem nada que ver com lógica ou dialética, que é opinião. Qual é o estado da mente que vê o fato instantaneamente e, portanto, a verdade desse fato? Sem dúvida, se o pensador se acha presente, não há percepção. Certo? Se o pensamento diz: “Criarei um estado extraordinário da mente através da repressão, do controle, de várias formas de sacrifício, do ascetismo, da eliminação do sexo, ou de qualquer outra forma” — ele percorre todos esses fenômenos, esperando encontrar um outro estado mental. Esse outro estado é procurado porque o atual é limitado, é cansativo, aborrecido, mecânico — então, no seu desejo de obter mais prazer, mais excitação, o pensamento aceitará o outro.

Queremos investigar agora o que vem a ser observar sem o observador. Porque o observador é o passado, vive no campo do pensamento, pois é o resultado do conhecimento e, por conseguinte, da experiência, e assim por diante. Existirá então uma observação sem um observador, que é o passado? Posso olhar para você, minha mulher, meu amigo, meu vizinho, sem a imagem que formei a seu respeito através do relacionamento? Eu posso olhar para você sem que tudo isso apareça? Será isso possível? Você me feriu, fez comentários desagradáveis a meu respeito, espalhou rumores escandalosos sobre mim. Posso olhar para você sem me lembrar de tudo isso?

Ou seja, posso olhar para você sem nenhuma interferência do pensamento, que se lembrou do insulto, da ferida, ou da lisonja? Posso olhar a árvore sem conhecer a árvore? Posso ouvir o som do rio a correr sem designá-lo ou reconhecê-lo — apenas ouvir a beleza do som? Você pode fazer isso? Talvez você possa ouvir o rio, ou possa ver a montanha sem nenhum plano estabelecido, mas será que você pode olhar para si próprio, e ver a si próprio com todas as suas acumulações conscientes ou inconscientes, ver-se com olhos que não tenham sido nunca tocados pelo passado? Já tentou algo desse tipo? Desculpe, eu não deveria ter dito “tentou”. Tentar não é o termo.

Você j á fez is so l Já olhou para a sua mulher, ou namorada, ou namorado, ou para quem quer que seja, sem uma única recordação do passado? Se o fizer, descobrirá que o pensamento é repetitivo e mecânico, e que o relacionamento não o é; você descobrirá então que o amor não é fruto do pensamento. Portanto, amor divino, amor humano, nada disso existe: existe apenas amor.

Sem a palavra, existirá o pensamento? Ou será a mente de tal forma escrava das palavras que não pode perceber o movimento do pensamento sem a palavra? Ou seja: posso eu, pode a mente, observar o “eu”, todo o conteúdo do “eu”, sem a palavra? Observar o que eu sou sem fazer associações — a associação é a palavra, a memória, a lembrança — possibilitando, desse modo, um aprendizado sobre mim sem a influência de nenhuma lembrança, sem o conhecimento acumulado na forma de experiência de raiva, de ciúme, de antagonismo ou desejo de poder. Portanto, poderei eu olhar para mim mesmo — não eu — pode a mente olhar para si mesma sem o movimento da palavra? Porque a palavra é o pensador, a palavra é o observador.

Para enxergar de forma tão clara, a mente precisa ter-se libertado definitivamente de todo apego, seja do apego a um conceito, que é uma imagem, ou a uma idéia, que é produto do pensamento — sendo a idéia formada por palavras, frases, noções — ou, ainda, do apego a qualquer princípio, a qualquer movimento de medo e prazer. Essa percepção é, em si mesma, a mais elevada forma de disciplina — disciplina no sentido de aprender, de não se amoldar.

Começamos por investigar e, em seguida, por compartilhar a questão: Qual é o lugar do pensamento na existência? Pois a nossa vida, como hoje é constituída, toda a nossa existência se baseia no pensamento; o pensamento pode imaginar que a existência não se baseia nele, e sim em algo espiritual, mas mesmo isso é produto do pensamento. Nossos deuses, nossos salvadores, nossos mestres, nossos gurus são produtos do pensamento. E qual o lugar do pensamento na vida, na existência? Ele tem seu lugar, de uma maneira lógica, sadia e eficiente, quando o conhecimento funciona sem a interferência do “eu”, que usa o conhecimento e que faz afirmações como: “Eu sou um cientista melhor do que aquele”, ou “Eu sou um guru melhor do que aquele guru”. Portanto, quando o conhecimento é utilizado sem o “eu”, que é produto do pensamento, que cria a divisão entre o “eu” e o “você”, nada pode haver de mais extraordinário, porque isso produzirá um mundo melhor, uma estrutura de mundo melhor, uma sociedade melhor. Temos conhecimentos suficientes para criar um mundo feliz, no qual todos podem ter alimento, roupas, abrigo, trabalho, um mundo sem guetos; mas isto nos é negado porque o pensamento se dividiu em “eu” e “você”, em meu país e seu país, em meu deus bestial e seu deus bestial, e entramos em guerra uns contra os outros.

Sendo assim, o pensamento, como memória, como lembrança, imaginação, planejamento, ocupa um lugar lógico e saudável; mas ele não pode jamais entrar no relacionamento. Se você perceber isso — não de forma lógica, verbal, não com o sentido de “eu serei mais feliz se fizer isso”, não através de palavras, através da imaginação, através de fórmulas — mas se perceber a verdade disso, você terá atingido o ponto onde não existe conflito. Isso acontece naturalmente, como a fruta que amadurece na árvore.

Questionador: Qual é o relacionamento entre o corpo e o pensamento?

Krishnamurti: Se eu não tivesse um corpo, seria capaz de pensar? Sem o corpo, todo o organismo, com seus nervos, sua sensibilidade, com todos os processos mecânicos operativos do sistema físico, sem tudo isso, podería haver pensamento? Se eu não tivesse um cérebro, as células que retêm a memória, que estão conectadas com todo o corpo através dos nervos, podería haver pensamento?

Quando o corpo morre, o que acontece ao pensamento que criamos? Eu viví trinta, cinqüenta ou cem anos, passei a maior parte do meu tempo trabalhando num escritório — Deus sabe para quê — ganhando a vida, lutando, discutindo, resmungando, ciumento, ansioso. Você conhece a minha vida, essa condição horrível em que vivo. Tudo isso sou eu. Este “eu” é diferente do corpo? Examinem isso com cuidado. Será este “eu” diferente do instrumento? É evidente que sim. O “eu” é o resultado de eu me lembrar das feridas, da dor, do prazer, de tudo isso, a lembrança, que é armazenada nas células na forma de pensamento. E o pensamento prosseguirá quando o meu corpo morrer? Você faz a seguinte pergunta: Quando meu irmão, ou o amigo de quem me lembro e que amei, ao lado de quem caminhei e desfrutei grandes prazeres, quando ele morre — será que eu me lembro dele e será que ele existe? Estou apegado a ele e não quero perdê-lo. Eu o perdi fisicamente, mas não quero perdê-lo. Veja o que acontece. Eu não quero perdê-lo, tenho grandes lembranças das experiências, do prazer, da dor, com relação a ele ou a ela, estou apegado a isso, eu me aferro a isso.

Então o pensamento diz: “Ele vive, nós nos encontraremos na próxima vida, ou nos encontraremos no céu. Gosto dessa idéia; ela me conforta.” E vem você e diz: “Que tolice, você não passa de um velho supersticioso”, e eu luto contra você, porque isso me conforta bastante. Portanto, o que procuro é confortar-me, e não a verdade de coisa alguma, mas sim confortar-me. Bem, mas se eu não buscar confortar-me de nenhuma forma — o que é o fato? Se eu vivi uma vida de qualidade inferior, mesquinha, ciumenta e ansiosa, como ocorre com milhões de pessoas, que importância eu tenho? Sou como o vasto oceano de pessoas. Eu morro. Mas eu me aferro à minha vida minúscula, quero que ela continue, esperando que em algum momento futuro eu venha a ser feliz. E com essa idéia eu morro. E sou como um milhão de outros num vasto oceano de existência, sem significado, sem sentido, sem beleza, sem nada de real. E se a mente sai da grande correnteza, como deve fazer, então há uma dimensão totalmente diferente. E este é todo o processo do viver: mover-se para fora da grande corrente de feiura e brutalidade. E como não conseguimos fazer isso, por não termos energia, vitalidade, a intensidade, o amor a isso, deixamo-nos levar pela correnteza.

Brockwood Park, 9 de Setembro de 1972

Podemos ver por nós mesmos, se observarmos com atenção, que foi o pensamento, ainda que de forma sutil, o criador desta extraordinária estrutura humana de relacionamento, de comportamento social, de divisão; e onde há divisão, terá que haver conflito, violência. Quer se trate de diferença lingüística ou diferença de classe, ou ainda da diferença produzida pelas ideologias e sistemas, essas divisões sempre geram violência. E enquanto a pessoa não estudar em profundidade a origem da violência — não apenas a causa da violência, mas ir além disso, muito além da causalidade — jamais conseguirá, pelo menos assim me parece, libertar-se da extraordinária desgraça, confusão e violência que andam à solta pelo mundo.

Diante disso, eu me pergunto, e perguntaremos uns aos outros: o que é a liberdade em relação ao pensamento e ao comportamento humano? Sim, pois o nosso comportamento na vida diária produz o caos no mundo. Pode haver então a completa libertação, a libertação do pensamento? E, se é possível essa libertação, qual é então o lugar do pensamento? Por favor, isto não é filosofia intelectual. Filosofia significa amor à verdade, e não a opinião especulativa, o conceito teórico ou a percepção teórica. Seu verdadeiro sentido é o amor à verdade no nosso dia-a-dia e no nosso comportamento. Para abordar o assunto com seriedade — e espero que vocês façam isso — é preciso pesquisar, estudar, e não apenas memorizar algo que supomos ser verdadeiro ou sobre o que formamos algum conceito — porque não iremos formar conceito algum. Pelo contrário, a verdade não é um conceito: este ocorre apenas quando o pensamento produz opiniões, verdades dialéticas. Com seus conceitos o pensamento se torna um instrumento de separação.

Sendo assim, precisamos tentar encontrar por nós mesmos e é, portanto, indispensável estudar o que é o pensar, e se o pensar, ainda que bastante racional, lógico, sadio, objetivo, é capaz de promover uma revolução psicológica no nosso comportamento. O pensamento sempre é condicionado, porque o pensamento é a resposta da memória, da experiência, do conhecimento, da acumulação. O pensamento brota do condicionamento e, deste modo, jamais poderá produzir o comportamento correto. Percebem o que estou dizendo? E pergunto isso porque já tive oportunidade de encontrar inúmeros psicólogos no mundo todo que, vendo o que são os seres humanos na realidade, como é contraditório o seu comportamento, como eles são seres infelizes e miseráveis, afirmam que o procedimento adequado seria o de recompensá-los e, desse modo, condicioná-los de uma forma diferente. Ou seja, em vez de castigá-los pelo seu mau comportamento, recompensá- los pelo bom comportamento e esquecer o mau comportamento. Assim, por meio de recompensas dessa natureza, você é condicionado desde a infância a se comportar da maneira correta, ou que acreditam ser correta — não anti-social. Eles continuam a viver com o pensamento. Para eles, o pensamento é de suma importância e, a exemplo dos comunistas e de outros, eles afirmam que o pensamento precisa ser modelado, precisa ser condicionado de maneira diferente, e dessa estrutura diferente resultará um comportamento diferente. Mas vivem ainda dentro do padrão do pensar.

Isso já foi tentado na índia antiga pelos budistas; todas as religiões já tentaram isso. Mas o comportamento humano, com todas as suas contradi­ções, com suas fragmentações, é o resultado do pensamento. E se pretendemos uma mudança radical no comportamento humano — não na superfície, nos limites externos da nossa existência, mas no verdadeiro âmago do nosso ser — precisamos então examinar a questão do pensamento. Você precisa ver isso, não eu. Você precisa enxergar a verdade disto: o pensamento precisa ser compreendido; é preciso saber tudo a respeito dele. Isso precisa ser de enorme importância para você, e não apenas porque o orador o afirma. O orador não tem nenhum valor. O valor está no que você aprende, e não no que memoriza. Limitando-se a repetir o que o orador diz, seja aceitando ou negando, você não terá penetrado a fundo no problema. Porém, se você quer mesmo resolver o problema humano de como viver em paz, com amor, sem medo, sem violência, precisa compreender isto profundamente.

Mas como se pode aprender o que é a libertação? Não a libertação da opressão, a libertação do medo, a libertação de todas as pequeninas coisas que nos preocupam, mas a libertação da verdadeira causa do medo, da verdadeira causa do nosso antagonismo, da verdadeira raiz do nosso ser, na qual existe uma aterradora contradição, uma assustadora busca do prazer, e todos os deuses que criamos, com todas as igrejas e sacerdotes — você conhece toda a história. Assim, acredito, é preciso que cada um pergunte a si mesmo se quer se libertar na superfície ou no verdadeiro âmago do seu ser. E se você quer aprender o que é a libertação na verdadeira fonte de toda a existência, você então precisa estudar o pensamento. Se a questão ficou esclarecida — não em termos de explicação verbal, não a idéia que você forma a partir da explicação — mas se você sente a verdadeira necessidade, então podemos caminhar juntos. Porque, se pudermos compreender isso, teremos respondido a todas as nossas perguntas.

É preciso, portanto, descobrir o que vem a ser aprender. Em primeiro lugar, quero aprender se é possível me libertar do pensamento — e não como utilizar o pensamento. Essa é a próxima pergunta. Mas poderá a mente chegar a ser livre do pensamento? E o que significa essa liberdade? Só conhecemos liberdade de alguma coisa — estar livre do medo, disto ou daquilo, da ansiedade, de uma dúzia de coisas. E existirá uma liberdade que não seja de alguma coisa, mas a liberdade per se, em si mesma? Mas, ao fazer a pergunta, não dependerá a resposta do pensamento? Ou será a liberdade a não-existência do pensamento? E aprender significa percepção instantânea e, portanto, não requer tempo. Não sei se vocês percebem isso. Por favor, isso é de uma importância fascinante!

Saanen, 15 de Julho de 1973

Espero que você e eu estejamos vendo a mesma coisa, compreendendo, não apenas de forma verbal mas também não-verbalmente, que para estes problemas, quaisquer que eles sejam — econômicos, sociais, religiosos, pessoais — precisamos de uma mente e de um coração que não sejam produtos do pensamento. O pensamento não irá resolver os nossos problemas, porque eles foram criados pela atividade do pensamento. E o nosso principal problema é produzir uma mudança fundamental, radical, revolucionária, psicológica.

De Krishnamurti e a Educação

Para fazer cessar o pensamento é indispensável entender inicialmente o mecanismo do pensar. Preciso, até o mais profundo do meu ser, compreender o pensamento como um todo. Preciso examinar cada pensamento; eu não posso deixar que algum deles escape sem ser plenamente compreendido; desse modo, o cérebro, a mente, todo o ser ficarão bastante atentos. E quando então eu perseguir todo e qualquer pensamento até o fim, até a extremidade de sua raiz, desse momento em diante, verei que o pensamento cessa por si mesmo. Não preciso fazer nada a respeito porque o pensamento é memória. A memória é a marca deixada pela experiência e, enquanto a memória não for compreendida de forma plena e total, continuará a deixar marcas. A partir do momento em que eu tiver vivenciado completamente a experiência, esta não deixará marcas. Desse modo, se examinarmos cada pensamento e descobrirmos onde se situa a marca, e se permanecermos com essa marca, aceitando-a como um fato, esse fato irá desnudar-se e fará cessar esse processo particular de pensar, de maneira que cada pensamento, cada sentimento será compreendido. Então o cérebro e a mente se libertarão de um acúmulo enorme de recordações. Isso requer tremenda atenção, atenção não apenas para as árvores e os pássaros, mas atenção interior, para cuidar que cada pensamento seja compreendido.

Saanen, 28 de Julho de 1974

Pode a mente esvaziar-se do passado e atingir aquela área de si mesma ainda não tocada pelo pensamento? Vejam, até agora só operamos dentro das áreas do pensamento, como o conhecimento. Existirá alguma outra parte, alguma outra área da mente, que inclui o cérebro, que não se encontre tocada pela luta, pela dor, pela ansiedade, pelo medo humanos, e por toda a violência, por tudo quanto o homem produzir através do pensamento? Meditar significa encontrar essa área. Isso implica não só descobrir se o pensamento pode cessar, mas também se o pensamento pode agir, quando necessário, no campo do conhecimento. O conhecimento nos é indispensável; sem ele não poderiamos funcionar, não poderiamos falar, não poderiamos escrever, etc. O conhecimento é necessário para podermos funcionar, mas esse funcionamento se toma neurótico quando o s tatus adquire muita importância: é o surgimento do pensamento como “eu”, como status. O conhecimento, portanto, é necessário e, no entanto, meditar significa encontrar, ou atingir, ou observar uma área na qual não exista movimento do pensamento. Podem esses dois movimentos viver juntos, em harmonia, no dia-a-dia? Este é o problema; não o respirar, não o sentar-se corretamente, não a repetição de mantras, ou pagar cem dólares para aprender algumas palavras feias e insignificantes, e repetir isso até você acreditar que está no céu — isso é uma tolice transcendental!

Saanen, 24 de Julho de 1975

Qual é a razão para se construir a estrutura chamada o “eu”? Por que o pensamento fez isso? Eis uma questão de extraordinária importância, porque se trata da nossa vida. Precisamos levar isso muito a sério. Por que o pensamento criou o “eu”? Você percebe o fato de que o pensamento construiu o “eu” ou você acha que o “eu” é algo divino, algo que já existia mesmo antes de o tempo existir? É preciso investigar isso também.

Por que o pensamento criou o “eu”? Por quê? Eu não sei, vou descobrir. Por que você acha que o pensamento criou o “eu”?

Há duas coisas a serem consideradas. A primeira é que o pensamento requer estabilidade, porque o cérebro só pode ficar satisfeito onde há segurança. Ou seja, onde há segurança o cérebro opera maravilhosamente, seja de forma neurótica ou racional. Então, uma das razões é que o pensamento, sendo inseguro, fragmentado, quebrado por natureza, criou o “eu” como algo permanente, o “eu”, que se tornou independente do pensamento; e, dessa forma, o pensamento o reconhece como algo permanente. E a permanência é identificada através do apego: minha casa, meu caráter, meu desejo, minha vontade — tudo isso confere um senso de completa segurança e continuidade ao “eu”. Não é assim? Esta é uma das razões. E há também a idéia de que o “eu” é algo anterior ao pensamento — será mesmo? Quem pode afirmar que ele existia antes do pensamento? Se você fizer essa afirmação — como muitos fazem — sua afirmação estará baseada em que raciocínio, em quais fundamentos? Será essa afirmação baseada na tradição e na crença? Ou talvez ela se baseie no desejo de não reconhecer que o “eu” é produto do pensamento, mas algo maravilhoso e divino, o que, mais uma vez, é uma projeção da idéia de que o “eu” é permanente.

Tendo observado tudo isso, deixa-se de lado a idéia de que o “eu” é eterno e divino, eternamente atemporal, etc. — isto também é absurdo.

