Sugestão
Subscribe to the Subscribe
And/or subscribe to the Daily Meditation Newsletter (Many languages)

                         Diaspora      rss 

Pense nisso

Jiddu Krishnamurti
Pense nisso
Reflexões libertadoras sobre temas do cotidiano
Traduçao: ANGELA MACHADO
Revisão técnica: PEDRO HENRIQUE PENNA FIRME u

“Viver é descobrir por – 1 mesmo o que é verdadeiro, e voc ês só podem fazê-lo quando há liberdade.”

“O que chamamos atualmente de educação não é educação, porque ninguém fala com vocês a respeito disso que estamos discutindo. Os professores os preparam para serem aprovados nos exames, mas não falam sobre como viver.”

“Disseram a vocês repetidas vezes o que se supõe ser religião — a crença em Deus e em uma dúzia de outras coisas [...]. A verdadeira educação é aprender como pensar, não o que pensar. Se souberem como pensar, se réalmente tiverem essa capacidade, então serão seres humanos livres — livres de dogmas, superstições, cerimônias — e, portanto, poderão descobrir o que é a religião.”

“Sabem o que é a alegria? E rir, se deliciar com algo ou por algo, provar da satisfação de viver, sorrir, olhar direto no rosto do outro sem qualquer sensação dc medo.”

Nota do editor

Seja escrevendo sobre um a conversa com alguém, descrevendo um pôr do sol ou dando uma palestra aberta ao público, Krishnamurti parece ter um modo peculiar de dar ênfase a seus comentários não somente para a plateia mais próxima, mas para todos, em qualquer lugar, que o estejam ouvindo; e são muitos, em todo o mundo, que aguardam ansiosos para o ouvirem. Pois aquilo que ele diz está isento de preconceitos, é universal e, com um jeito muito próprio, revela as raízes mais profundas dos problemas humanos.

O material contido neste volume foi originalmente apresentado sob a forma de palestras para estudantes, professores e pais na índia, mas sua penetração aguçada e simplicidade lúcida serão profundamente significativas para pessoas ponderadas de todas as idades, não im porta qual o caminho que sigam na vida. Krishnamurti examina com objetividade e insight peculiares as expressões do que pretendemos chamar de nossa cultura, nossa educação, religião, política e tradição, e esclarece motivações básicas como a ambição, a cobiça e a inveja, o desejo de segurança e o prazer do poder — demonstrando como todos são fatores que deterioram a sociedade humana. Segundo Krishnamurti, a verdadeira cultura não se deve à criação, ao aprendizado, aò talento ou sequer à genialidade, mas ao que ele chama de “movimento atemporal para descobrir a felicidade, Deus, a verdade”. E “quando esse movimento é bloqueado pela autoridade, pela tradição, pelo medo, ocorre a decadência”, independentemente dos dons ou das realizações de qualquer indivíduo, raça ou civilização em particular. Destaca com precisão descompromissada os falsos elementos em nossas atitudes e instituições, e as implicações dos seus comentários são profundas e abrangentes.

Algumas palavras aparecem no texto — guru, sannyasi, puja e mantram — com que os leitores do Ocidente talvez não estejam totalmente familiarizados, e por isso são resumidamente explicadas aqui. Um guru é um mestre espiritual; um sannyasi é um monge que assumiu os votos finais de renúncia segundo os ritos hindus; puja é o ritual hindu de veneração; e um mantram é um verso, hino ou canto sagrado.