Percebe-se então com muita clareza que o pensamento construiu o “eu” — e o “eu” tornou-se independente, adquiriu conhecimento; o “eu” é o observador, o “eu” é o passado. O “eu”, que é o passado, flui ao longo do presente e se modifica como o futuro; ele é ainda o “eu” que é fruto do pensamento, e este “eu” tornou-se independente do pensamento. Certo? Podemos prosseguir a partir daqui? Por favor, não aceitem a descrição, as palavras, mas vejam a verdade disso. Assim como vocês vêem o microfone como um fato, vejam também isso. O “eu” tem nome, tem forma. O “eu” tem rótulo, chama-se K ou João, e tem forma, identifica-se com o corpo, com o rosto, e com tudo o mais. Existe, então, a identificação do “eu” com o nome e a forma, que é a estrutura, e com o ideal que ele quer perseguir, ou com o desejo de transformar o “eu” em outra forma de “eu”, com outro nome. Então, esse é o “eu”. O “eu” é produto do tempo e, portanto, do pensamento. O “eu” é a palavra. Remova-se a palavra, e o que é que sobra? O que é o “eu”?

Esse “eu”, portanto, sofre. O “eu”, assim como o “você”, sofre. Então o “eu”, ao sofrer, é “você”. O “eu”, na sua grande ansiedade, é a grande ansiedade do “você” — portanto, eu e você somos iguais. Eis a essência básica. Embora você seja maior, ou menor, mais esperto, tenha temperamento diferente, caráter diférente — tudo isso é o movimento periférico da cultura, mas bem lá no fundo, basicamente, somos o mesmo.

Então o “eu” é levado pela correnteza da cobiça, do egoísmo, pela correnteza do medo, da ansiedade, etc., que é o mesmo que você estar na correnteza. Ou seja: você é egoísta e um outro é egoísta; você sente medo e um outro sente medo. Resumindo: você está ferido, sofrendo, com lágrimas, cobiça, inveja — este é o destino comum de todos os seres humanos. Este é o curso normal de nossas existências no presente. Vivemos — todos nós — presos a esse fluxo. Vamos apresentar isso de outra forma: nós vivemos nessa correnteza, nesse fluxo de egoísmo. Essa palavra engloba todas as descrições do “eu” dadas até agora. E quando morremos, o organismo morre, mas o fluxo de egoísmo prossegue.

Pensem nisso. Suponhamos que eu tenha vivido uma vida bastante egoísta, numa atividade que gira toda ao redor de mim mesmo: meus desejos, a importância dos meus desejos, as ambições, a cobiça, a inveja, o acúmulo de propriedades, o acúmulo de conhecimentos, o acúmulo de uma enorme variedade de objetos — a tudo isso eu dei o nome de egoísmo. E eu vivo dessa maneira, isto é, o “eu” e “você” também. Em nossos relacionamentos dá-se o mesmo. Assim, enquanto vivermos, continuaremos a seguir juntos o fluxo do egoísmo. Isso é um fato; não se trata da minha opinião ou de um conceito meu. Se observar com atenção, você o verá. Você encontra o mesmo fenômeno na América, na índia, por toda a Europa, modificado pelas pressões ambientais, etc. — mas esse, basicamente, é o movimento. E quanto o corpo morre, o movimento prossegue.

Portanto, a enorme correnteza de egoísmo, se posso usar esta palavra para englobar tudo o que ela implica, é o movimento do tempo; e quando o corpo morre, isso prossegue. Continuamos na correnteza, dia após dia, até a morte e, quando morremos, o fluxo prossegue. Esse fluxo é o tempo. Esse movimento do pensamento criou o sofrimento, criou o “eu”, e a partir dele o “eu” se afirmou, agora como ser independente e separando-se de você, mas este “eu” é assim como você quando sofre. Então o “eu” é a palavra, o “eu” é a estrutura imaginada do pensamento. Por si mesmo ele não tem nenhuma realidade. Ele é aquilo que o pensamento fez dele; devido ao fato de que o pensamento precisa de segurança e de certeza, ele investiu no “eu” toda a sua certeza. E nisso há sofrimento. Enquanto vivermos, seremos carregados nesse movimento, nesse fluxo de egoísmo. E quando morremos, o fluxo continua a existir.

E será que é possível fazer cessar esse fluxo? Eu morro fisicamente, isso é evidente. Minha mulher pode chorar por causa disso, mas o fato é que eu morro, o corpo morre. E o movimento do tempo, do qual todos fazemos parte, prossegue. É por isso que o mundo é eu e eu sou o mundo. Poderá esse fluxo ser interrompido? E essa interrupção será a manifestação de algo diferente, de algo diferente da correnteza? Em outras palavras, pode o egoísmo, com todas as suas sutilezas, ser totalmente eliminado? E essa eliminação é a eliminação do tempo e, portanto, há uma manifestação inteiramente diferente — que é a ausência absoluta de egoísmo.

Saanen, 13 de Julho de 1976

Estivemos falando sobre o movimento do pensamento, sobre como o pensamento construiu o mundo moderno, tanto tecnológica quanto psicologicamente, e tudo o que ele fez no domínio da ciência e da psicologia. E ele criou inúmeras religiões, seitas, crenças, dogmas, rituais, salvadores, gurus, assuntos bastante familiares a todos vocês. Como dissemos, o pensamento tem seu lugar, limitado e fragmentado, mas não há possibilidade de o pensamento vir a abarcar ou compreender ou atingir o que é inteiro. O pensamento jamais poderá encontrar o que é atemporal, ou perceber a existência ou não de uma realidade, a existência ou não de uma verdade. O pensamento não pode nunca, em nenhuma circunstância, atingir essa imensidão; e, incapaz de compreender essa totalidade, a dimensão na qual o tempo, como pensamento e medida, não existe, o pensamento precisa encontrar o seu lugar e limitar-se a esse espaço.

Eu gostaria agora, se me permitem, de abordar o problema de nós mesmos nos observarmos. Quando nos observamos, não estamos nos isolando, ou nos limitando, ou nos tomando centrados em nós mesmos, porque, conforme explicamos, nós somos o mundo e o mundo é nós. Isso é um fato. E quando nós, como seres humanos, examinamos todo o conteúdo da nossa consciência, de nós mesmos, estamos realmente investigando o ser humano como um todo — quer ele viva na Ásia, na Europa ou na América. Então, não se trata de uma atividade autocentrada. Quando nos observamos, não estamos nos tornando egoístas, centrados em nós mesmos, nos tornando cada vez mais neuróticos, desequilibrados; ao contrário, quando nos olhamos, estamos examinando todo o problema humano da desgraça, do conflito, bem como tudo quanto de aterrador o homem produziu para si mesmo e para os outros. Assim, é muito importante compreender este fato: nós somos o mundo e o mundo é nós. Você pode ter maneirismos superficiais, tendências superficiais, mas, na essência, todos os seres humanos, por toda parte deste mundo desafortunado, estão acometidos de angústia, de confusão, de agitação, de violência, de desespero, de agonia. Há então um espaço comum sobre o qual todos nós nos encontramos. Assim, quando nos observamos, observamos os seres humanos.

Madras, 31 de Dezembro de 1977

Por que o pensamento adquiriu tanta importância? Se o pensamento produz o medo, se o pensamento fez do passado, que é conhecimento, algo tão importante, será possível devolver o pensamento ao seu verdadeiro lugar, de forma que ele não interfira mais em nenhum outro campo? Estamos nos entendendo?

Então, o que é pensar? Quando lhes faço a pergunta, vocês estão pensando ou ouvindol O que estão fazendo? Colocar o pensamento no devido lugar toma-os livres do medo. Vocês estão realmente ouvindo esta afirma­ção? Ou dizem: “Como devo fazer para colocar o pensamento no seu devido lugar? Por favor, diga-me como fazê-lo.” Então vocês não estão ouvindo verdadeiramente! Vocês se desligaram, concordam?

Por favor, ouçam, descubram a arte de colocar tudo no seu devido lugar — o sexo, a emoção, tudo. A pergunta é: Pode o pensamento compreender a si mesmo e suas atividades e, assim, encontrar o seu devido lugar? Compreendem? O pensamento, agora, movimenta-se em todas as direções, e uma das direções é o medo. Portanto, para compreender o medo, você precisa compreender o papel do pensamento — e não parar o pensamento. Você pode até tentar, mas não conseguirá detê-lo. Mas, se você conseguir colocá-lo no seu devido lugar — não você, mas quando o pensamento se coloca no seu devido lugar — então isso quer dizer que ele compreendeu, que ele tem noção de suas limitações, conhece a sua capacidade de raciocínio, de lógica, etc., mas no seu devido lugar. Assim, perguntamos: Você pode — pode o pensamento — ver a si mesmo, suas limitações, sua capacidade, e dizer: “Essa razão, essa capacidade tem o seu lugar, mas não tem lugar em nenhuma outra parte?” Pois o amor não é pensamento, não é mesmo? Será porventura o amor um produto do pensamento, das lembran­ças?

A lembrança do seu prazer, sexual ou não — será isso amor? Afirmamos que você precisa aprender; não basta memorizar, não basta repetir o que o conferencista disse, mas é preciso descobrir em profundidade, e por você mesmo, se o pensamento tem o seu lugar e se sabe qual é o lugar; quando souber, ele não se moverá em outras direções e, portanto, não haverá mais o medo. Isso exige empenho: testar, não apenas concordar com as palavras, mas testar no dia-a-dia, de forma que você compreenda — não “você”, pois foi o pensamento que criou o “você”. Certo? O pensamento fez você diferente dele, e esse é um dos nossos problemas. A origem do pensamento é o começo da recordação. Quer se trate do homem primitivo ou do macaco antropóide, a recordação é o começo do pensar. O cérebro registra tal como um gravador, e isso significa que ele se lembra. E a origem do pensamento é o recordar. Eis um fato simples e comum. Pode então o pensamento despertar para si próprio, reconhecer a si mesmo como a causa do medo, e dizer: eu conheço o meu lugar. Sabe, isso exige não uma grande concentração, mas uma grande percepção das implicações de todo o movimento do medo; exige a compreensão do movimento do pensamento.

Vejam, se conseguirem fazer isso, se o seu pensamento se envolver nisso, isso fará parte da verdadeira meditação, porque você não pode meditar se a sua vida não estiver em ordem. Se a sua vida diária não estiver em perfeita ordem, a meditação será algo pobre, uma fuga, uma busca ilusória e sem sentido. Eis por que afirmamos que, para existir meditação verdadeira, no pleno sentido da palavra, em toda a profundidade desse estado, em toda a sua beleza, claridade e compaixão, você deve começar por colocar os alicerces da ordem na sua vida diária. Mas você acha isto extremamente difícil. Portanto, você sai, senta-se debaixo de uma árvore ou segura o nariz e faz todo tipo de coisa, certo de que está meditando.

Existe, então, se você ouviu cuidadosamente o que o conferencista disse, uma enorme possibilidade de se libertar por completo do medo, porque nós estamos caminhando, andando juntos, estamos compartilhando do nosso passeio, da nossa exploração. Portanto, não se trata aqui de aprender com o outro. Você aprende à medida que caminha, à medida que explora. Não existe autoridade. Então, eu pergunto: terá o pensamento percebido qual é o seu lugar? Meditem. Pensem nisso. Dediquem meia hora do dia para descobrir — não, não apenas meia hora, dediquem toda a sua vida para descobrir! Porque então você, na qualidade de ser humano que representa a humanidade, cuja consciência é a consciência da humanidade, você perceberá por si mesmo que, quando não existir mais medo nessa consciência, você, que compreendeu e ultrapassou isso, mudará a consciência da humanidade. Isso é um fato. Então, pergunto, terá você — o pensamento — aprendido a arte de se colocar no seu devido lugar? Pois, uma vez feito isso, as portas do céu estarão abertas.

Madras, 7 de Janeiro de 1978

Queremos descobrir a natureza mais íntima do si-mesmo, pois toda a nossa atividade se baseia no si-mesmo: o “eu” em primeiro lugar, você em segundo. Em todos os nossos relacionamentos, em todas as nossas atividades do escritório, ou em nossas atividades sociais, no nosso relacionamento com as outras pessoas, a atividade que gira em torno de nós mesmos opera permanentemente, mesmo quando estamos meditando, mesmo quando achamos que somos religiosos. O que é então o si-mesmo? Infelizmente, a maioria de vocês, por certo, já leu filosofia ou os livros sagrados — não os chamarei de sagrados porque são apenas livros — ou alguém lhes contou, o guru ou o líder religioso de vocês com certeza lhes disse que o si-mesmo é algo extraordinário e que deve viver etemamente, do princípio ao fim.

Estamos, pois, fazendo uma pergunta simples, mas, na realidade, bastante complexa. A forma de abordar a questão é de extrema importância: você pode abordá-la com medo, com conceitos já formados ou aceitando a autoridade de outros e, nesse caso, a abordagem já de partida é limitada e circunscrita; ou, então, você percebe que, para pesquisar, é preciso ter liberdade; caso contrário, não se consegue pesquisar. Se você tem preconceitos, se tem um ideal ou conceito ou vontade, isso irá condicionar sua pesquisa. Então você, se me permite a pergunta, pode ter liberdade suficiente para entrar no assunto com bastante cuidado, de forma lógica, sadia e livre, para descobrir a natureza e a essência mais íntima do si-mesmo?... Embora sua forma ou nome possa ser diferente, será o indivíduo, a identidade do ser humano, que sente ou pensa que é separado, verdadeiramente separado? Suas idiossincrasias, seu caráter, excentricidades, tendências, qualidades — são o resultado da cultura na qual ele nasceu, ou terá ele desenvolvido o caráter como uma resistência à cultura? Isso é muito importante.

Sendo assim, em primeiro lugar, o que é você? A sua atividade, de manhã à noite, é baseada no si-mesmo, na atividade que gira em torno de si mesmo. O que é esse núcleo a partir do qual você age, o núcleo a partir do qual você medita, se é que medita — eu espero que não — o núcleo no qual têm origem todas as ansiedades, medos, dores, pesares, sofrimentos e afeições; o núcleo a partir do qual você busca a felicidade, a iluminação, Deus, ou a verdade, ou seja lá o que for, o núcleo a partir do qual você diz: “Vou fazer os votos para me tornar monge”; o núcleo a partir do qual, no caso de se dedicar aos negócios, você tenta ficar mais rico e poderoso? Eis o núcleo que queremos examinar: o si-mesmo. O que é o si-mesmo e como terá surgido? Será possível você se conhecer tal como você realmente é, e não como pensa que é, como você espera ser? Será possível conhecer isso por inteiro, em toda a sua essência; será possível ultrapassar a atividade fragmentada do si-mesmo?

Será o si-mesmo, esse núcleo, um fruto do pensamento? Por favor, pensem e investiguem, raciocinem como se pensassem nisso agora pela primeira vez; então isso será original, então poderão investigar. Mas se você diz: “Eu já sei o que é o si-mesmo, já cheguei a certas conclusões a respeito dele”, você se impede de examinar o assunto.

Então, o que é o si-mesmo? O que é você? Não quem é você, mas o que é você? Há uma enorme diferença entre quem é você e o que é você. Quando você se refere a quem você é, você investiga alguém, e isso o leva cada vez mais para longe do núcleo; mas, se você se refere a o que você é na verdade, “o que é”, então você está lidando com a realidade. A realidade é aquilo que realmente acontece. Então, o que é você? Você é um nome, uma forma, o produto de uma sociedade, de uma cultura que vem enfatizando ao longo dos tempos que você é separado, algo vagamente identificável. Certo? Você tem o seu caráter, a sua tendência particular, agressiva ou submissa. E tudo isso não é fruto da cultura, que, por sua vez, é fruto do pensamento? É muito difícil aceitar um exame bastante simples e lógico, porque, para muitos, seria preferível imaginar o si-mesmo como algo verdadeiramente extraordinário. Pretendemos mostrar que o si-mesmo não é nada além de palavras e recordações. Sendo assim, o si-mesmo é o passado. E conhecer-se significa observar-se, observar o que você realmente é, no seu relacionamento com os outros. Então as reações do si-mesmo aparecem nos nossos relacionamentos, sejam eles íntimos ou não. Então você começa a ver o que você é, suas reações, preconceitos, conceitos, ideais, isto ou aquilo. E não seria tudo isso um efeito? Todo efeito tem causa. E a causa não será, porventura, a sucessão de recordações, de lembranças e, portanto, o núcleo que acabou sendo criado pelo pensamento, núcleo este a que o pensamento se aferra?

O que é então o amor? E qual é o verdadeiro significado de meditação? Será o esvaziamento da consciência de todos os conteúdos — medo, cobiça, inveja, nacionalidade, o meu Deus e o seu Deus, os meus rituais, as minhas posses, o esvaziar de tudo isso? Isto significa encarar, observar o nada. O nada é uma ausência-de-coisas. Sabem, nada significa ausência-de-coisas. Uma coisa é algo produzido pelo pensamento. Percebem tudo isso? A natureza não foi produzida pelo pensamento; a árvore, as estrelas, os rios, o suave entardecer e a beleza do sol não são frutos do pensamento. Mas o pensamento, a partir da árvore, produziu a cadeira, a mesa, e isto são coisas. Então, quando falamos em nada, isto significa ausência de coisas produzidas pelo pensamento. Não se trata de uma negação.

Então, o que é amor? Será uma coisa do pensamento, um acontecimento fragmentário? Ou será que, quando não existe pensamento, então existe amor? E que relação tem o amor com o sofrimento e o sofrimento com a paixão? E qual o significado da morte? O amor não é uma coisa, algo produzido pelo pensamento. Se o pensamento fosse amor, então o amor seria fragmentário, algo que o pensamento, como desejo, tomaria aceitável, como o prazer, seja ele sensorial, sexual ou outras formas de prazer. Assim, se o amor não é pensamento, qual é então a relação entre amor e compaixão? Porventura a compaixão surge com o fim do sofrimento? E o que significa sofrimento? Por favor, vocês precisam compreender: isto é a nossa vida, é da nossa vida diária que estamos falando. Porque todos nós passamos por grandes sofrimentos — sofrimento pela morte de alguém, formas diferentes e múltiplas de sofrimento, de angústia, de solidão, de enorme desespero, sem nenhuma esperança. O que vocês acham de todas essas pobres pessoas que não têm nenhuma esperança...?

É preciso, portanto, explorar a questão do sofrimento, verificar se é possível dar a ele um fim definitivo. Eis um dos fenômenos que a humanidade, ao longo dos tempos, tem tentado compreender, aceitar, ultrapassar, racionalizar ou explicar utilizando diversas palavras do sânscrito, ou colocando todo o sofrimento, como fazem os cristãos, numa única pessoa. Se você não faz nada disso, pois tudo isso são fugas, você está frente a frentecom o seu sofrimento. Você conhece o sofrimento da solidão, não é mesmo? E conhece também — não é verdade? — o sofrimento da frustração, de amar alguém sem ser correspondido, ou o sofrimento que surge quando se ama alguém que se foi, o sofrimento experimentado quando se é tomado daquela sensação de total vazio interior, da sensação de não ter valor e de não ser auto-suficiente. Você conhece as diversas formas de sofrimento. Será o sofrimento uma espécie de autopiedade? Eu perdi alguém, e isso me traz enorme angústia. E na angústia existe autopiedade, solidão, falta de companhia, a sensação de completa falta de força, de vitalidade, de independência. Você se acha completamente só. Todos nós conhecemos este tipo de sofrimento. Racionalizando, explicando, buscando fugas e todos fazemos isso — ficamos presos em uma rede de fugas. Se você não foge, porque compreende a futilidade das fugas, da repressão, de se refugiar nos templos, e de toda essa tolice, você então encara o fato, e não se afasta dele. Você compreende a frase: “Não se mova.” O pensamento quer fugir disso, mas permanece com isto, para observar o seu processo de crescimento, de florescimento e de entrada em decadência. E isso só pode acontecer quando você examina com atenção, quando se importa com aquilo a que você dá o nome de sofrimento.