1. A função da educação

Eu ME PERGUNTO se alguma vez já pensam os no que significa educação. Por que vamos para a escola, p o r que aprendemos várias matérias, por que fazemos provas e com petim os pelas m elhores notas? O que significa aquilo que denom inam os educação, e a que ela se destina? Esta é, na verdade, um a pergunta m uito im portante, não somente para os estudantes, mas tam bém para pais, professores e todos que am am esta Terra. Por que enfrentam os a luta para recebermos educação? Será apenas para sermos aprovados nas provas e conseguir um emprego? Ou será a função da educação nos preparar ainda jovens para com preender todo o processo da vida? Ter um emprego e ganhar o próprio sustento é necessário — mas será tudo? Recebemos educação somente com esse fim? Certam ente, a vida não é apenas o emprego, a ocupa­ção; ela é algo extraordinariam ente amplo e profundo, é o grande m istério, o vasto reino no qual funcionam os como seres hum anos. Se simplesmente nos capacitarm os para ganhar nosso sustento, perderem os todo o objetivo da vida; e com preender a vida é muito mais importante do que apenas nos prepararmos para os exames e nos tornarmos especialistas em matemática, física ou naquilo que desejarmos.

Portanto, independentemente de sermos professores ou alunos, não será importante nos perguntarmos por que estamos educando ou sendo educados? E qual o significado da vida? A vida não é algo extraordinário? Os pássaros, as flores, as árvores crescendo, os céus, as estrelas, os rios e os peixes que vivem ali — tudo isso é vida. A vida é pobre e é rica; é a batalha constante entre grupos, raças e nações; a vida é meditação; é o que chamamos de religião, bem como as coisas sutis e ocultas da mente — invejas, ambições, paixões, medos, realizações e ansiedades. Tudo isso e muito mais. Mas geralmente nos preparamos para compreender somente um pequeno pedaço dela. Somos aprovados em certos exames, conseguimos emprego, nos casamos, temos filhos e ficamos cada vez mais parecidos com máquinas. Permanecemos assustados, ansiosos, am edrontados com a vida. Portanto, será função da educação nos ajudar a resolver todo o processo da vida ou apenas nos preparar para uma vocação, para o melhor emprego que pudermos alcançar?

O que acontecerá com todos nós quando nos tornarm os homens e mulheres? Já se perguntaram o que irão fazer quando se tornarem adultos? Com toda a probabilidade se casarão, e antes de se darem conta de onde estão, já serão pais e mães, e então ficarão atados a um emprego ou ao lar, no qual, aos poucos, definharão. Será nisso em que consistirá a sua vida? Já se fizeram esta pergunta? Não deveriam fazê-la? Se sua família for rica, você terá uma posição bastante satisfatória garantida, seu pai poderá conseguir um bom emprego para você, ou ficará rico por meio do casamento, mas tam bém haverá decadência e deterioração. Compreendem?

Certamente, a educação não tem significado, a menos que ela os auxilie a compreender a vasta expansão da vida com todas as suas sutilezas, com sua extraordinária beleza, tristezas e alegrias. Poderão obter diplomas, acrescentar títulos ao nome e ter um bom emprego. Mas e depois? Qual o objetivo se durante o processo sua mente ficar embotada, esgotada, limitada? Portanto, enquanto são jovens não deveriam descobrir o que é a vida? E não será a verdadeira função da educação cultivar em vocês a inteligência que os auxiliará a descobrir a resposta para todas essas questões? Vocês sabem o que é inteligência? Certamente, é a capacidade de pensar livremente, sem medo, sem fórmula, para que comecem a descobrir o que é real, o que é verdadeiro; mas se estiverem amedrontados nunca serão inteligentes. Qualquer forma de ambição, espiritual ou mundana, gera ansiedade, medo. Portanto, não ajuda a formar uma mente clara, simples, direta e, portanto, inteligente.