Você bem sabe que quando você se importa com alguém, ou com um objeto; você o examina com muita ternura, com muito cuidado e atenção. A mãe cuida do bebê, levanta-se muitas vezes à meia-noite, cansada, mas ela se importa, ela vigia! Portanto, se, da mesma maneira, você vigiar este fenômeno chamado sofrimento, cheio de incertezas, com afeição, você então verá que não há como fugir dele, e o próprio fenômeno a que se deu o nome de sofrimento se transforma em algo totalmente diferente, ou seja, em paixão. Não luxúria, mas paixão. E sem paixão a vida não tem sentido.

Portanto, o si-mesmo e a sua estrutura têm como base o nada. A profundeza mais íntima do si-mesmo é absolutamente nada. E a beleza, a grandiosidade e a magnitude do amor só é possível quando o pensamento verifica que ele não tem lugar no relacionamento amoroso — e portanto o amor é.

Assim, o próximo passo é descobrir qual o relacionamento entre o amor e a morte. Qual o relacionamento entre a nossa existência e a morte? Nós nos preocupamos demais com o que acontece depois da morte, mas não nos preocupamos com o que acontece antes. Jamais nos preocupamos com a maneira como vivemos a vida, mas estamos sempre preocupados com a maneira como a terminamos. Agora, vamos inverter o processo e verificar como você vive a sua vida diária; vamos verificar se na sua vida diária existe um final, um final para os seus apegos. Você sabe o que é a sua vida, não sabe? Ela é uma batalha desde o nascimento até a morte, uma sucessão de infindáveis conflitos, de esforços sem esperança, que não levam a nada a não ser a mais dinheiro, a mais prazer, a mais coisas — coisas que incluem os seus deuses, pois eles são feitos pela mão ou pela mente do homem, que é a atividade do pensamento, da ansiedade, da depressão, da exaltação, da confusão, da incerteza, sempre em busca de segurança e sem jamais encon- trá-la. Isso é a sua vida diária, controlando-se, controlando-se ou entregando-se ao sexo, à ambição, à cobiça, ao poder, ao status. Certo? Esta é sua vida do dia-a-dia, feia e brutal. E você ameniza a feiúra dando-lhe diversos nomes e dando-lhe um significado peculiar. Mas, na realidade, essa é a sua vida diária e você tem medo de deixá-la. Mas você será forçado a abandoná-la quando morrer; você não pode discutir com a morte. Morte por acidente, por doença, por velhice, por senilidade, etc., você irá enfrentar tudo isso.

Portanto, esta é a sua vida, e nós consideramos isto muito mais importante do que a morte — não lá no final, mas agora. A morte significa — por favor, ouçam — o fim. Eu sei que todos gostariam de prosseguir. Acreditamos que talvez exista a reencarnação. Se existe ou não vida depois da morte, isso é irrelevante. De absoluta relevância é o que se passa agora e a capacidade de alterar a sua forma de viver agora. Mesmo aceitando a idéia da reencarnação, fica a pergunta: O que nascerá na outra vida? Quem nascerá? O seu si-mesmo, a sua cobiça, a sua inveja, a sua brutalidade, a sua violência modificados? E se você acredita nisso, então o que você faz agora é de enorme importância, mas você não chega até esse ponto; você brinca com a idéia e continua cheio de cobiça, invejoso, brutal, competitivo.

Nossa pergunta, então, é se a mortè significa que o cérebro, sem sangue e sem oxigênio, se decompõe e termina. Mas, você pode, agora em vida, dar um fim a algo que lhe é tão caro, que é o seu si-mesmo? Você pode dar um fim aos seus apegos? Dar um fim a eles, não discutir a respeito deles, dar um fim a eles e ver o resultado. Se você der um fim a todas as coisas do tipo cobiça, inveja, ansiedade, solidão, agora, a morte passa a ter um significado completamente diferente. Então não existe morte; você vive com a morte o tempo todo. Morte é vida, terminar é começar. Se você mantém a mesma coisa acontecendo sem parar, então não há nada novo. Só quando há um fim é que pode haver um florescimento. Compreendem? Por favor, façam isso em sua vida, façam isso. Testem isso. Refiro-me a isso quando digo que vocês precisam ser sinceros. Só o homem sincero vive; sincero no sentido de saber que é medroso, cheio de cobiça, ele se dá conta do seu próprio prazer peculiar e, sem discutir, sem reprimir, põe fim a isso — com facilidade, com graça, com beleza. Então você verá um começo totalmente diferente. Porque haverá um modo verdadeiro de encarar o nada, e isso é morte, isso é convidar a morte enquanto se vive. Esse convite é o fim de todos os apegos.

Então, de tudo isso brota um estranho fator, o fator da inteligência suprema. Essa inteligência se baseia na compaixão e na clareza e, devido à inteligência, há enorme habilidade. Assim, se você é sincero, aja, faça, não persiga uma vaga teoria ou ideal, mas ponha fim a algo que lhe é muito caro — sua ambição, seja ela espiritual, física, ou ambição de negócios — dê um fim a isso. Então você verá, por você mesmo, o início de um novo florescer.

Ojai, 15 de Maio de 1980

Questionador: Qual é a relação entre a atenção e o pensamento? Existe uma diferença entre atenção e pensamento?

Krishnamurti: Eis uma questão interessante, porque diz respeito a todos nós. Ou seja: O que é a atenção? Qual a relação entre o pensamento e a atenção? Existe liberdade na atenção? Sabemos o que é concentração; a maioria de nós, desde a infância, foi treinada a se concentrar, e essa concentração implica o estrangulamento da nossa energia até determinado ponto e a sua manutenção nesse ponto. Um menino, na escola, entretém-se a olhar para fora através da janela, observando um esquilo que sobe em uma árvore; o educador, então, dirige-se a ele e diz: “Olhe, você não está prestando atenção. Concentre-se no livro. Ouça o que eu estou dizendo.” Isso significa tornar a concentração mais importante do que a atenção. Se eu fosse o educador, ajudaria o garoto a observar cuidadosamente o esquilo, a examinar o movimento do rabo do animal, o formato de suas patas, tudo. Pois, veja bem, se ele aprender a observar com atenção, ele prestará atenção ao livro! Assim, não há contradição.

Atenção é o estado da mente na qual não há contradição. Não existe entidade, núcleo ou ponto que diga: “Eu preciso prestar atenção.” É o estado no qual não há desperdício de energia, ao passo que na concentração o processo de controle está sempre presente: eu quero me concentrar na página, mas o pensamento está longe; então, eu o trago de volta, em constante batalha. Enquanto na atenção é realmente simples, e quando alguém diz: “Eu te amo”, e ele realmente quer dizer isto, você presta atenção. Você não pergunta: “Você me ama porque eu sou bonito, porque tenho dinheiro ou por razões sexuais?” — ou algo parecido. A atenção, portanto, é algo totalmente diferente da concentração.

E o questionador pergunta qual a relação entre a atenção e o pensamento. Nenhuma, evidentemente. A concentração tem relação com o pensamento porque este ordena: “Eu preciso aprender, preciso me concentrar para me controlar.” O pensamento vai de um lado para outro, e na atenção não existe pensamento — eu simplesmente presto atenção.

E será que existe uma diferença entre a atenção e o pensamento? Você não faria essa pergunta se tivesse uma boa noção de todo o movimento do pensamento. Para que você compreenda o que é o pensamento, não basta alguém chegar e lhe dizer o que ele é; é preciso ver o que é o pensamento e como ele surge.

Não pode haver pensamento se existe amnésia total. Mas nós não vivemos em estado de amnésia, e queremos descobrir o que é o pensamento, que lugar ele ocupa na vida. O pensamento surge como uma reação à memória. A memória responde a um desafio, a uma pergunta, a uma ação, ou em relação a algo, a uma idéia, a uma pessoa. Você vê tudo isso acontecer na vida. Então, você se pergunta: o que é a memória? Quando você pisa num inseto e ele lhe dá uma picada, e a dor fica gravada e armazenada no cérebro, isso é memória. A dor que se torna memória não é dor verdadeira. A dor já passou, mas a memória permanece e, dessa forma, na próxima vez você tomará mais cuidado. Existe experiência na forma de dor, transformada em conhecimento; esse conhecimento, essa experiência, está armazenada na memória, e essa memória responde na forma de pensamento. A memória é pensamento. E o conhecimento, não importa a sua extensão, profundidade e amplitude, será sempre limitado. Não existe conhecimento completo.

O pensamento, portanto, é sempre parcial, limitado, que causa divisão, porque não é completo em si mesmo, não pode nunca ser completo; ele pode pensar acerca da sua completude, pode pensar acerca da totalidade, do todo, mas o pensamento em si mesmo não é um todo. Logo, não importa o que ele venha a criar em termos filosóficos ou religiosos, ele será sempre parcial, limitado, fragmentário, porque o conhecimento é parte da ignorância. Como o conhecimento não pode jamais ser completo, ele anda sempre de mãos dadas com a ignorância. Assim, quando se compreende a natureza do pensamento, e o que é concentração, percebe-se que o pensamento não pode prestar atenção, porque atenção significa dispor de toda a sua energia, sem nenhuma restrição. Se você está prestando atenção, o que acontece? Não há esse “você” prestando atenção. Não existe o núcleo que diz: “Eu preciso prestar atenção.” Você presta atenção porque se trata da sua vida, do seu interesse. Se você não está interessado, aí é outra questão. Mas se você está levando a sério e prestando atenção, você descobre que todos os seus problemas se foram — pelo menos no momento.

Então, resolver problemas é prestar atenção. Não se trata de um truque!

Mais de duzentas e cinquenta perguntas nos foram enviadas, quase sempre se esquivando de lidar de forma direta com a realidade da própria pessoa. Vocês não perguntam: “Por que minha mente é tão tagarela, tão inquieta? Porventura já se fizeram esta pergunta? Por que são tão inquietos, movendo-se sem parar, buscando entretenimento constante? Por que a mente é tagarela? E o que você fará a respeito disso? Sua resposta imediata é a de controlar a tagarelice, dizendo: “Tenho de deixar de tagarelar.” O que significa isso? A própria pessoa que controla está tagarelando. Existe esse controlador e ele diz: “Eu não devo tagarelar.” E ele é parte dessa tagarelice. Veja a beleza disto! Então, o que você fará?

Não sei se já notaram que a mente, que toda a estrutura do cérebro tem que estar sempre ocupada com alguma coisa — com sexo, com problemas, com a televisão, com ir ao futebol, com ir à igreja. Por que ela precisa se ocupar? Se ela não estiver ocupada, você se sentirá inseguro, com medo por não estar ocupado? Você se sente vazio, não é mesmo? Você se sente perdido, começa a perceber o que você é, que existe uma tremenda solidão interior. E assim, para evitar essa profunda solidão, com toda a sua angústia, a mente põe-se a tagarelar, ocupa-se com tudo o mais, menos com isso. E então, isso se toma a sua ocupação. Se eu não me ocupo com as tarefas exteriores, como cozinhar, lavar, limpar a casa, etc., ela diz: “Eu me sinto só. Como fazer para superar isso? Deixe-me falar sobre isso, como sou desgraçado” — e está de novo tagarelando. Mas por que a mente vive a tagarelar? Faça a pergunta. Por que sua mente vive a tagarelar, sem um momento de silêncio, sem ter jamais um momento de completa liberdade em relação a qualquer problema?

Será esta ocupação o produto da nossa educação, da natureza social da nossa vida? Tudo isso são desculpas, evidentemente. Não se satisfaça com isso e confirme que a sua mente é tagarela, e olhe para ela, trabalhe nisso, fique com isso. Se a minha mente gosta de tagarelar, eu a vigiarei. Eu digo: “Tudo bem, pode tagarelar” — mas eu estou prestando atenção a isso, o que significa que não tento fazê-la parar de tagarelar. Eu não afirmo que é preciso reprimir isso; eu apenas presto atenção à tagarelice. Se fizer isso, você verá o que acontece. Sua mente ficará muito clara, livre de todo esse inconveniente. E, provavelmente, esse é o estado do ser humano normal e saudável.

Diálogo com o Prof. David Bohm em Brockwood Park, em 14 de Setembro de 1980

Krishnamurti: Bem, a pergunta então é: Existirá algo situado além deste caos, algo que não tenha sido jamais tocado pelo pensamento humano, pela mente?

David Bohm: Sim, é um ponto difícil; não tocado pela mente humana, mas a mente poderia ir além do pensamento.

Krishnamurti: Isso é o que eu quero descobrir.

D. Bohm: Então o que o senhor quer dizer — por mente o senhor entende apenas o pensamento, o sentimento, o desejo, a vontade, ou muito mais?

Krishnamurti: Não, para nós, até agora, a mente, a mente humana, é isto.

D. Bohm: A mente agora é considerada como algo limitado.

Krishnamurti: Enquanto a mente humana permanecer presa a isso, continuará limitada.

D. Bohm: Sim, mas a mente humana tem potencial.

Krishnamurti: Um grande potencial.

D. Bohm: O que no momento ela não percebe, mantendo-se presa ao pensamento, ao sentimento, ao desejo, à vontade, etc.

Krishnamurti: Concordo.

D. Bohm: Podemos então afirmar que tudo o que se encontra além disso não é tocado por essa espécie limitada de mente. Agora, o que queremos dizer quando falamos na mente que está além desse limite?

Krishnamurti: Antes de mais nada, senhor, existe essa mente?

D. Bohm: Sim, esta é a primeira questão.

Krishnamurti: Existirá uma mente que, de uma forma real, não de uma forma teórica ou romântica, e todas as tolices semelhantes, tenha mesmo dito: “Eu passei por tudo isto?”

D. Bohm: O senhor quer dizer, por todo este material limitado.

Krishnamurti: Sim. E ter passado por isso quer dizer ter posto um fim a isso. Existe uma mente assim? Ou será que, por que ela pensa que acabou com isso, ela cria a ilusão de que há algo mais? Não vou aceitar isso. Como um ser humano, uma pessoa, ou “X”, afirma: “Compreendí isso, enxerguei a limitação que há nisso, vivi isso, e cheguei ao fim de tudo isso.” E essa mente, tendo chegado ao fim disso, não é mais a mente limitada. E haverá uma mente que seja totalmente ilimitada?

D. Bohm: Sim, e isso levanta outra questão: como pode o cérebro ser capaz de entrar em contato com uma mente assim? Qual a relação entre essa mente ilimitada e o cérebro?

Krishnamurti: Vou chegar lá. Em primeiro lugar, quero deixar claro este ponto — será bastante interessante, se o examinarmos. Essa mente, o seu todo, toda a natureza e estrutura da mente, inclusive as emoções, o cérebro, as reações, as respostas físicas, têm vivido em um turbilhão, no caos, na solidão, e compreendeu, fez uma grande descoberta acerca de tudo isso. E o fato de ter feito essa grande descoberta iluminou o campo. Essa mente não é mais aquela mente.

D. Bohm: Sim: não é mais a mente original e limitada com que começou.

Krishnamurti: Sim, não é mais a mente limitada, a mente danificada. Vamos usar a palavra danificada.

D. Bohm: Mente danificada, e também cérebro danificado — o trabalho da mente danificou o cérebro.

Krishnamurti: Sim, perfeito. Mente danificada significa emoções danificadas, cérebro danificado.

D. Bohm: As próprias células não estão em perfeita ordem.

Krishnamurti: Correto. Mas quando ocorre a descoberta e, portanto, a ordem, esse dano se desfaz. Não sei se concorda.

D. Bohm: Sim, pode-se ver, pelo raciocínio, que isso é bastante possível, porque se pode afirmar que o dano é causado por pensamentos e sentimentos desordenados que sobreexcitam as células e as desintegram. E agora, com a descoberta, isso cessa e tem início um novo processo.

Krishnamurti: Sim, é como uma pessoa que caminha durante cinqüenta anos numa direção e que, de repente, descobre que aquela não é a direção certa, e todo o cérebro muda.

D. Bohm: Ele muda na essência e, então, a estrutura errada é desmanchada e curada. Como o senhor disse, isso pode levar tempo.

Krishnamurti: É verdade.

D. Bohm: Mas a descoberta...

Krishnamurti: ... é o fator que irá mudá-lo.

D. Bohm: Sim, e a descoberta não leva tempo, mas indica que houve uma mudança na origem de todo o processo.

Krishnamurti: É verdade. Aquela mente, a mente limitada, com toda a sua consciência e conteúdo, afirma que esse papel terminou. Mas, se tiver mesmo ocorrido que aquela mente limitada, pelo fato de ter feito uma descoberta acerca da limitação, ultrapassou esses limites, não será, na verdade, este acontecimento algo de incrível poder revolucionário? Concorda? Logo, não é mais a mente humana. Desculpe-me por usar essa palavra.

D. Bohm: Bem, acho que temos de esclarecer isso: o que entendemos por mente humana.

Krishnamurti: A mente humana com a sua consciência limitada.

D. Bohm: Sim, consciência limitada que é condicionada, e não livre.

Krishnamurti: Isso terminou.

D. Bohm: Sim, de modo que tudo isso se passou com a consciência geral, isto é, não se restringe a indivíduos, mas ocorreu por toda parte.

Krishnamurti: Sim, é claro, não falo de um indivíduo; isso seria uma grande tolice.

D. Bohm: Sim, mas acredito que discutimos isso, que o indivíduo é o resultado da consciência geral, é mais um resultado em particular do que algo independente. O senhor sabe, essa é uma das dificuldades.

Krishnamurti: Sim, é uma das confusões.

D. Bohm: A confusão é que tomamos a mente individual como sendo a realidade concreta. Já discutimos antes a necessidade de considerar a mente geral como sendo a realidade da qual se forma a mente individual.

Krishnamurti: Sim, isso é muito claro.

D. Bohm: Mas agora o senhor declara que ultrapassamos até mesmo a mente geral; e o que significa isso?

Krishnamurti: Sim, ultrapassamos a mente geral e a particular.

D. Bohm: E a mente particular.

Krishnamurti: Bem, mas se alguém na verdade a tiver ultrapassado então, o que é a mente?

D. Bohm: Sim, e o que é a pessoa, o que é o ser humano? Certo?

Krishnamurti: O que é um ser humano? E qual é a relação entre essa mente, que não é feita pelo homem, e a mente feita pelo homem? Não sei se íui claro.

D. Bohm: Bem, já concordamos em chamar isso de mente universal, ou o senhor prefere não fazê-lo?

Krishnamurti: Não gosto da expressão mente universal, inúmeras pessoas já a utilizaram. Vamos usar palavras mais simples.

D. Bohm: Bem, é a mente que não foi feita pelo homem.

Krishnamurti: Acho que isso é mais simples; vamos manter assim, uma mente que não foi feita pelo homem.

D. Bohm: Nem individualmente nem em geral.

Krishnamurti: Geral ou individualmente, ela não é feita pelo homem. Mas, senhor, eu lhe pergunto, pode alguém na verdade observar, em profundidade, sem nenhum tipo de preconceito, ou algo parecido? Será que existe uma mente assim? Compreende o que estou tentando dizer?

D. Bohm: Sim, vejamos o que significa observar. Acho que temos aqui alguns problemas de linguagem, porque, veja, dizemos que é preciso observar, e coisas desse tipo, ao passo que...

Krishnamurti: Eu observo isto, eu observo.

D. Bohm: Quem observa? O senhor vê, este é um dos problemas que surgem.

Krishnamurti: Já abordamos isso. Não existe divisão na observação. Não existe o eu que observa; existe apenas a observação.

D. Bohm: A observação acontece.

Krishnamurti: Sim.

D. Bohm: O senhor diria que ela ocorre num cérebro particular, por exemplo, ou que um cérebro particular toma parte na observação?

Krishnamurti: Percebo a armadilha que há nisso. Não, senhor, ela não ocorre em um cérebro particular.

D. Bohm: Sim, mas parece que um cérebro particular pode responder.

Krishnamurti: É claro, mas não é o cérebro de Krishnamurti.

D. Bohm: Não, não quero dizer isso. O que quero dizer com as palavras cérebro particular é que, devido às particularidades da localização de determinado ser humano no espaço e no tempo, ou qualquer que seja a sua forma, mesmo sem lhe dar um nome, podemos afirmar que ele se distingue de qualquer outro que pudesse estar ali.

Krishnamurti: Veja, senhor, vamos deixar bem claro este ponto. Vivemos em um mundo feito pelo homem; a mente foi feita pelo homem; nós somos o resultado de mentes feitas pelo homem, bem como nossos cérebros, com todas as suas respostas e tudo o mais.

D. Bohm: Bem, o cérebro, propriamente dito, não é feito pelo homem, mas foi condicionado, pelo condicionamento feito pelo homem.

Krishnamurti: Condicionado pelo homem; certo, é isto que quero dizer. Agora, pode esta mente descondicionar-se de forma tão completa que chega ao ponto de não ser mais feita pelo homem? Eis a questão — vamos mantê-la neste nível simples. Pode esta mente, mente feita pelo homem — tal como é agora — pode ela ir até este ponto, libertar-se por si mesma de si mesma, e de forma tão completa?

D. Bohm: Sim, é claro, trata-se de uma afirmação um tanto paradoxal.

Krishnamurti: Exato. Paradoxal, mas é real, é assim. Vamos começar de novo. É possível observar que a consciência da humanidade é o seu conteúdo. E seu conteúdo é todo ele de coisas feitas pelo homem — ansiedade, medo, e tudo o mais. E isto não é apenas particular; isso ocorre em geral. E, tendo feito uma descoberta acerca disso, ela se livrou desse conteúdo.

D. Bohm: Isso significa que, potencialmente, a consciência da humanidade sempre foi maior do que isso e que a descoberta permitiu que ela se liberasse disso. Foi esta a sua afirmação?

Krishnamurti: Esta descoberta — eu não diria que é potencial.

D. Bohm: Bem, há uma certa dificuldade de linguagem. Se o senhor diz que o cérebro, ou a mente, fez uma descoberta acerca do seu próprio condicionamento, então o senhor praticamente afirma que ela se transformou, que não é mais a mesma.

Krishnamurti: Sim, eu afirmo isso; afirmo. A descoberta transforma a mente feita pelo homem.

D. Bohm: Certo. E então ela deixa de ser a mente feita pelo homem.

Krishnamurti: Não é mais a mente feita pelo homem. Fazer essa descoberta significa varrer todo o conteúdo da consciência. Correto? Não um pedaço de cada vez, mas a totalidade dele. E a descoberta não é resultado do esforço do homem.

D. Bohm: Sim; mas então surge outra questão: de onde vem essa descoberta?

Krishnamurti: Perfeito. De onde ela vem? Sim, do próprio cérebro, da própria mente.

D. Bohm: De qual: do cérebro ou da mente?

Krishnamurti: Da mente; refiro-me à totalidade dela. Espere um minuto, senhor. Vamos devagar — isto é muito interessante, mas vamos devagar. A consciência, geral e particular, é feita pelo homem. E, através da lógica e da razão, podemos ver as limitações. A mente, então, terá avançado muito. E, então, ela chega a um ponto em que diz: “Tudo isto pode ser varrido de uma só vez, de um só golpe, com um movimento?” E esse movimento é a descoberta, o movimento da descoberta. Está ainda na mente. Mas não é mais fruto daquela consciência. Não sei se me faço entender.

D. Bohm: Sim. Então o senhor afirma que a mente tem a possibilidade, o potencial de ir além da consciência.

Krishnamurti: Sim.

D. Bohm: Mas nós, na verdade, não achamos isso importante.

Krishnamurti: É claro. Este tem de ser um papel do cérebro, um papel da mente.

D. Bohm: O cérebro, a mente pode fazer isso, mas em geral não o tem feito.

Krishnamurti: Sim. Mas agora, tendo feito isso, existirá uma mente que não seja feita pelo homem, que o homem não pode conceber, não pode criar, e que não é uma ilusão? Existe uma mente assim? Não sei se fui claro.

D. Bohm: Bem, acho que o que o senhor está dizendo é que, tendo-se libertado, a mente...

Krishnamurti: Do geral e do particular...

D. Bohm: ... se libertou da estrutura geral e particular da consciência da humanidade, de seus limites, e a mente agora está muito maior. Agora o senhor diz que a mente levanta uma questão.

Krishnamurti: Sim, a mente levanta uma questão.

D. Bohm: Qual é?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, estará essa mente livre da mente feita pelo homem? Eis a primeira questão.

D. Bohm: Isso pode ser uma ilusão.

Krishnamurti: Ilusão — é a isso que quero chegar; precisamos ser muito claros. Não, não se trata de uma ilusão, porque ela enxerga a mensuração como ilusão; ela conhece a natureza das ilusões e sabe que onde há desejo deve haver ilusões. E que as ilusões devem criar limitação, e assim por diante. Ela não só compreendeu; ela já ultrapassou isso.

D. Bohm: Ela se libertou do desejo.

Krishnamurti: Está livre do desejo. Essa é a natureza. Eu não quero afirmar isso de forma tão brutal. Livre do desejo.

D. Bohm: Mas está repleta de energia.

Krishnamurti: Sim, e então essa mente, que não é mais geral ou particular e, portanto, não é mais limitada — a limitação foi quebrada com a descoberta — não é mais a mente condicionada. Então, o que é esta mente? Estando consciente de que ela não continua mais presa a uma ilusão.

D. Bohm: Sim, mas, segundo o senhor, ela perguntava se existe ou não algo muito maior.

Krishnamurti: Sim, e é por isso que eu faço essa pergunta.

D. Bohm: O que quer que aquilo possa ser.

Krishnamurti: Sim. Existirá uma mente que não seja feita pelo homem? E, se existir, qual a sua relação com a mente feita pelo homem? Isto é muito difícil. O senhor vê, todo tipo de afirmação, todo tipo de declaração verbal não pode ser a mente não feita pelo homem. Certo? Daí perguntarmos se existe uma mente que não seja feita pelo homem. E acredito que só há sentido em se fazer esta pergunta quando a outra mente, quando as limitações estiverem varridas; caso contrário, seria apenas uma pergunta tola.

D. Bohm: Dá no mesmo...

Krishnamurti: Seria uma perda de tempo. Quero dizer: isso se tornaria teórico, sem sentido.

D. Bohm: Seria parte da estrutura feita pelo homem.

Krishnamurti: Claro, claro. Então precisamos estar absolutamente, a pessoa deve estar...

D. Bohm: Eu acho que a palavra absoluto só pode ser usada nesse contexto se tivermos bastante cuidado.

Krishnamurti: Muito cuidado, sim. Absolutamente livre de tudo isso. Só então o senhor pode fazer essa pergunta: existirá uma mente não feita pelo homem e, se existir, qual a sua relação com a mente feita pelo homem? Bem, mas, em primeiro lugar, existe uma mente assim? E claro que existe. É claro, senhor. Sem ser dogmático ou pessoal, afirmo que existe. Mas não é Deus.

D. Bohm: Certo, bom.

Krishnamurti: Porque Deus — já falamos a respeito.

D. Bohm: É parte da estrutura feita pelo homem.

Krishnamurti: Que produziu o caos no mundo. Então, ela existe. A próxima pergunta, portanto, é: se existe essa mente, e alguém afirma que existe, qual a relação dela com a mente feita pelo homem?

D. Bohm: Sim, a geral.

Krishnamurti: A particular e a geral. Haverá alguma conexão aí?

D. Bohm: Bem, trata-se de uma questão difícil; poderiamos dizer que a mente feita pelo homem vive permeada de ilusão; a maior parte do seu conteúdo não é real.

Krishnamurti: Não, e isso é real.

D. Bohm: Verdadeira, ou o que quer que seja.

Krishnamurti: Usaremos a palavra real no sentido de verdadeira, isto é, mensurável, confusa — terá esta alguma relação com aquela! E evidente que não.

D. Bohm: Bem, eu diria que tem uma relação superficial, no sentido de que a mente feita pelo homem tem algum conteúdo verdadeiro num certo nível, num nível técnico, digamos, o sistema da televisão, e assim por diante.

Krishnamurti: Bem...

D. Bohm: Nesse sentido poderia haver uma relação nesta área; mas, como o senhor dizia, esta é uma área bastante pequena. Porém, fundamentalmente...

Krishnamurti: A mente feita pelo homem não tem relação com a mente não feita pelo homem; mas aquela [a mente não feita pelo homem] tem uma relação com esta [a mente feita pelo homem].

D. Bohm: Sim, mas não com as ilusões da mente feita pelo homem.

Krishnamurti: Espere um pouco, vamos ser claros: minha mente é a mente feita pelo homem. Ela tem ilusões, desejos e tudo o mais. E existe aquela outra mente que não tem, que está além de todas as limitações. Essa mente ilusória, a mente feita pelo homem, está sempre buscando a mente não feita pelo homem.

D. Bohm: Sim, este é o seu principal problema.

Krishnamurti: Este é o seu principal problema. É medir, é avançar, chegar mais perto, mais, e todo o resto. E essa mente, a mente feita pelo homem, está sempre em busca da mente não feita pelo homem, e, portanto, cria mais e mais logros, confusão. Esta mente feita pelo homem não tem relação com a mente não feita pelo homem.

D. Bohm: Sim, porque qualquer tentativa de alcançar a mente não feita pelo homem é uma fonte de ilusão.

Krishnamurti: Claro, claro, evidente. Bem, mas terá a mente não feita pelo homem alguma relação com a mente feita pelo homem?

D. Bohm: Bem, o que eu estava sugerindo é que deve haver uma relação pois, se tomarmos todas as ilusões que se encontram na mente feita pelo homem, tais como os desejos, o medo, e assim por diante, a mente feita pelo homem não tem nenhuma relação com a mente não feita pelo homem porque, de qualquer forma, essas ilusões são invenções.

Krishnamurti: Sim, está entendido.

D. Bohm: Mas a mente não feita pelo homem pode ter uma relação com a mente feita pelo homem na compreensão de sua verdadeira estrutura.

Krishnamurti: Está dizendo, senhor, que a mente não feita pelo homem tem uma relação com a mente humana no momento em que supera suas limitações?

D. Bohm: Sim, ao compreender essas limitações, ela as supera.

Krishnamurti: Sim, ela as supera. Então, existe uma relação.

D. Bohm: Então ela tem uma relação genuína com aquilo que a mente limitada é de fato, não com as ilusões do que ela pensa que é.

Krishnamurti: Vamos ser mais claros.

D. Bohm: Bem, precisamos usar as palavras com exatidão — a mente que não é limitada, certo, a mente que não é feita pelo homem, não pode ter relação com as ilusões que se encontram na mente feita pelo homem.

Krishnamurti: Perfeito. Concordo.

D. Bohm: Mas ela tem que ter uma relação com a fonte, por assim dizer, com a verdadeira natureza da mente feita pelo homem, que está por trás da ilusão.

Krishnamurti: Ou seja, em que se baseia a mente feita pelo homem?

D. Bohm: Bem, em tudo isso sobre o que falamos.

Krishnamurti: Sim, que é a sua natureza. Portanto, como pode a mente não feita pelo homem ter um relacionamento com a mente feita pelo homem, mesmo em termos básicos?

D. Bohm: A única relação consiste em compreendê-la, de maneira que alguma comunicação se torne possível, o que podería terminar em... podería comu- nicar-se para a outra pessoa...

Krishnamurti: N ão, eu estou questionando isso.

D. Bohm: Mas o senhor disse que a mente que não é feita pelo homem pode se relacionar com a mente limitada, e não o inverso.

Krishnamurti: Eu questiono até mesmo isso.

D. Bohm: Isso pode ou não ser assim, isso é o que o senhor está dizendo ao questioná-lo.

Krishnamurti: Sim, eu questiono isso.

D. Bohm: Muito bem.

Krishnamurti: Qual é então a relação entre o amor e o ciúme? Existe alguma?

D. Bohm: Não com o ciúme, propriamente, que é uma ilusão, mas pode haver com o ser humano ciumento.

Krishnamurti: Não, estou considerando o amor e o ódio — duas palavras: amor e ódio; ódio e amor não têm relação alguma um com o outro.

D. Bohm: Não, na verdade não.

Krishnamurti: Nenhuma, nenhuma mesmo.

D. Bohm: Eu acho que o amor é capaz de compreender a origem do ódio.

Krishnamurti: Ah, podería — sem dúvida, podería.

D. Bohm: Nesse sentido, eu acho que pode haver alguma relação.

Krishnamurti: Percebo, compreendo. O senhor afirma que o amor pode compreender a origem do ódio, como surge o ódio, e tudo o mais. Será que o amor compreende isso?

D. Bohm: Bem, eu acho que, num certo sentido, ele compreende a sua origem na mente feita pelo homem, que tendo enxergado a mente feita pelo homem e toda a sua estrutura, e tendo se afastado dela...

Krishnamurti: Estamos dizendo, senhor, que o amor — usaremos esta palavra por enquanto — que o amor tem uma relação com o não-amor?

D. Bohm: Apenas no sentido de dissolvê-lo.

Krishnamurti: Não tenho certeza, não tenho certeza; precisamos ter muito cuidado aqui. Ou será ele o fim do próprio ódio...?

D. Bohm: Não entendi.

Krishnamurti: O fim do ódio; o outro existe; o outro não tem uma relação com a compreensão do ódio.

D. Bohm: Sim, bem, precisamos então perguntar como ele começa.

Krishnamurti: Isso é muito simples.

D. Bohm: Não, mas eu quero dizer: suponhamos que tenhamos ódio.

Krishnamurti: Eu tenho ódio. Suponha que eu tenho ódio. Posso ver a sua origem. Porque você me ofendeu.

D. Bohm: Bem, esta é uma noção superficial da origem; refiro-me à origem mais profunda, ou seja, o que leva alguém a se comportar de modo tão irracional. Veja, não há nada real — se você apenas diz “você me ofendeu”, pergunto: por que o senhor respondería ao insulto?

Krishnamurti: Porque todo o meu condicionamento é nesse sentido.

D. Bohm: Sim, é isso o que entendo por compreensão da origem...

Krishnamurti: Compreendo isso, mas será que o amor me ajuda a compreender a origem do ódio?

D. Bohm: Não, mas eu acho que alguém tomado de ódio, ao compreender sua origem e ultrapassá-la...

Krishnamurti: ... aí, então, o outro existe. O outro não pode ajudar este movimento de afastamento.

D. Bohm: Não, mas a pergunta é: suponha que uma pessoa, se o senhor prefere assim, tem esse amor e o outro não o tem, pode o primeiro comunicar algo que irá dar início ao movimento do segundo?

Krishnamurti: Isso significa: A pode influenciar B?

D. Bohm: Influenciar não, mas talvez pudesse provocar uma pergunta do tipo, por exemplo: por que falar disso?

Krishnamurti: Isso é outra coisa — o problema é outro. Não, senhor; a questão é: poderá o ódio ser dispersado pelo amor?

D. Bohm: Não, não é isso, não.

Krishnamurti: Ou será que, havendo a compreensão do ódio e o fim dele, o outro existe?

D. Bohm: Certo, mas, se dissermos que em A o amor agora está presente — certo? A alcançou aquela mente.

Krishnamurti: Sim.

D. Bohm: A ama, e ele vê B...

Krishnamurti: B atingiu o outro.

D. Bohm: Bem, mas dizíamos, o que ele irá fazer, percebe? Essa é a questão.

Krishnamurti: Qual a relação entre os dois?

D. Bohm: E a mesma pergunta.

Krishnamurti: Sim, a mesma pergunta.

D. Bohm: O que ele irá fazer é uma outra forma de fazer a pergunta.

Krishnamurti: Eu acho que — espere um momento, senhor. Eu tenho ódio, o outro tem amor. Minha mulher ama e eu odeio. Ela pode falar comigo, pode me mostrar isso, a irracionalidade disso, e assim por diante, mas o amor dela não irá modificar a fonte do meu ódio.

D. Bohm: Está muito claro, sim, mas o amor dela é a energia que está por trás do diálogo.

Krishnamurti: Por trás do diálogo, sim.

D. Bohm: Não é como se o próprio amor aparecesse por ali e dissolvesse o ódio.

Krishnamurti: É claro que não — esta é uma afirmação romântica. Então o homem que odeia e tem uma idéia clara acerca da origem desse ódio, acerca da causa disso, do seu movimento, e acaba com ele, tem o outro.

D. Bohm: Sim, eu acho que podemos dizer que A é o homem que enxergou tudo isso e que agora tem energia para passar isso para B — mas depende só de B o que venha a acontecer.

Krishnamurti: É claro. Eu acho que deveriamos explorar mais este assunto.

Ojai, 3 de Maio de 1981

A crise não está na política, ou nos governos, sejam eles totalitários ou “democráticos”; a crise não está entre os cientistas nem entre as religiões estabelecidas e respeitáveis. A crise está na nossa consciência, ou seja, no nosso cérebro, no nosso coração, no nosso comportamento, nos nossos relacionamentos. E a crise não poderá ser compreendida na sua totalidade, e talvez nem poderá ser identificada com convicção, enquanto não conhecermos a natureza e estrutura da consciência, que é fruto apenas do pensamento.

Queremos, portanto, estudar, ou observar, o nosso estado mental. Este é o ponto de partida da verdadeira educação, a educação de si mesmo. Aprendemos muito com os outros acerca de nós mesmos e, por isso, vivemos sempre à cata de outros que nos conduzam, não apenas exteriormente, mas também, e em especial, no reino psicológico, interiormente. Diante de qualquer dificuldade ou contratempo, procuramos logo alguém que nos ajude a esclarecer o assunto. Estamos viciados em organizações e instituições, atribuindo a eles a incumbência de resolver nossos problemas, de nos ajudar a iluminar nossas mentes. Assim, dependemos sempre de alguém; e a dependência, fatalmente, corromperá. E aqui não existe dependência de ninguém, nem mesmo do orador, em especial do orador, porque não tenho nenhuma intenção de persuadi-los a pensarem em determinada direção, ou de estimulá-los com palavras ou teorias fantásticas. Em vez disso, observem o que realmente ocorre no mundo, e toda a confusão que há nele e, ao observar isso, não façam do que viram uma abstração, transformando isso numa idéia. Por favor, deixem-me esclarecer bem. Quando observamos uma árvore, a palavra árvore é uma abstração, não é a árvore. Está claro? A palavra, a explicação, a descrição, não é a realidade, não é “o que é”. Precisamos, pois, ter isto bem claro desde o princípio. Quando observamos o que realmente se passa no mundo e nas profundezas da nossa consciência, essa observação pode permanecer pura, direta e clara se não houver a abstração que transforma o observado numa idéia. A maioria de nós vive com idéias, que não são realidades. O importante então passam a ser as idéias e não a verdadeira realidade. Os filósofos usam as idéias em vários sentidos, mas não estamos lidando com idéias. Estamos nos ocupando apenas com a observação do que ocorre — realmente, e não em teoria, não de acordo com determinado padrão de pensamento; estamos nos ocupando daquilo que é. E, ao observar o que é, procuramos, deixá-lo bastante claro. Fazer uma abstração do que é, transformando-o numa idéia, só leva a novas confusões.