É realmente muito importante, enquanto são jovens, que vocês vivam em um ambiente em que não haja medo. Muitos de nós, quando envelhecemos, nos sentimos amedrontados; temos medo de viver, de perder o emprego, da tradição, do que os vizinhos, esposa ou marido vão dizer, medo da morte. A maioria de nós sofre de algum tipo de medo, e onde existe medo não há inteligência. E não será possível para todos nós, ainda na juventude, viver não em um ambiente onde exista medo, e sim em uma atmosfera de liberdade — não somente para fazer o que queremos, mas para compreender todo o processo da vida? A vida é realmente muito bela, não esta coisa feia na qual a transformamos; e vocês poderão apreciar sua riqueza, sua profundidade, seu encanto extraordinário. Somente quando se revoltarem contra tudo — a religião estabelecida, a tradição, a atual sociedade apodrecida — é que poderão, como seres humanos, descobrir o que é verdadeiro. Não imitar, mas descobrir — isso é educação, não é? Ê muito fácil se conformar com o que a sociedade ou seus pais e professores dizem a vocês. É uma forma segura e fácil de existir, mas isso não é viver, porque aí existe medo, decadência, morte. Viver é descobrir por si mesmo o que é verdadeiro, e vocês só podem fazê-lo quando há liberdade, quando existe uma revolução interna contínua dentro de vocês.

Mas vocês não são encorajados a fazer isso; ninguém diz a vocês para questionar, para descobrir o que é Deus, porque, se se rebelarem, representarão um perigo para tudo o que é falso. Seus pais e a sociedade desejam que vocês vivam com seguran­ça, e vocês também desejam viver seguros. Viver com segurança geralmente significa viver uma imitação e, portanto, no medo. Certamente, a função da educação é ajudar cada um de nós a viver livremente e sem medo, não é? E criar uma atmosfera na qual não existe medo requer de vocês muita reflexão, bem como do professor e do educador.

Vocês sabem o que isso significa — que extraordinário seria criar uma atmosfera na qual não existe medo. E nós devemos criá- la porque estamos vendo o mundo aprisionado em uma sucessão de guerras; ele é guiado pelos políticos, que estão sempre buscando o poder; é um mundo de advogados, policiais e soldados, de homens e mulheres ambiciosos, todos desejando determinada posição e lutando entre si para consegui-la. Então, temos os chamados santos, os gurus religiosos com seus seguidores; eles tam bém desejam o poder, uma posição, aqui ou na próxima vida. É um mundo ruim, completamente confuso, no qual os comunistas lutam contra os capitalistas, o socialista resiste a ambos e to dos estão contra alguém, batalhando para chegar a um lugar seguro, a uma posição de poder ou de conforto. O mundo é dilacerado por crenças conflitantes, por distinções de castas e classes, por nacionalidades separatistas, por todas as formas de estupidez e crueldade — este é o m undo no qual vocês estão sendo educados para se adaptarem. São encorajados a se ajustar à estrutura dessa sociedade desastrosa; seus pais querem que vocês façam isso, e vocês também desejam se acomodar.

Então, será função da educação apenas ajudá-los a se conformar com o padrão da ordem social apodrecida ou dar liberdade a vocês — a liberdade completa para crescer e criar uma sociedade diferente, um mundo novo? Queremos ter essa liberdade, não no futuro, mas agora, senão poderemos ser todos destruídos. Precisamos criar imediatamente uma atmosfera de liberdade para que vocês possam viver e descobrir o que consideram verdadeiro, para que se tornem inteligentes e sejam capazes de encarar o m undo e compreendê-lo. Não somente se conformar, mas permanecer interna, profunda e psicologicamente em constante revolta; porque são somente aqueles que estão em constante revolta que descobrem o que é verdadeiro, não o homem que se conforma, que segue alguma tradição. Será somente quando estiverem em questionamento, observação, aprendizado contínuos que descobrirão a verdade, Deus, o amor. E vocês não podem questionar, observar, aprender, não poderão estar profundamente conscientes se estiverem com medo. Portanto, a função da educação é certamente erradicar, tanto no interior como no exterior, o medo que destrói o pensamento, o relacionamento hum ano e o amor.

Pergunta: Se todos os indivíduos se revoltarem, você não acha que ocorrerá um caos no mundo?