Como dissemos, a crise está na nossa consciência, e essa consciência é o terreno comum de toda a humanidade. Não se trata de uma consciência em particular, não se trata da sua consciência, mas da consciência do homem, do ser humano, porque, esteja você onde estiver, no Extremo Oriente, no Oriente Médio ou no Ocidente, no mundo inteiro, o ser humano sofre, tem dor, vive com uma profunda incerteza, na solidão, no desespero atroz, preso a diversos conceitos religiosos fantasiosos que, na realidade, não têm nenhum significado. Isso, portanto, é comum a toda a humanidade. Por favor, vejam isso com muita clareza. Não é a sua consciência: é a consciência de todos os seres humanos que passam por todo esse sofrimento, essa desgraça, esse conflito, desejando identificar-se com algo, com a nação, com uma figura religiosa ou com um conceito.

Por favor, percebam o significado disso. É importante compreender o motivo de nos separarmos como indivíduos — quando, na realidade, não somos separados. Somos o resultado de um milhão de anos ao longo dos quais fomos encorajados a aceitar a idéia — a idéia — de que somos indivíduos. Mas, ao observar com cuidado, você percebe que não é um indivíduo; é psicologicamente idêntico a todo o resto da humanidade. Isso é difícil de perceber, porque a maioria de nós se apega a essa idéia — idéia — de que somos todos indivíduos separados, com nossas próprias ambições pessoais, nossa cobiça, nossa inveja, nosso sofrimento, nossa solidão. Mas, quando você observa, percebe que o mesmo acontece com todos. E o conceito de indivíduo nos torna mais egoístas, centrados em tomo de nós mesmos, neuróticos e competitivos; a competição também está destruindo o homem. Então, o mundo é você, e você é o mundo. Esta é uma sensação extraordinária, se você a compreende de fato. Ela tem grande vitalidade, percepção e imensa beleza. Não a mera beleza de um quadro, de um poema ou de um belo rosto. Mas nós somos o mundo, e o mundo é você, eu.

E não só aqui, mas também em todo o resto do mundo, a liberdade é mal-empregada, porque cada um quer realizar-se, ser, vir-a-ser. E, portanto, o conteúdo da nossa consciência é a luta constante para ser, para vir-a-ser, para obter sucesso, poder, posição, status. E você só pode obter isso se tiver dinheiro, talento ou capacidade numa determinada direção. Portanto, a capacidade e o talento encorajam a individualidade. Mas, como você descobrirá, se observar com cuidado, a individualidade é fruto do pensamento.

Assim, ao observar tudo isso, vê-se que a crise está na própria natureza do pensamento. O mundo exterior e o mundo interior são frutos do pensamento. O pensamento é um processo material. O pensamento construiu a bomba atômica, o vaivém espacial, o computador, o robô, e todos os armamentos bélicos. O pensamento construiu também belíssimas catedrais e igrejas, com tudo o que elas contêm. Mas não há absolutamente nada de sagrado no movimento do pensamento. O que o pensamento criou como símbolo, e que você adora, não é sagrado: foi colocado ali pelo pensamento. Os rituais, todas as religiões e as divisões nacionais são resultado do pensamento. Por favor, examinem isso de perto. Não pretendemos persuadir ou condenar ou encorajar, estamos apenas observando. Isto é um fato.

A crise, portanto, está na própria natureza do pensamento. E, como dissemos, o pensamento é o resultado da origem dos sentidos, das respostas sensoriais, da experiência, que encontram algo que ficou registrado como conhecimento, como memória, e, dessa memória, nasce o pensamento. Este tem sido o processo e a natureza do pensamento ao longo de incontável número de anos. Toda a cultura, desde o antigo Egito e mesmo antes, baseia-se no pensamento. E o pensamento criou toda a confusão interior e exterior. Por favor, observem isto por vocês mesmos; eu não ensino, não explico; o conferencista simplesmente coloca isto em palavras, de modo a poder comunicar o que observou. Estamos observando a estrutura e a natureza do pensamento. Ou seja, as reações sensoriais quando você depara com algo — isto é uma experiência, a experiência é registrada como conhecimento, o conhecimento se torna memória e a memória age como pensamento. Dessa forma, a partir daquela ação, você aprende mais, acumula mais conhecimento. E assim o homem tem vivido há mais de um milhão de anos neste processo — experiência, conhecimento, memória, pensamento, ação —, nessa cadeia. Espero que isto tenha ficado bem claro.

Nossa crise, portanto, está na própria natureza do pensamento. Você diz: “Como poderemos agir sem o conhecimento, sem o pensamento?” Não se trata disso. Em primeiro lugar, observe a natureza do pensamento, com muita clareza, sem nenhum preconceito, sem nenhuma direção; limite-se a ver que é assim que isso se passa. Nossos cérebros, por viverem neste círculo vicioso de experiência, conhecimento, ação, memória, mais conhecimento, têm problemas, pois o conhecimento é sempre limitado. Nossos cérebros foram então treinados para resolver problemas. Trata-se de um cérebro solucionador de problemas, jamais de um cérebro livre de problemas. Espera-se que você perceba a diferença. Nossos cérebros foram treinados para resolver problemas tanto no mundo científico quanto no mundo psicológico, no mundo do relacionamento. Surgem os problemas, nós tentamos solucioná-los. A solução é sempre procurada no domínio do conhecimento.

Como dissemos, o conhecimento é sempre incompleto. Isto é um fato. Eis um ponto bastante importante a ser observado, com percepção sensitiva: que o conhecimento jamais é completo, sejam quais forem as circunstâncias.

Vamos agora examinar algo diferente — a saber, o que é a beleza? Porque há pouquíssima beleza no mundo. Por que, a não ser na natureza, a não ser nas montanhas, nos arvoredos, nos rios, nos pássaros e em tudo o mais que há sobre a terra, por que existe tão pouca beleza em nossas vidas? Visitamos museus e vemos quadros, esculturas e tudo o que o homem fez de extraordinário — os poemas, a literatura, a magnífica arquitetura, mas quando olhamos para dentro vemos que existe pouquíssima beleza. Queremos lindos rostos, e nós os pintamos, mas interiormente — vejam, continuamos observando, sem negar ou aceitar — existe pouco sentido de beleza, de quietude, de dignidade. Por quê? Por que o homem ficou assim? Por que os seres humanos, tão espertos, tão eruditos em todas as outras direções, capazes de ir à Lua e fincar um pedaço de pano por lá, capazes de criar mecanismos maravilhosos, por que nos tornamos todos assim — vulgares, barulhentos, medíocres, cheios de vaidade por causa de estúpidas carreiras, arrogantes em função de nossos parcos conhecimentos — por quê? O que aconteceu com a humanidade? O que aconteceu com você?

Acredito que esta seja a crise. Mas nós a evitamos, não queremos olhar para nós mesmos com clareza. E a educação de nós mesmos é o começo da sabedoria — não a dos livros, não a dos outros, mas a compreensão da nossa atividade egoísta, estreita e distorcida, que acontece dia após dia, dia após dia. A crise vive no nosso coração, na nossa mente, no nosso cérebro. E como o conhecimento é sempre limitado, e continuamos a agir nestes domínios, há um eterno conflito. Isto precisa ser bem compreendido. Tentamos solucionar os problemas — políticos, religiosos, os relacionamentos pessoais, etc. — e os problemas jamais são resolvidos. Você tenta solucionar um problema e a própria solução provoca outro problema, como acontece no mundo da política. E então você se volta para a fé, para a crença. Como talvez já tenham observado, a crença atrofia o cérebro. Olhe para isso, observe isto. A afirmação usual: “Eu acredito em Deus”, “eu acredito nisso”, “eu acredito naquilo”, a repetição disso — e ela ocorre nas igrejas, nas catedrais, nos templos, nas mesquitas — vem, pouco a pouco, atrofiando o cérebro, deixando-o sem alimento. Quando a pessoa fica apegada a uma crença, a uma outra pessoa ou a uma idéia, há conflito nesse apego, há medo, ciúme, ansiedade, e isso é parte da atrofia do cérebro, essa repetição constante. Eu sou americano, eu sou inglês, hindu, e toda essa tolice de nacionalidades. Se você observar bem, vai reparar como a repetição disso enfraquece o cérebro e ele vai ficando cada vez mais embotado; você já deve ter notado isso nas pessoas que não param de repetir que só existe um salvador, que só existe o Buda, Cristo, ou isto ou aquilo.

Se você examinar com cuidado, perceberá que o apego a uma crença é parte do desejo de segurança, e esse desejo e exigência de qualquer forma de segurança psicológica produz a atrofia do cérebro. Disto resultam todos os tipos de comportamento neurótico. A maioria de nós preferiría rejeitar essa noção, porque se trata de algo assustador. Essa é a verdadeira natureza da mediocridade. Quando você procura um guru, um sacerdote, uma igreja, e se põe a repetir, a repetir, e a meditação é uma forma de repetição — há nisto uma segurança, o sentimento de que se está salvo, e assim, pouco a pouco, seu cérebro vai ficando atrofiado; ele murcha e se apequena. Examine isso por você mesmo. Não estou ensinando você. Você pode observar isso na sua vida. Mas esta observação da crise, bem como a crise que existe no seu coração, na sua mente e na sua consciência, produzem sempre conflito, porque somos incapazes de solucionar qualquer problema completamente sem criar outros problemas. Basta ver o que se passa conosco — problema após problema, crise após crise, incerteza após incerteza.

Poderá então o cérebro, a mente, libertar-se um dia destes problemas? Por favor, perguntem isso. É uma questão fundamental, e é indispensável fazê-la a nós mesmos. Mas o cérebro foi de tal forma treinado para resolver problemas que não pode compreender o que vem a ser estar livre de problemas. Estando livre, ele pode resolver os problemas, mas o inverso não é verdadeiro...

Se isto estiver bem claro, perguntamos então se existe outro instrumento capaz de libertar a mente de todos os problemas, de maneira a fazer com que ela se torne capaz de enfrentá-los. Percebem a diferença? Apenas a mente livre, o cérebro livre, sem problemas, pode enfrentar os problemas e resolvê-los de imediato. Mas o cérebro treinado para a solução de problemas, esse cérebro viverá sempre em conflito. E então surge a pergunta: Como é possível ficar livre de conflito se, conforme dissemos, o pensamento é o instrumento que cria os nossos problemas?

Olhe cuidadosamente para isto sob outro aspecto. Temos problemas no relacionamento entre homem e mulher, ou entre homem e homem — homossexualismo — neste país e em todos os outros. Olhe para isto com atenção; observe, sem tentar mudá-lo, sem tentar direcioná-lo, dizendo que isto não deve ser dessa forma, ou que deve ser dessa forma, ou pedindo ajuda para sair disso, mas limite-se a observar. Você não pode alterar o contorno da montanha, ou o vôo do pássaro, ou o suave curso do rio; você apenas observa e vê a beleza que existe nisso. Mas, se você observa e diz: “Isto não é tão bonito como a montanha que vi ontem”, você não está observando, mas apenas comparando.

Vamos então examinar com cuidado a questão do relacionamento. Relacionamento é vida. Não se pode viver sem relacionamento. Você pode negar o relacionamento, você pode afastar-se de qualquer relacionamento porque é assustador, porque existe conflito, porque ele machuca. Assim, a maioria de nós constrói um muro em tomo de si mesmo no relacionamento. Mas vamos examinar bem de perto, observar, não aprender — não há nada a aprender, apenas a observar. Você vê a beleza que há nisso? Porque queremos sempre aprender e colocar isso na categoria do conhecimento. Então nos sentimos seguros. Mas, se você observa sem nenhuma intenção, sem nenhum motivo, sem nenhuma interferência do pensamento, somente observa, não apenas a olho nu, em termos visuais, mas também com a mente, o coração e o cérebro livres para observar sem nenhum preconceito; então você descobrirá por você mesmo a beleza que existe no relacionamento. Mas nós não temos essa beleza. Vamos então examinar a questão mais de perto.

O que é o relacionamento? Não me refiro à relação de sangue mas a estar relacionado, relacionar-se com outra pessoa. Estamos, em algum momento, relacionados com outra pessoa?... Psicologicamente, interiormente, profundamente, estamos de fato, em algum momento, relacionados com outra pessoa? Ou será que queremos nos relacionar profundamente e não sabemos como isso podería acontecer? Nosso relacionamento com outra pessoa, portanto, é cheio de lágrimas, de alegrias ocasionais, de prazeres ocasionais, e é a repetição do prazer sexual.

Então, se você observar, estamos mesmo relacionados com alguém? Ou porventura você se relaciona com o outro através do pensamento, através da imagem que o pensamento constmiu de sua esposa ou marido, da imagem que você possui dele ou dela? Desse modo, nosso relacionamento ocorre entre a imagem que você tem dela e a imagem que ela tem de você. E cada qual carrega essa imagem, e cada qual caminha na sua própria direção — ambição, cobiça, inveja, competição, em busca de poder e de posição. Você sabe o que acontece no relacionamento, as pessoas movendo-se em direções opostas ou, quem sabe, paralelas, mas sem nunca se encontrarem. Porque esta é a civilização moderna, isto é o que você oferece ao mundo. Assim, há uma luta constante; há conflito, divórcios, mudança dos chamados companheiros. Você conhece o processo.

E assustador observar tudo isso, e a isso damos o nome de liberdade. Mas quando você observa o fato — se você o observa de perto, sem nenhum motivo, sem nenhuma direção, o fato começa a mudar, porque você agora dedica completa atenção à sua observação. Está acompanhando o que eu digo? Quando você dá completa atenção a algo, você ilumina o assunto. Essa luz, então, esclarece, e o esclarecimento elimina o que existe. Compreende? Estamos caminhando juntos? O fato é que existe a imagem, criada pelo pensamento ao longo de cinco, vinte ou trinta dias, ou dez anos. E o outro tem uma imagem, e cada qual é ambicioso, cheio de cobiça, desejoso de se realizar sexualmente, ou dessa ou daquela maneira; você sabe, todo o turbilhão que se desenvolve no assim chamado relacionamento. E, para observar isso, é indispensável a observação pura. Toda a atividade neurótica tem início quando você quer fugir disso; você então tem à disposição todos os psicólogos, e eles só tornam você mais neurótico. Enfrente o problema, olhe para ele, dê total atenção a ele. Quando você dedica essa atenção total, com o coração, com o cérebro e os nervos, com tudo aquilo de que dispõe, dedicando toda a energia a olhar, então na observação atenta há o esclarecimento. E aquilo que está claro não tem problemas. O relacionamento se torna algo completamente diferente.

A vida, portanto, para a maioria de nós, vem se tornando um enorme problema, porque a vida é relacionamento. Se não nos relacionamos, como vem ocorrendo, disso resultam todos os problemas. Criamos uma sociedade que nasceu da falta de relacionamento. E os comunistas, os socialistas, todos os políticos procuram mudar a natureza e a estrutura da sociedade. A questão básica é relacionar-se corretamente com o outro. Se você tiver esse tipo de relacionamento com uma pessoa, você o terá com todas, com a natureza, com toda a beleza que há na terra.

Assim, é preciso pesquisar em profundidade a razão pela qual o pensamento fez esse estrago em nossa vida, pois foi o pensamento que criou a imagem que tenho da minha mulher e de mim mesmo, ou de mim e do outro. Você não escapará disso, a menos que encare isso e o resolva — ir à igreja, rezar, tudo isso é criancice, é uma total imaturidade, porque até agora não resolveu nada. É preciso começar de perto para poder ir longe. Começar de perto significa observar seu relacionamento com o outro, seja ele quem for — o patrão, o carpinteiro, o capataz, seu marido — , pois a vida é um movimento de relacionamentos. Nós destruímos esse relacionamento com o pensamento. E pensamento não é amor. Amor não é prazer, não é desejo. Mas nós reduzimos tudo a isso.

Rajghat, 25 de Novembro de 1981

Precisam os investigar, de início, não apenas o que é a religião, mas também o que é o pensamento, o que é pensar. Porque todas as nossas atividades, nossas fantasias, tudo quanto está escrito nos Upanixades, ou em outros livros religiosos, é fruto do pensamento. A arquitetura, a extraordinária tecnologia, todos os templos, com tudo o que contêm, sejam eles templos hindus, mesquitas ou igrejas, são frutos do pensamento. Todos os rituais, o puja* a adoração são invenções do pensamento. Ninguém pode negar isso. Todos os nossos relacionamentos são baseados no pensamento; a nossa estrutura política é baseada no pensamento; a estrutura econômica, as divisões nacionais são invenções do pensamento. Veja, temos analisado sempre o que existe exteriormente, mas jamais nos indagamos: O que é pensar? Qual é a raiz e quais são as conseqüências do pensar? Não o que você pensa acerca de, mas sim o movimento de pensar; não o resultado do pensar, que é diferente de investigar a respeito do próprio pensar. Vocês estão me seguindo?

Pensar é algo comum a toda a humanidade. O pensamento não é o meu pensamento; existe apenas o pensamento; ele não é nem oriental nem ocidental. No Oriente ou no Ocidente, existe apenas o pensar.

Iremos agora explicar o que é o pensar, mas a explicação não é a percepção real de como o pensamento surge em você. O conferencista pode entrar no assunto, descrevê-lo, mas a explicação não substitui a compreensão que você precisa ter da origem do pensar. A descrição verbal não é a sua real descoberta, mas, por intermédio da explicação, por intermédio da comunicação verbal, você mesmo descobre a origem do pensar. E isto é mais importante do que a explicação do conferencista.

* Ritual religioso hindu.

O conferencista tem falado bastante em todas as partes do mundo nos últimos sessenta anos. Até inventaram uma expressão: “os ensinamentos” (risos). Esperem um minuto. Os ensinamentos não são algo que está nos livros; os ensinamentos dizem: “Olhe para você mesmo, penetre em você mesmo, investigue o que está ali, compreenda isso e vá além disso”, e assim por diante. Os ensinamentos são apenas uma maneira de apontar, de explicar, mas você precisa compreender, não os ensinamentos, mas você mesmo. Isto ficou claro? Então, por favor, não tente compreender o que o conferencista diz, mas compreenda que o que ele diz funciona como um espelho no qual você olha para si mesmo. Quando você olha para si mesmo cuidadosamente, o espelho não é importante; você o joga fora. E é isso o que iremos fazer.

O que vem a ser o pensar, do qual todos vocês dependem para o seu sustento, em seus relacionamentos, em sua busca de algo além de vocês mesmos? É importante compreender a natureza do pensamento. Já tive ocasião de discutir este assunto com inúmeros cientistas ocidentais interessados na questão do cérebro. Nós usamos apenas uma pequena parte do nosso cérebro. Você poderá observar isto em você mesmo se parar para examinar o assunto; isto é parte da meditação, descobrir por nós mesmos se o cérebro inteiro está operando ou se apenas uma pequena parte dele. Esta é uma das questões. O pensamento é a resposta da memória, a memória foi armazenada através do conhecimento e o conhecimento foi acumulado através da experiência. Ou seja, experiência, conhecimento, memória armazenada no cérebro, depois pensamento e, em seguida, ação; e por meio dessa ação você aprendeu mais — ou seja, você acumulou mais experiência, mais conhecimento e, assim, armazenou mais memória no cérebro; e então age e, a partir dessa ação, você aprende mais. Portanto, todo o processo é baseado neste movimento: experiência, conhecimento, memória, pensamento, ação.

Esse é o nosso padrão de vida, e isso é pensamento. Não há discussão quanto a isso. Reunimos uma quantidade de informações através da nossa experiência, ou através da experiência de outros; armazenamos esse conhecimento no nosso cérebro, do qual surge o pensamento, e agimos. O homem vem fazendo isso há mais de um milhão de anos, preso a esse círculo vicioso: o movimento do pensamento. Dentro dessa área, nós temos escolha, podemos ir de um canto a outro e dizer: “Esta e a nossa escolha, este é o nosso movimento de liberdade”, mas continuará sempre dentro dessa limitada área do conhecimento. Assim, funcionamos sempre dentro do domínio do conhecido; e o conhecimento sempre está acompanhado pela ignorância, porque não há completo conhecimento acerca de nada. Assim, vivemos sempre neste estado contraditório: conhecimento e ignorância. O pensamento é incompleto, quebrado, porque o conhecimento jamais poderá ser completo, então o pensamento é limitado, condicionado. E o pensamento criou mil problemas para nós.

O conhecimento é necessário num certo sentido, e o pensamento é o que temos de mais perigoso internamente. Você compreende isto? Acumulamos agora uma grande quantidade de conhecimento — acerca do universo, acerca da natureza de tudo, cientificamente, arqueologicamente, etc.; colecionamos um conhecimento infinito. E esse conhecimento pode nos estar impedindo de agir como seres humanos completos, plenos. Este é, então, um dos nossos problemas. Ou seja, o computador pode superar o homem no pensar, ele pode aprender mais do que o homem, pode corrigir a si mesmo, pode aprender a jogar xadrez com os mestres e derrotá-los depois da quarta ou quinta partida. E trabalha-se agora no desenvolvimento da máquina de inteligência definitiva.

O computador pode ter um conhecimento muito maior do que o de qualquer pessoa. O tamanho de uma unha pode abarcar toda a Enciclopédia Britânica, todo o seu conteúdo. Compreende? Então, o que é o homem? O homem tem vivido até agora em função da atividade do cérebro, mantendo-o ativo através da luta para sobreviver, para, habilidosamente, acumular conhecimento, para obter segurança, para ficar a salvo. Mas agora a máquina vem assumindo tudo isso, e o que é você? A máquina, o computador, junto com o robô, fabrica automóveis. O computador diz ao robô o que ele deve fazer; e, se ele cometer um erro, o computador o corrige e o robô prossegue. E o que, então, o homem se tomou? Qual é o futuro do homem, uma vez que a máquina pode assumir todas as operações executadas atualmente pelo pensamento, e pode fazê-lo com mais rapidez, pode aprender mais e mais rápido, pode competir — fazer tudo o que o homem faz? É claro que ele não pode olhar para a estrela vespertina e ver a beleza dela, a extraordinária paz, a estabilidade e imensidão disso. O computador não consegue sentir tudo isso, mas poderá vir a conseguir; trabalha-se para isso com furor.

Então, o que irá acontecer com a nossa mente, com o nosso cérebro? Nossos cérebros têm vivido até agora uma luta para sobreviver por meio do conhecimento. E, quando a máquina assumir todas essas funções, o que acontecerá a ele? Só há duas possibilidades: o homem se dedica inteiramente a passatempos exteriores, como o futebol, os esportes, ou a entretenimentos religiosos, como ir ao templo — ou seja, ele brinca com tudo isso; a segunda possibilidade é ele se voltar para o seu interior, porque o cérebro tem capacidade infinita, realmente infinita. Essa capacidade, hoje, é usada na tecnologia, e isso a máquina logo deverá assumir. Esta capacidade tem sido usada para reunir informação, conhecimento, seja ele científico, político, social ou religioso e, de repente, a capacidade desse cérebro está sendo assumida pela máquina, e isso deverá fazer secar o cérebro. Se eu não usar o meu cérebro o tempo todo, ele murchará. Assim, se o cérebro não se mantiver ativo, trabalhando, pensando — e isso a máquina pode fazer melhor — então o que irá acontecer com o cérebro humano? Ou dedicar-se ao entretenimento ou investigar a respeito de si mesmo, o que é infinito.

Dissemos que o pensamento é a expressão ou a reação da memória, e a memória é o resultado do conhecimento, que é experiência. O homem ficou preso a esse círculo vicioso. Nessa área, o pensamento pode inventar deuses, pode inventar tudo. E a máquina assumiu suas funções. Então, ou eu investigo a mim mesmo, o que é um movimento infinito, ou mergulho no entretenimento. E a maioria das religiões é entretenimento; todos os rituais, os pujas, não passam de formas de entretenimento. Assim, temos de perguntar: O que é a religião? Ou seja, precisamos perguntar se é possível colocar a nossa casa em ordem — pois a nossa casa, a casa que está no nosso interior, a estrutura, as lutas, a dor, a ansiedade, a solidão, a agressão, o sofrimento, tudo isso é uma tremenda desordem dentro de nós. E, dessa confusão interior, dessa desordem, tentamos produzir a ordem lá fora, politicamente, economicamente, socialmente, e tudo isso, sem que haja ordem no interior. Sendo assim, é impossível encontrar a ordem do lado de fora sem ter ordem do lado de dentro. Por favor, vejam a lógica disto. Neste país, que vem degenerando com tanta rapidez — anarquia, desordem total, corrupção, suborno, tudo quanto é forma de artifício sujo de que alguém pode lançar mão, do mais alto ao mais baixo escalão, a nossa casa, a que nós criamos, está em total desordem — e nós vivemos a clamar por ordem lá fora. Dizemos aos políticos: “Por favor, criem a ordem.” Jamais dizemos que a ordem deve ocorrer inicialmente aqui, na nossa casa. E só então você poderá ter ordem lá fora.

20 de Junho de 1983: De O Futuro da Humanidade

Krishnamurti: Não deveriamos estabelecer, de início, a distinção entre cérebro e mente?

David Bohm: Bem, a distinção já foi feita, mas não ficou muito clara. Existem, é verdade, inúmeros pontos de vista. Segundo um deles, a mente é apenas uma função do cérebro — essa é a visão materialista. Uma outra visão afirma que mente e cérebro são duas coisas diferentes.

Krishnamurti: Sim, acredito que sejam diferentes.

D. Bohm: Mas deve haver...

Krishnamurti: ... contato entre os dois, uma relação entre os dois.

D. Bohm: Sim, não estamos pressupondo que tem que haver uma separação entre os dois.

Krishnamurti: Não. Vejamos o cérebro, em primeiro lugar. Não sou nenhum especialista em estruturas do cérebro, mas, olhando para dentro de nós mesmos, podemos observar, a partir da atividade do próprio cérebro, que ele é, na verdade, semelhante a um computador que foi programado e que tem memória.

D. Bohm: É muito possível que grande parte da atividade ocorra dessa forma, mas não se pode ter certeza de que toda a atividade ocorra dessa forma.

Krishnamurti: Não, e ela é condicionada — por gerações passadas, pela sociedade, pelos jornais, pelas revistas, por todas as atividades e pressões externas. Ela é condicionada.

D. Bohm: Bem, mas o que o senhor entende por condicionamento?

Krishnamurti: O cérebro está programado, é feito para se amoldar a um certo padrão; ele vive por inteiro no passado, modificando-se com o presente, e indo adiante.

D. Bohm: Estamos de acordo quanto ao fato de que parte desse condicionamento é útil e necessário.

Krishnamurti: É claro.

D. Bohm: Mas o condicionamento que determina o eu, que determina...

Krishnamurti: ... a psique. Vamos por enquanto dar-lhe o nome de psique, de eu.

D. Bohm: O eu, a psique — é desse condicionamento que o senhor está falando. Esse, além de desnecessário, pode ser também nocivo.

Krishnamurti: Sim. A ênfase na psique, em se dar importância ao eu, vem provocando grandes estragos no mundo, pois a psique é separativa e, portanto, vive em permanente conflito, não apenas dentro de si mesma, mas também com a sociedade, com a família, e assim por diante.

D. Bohm: E vive também em conflito com a natureza.

Krishnamurti: Com a natureza e com todo o universo.

D. Bohm: Dissemos que o conflito surgiu devido...

Krishnamurti: ... por causa da divisão...

D. Bohm: E a divisão surge porque o pensamento é limitado. Estando baseado neste condicionamento, no conhecimento e na memória, ele é limitado.

Krishnamurti: Sim. E a experiência é limitada e, portanto, o conhecimento é limitado; por conseqüência, também a memória e o pensamento são limitados. A estrutura e a natureza da psique são, elas próprias, o movimento do pensamento, o movimento do pensamento no tempo.

D. Bohm: Correto. Mas eu gostaria agora de fazer uma pergunta. O senhor falou em movimento do pensamento, mas não ficou claro para mim o que é movimento. Veja: se eu falo sobre o movimento da minha mão, trata-se de um movimento real. Seu significado é muito evidente. Mas, se falamos sobre o movimento do pensamento, parece-me que estamos falando de uma espécie de ilusão, porque o senhor afirmou que o movimento do pensamento é o devir, é o vir-a-ser.

Krishnamurti: Exato, eu afirmo isso, o movimento é o vir-a-ser.

D. Bohm: Mas o senhor afirma que, de certa forma, o movimento é ilusório, não é verdade?

Krishnamurti: Sim, é claro.

D. Bohm: É parecido com o movimento projetado numa tela: não existem objetos movendo-se na tela; o único movimento real é o do projetor a girar. Bem, mas podemos afirmar que existe um movimento real no cérebro — o condicionamento — que projeta tudo isso?

Krishnamurti: E o que queremos descobrir. Vamos examinar isso um pouco. Ambos concordamos, ou percebemos, que o cérebro está condicionado.

D. Bohm: Ou seja, que ele foi mesmo marcado física e quimicamente...

Krishnamurti: E geneticamente, assim como psicologicamente.

D. Bohm: Qual a diferença entre fisicamente e psicologicamente?

Krishnamurti: Psicologicamente, o cérebro gira em torno do eu — certo? E a constante afirmação do eu é o movimento, o condicionamento, uma ilusão.

D. Bohm: Mas há um movimento ocorrendo realmente no seu interior. No cérebro, por exemplo, algo está acontecendo. Ele foi condicionado física e quimicamente, e algo está acontecendo física e quimicamente quando pensamos no eu.

Krishnamurti: Sua dúvida é se o cérebro e o eu são duas coisas diferentes?

D. Bohm: Não. Eu estou afirmando que o eu é o resultado do condicionamento da mente.

Krishnamurti: Sim, o eu é o condicionamento da mente.

D. Bohm: Mas o eu existe?

Krishnamurti: Não.

D. Bohm: Mas o condicionamento do cérebro, da forma como o entendo, é o envolvimento com uma ilusão a que damos o nome de eu.

Krishnamurti: Exato. E pode o condicionamento ser dissipado? Essa é a questão.

D. Bohm: Ele realmente precisa ser dissipado em algum sentido físico, químico e neurofisiológico.

Krishnamurti: Sim.

D. Bohm: Bem, mas a primeira reação de qualquer cientista seria a de tachar de improvável a possibilidade de se dissipar o condicionamento através dos mecanismos que utilizamos. Alguns cientistas talvez acreditem que se possa vir a descobrir drogas, ou novas mudanças genéticas ou, ainda, um conhecimento mais profundo acerca da estrutura do cérebro. Dessa forma se podería, quem sabe, ajudar a fazer algo. Acho que essa idéia é compartilhada por algumas pessoas.

Krishnamurti: E isso iria alterar o comportamento humano?

D. Bohm: Por que não? Acho que algumas pessoas acreditam que podería.

Krishnamurti: Espere um minuto. Esse é o ponto. Podería, ou seja, no futuro.

D. Bohm: Sim, tudo isso demoraria algum tempo para ser descoberto.

Krishnamurti: E nesse meio-tempo o homem vai se destruir.

D. Bohm: Eles talvez acreditem que o homem possa descobrir isso a tempo. Além do mais, eles poderíam criticar o que estamos fazendo, indagando qual o bem que isso pode fazer. Você sabe, isso não parece afetar ninguém e, principalmente, não a tempo de fazer uma grande diferença.

Krishnamurti: Para nós dois, isso é muito claro. De que maneira isso afeta a humanidade?

D. Bohm: Afetará a humanidade a tempo de salvar...

Krishnamurti: Evidentemente, não.

D. Bohm: Então, por que estaríamos fazendo isso?

Krishnamurti: Porque é o que há de correto a se fazer. Sem preocupação com os resultados. Não tem nada que ver com prêmio ou punição.

D. Bohm: Nem com objetivos. Fazemos o que é certo, mesmo quando não sabemos quais são seus efeitos?

Krishnamurti: Correto.

D. Bohm: Está dizendo que não há outro meio?

Krishnamurti: Perfeito. Não há outro meio.

D. Bohm: Bem, seria bom que isto ficasse bem claro. Alguns psicólogos, por exemplo, poderíam acreditar que, com esse tipo de investigação, seria possível produzir uma transformação evolucionária da consciência.

Krishnamurti: Voltamos à questão da possibilidade de se modificar a consciência, com o passar do tempo. Nós questionamos isso.

D. Bohm: Já questionamos isso, e afirmamos que, com o passar do tempo, inevitavelmente continuaremos presos ao vir-a-ser e à ilusão, e não saberemos o que estamos fazendo.

Krishnamurti: Exato.

D. Bohm: Bem, mas poderiamos afirmar o mesmo quanto aos cientistas que estão empenhados em fazer isso física e quimicamente, ou estruturalmente? Pode- se afirmar que mesmo eles estão ainda presos ao vir-a-ser e à ilusão e que, com o passar do tempo, são aprisionados na tentativa de se tornar melhores?

Krishnamurti: Sim, os pesquisadores, os psicólogos e nós mesmos, todos procuramos tornar-nos algo.

D. Bohm: Sim, embora isso não fique logo evidente. Os cientistas podem parecer simples observadores desinteressados e sem preconceitos, que estão trabalhando no problema. Mas, sob a superfície, percebe-se, da parte da pessoa que está pesquisando dessa forma, o desejo de tomar-se melhor.

Krishnamurti: De vir-a-ser. É claro.

D. Bohm: Ela não está livre disso.

Krishnamurti: É exato.

D. Bohm: E esse desejo dará origem ao auto-engodo e à ilusão, e assim por diante.

Krishnamurti: Então, onde ficamos? Qualquer forma de vir-a-ser é uma ilusão, e vir- a-ser implica tempo: tempo para que a psique se transforme. Mas estamos afirmando que o tempo não é necessário.

D. Bohm: Isto está ligado a uma outra questão: a questão da mente e do cérebro. O cérebro está em atividade no tempo, na forma de um processo físico e químico complexo.

Krishnamurti: Acho que a mente está separada do cérebro.

D. Bohm: E o que significa separada? Eles estão em contato?

Krishnamurti: Separada no sentido de que o cérebro é condicionado e a mente não.

D. Bohm: Digamos que a mente tem certa independência em relação ao cérebro.

Mesmo que o cérebro seja condicionado...

Krishnamurti: ... a m ente não é.

D. Bohm: Ela não precisa ser...

Krishnamurti: ... condicionada.

D. Bohm: Com base em que o senhor afirma isso?

Krishnamurti: Não vamos começar a perguntar em que eu me baseio.

D. Bohm: Bem, então o que o leva a afirmar isso?

Krishnamurti: Na medida em que o cérebro é condicionado, ele não é livre, e a mente é livre.

D. Bohm: Sim, isso é o que o senhor está dizendo. Mas, veja, se o cérebro não é livre, isto quer dizer que ele não tem liberdade para investigar de um modo imparcial.

Krishnamurti: Vamos chegar lá. Vamos investigar. O que é liberdade? Liberdade para investigar, liberdade para indagar. Apenas quando há liberdade pode haver um discernimento profundo.

D. Bohm: Sim, isso ficou claro, porque, se o senhor não está livre para investigar, ou se o senhor é parcial, o senhor está limitado, de um modo arbitrário.

Krishnamurti: Portanto, à medida que o cérebro é condicionado, seu relacionamento com a mente é limitado.

D. Bohm: Existe o relacionamento do cérebro com a mente e também o inverso.

Krishnamurti: Sim, mas a mente, por ser livre, pode ter um relacionamento com o cérebro.

D. Bohm: Sim, agora afirmamos que a mente é livre, num certo sentido; que não está sujeita ao condicionamento do cérebro.

Krishnamurti: Sim.

D. Bohm: Qual é a natureza da mente? Estará a mente localizada no corpo, ou estará localizada no cérebro?

Krishnamurti: Não, ela não tem nada que ver com o corpo ou com o cérebro.

D. Bohm: Ela tem algo que ver com o espaço ou com o tempo?

Krishnamurti: Espaço — espere um minuto! Tem que ver com espaço e silêncio. Estes são os dois fatores da...

D. Bohm: Mas não o tempo?

Krishnamurti: Não o tempo. O tempo pertence ao cérebro.

D. Bohm: O senhor falou em espaço e silêncio; mas, que tipo de espaço? Não se trata do espaço no qual vemos a vida se movendo.

Krishnamurti: Espaço. Examinemos de outro modo a questão. O pensamento pode inventar o espaço.

D. Bohm: Além disso, temos o espaço que vemos. Mas o pensamento pode inventar todos os tipos de espaço.

Krishnamurti: E o espaço daqui até ali.

D. Bohm: Sim, o espaço através do qual nos movemos é desse tipo.

Krishnamurti: Espaço também entre dois ruídos, entre dois sons.

D. Bohm: O intervalo entre dois sons.

Krishnamurti: Sim, o intervalo entre dois ruídos, entre dois pensamentos, entre duas notas; o espaço entre duas pessoas.

D. Bohm: Sim, o espaço entre as paredes.

Krishnamurti: E assim por diante. M as esse tipo de espaço não é o espaço d a mente.

D. Bohm: O senhor afirma que ele não é limitado?

Krishnamurti: É verdade, mas eu não quis usar a palavra “limitado”.

D. Bohm: Mas isso fica implícito. Esse tipo de espaço não tem a característica de ser contido em algo.

Krishnamurti: Não, não é contido pela psique.

D. Bohm: Mas será ele contido por alguma coisa?

Krishnamurti: Não. Então o cérebro pode, com todas as suas células condicionadas, podem essas células modificar-se radicalmente?

D. Bohm: Já discutimos isso muitas vezes. Não se tem certeza de que todas as células estejam condicionadas. Há quem acredite, por exemplo, que apenas algumas, ou uma pequena parte das células, são utilizadas, enquanto as outras permanecem inativas, adormecidas.

Krishnamurti: Quase sem ser usadas, ou afetadas apenas ocasionalmente.

D. Bohm: Afetadas apenas ocasionalmente. Mas as células que estão condicionadas, seja qual for a sua quantidade, é evidente que dominam a consciência neste momento.

Krishnamurti: Sim. Essas células podem ser alteradas? Afirmamos que sim, que podem ser alteradas através de uma compreensão profunda, a qual independe do tempo, não é resultado de recordação, não é uma intuição, ou desejo, ou esperança. Não tem nada que ver com tempo ou com o pensamento.

D. Bohm: Sim, mas essa compreensão pertence à mente? Será ela de natureza mental? É uma atividade da mente?

Krishnamurti: Sem dúvida.

D. Bohm: O senhor, portanto, afirma que a mente pode agir à maneira do cérebro.

Krishnamurti: Sim; j á dissem os isso antes.

D. Bohm: Como pode a mente atuar na matéria? Veja, essa é uma questão difícil.

Krishnamurti: Ela pode agir sobre o cérebro. Tomemos, por exemplo, uma crise ou um problema. A verdadeira raiz da palavra problema é, como o senhor sabe, “alguma coisa atirada em você”. E nós o enfrentamos com toda a recordação do passado, com preconceito, e assim por diante. Por conseguinte, o problema se multiplica. Você pode solucionar um problema, mas na própria solução de um determinado problema surgem outros problemas, como acontece na política, e assim por diante. Pois bem, para abordar o problema, ou para ter uma percepção dele sem que pensamentos e lembranças passadas interfiram ou se projetem...