Krishnamurti: Primeiro, observem a pergunta, porque também é muito importante compreendê-la, e não somente esperar pela resposta. A pergunta é: se todos os indivíduos se revoltarem, haverá caos no mundo? Mas na sociedade atualexiste uma ordem perfeita que se transformaria em caos caso todos se revoltassem contra ela? Não existe um caos agora? Está tudo em ordem, sem corrupção? Todos estão vivendo felizes, plenos e em riqueza? O homem não se opõe ao homem? Não existe a ambição, a competição implacável? O mundo já se encontra no caos, esse é o primeiro ponto a compreender. Não partam do pressuposto de que existe uma sociedade ordenada; não se influenciem com as palavras. Na Europa, na América ou na Rússia, todo o mundo está em processo de decadência. Se vocês a detectarem, terão um desafio: descobrir a maneira de resolver esse problema urgentemente. E a maneira de responder é importante, não é? Se agirem como hindu ou budista, cristão ou comunista, então a resposta será limitada — não será uma resposta verdadeira. Terão de se portar de m aneira integral e adequada apenas se não houver medo em vocês, apenas se não pensarem como hindus, comunistas ou capitalistas, mas como um ser humano integral que está tentando resolver o problema; e não poderão fazê-lo a menos que vocês mesmos estejam revoltados contra tudo, contra a sede do consumo ambicioso sobre o qual a sociedade está baseada. Somente quando vocês deixarem de ser ambiciosos, grandes “consumistas”, e não mais se agarrarem à própria segurança, poderão responder ao desafio e criar um mundo novo.

Pergunta: Revoltar-se, aprender, amar: são três processos separados ou simultâneos?

Krishnamurti: Naturalm ente, não são processos separados; é um processo unitário. Vejam, é m uito im portante descobrir o significado da pergunta. Ela está baseada na teoria, não na experiência; é meramente verbal, intelectual; portanto, não tem validade. Um homem que não tem medo, que sente realmente a revolta, lutando para descobrir o que significa aprender, amar, não pergunta se é um único processo ou três. Somos tão hábeis com as palavras que pensamos que, ao oferecer explicações, teremos resolvido o problema.

Sabem o que significa aprender? Quando vocês aprendem realmente, o processo dura a vida toda, e não existe um mestre especial corri o qual aprender. Então, tudo será ensinado a vocês — uma folha m orta, o vôo de um pássaro, um odor, uma lágrima, o rico e o pobre, aqueles que estão chorando, o sorriso de uma mulher, a arrogância de um homem. Vocês aprendem com tudo, por isso não existe orientador, filósofo ou guru. A própria vida é o mestre, e vocês se encontram num estado de constante aprendizado.

Pergunta: É verdade que a sociedade está baseada no consumo e na ambição; mas, se não tivéssemos ambição, não cairíamos em decadência?

Krishnamurti: Esta é um a pergunta realm ente im portante e necessita de grande atenção.

Sabem o que é atenção? Vamos considerá-la. Em uma sala de aula, quando vocês olham para além da janela ou puxam o cabelo de alguém, o professor pede para que prestem atenção. O que isso significa? Que vocês não estão interessados naquilo que estão estudando, por isso o professor os obriga a prestarem atenção — o que não é realmente atenção. Ela vem quando vocês estão profundamente interessados em algo, porque, então, desejarão descobrir tudo a respeito; então a mente, todo o seu ser, estará aji. Da mesma maneira, no momento em que considerarem esta pergunta — “se não houver ambição, haverá decadência?” — muito importante, vocês estarão interessados e desejam descobrir a verdade sobre o assunto.

Mas o homem ambicioso não destrói a si mesmo? Essa é a prim eira coisa a descobrir, e não perguntar se a ambição é certa ou errada. Olhem à volta, observem todas as pessoas que são am biciosas. O que acontece quando você é ambicioso? Está pensando em si próprio ou não? Você é cruel, afasta as pessoas porque está tentando conquistar aquilo que ambiciona, tentando se tornar um grande homem criando conflito entre aqueles que estão alcançando o sucesso e os que estão ficando para trás. Existe uma batalha constante entre você e os que também buscam o que você deseja; esse conflito induz a uma vida criativa? Compreendem, ou é muito difícil?