D. Bohm: Isso significa que também a percepção é da mente...

Krishnamurti: Sim, o senhor tem razão.

D. Bohm: O senhor quer dizer que o cérebro é uma espécie de instrumento da mente?

Krishnamurti: Um instrumento da mente quando o cérebro não é egocêntrico.

D. Bohm: Todo condicionamento pode ser imaginado como se o cérebro se excitasse a si mesmo, cuidando para se manter absolutamente fiel à sua programação. Isso ocupa todas as suas capacidades.

Krishnamurti: Todos os nossos dias, sim.

D. Bohm: Pode-se dizer que o cérebro é como um receptor de rádio que pode produzir o seu próprio ruído mas não pode captar um sinal.

Krishnamurti: Não é bem assim. Vamos examinar isso um pouco mais. A experiência é sempre limitada. Posso fazer a experiência transformar-se em algo fantástico e, em seguida, montar uma loja para vender a minha experiência, mas a experiência é limitada. Dessa forma, conhecimento é sempre limitado, e esse conhecimento está operando no cérebro. Esse conhecimento é o cérebro. E o pensamento também é parte do cérebro, e o pensamento é limitado. Sendo assim, o cérebro opera numa área muito pequena.

D. Bohm: Sim, e o que o impede de operar numa área maior, numa área ilimitada?

Krishnamurti: O pensamento.

D. Bohm: Mas parece que o cérebro funciona por seus próprios meios, a partir da sua própria programação.

Krishnamurti: Sim, como um computador.

D. Bohm: Em essência, sua pergunta é se o cérebro deveria realmente responder à mente.

Krishnamurti: Ele só pode responder se estiver livre do que é limitado; do pensamento, que é limitado.

D. Bohm: Portanto, a programação, nesse caso, não o domina. Mas ainda temos necessidade dessa programação.

Krishnamurti: É claro, precisamos dela para...

D. Bohm: ...para muitas coisas. Mas e quanto à inteligência, ela vem da mente?

Krishnamurti: Sim, a inteligência é a mente.

D. Bohm: É a mente.

Krishnamurti: Precisamos examinar outra coisa. A compaixão está relacionada com a inteligência; em vista disso, não existe inteligência sem compaixão. E só pode haver compaixão quando existir o amor, completamente livre de todas as recordações, ciúmes pessoais, e assim por diante.

D. Bohm: E toda essa compaixão, esse amor, tudo isso também é da mente?

Krishnamurti: Da mente. Você não pode ter compaixão se estiver apegado a qualquer experiência ou ideal específico.

D. Bohm: Sim, pois isso também faz parte da programação.

Krishnamurti: Sim. Existem, por exemplo, pessoas que se dirigem a certas regiões de extrema pobreza e trabalham, trabalham, trabalham, e chamam a isso de compaixão. Mas elas estão apegadas ou presas a determinada forma de crença religiosa e, portanto, sua ação é mera piedade ou simpatia, não é compaixão.

D. Bohm: Sim, entendo: existe o cérebro e existe a mente. Os dois são bastante independentes, embora estabeleçam contato. Então, afirmamos que a inteligência e a compaixão têm sua origem além do cérebro. Agora gostaria de abordar a questão de como o cérebro e a mente estabelecem contato.

Krishnamurti: Ah! Só pode haver esse contato entre a mente e o cérebro quando o cérebro está tranquilo.

D. Bohm: Sim, este é o requisito fundamental para que ocorra o contato: o cérebro precisa estar tranquilo.

Krishnamurti: E não se trata de uma tranquilidade; não é um desejo autoconsciente, meditativo — é o resultado natural da compreensão acerca do nosso próprio condicionamento.

D. Bohm: E desse modo, se o cérebro ficar quieto, ele podería ouvir algo mais profundo?

Krishnamurti: Isso mesmo. Pois se ele se mantiver quieto, ele entra em contato com a mente. E a mente, por conseguinte, poderá funcionar através do cérebro...

Krishnamurti: Poderemos, então, permanecer com “o que existe”, e não com “o que deveria existir”, ou com “o que deve existir”, sem inventar ideais, e assim por diante?

D. Bohm: Sim. Mas poderiamos retomar a questão da mente e do cérebro? Estamos agora afirmando que não se trata de uma divisão.

Krishnamurti: Oh, não! Isso não é uma divisão.

D. Bohm: Eles estão em contato, não é mesmo?

Krishnamurti: Dissemos que existe contato entre a mente e o cérebro quando o cérebro está em silêncio e tem espaço.

D. Bohm: Estamos dizendo então que, embora eles estejam em contato, e não em divisão absoluta, a mente pode, mesmo assim, manter certa independência em relação ao condicionamento do cérebro.

Krishnamurti: Bem, mas sejamos cuidadosos! Suponha que o meu cérebro está condicionado, que ele está, por exemplo, programado como um hindu, e toda a minha vida e ação são condicionadas pela idéia de que eu sou um hindu.

A mente, evidentemente, não tem nada que ver com esse condicionamento.

D. Bohm: O senhor está usando a palavra mente, e não a “minha” mente.

Krishnamurti: A mente, ela não é a “minha” .

D. Bohm: Ela é universal ou geral.

Krishnamurti: Sim, e também não é o “meu” cérebro.

D. Bohm: Não, mas há um cérebro específico; este cérebro ou aquele cérebro. Você diria que existe uma mente específica?

Krishnamurti: Não.

D. Bohm: Essa é uma diferença importante. Você afirma que a mente é universal.

Krishnamurti: A mente é universal — se é que podemos usar esta palavra horrível.

D. Bohm: Ilimitada e indivisa.

Krishnamurti: Ela é impoluta; não está contaminada pelo pensamento.

D. Bohm: Mas eu acho que a maioria das pessoas terá dificuldade em dizer como é possível sabermos algo a respeito dessa mente. Sabemos apenas que a primeira impressão é a da minha mente — certo?

Krishnamurti: Você não pode chamá-la de sua mente; o senhor tem apenas o seu cérebro, que é condicionado. O senhor não pode dizer: “É a minha mente”.

D. Bohm: Mas o que quer que esteja acontecendo no meu interior, eu sinto que é meu, e é muito diferente do que está acontecendo dentro de alguma outra pessoa.

Krishnamurti: Não, eu contesto essa diferença.

D. Bohm: Pelo menos, parece diferente.

Krishnamurti: Sim, eu questiono se é diferente o que está se passando dentro de mim como ser humano, e dentro do senhor como ser humano. Ambos passamos pelos mesmos problemas, de sofrimento, de medo, de ansiedade, de solidão, e assim por diante. Temos os nossos dogmas, as nossas crenças e superstições. Todo mundo tem isso.

D. Bohm: Podemos dizer que é tudo muito semelhante, mas, ao que parece, cada um de nós está isolado do outro.

Krishnamurti: Pelo pensamento. O meu pensamento criou a crença de que eu sou diferente do senhor, porque o meu corpo é diferente do seu, o meu rosto é diferente do seu. Estendemos o mesmo raciocínio para a área psicológica.

D. Bohm: Mas, e se dissermos que essa divisão talvez seja uma ilusão?

Krishnamurti: Não, nada de talvez! Ela é uma ilusão.

D. Bohm: É uma ilusão. Muito bem, embora isso não seja óbvio à primeira vista.

Krishnamurti: Naturalmente.

D. Bohm: Na realidade nem mesmo o cérebro é separado, porque estamos afirmando que somos todos semelhantes não apenas na essência, mas estamos, de fato, unidos. E então dizemos que, além de tudo isso, está a mente, que não tem absolutamente nenhuma divisão.

Krishnamurti: A mente é incondicionada.

D. Bohm: Sim; talvez então se possa deduzir daí que, quanto mais a pessoa se sente como um ser separado, menor é o seu contato com a mente.

Krishnamurti: Certo; foi isso o que dissemos.

D. Bohm: Ou não terá nenhum contato.

Krishnamurti: Eis por que é muito importante compreender, não a mente, mas o nosso condicionamento. E verificar se o nosso condicionamento, o condicionamento humano, de alguma forma, pode ser dissolvido. Essa é a verdadeira questão.

Krishnamurti: Vamos examinar um problema, pois assim será mais fácil compreender. Tomemos o problema do sofrimento. Os seres humanos têm sofrido sem parar, com as guerras, com as doenças físicas e com os relacionamentos errados de uns com os outros. Isso pode ter um fim?

D. Bohm: Eu diria que a dificuldade em se pôr um fim a isso reside no programa: estamos condicionados a tudo isso.

Krishnamurti: Sim, isso já vem se arrastando há séculos.

D. Bohm: E muito profundo.

Krishnamurti: Bastante profundo. Mas, pode esse sofrimento ter um fim?

D. Bohm: Ele não pode ter um fim por uma ação do cérebro.

Krishnamurti: Pelo pensamento.

D. Bohm: Porque o cérebro está preso ao sofrimento, e não pode definir uma ação que faça cessar o seu próprio sofrimento.

Krishnamurti: É claro que não pode. Eis por que o pensamento não pode pôr fim a isso. O pensamento o criou.

D. Bohm: Sim, o pensamento o criou e, de qualquer forma, é incapaz de ter domínio sobre ele.

Krishnamurti: O pensamento criou as guerras, a miséria, a confusão. E o pensamento se tornou proeminente no relacionamento humano.

D. Bohm: Sim, mas eu acho que as pessoas podem concordar com isso e mesmo assim continuar a acreditar que, assim como o pensamento faz coisas ruins, ele também pode fazer coisas boas.

Krishnamurti: Não, o pensamento não pode fazer bem ou mal; ele é pensamento e, portanto, limitado.

D. Bohm: O pensamento não pode deter esse sofrimento. Ou seja, devido ao fato de o sofrimento ser um condicionamento físico ou químico do cérebro, o pensamento não tem como saber nem mesmo o que ele é.

Krishnamurti: Quero dizer, por exemplo, eu perco o meu filho e estou...

D. Bohm: Sim, mas pelo pensar; não posso saber o que se passa no meu íntimo. Não posso mudar o sofrimento interior, porque pensar não me mostrará o que o sofrimento é. E agora o senhor diz que inteligência é percepção.

Krishnamurti: Mas o que estamos perguntando é: o sofrimento pode ter um fim? Essa é a questão.

D. Bohm: Sim, e é claro que o pensamento não pode pôr fim a ele.

Krishnamurti: O pensamento não pode. Essa é a questão. Mas, se eu tiver uma profunda compreensão acerca do sofrimento...

D. Bohm: Bem, essa compreensão virá através da ação da mente, através da inteligência e da atenção.

Krishnamurti: Quando há essa compreensão, a inteligência varre para longe o sofrimento.

D. Bohm: O que o senhor quer dizer, portanto, é que existe um contato entre a mente e a matéria, contato esse que remove toda a estrutura física e química que nos prende ao sofrimento.

Krishnamurti: Exato; e com o fim do sofrimento acontece uma mutação nas células do cérebro.

D. Bohm: Sim, e essa mutação varre para longe toda a estrutura que produz o sofrimento.

Krishnamurti: Exato. É como se eu tivesse mantido uma certa tradição; de repente, mudo essa tradição e há uma mudança em todo o cérebro; ele estava andando para o norte, agora vai para o leste.

D. Bohm: Por certo esse é um conceito radical, do ponto de vista das idéias tradicionais da ciência, porque, se aceitamos que a mente é diferente da matéria, as pessoas achariam difícil dizer que a mente iria realmente...

Krishnamurti: O senhor diría que a mente é energia pura?

D. Bohm: Acho que poderiamos fazer essa afirmação, mas a matéria também é energia.

Krishnamurti: Mas a matéria é limitada; o pensamento é limitado.

D. Bohm: O que estamos afirmando é que a energia pura da mente é capaz de penetrar na energia limitada da matéria?

Krishnamurti: Sim, é isso mesmo. E alterar a limitação.

D. Bohm: Remover parte da limitação.

Krishnamurti: Quando há um assunto ou problema ou desafio profundo que o senhor está enfrentando.

D. Bohm: Poderiamos também acrescentar que todas as tentativas tradicionais de fazer isso não podem dar certo...

Krishnamurti: Elas já não deram certo.

D. Bohm: Bem, mas isso não é suficiente. É preciso insistir, pois as pessoas poderíam continuar a ter esperança de que essas tentativas pudessem resolver, e elas na verdade não podem.

Krishnamurti: Não podem.

D. Bohm: Porque o pensamento é incapaz de atingir sua própria base química e física nas células e de fazer algo a respeito dessas células.

Krishnamurti: Sim, o pensamento não pode provocar uma mudança em si mesmo.

D. Bohm: E, no entanto, quase tudo o que a humanidade tem tentado fazer se baseia no pensamento. Existe uma área limitada, é claro, onde isso funciona bem, mas não podemos fazer nada a respeito do futuro da humanidade a partir da abordagem usual.

Krishnamurti: Quando ouvimos os políticos, hoje bastante ativos no mundo, vemos que eles criam problema após problema; para eles, o pensamento e os ideais são o que existe de mais importante.

D. Bohm: Falando de modo geral, ninguém conhece nada diferente.

Krishnamurti: Exatamente. Estamos afirmando que o antigo instrumento, que é o pensamento, está desgastado, a não ser em certas áreas.

D. Bohm: Ele nunca foi adequado, a não ser nessas áreas.

Krishnamurti: Sem dúvida.

D. Bohm: E, ao longo da história, o homem sempre viveu em apuros.

Krishnamurti: O homem sempre viveu em apuros, em tumultos, com medo. E, diante de toda a confusão do mundo, pergunto: pode haver uma solução para tudo isso?

D. Bohm: Isso nos traz de volta à questão que eu gostaria de retomar. Segundo parece, há algumas pessoas interessadas nisso; e elas pensam que sabem, ou talvez meditem, e assim por diante. Mas como isso irá afetar todo essa enorme corrente da humanidade?

Krishnamurti: Muito pouco, por certo. E por que iria afetar? Pode ser que sim, pode ser que não. Então, podemos perguntar: de que adianta isso?

D. Bohm: Sim, esse é o ponto. Eu acredito na existência de um sentimento instintivo que nos leva a fazer essa pergunta.

Krishnamurti: Mas creio que essa é a pergunta errada.

D. Bohm: O senhor sabe: o nosso primeiro impulso é perguntar: “O que podemos fazer para pôr um fim nessa terrível catástrofe?”

Krishnamurti: Sim. Mas se cada um de nós, qualquer um que esteja escutando, na verdade percebe que o pensamento, tanto na sua atividade exterior quanto na interior, criou uma terrível confusão, um grande sofrimento, então será inevitável perguntar: existe um modo de pôr um fim nisso tudo? Se o pensamento não pode acabar com isso, quem ou o que poderá? Qual o novo instrumento que poria um fim a toda essa desgraça? Veja, existe um novo instrumento, que é a mente, que é a inteligência. Mas o problema é que as pessoas não ouvirão nada disso. Tanto o cientista quanto o homem comum, leigo como nós, chegaram a conclusões definitivas, e não nos darão ouvidos.

D. Bohm: É verdade. E foi a isso que me referi quando disse que poucas pessoas não parecem ter muito efeito.

Krishnamurti: É claro. Acho que, apesar de tudo, umas poucas pessoas mudaram o mundo — para melhor ou para pior, não vem ao caso. Hitler, e também os comunistas, provocaram mudanças, mas logo depois recaíram no mesmo padrão anterior. Uma revolução física jamais alterou psicologicamente a condição humana.

D. Bohm: O senhor acha que, se um determinado número de cérebros estabelecer esse tipo de contato com a mente, isso será capaz de produzir na humanidade um efeito que esteja além do efeito óbvio e imediato da comunicação entre eles? Em outras palavras: é evidente que quem quer que faça isso poderá comunicar-se da forma usual, e isso produzirá um efeito muito pequeno, mas agora existe a possibilidade de algo totalmente diferente.

Krishnamurti: Sim, está certo. Mas como o senhor poderá transmitir isto — eu tenho pensado nisso com freqüência — para uma pessoa presa à tradição, uma pessoa condicionada, e que não perderá tempo nem mesmo para ouvir ou para considerar o assunto?

D. Bohm: Bem, essa é a questão. Veja, o senhor podería dizer que o condicionamento não pode ser absoluto, não pode ser um bloqueio absoluto; caso contrário, não havería absolutamente nenhuma saída. Mas pode-se supor que o condicionamento tem algum tipo de permeabilidade.

Krishnamurti: Quero dizer, afinal, que o Papa não nos ouvirá, mas o Papa tem uma enorme influência.

D. Bohm: É possível que haja algo que qualquer pessoa estaria disposta a ouvir, bastando que se descubra o quê?

Krishnamurti: Se ela tiver um pouco de paciência. Quem ouvirá? Os políticos não ouvirão, os idealistas não ouvirão, os totalitários não ouvirão, as pessoas impregnadas pela religião não ouvirão. Quem sabe, talvez, os chamados ignorantes, os não perfeitamente educados ou condicionados em suas carreiras profissionais, ou pelo dinheiro, ou o pobre que diz: “Estou sofrendo, por favor, ponha um fim nisso” ...

D. Bohm: Mas, o senhor sabe, ele também não ouve. Ele quer um emprego.

Krishnamurti: E claro. Ele diz: “Primeiro me alimente.” Temos passado por tudo isso nos últimos sessenta anos. O pobre não ouvirá, o rico não ouvirá, o culto não ouvirá e os crentes, tomados de profundo dogmatismo religioso, não ouvirão. Assim, talvez isso seja como uma onda varrendo o mundo: ela podería apanhar alguém. Acho que é errado perguntar: Mas ela afeta de algum modo?

D. Bohm: Sim, está certo. Digamos que isso introduz o tempo, o que significa transformação. Introduz de novo a psique no processo de transformação.

Krishnamurti: Sim. Mas se o senhor diz... deve afetar a humanidade...

D. Bohm: O senhor está sugerindo que isso afeta a humanidade diretamente através da mente, e não através do...

Krishnamurti: Sim. Ela não pode se manifestar de imediato na ação.

D. Bohm: O senhor está levando muito a sério o que disse a respeito de a mente ser universal, o fato de não estar localizada no nosso espaço habitual, o fato de não ser separada...

Krishnamurti: Sim, mas há aqui um perigo em afirmar isso, em afirmar que a mente é universal. É isso o que certas pessoas dizem a respeito da mente, e isso tornou-se uma tradição.

D. Bohm: Pode-se fazer disso uma idéia, é claro.

Krishnamurti: É exatamente esse o perigo; é a isso que me refiro.

D. Bohm: Sim, mas a questão fundamental é que precisamos entrar em contato direto com isso para torná-lo real. Certo?

Krishnamurti: Correto. Só podemos estabelecer esse contato quando o eu não existe.

Para expressar isso de maneira bem simples: quando o eu não está presente, há beleza, silêncio, espaço; então a inteligência que nasce da compaixão opera através do cérebro. É muito simples.

Saanen, 25 de Julho de 1983

Questionador: Podemos falar um pouco sobre o cérebro e a mente? O pensamento acontece materialmente nas células do cérebro. Ou seja, pensar é um processo material. Se o pensar se interrompe e há uma percepção sem o pensamento, o que acontece com o cérebro material? O senhor parece dizer que o lugar da mente é fora do cérebro; mas onde pode ter lugar o movimento de percepção pura a não ser em alguma parte do cérebro? E como pode ocorrer uma mutação nas células do cérebro se a percepção pura não tem nenhuma conexão com o cérebro?

Krishnamurti: Entenderam a pergunta? Em primeiro lugar, o questionador pede que seja feita uma diferenciação entre a mente e o cérebro. Em seguida, pergunta se a percepção ocorre exclusivamente fora do cérebro, o que significa que o pensamento não é o movimento da percepção. E pergunta ainda: se a percepção ocorre fora do cérebro, qual deles é o processo de pensar, o processo de recordar, e o que sucede então com as células do cérebro, que são condicionadas pelo passado? E poderá ocorrer uma mutação nas células do cérebro, se a percepção ocorre fora dele? Ficou claro?

Vamos começar com o cérebro e a mente. O cérebro é uma função material; ele é um músculo — certo? — como o coração; e as células do cérebro contêm todas as recordações. Por favor, não sou um especialista em cérebro, nem estudei as obras dos especialistas, mas já vivi bastante tempo e observei muita coisa, não apenas a reação dos outros — o que eles dizem, o que pensam, o que querem me dizer — mas observei também o modo de reagir do cérebro. O cérebro evoluiu ao longo do tempo; partindo de uma célula única, levou milhões de anos para chegar ao macaco e levou outro milhão de anos até que o homem conseguisse ficar de pé e portanto chegasse ao cérebro humano. O cérebro está contido no crânio, mas ele pode ir além de si mesmo. Você está sentado aqui e pensa na sua terra, na sua casa, e no mesmo instante você chega lá — em pensamento, não fisicamente. O cérebro tem uma extraordinária capacidade; por meio da tecnologia ele faz coisas magníficas.

O cérebro tem, portanto, uma capacidade extraordinária. Esse cérebro tem sido condicionado pela limitação da linguagem, não pela linguagem propriamente dita, mas pela limitação da linguagem; tem sido condicionado pelo tipo de alimento ingerido, pelo tipo de clima e de sociedade — e essa sociedade foi criada pelo cérebro. Essa sociedade não é diferente das atividades do cérebro. Ela foi condicionada pelos milhões de anos de experiência, de conhecimento acumulado com base nessa experiência, o que vem a ser a tradição. Eu sou inglês, você é hindu, ele é alemão, ele é negro, ele é isto, ele é aquilo — toda esta distinção de nacionalidade, que é uma divisão tribal, e o condicionamento religioso. Logo, o cérebro é condicionado. O cérebro tem uma capacidade extraordinária, mas ele tem sido condicionado e, portanto, é limitado. Ele não é limitado no mundo tecnológico — o dos computadores, etc. — mas é muito limitado em relação à psique. As pessoas dizem: “Conhece-te a ti mesmo” — desde os gregos, desde os antigos hindus, etc. Elas estudam a psique nos outros, mas jamais a estudam em si próprias. Estudam ratos, coelhos, pombos, macacos, etc., mas jamais dizem: “Vou examinar a mim mesmo. Tenho muita ambição, cobiça, inveja, vivo competindo com o meu vizinho, com os meus colegas cientistas.” Trata-se da mesma psique que já existe há milhares de anos, embora em termos tecnológicos sejamos maravilhosos, do ponto de vista exterior. Mas interiormente somos bastante primitivos — certo? Portanto, o cérebro é limitado, primitivo, no mundo da psique. Bem, mas essa limitação pode ser superada? Essa limitação, que é o eu, que é o ego, a preocupação egocêntrica, tudo isso pode ser varrido para longe? O que significa que o cérebro estaria descondicionado — compreendem o que eu quero dizer? Então ele não tem medo. Agora, a maioria de nós vive com medo, ansiosa, assustada com o que poderá acontecer, com medo da morte e de uma porção de coisas. Pode-se ter tudo isso varrido para longe e voltar a ser novo, de modo que o cérebro fique livre e seu relacionamento com a mente passe a ser inteiramente diferente? Isso significa perceber que não há mais sombra do eu. E isso é bastante árduo: ver que o “eu” não participa de nenhum domínio. O eu se esconde de muitas maneiras, debaixo de cada pedra; o eu pode se esconder na compaixão, no ato de ir à índia e cuidar dos pobres, porque c eu apega-se a alguma idéia, fé, juízo, crença, o que me toma compassivo, porque amo Jesus ou Krishna e, assim, vou para o céu. O eu usa inúmeras máscaras: a máscara da meditação, a máscara de conquistar o mais elevado, a máscara de ser iluminado, a máscara do tipo “Eu sei do que estou falando”. Toda essa preocupação com a humanidade é outra máscara. É preciso, pois, ter um cérebro ágil, sutil e extraordinário para descobrir onde ela se esconde. Isso requer muita atenção, vigilância, vigilância, vigilância. Vocês não irão fazer tudo isso. Na certa vocês todos são muito preguiçosos ou são muito velhos, e dirão: “Pelo amor de Deus, tudo isto não vale a pena, deixem-me em paz.” Mas se alguém quiser mesmo entrar nisso em profundidade, precisará vigiar como um falcão cada movimento do pensamento, cada movimento de reação, de forma que o cérebro possa se livrar do seu condicionamento. O orador fala por si mesmo, não por nenhuma outra pessoa. Ele pode estar se enganando, pode estar tentando fingir que é uma coisa ou outra — compreendem? Ele pode ser, vocês não sabem. Portanto, tenham sempre uma boa dose de ceticismo; duvidem, questionem, não aceitem o que os outros dizem.

Dessa forma, quando não há condicionamento do cérebro, ele não se degenera mais. Quanto mais você envelhece — talvez não você —, mas à medida que as pessoas em geral envelhecem, seus cérebros começam a se desgastar; elas perdem a memória e se comportam de forma peculiar. Vocês conhecem tudo isso. A degeneração não acontece apenas na América; ela acontece, em primeiro lugar, no cérebro. Porém, quando o cérebro está completamente livre do eu e, por conseguinte, não está mais condicionado, podemos perguntar: O que é a mente?

Os antigos hindus investigavam a mente e formularam diversas teorias. Mas vamos varrer tudo isso para longe e não depender de ninguém, por mais antigo e tradicional que seja. Assim, pergunto: O que é a mente?

Nosso cérebro vive em constante conflito; portanto, ele é desordem. Um cérebro assim não pode compreender o que é a mente. A mente — não a minha mente, a mente, a mente que criou o universo, a mente que criou a célula, a mente que é pura energia e inteligência — só pode ter um relacionamento com o cérebro quando o cérebro é livre; mas, se o cérebro está condicionado, não existe relacionamento. Você não precisa acreditar em tudo isso. A inteligência é, pois, a essência da mente; não a inteligência do pensamento, não a inteligência da desordem. Mas ela é pura ordem, inteligência pura e, portanto, pura compaixão. E essa mente está relacionada com o cérebro quando o cérebro está livre.

O que faz você? Ouve a você mesmo ou ouve apenas a mim? Ou a ambos? Procura examinar atentamente as suas reações, como trabalha o seu cérebro? Ou seja, ação, reação, para a frente e para trás, o que significa que você não está ouvindo. Você só pode ouvir quando cessa essa ação e reação: é a pura audição. Veja: o mar vive em constante movimento. A maré vem, a maré vai. Essa é a ação do mar. E os seres humanos vivem também nessa ação e reação. A reação em mim produz uma outra reação, e assim vai, para a frente e para trás. Logo, quando há esse movimento para a frente e para trás, por certo não existe paz. É na quietude que você pode ouvir o verdadeiro ou o falso; não quando você se mantém nesse movimento para a frente e para trás, para a frente e para trás. Procure perceber, pelo menos intelectualmente, logicamente, que, se há um constante movimento para a frente e para trás, você não ouve. Como você poderia ouvir? Só quando há silêncio absoluto é que você pode ouvir. Certo? Veja a lógica disso. E será possível interromper esse contínuo movimento para a frente e para trás? O orador afirma que isso só é possível quando você estudou a si mesmo, quando mergulhou em si mesmo muito, muito profundamente. Compreenda a você mesmo. Então você poderá dizer que o movimento realmente parou.

E o questionador pergunta: Se a mente está do lado de fora, se não está contida no cérebro, como pode a percepção, que só acontece quando não há atividade do pensamento, produzir uma mutação nas células do cérebro, que são um processo material?

Vejam, mantenham a simplicidade. Este é um de nossos obstáculos: nós jamais encaramos de forma simples as questões complexas. Essa é uma questão muito complexa, mas é preciso começar a compreender de forma simples algo que é muito complexo. Vamos então começar de maneira simples. Tradicionalmente, você tem perseguido determinado caminho, em termos religiosos, econômicos, sociais, morais, etc., seguindo numa determinada direção durante toda a sua vida. Suponha que eu tenha feito isso. Você chega e diz: “Olhe, o caminho que você está seguindo não leva a nada; ele só lhe trará mais dificuldades, vocês só continuarão indefinidamente a matar-se uns aos outros, terão enormes dificuldades financeiras”, e você me apresenta razões lógicas, exemplos, etc. Mas eu retruco: “Não, desculpe, esta é a minha maneira de agir.” E prossigo no meu caminho, que inclui os gurus, os filósofos, que inclui as pessoas recém-conquistadas e iluminadas. E você vem e diz: “Veja: esse é um caminho perigoso. Não vá por aí. Faça meia volta e siga em outra direção.” E você me convence, me mostra a lógica, a razão, a sanidade disso, e eu me volto para uma direção diferente. O que aconteceu? Eu tinha caminhado em determinada direção durante toda a minha vida e vem você e diz: “Não vá por aí; é perigoso, não leva a lugar nenhum. Você terá mais dificuldades, mais ferimentos, mais problemas. Vá em outra direção, e tudo será diferente.” E eu aceito a sua lógica, a sua afirmação, de forma sadia, e caminho em outra direção. O que aconteceu com o cérebro? Veja tudo com simplicidade. As células caminham numa direção e, de repente, passam a mover-se em outra direção, ou seja, as células do cérebro sofreram uma mudança. Compreende? Quebrei a tradição. É bastante simples. Mas a tradição é muito forte; ela tem suas raízes na minha existência atual e você me pede para fazer algo contra o qual me rebelo — portanto, não ouço. Ou, ao contrário, ouço para descobrir se o que você afirma é verdadeiro ou falso. Eu quero conhecer a verdade disso — portanto, sendo honesto, ouço com todo o meu ser e percebo que você está bastante certo. Eu me movi — certo? Nesse movimento há uma mudança nas células do cérebro. E bastante simples.

Veja: suponha que sou um católico ou um hindu praticante, e você vem e me diz: “Olhe, não seja tolo, tudo isso é bobagem. São apenas tradições, palavras sem significado, embora as palavras tenham acumulado significado.” Compreende? Então você me mostra isso e eu vejo que o que você diz é verdadeiro. Eu me movo, livro-me do condicionamento; houve, portanto, uma mudança, uma mutação no cérebro. Ou então fui criado, todos nós fomos criados para viver com medo. Todos nós fomos criados, não só para ter medo de algo, mas para ter medo. E você me afirma que tudo isso pode ter um fim, e eu, de forma instintiva, retruco: “Mostre, vamos ver juntos, vamos verificar.” Quero verificar se o que você afirma é verdadeiro ou falso, se esse medo pode mesmo terminar. Então perco algum tempo, discuto com você, quero descobrir, aprender, meu cérebro se mobiliza para descobrir, não para que alguém lhe diga o que fazer. Assim, no momento em que começo a investigar, a trabalhar, a olhar, a examinar todo o movimento do medo, eu o aceito e digo: “Bem, gosto de viver com medo” ou então me afasto disso. Quando você percebe isso, há uma mudança nas células do cérebro.

Isso é muito simples — basta encará-lo com simplicidade. Quando há percepção, ocorre uma mutação — para tomar um pouco mais complexo — nas células do cérebro, não através de algum esforço, não através da vontade ou por algum motivo. Existe percepção quando há observação sem nenhum movimento do pensamento, quando há absoluto silêncio da memória, que é tempo, que é pensamento. Olhar para alguma coisa sem o passado. Faça isso. Olhe para o conferencista sem todas as lembranças que você acumulou acerca dele. Examine-o com atenção, ou examine o seu pai, a sua mãe, seu marido, sua mulher, sua namorada, etc. — não importa quem — examine sem nenhuma recordação passada e sem que suija nenhuma mágoa ou sentimento de culpa. Apenas examine. Quando você examina assim, sem nenhum preconceito, então há a liberdade em relação ao que aconteceu.

Brockwood Park, 30 de Agosto de 1983: De O Mundo da Paz

O que estamos dizendo é que o pensamento é necessário em certas áreas e não é necessário em outras. Para descobrir onde o pensamento não é necessário, é indispensável que haja uma grande dose de observação, de atenção, de cuidado. Certo? Mas somos muito impacientes; queremos descobrir tudo com muita rapidez, como se tomássemos uma pílula para dor de cabeça. Mas jamais descobrimos qual é a causa da dor de cabeça.

Brockwood Park, 25 de Agosto de 1984

Será que o conferencista está narrando um conto de fadas? Ou estará ele descrevendo ou apresentando fatos? E esses fatos são: não existe amor. Pode-se falar sobre o amor — “Oh, eu a amo muito” — vocês conhecem tudo isso muito bem. E nisso há dependência, apego, medo, antagonismo; pouco a pouco, aparece o ciúme, o mecanismo do relacionamento humano com toda a sua angústia, medo, perdas, ganhos, desespero, depressão. Como isso tudo pode terminar, de modo que possa haver um relacionamento real entre as pessoas, entre o homem e a mulher? Será através do conhecimento que um possa ter do outro? Olhem para isto, por favor, pensem nisto. Eu conheço a minha mulher — e isso significa o quê? Quando você diz: “Eu a conheço, ela é a minha mulher”, o que isso quer dizer? Ou a minha namorada, ou quem quer que seja. Será tudo isso o prazer, a dor, a ansiedade, a inveja, a luta com ocasionais lampejos de ternura? Tudo isso faz parte do amor? O apego é amor? Eu estou lhes perguntando. Portanto, examinem, descubram. Alguém vive apegado à mulher, um apego exagerado. O que está implícito nesse apego? Não consigo ficar de pé por mim mesmo; portanto, dependo de alguém — seja da mulher, do marido, do psiquiatra ou do gum; ora, tudo isso é uma grande tolice! Onde há apego, há medo de perder, há um sentido de profunda possessividade, e isso gera medo. Vocês sabem do que estou falando.

Podemos, então, examinar o que acontece em nossos relacionamentos e descobrir por nós mesmos o lugar ocupado pelo pensamento nesse relacionamento? Como dissemos, o pensamento é limitado; isso é um fato. Se no nosso relacionamento o pensamento é um fator proeminente, ele acaba por ser também um fator limitante; dessa forma, o relacionamento entre as pessoas é limitado e acaba inevitavelmente criando conflitos. Existe o conflito entre os árabes e os israelenses porque cada qual se apega aos próprios condicionamentos, o que significa viver programado; cada ser humano vive programado, como um computador. Eu sei que isso parece cruel, mas é um fato. Quando, desde a infância, lhe dizem que você é indiano, que pertence a uma determinada categoria social ou religiosa, você fica condicionado, e pelo resto da vida você é indiano, ou inglês, ou alemão, ou russo, etc. E assim que as coisas são.

É por essa razão que o nosso relacionamento — e nada deveria haver de mais extraordinário na vida — é uma das causas mais freqüentes de desgaste. Desgastamos nossas vidas nos relacionamentos. Quando você realmente enxergar que isso é um fato, dedique toda a atenção a isso, ou seja, compreenda em profundidade a natureza do pensamento e do tempo — eles não têm absolutamente nada que ver com o amor. Pensamento e tempo são movimentos do cérebro. E o amor está fora do cérebro. Por favor, examine isso com muito cuidado, pois o que está no interior do crânio é muito importante: como funciona, quais as suas barreiras, por que é limitado, por que existe essa eterna tendência ao palavreado oco, pensamento após pensamento, uma sucessão de associações, reações, respostas, tudo aquilo que está armazenado na memória, e memória, por certo, não é amor. O amor, portanto, não pode estar e não está no interior do cérebro, do crânio. E, quando nos limitamos a viver no interior do crânio o tempo todo, todos os dias da nossa vida, pensando, pensando, pensando, problema após problema — o que significa viver na própria limitação — isso, inevitavelmente, terá de produzir conflito e desgraça.

Madras, 2 de Janeiro de 1983: De A Mente sem Medida

O que é compaixão? Não me refiro à definição encontrada nos dicionários. Qual a relação entre amor e compaixão? Ou serão eles o mesmo movimento? O uso da palavra “relação” implica dualidade, separação, mas nossa pergunta agora é: qual o lugar do amor na compaixão? Ou será o amor a expressão mais alta da compaixão? Como você pode ser compassivo se é filiado a uma religião, se segue um guru, se tem uma crença, se acredita nas Escrituras, etc.? Ou vive apegado a determinadas idéias? Se você aceita o guru, é porque formou um conceito; ou será que quando você acredita fortemente em Deus, ou em um salvador, ou nisto, ou naquilo, pode haver compaixão? Você pode dedicar-se ao trabalho social, ajudar os pobres, por piedade, simpatia, caridade, mas será que tudo isso é amor e compaixão? Compreender a natureza do amor, possuir esta qualidade, que é ter a mente no coração — isto é inteligência. Inteligência é compreender ou descobrir o que é o amor. Inteligência não tem absolutamente nada que ver com pensamento, com esperteza ou com conhecimento. Você pode ser muito esperto nos estudos, no emprego, pode ser capaz de argumentar muito bem, de forma racional, mas isso não é inteligência. A inteligência caminha lado a lado com o amor e a compaixão e você não consegue encontrar essa inteligência enquanto indivíduo. A compaixão não é sua nem minha, assim como o pensamento não é meu nem seu. Quando existe inteligência, não existe o “eu” nem o “você”. E a inteligência não reside no seu coração ou na sua mente. A inteligência, que é suprema, está por toda parte. É esta inteligência que move a terra, os céus e as estrelas, porque isso é compaixão.

SOBRE A MENTE E O PENSAMENTO

J. Krishnamurti

“Krishnamurti é um conceituado mestre espiritual, respeitado e aceito pelos membros de todas as igrejas e seitas.”

GEORGE BERNARD SHAW

“Só quando a mente está completamente tranqiiila é possível tocar as águas profundas”— diz Krishnamurti.

Tomando por base a diferença entre o pensamento condicionado e o verdadeiro pensamento criativo, este livro do mestre indiano analisa o que ele chama de “aquele amplo espaço da mente que é a sede de uma energia imaginável”.

De acordo com esses ensinamentos, tão essenciais para a compreensão da natureza humana, só quando fugimos do pensamento condicionado é que conquistamos de fato a liberdade e alcançamos a realização pessoal; e só por meio da mudança da consciência individual será possível resolver os conflitos que criam empecilhos no relacionamento entre as pessoas e perturbam o funcionamento harmonioso da sociedade em geral.

* * *

J. Krishnamurti (1895-1986) foi um renomado mestre espiritual. Suas palestras e escritos continuam inspirando milhares de pessoas.

Nesta nova série publicada pela Editora Cultrix, estão incluídos os seguintes títulos:

Sobre Deus • Sobre relacionamentos • Sobre a vida e a morte • Sobre o viver correto • Sobre conflitos • Sobre a aprendizagem e o conhecimento • Sobre o amor e a solidão • Sobre a mente e o pensamento • Sobre a natureza e o meio ambiente.

EDITORA CULTRIX

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