Vocês são ambiciosos quando amam fazer algo pelo próprio valor? Quando se empenham em alguma atividade não porque esperam alguma coisa em troca, ou lucrar mais, ou obter resultados melhores, mas simplesmente porque amam fazer aquilo — nisso não há ambição, ou sim? Nisso não existe competição; vocês não estão lutando com ninguém pelo primeiro lugar. E a educa­ção não deveria auxiliá-los a descobrir o que realmente amam fazer para que desde o início até o fim de suas vidas vocês estejam trabalhando em algo que acham que vale o esforço e que vocês realmente consideram relevante? De outra forma, pelo restante de seus dias, se sentirão miseráveis. Sem saber o que realmente desejam fazer, a mente cai na rotina na qual só existe tédio, decadência e morte. Por isso é muito importante descobrir enquanto são jovens o que realmente amam fazer; e esse é o único caminho para criar uma nova sociedade.

Pergunta: Na índia, como na maioria dos outros países, a educação t controlada pelo governo. Nessas circunstâncias, é possível realizar ri experiência do tipo que você descreveu?

Krishnamurti: Se não houvesse ajuda do governo, seria possível uma escola desse tipo sobreviver? É isso o que esse cavalheiro está perguntando. Ele vê tudo no mundo ficando cada vez mais con-

I rolado pelos governos, pelos políticos, pelas autoridades que visam moldar nossas mentes e nossos corações, que desejam que pensemos de determinada maneira. Seja na Rússia ou em qualquer outro país, a tendência é que o governo controle a educa­ção; e esse homem pergunta se é possível que uma escola do tipo que descrevo venha a existir sem o auxílio do Estado.

Bem, o que vocês dizem? Se acham que algo é realmente importante, realmente digno de esforço, vocês se empenham independentemente dos governos e dos éditos da sociedade — e então alcançarão o sucesso. Porém, a maioria de nós não se dedica a nada de corpo e alma, e esse é o motivo desse tipo de pergunta. Se eu e você sentirmos essencialmente que um mundo novo pode ser criado, quando cada um de nós estiver em completa revolta interna, psicológica e espiritual, então empenharemos nossos corações, nossas mentes, nossos corpos para criar uma escola na qual não exista nenhum tipo de medo e todas as suas implicações.

Caro senhor, qualquer aspecto realmente revolucionário é criado por uns poucos que veem o que é verdadeiro e desejam viver de acordo com essa percepção; mas descobrir o que é verdade exige libertação da tradição, o que significa libertação de todos os medos.

2. O problema da liberdade

Gostaria de discutir com vocês o problema da liberdade. É bastante complexo e necessita de estudo e compreensão. Ouvimos falar muito sobre liberdade. Liberdade religiosa e liberdade para fazermos aquilo que gostaríamos. Trabalhos sobre o tema foram escritos por especialistas, mas acho que podemos abordá-lo de modo bem simples e direto, e talvez isso nos aproxime da solução verdadeira.

Pergunto-me se vocês já pararam para observar a luminosidade maravilhosa no horizonte quando o sol se põe, com uma lua tímida e jovem despontando sobre as árvores. Muitas vezes, nesse momento, o rio fica bem calmo, e tudo fica refletido em sua superfície: a ponte, o trem que passa sobre ela, a lua suave, e depois, quando escurece mais, as estrelas. Tudo é muito bonito. E para observar, ver, dedicar toda a sua atenção a algo belo, sua mente deve estar livre de preocupações, não é? Não deve estar ocupada com problemas, dúvidas, especulações. É somente quando a fnente está bem calma que vocês podem realmente observar, pois então ela estará sensível à beleza extraordinária; e talvez aqui esteja uma chave para o nosso problema da liberdade.

O que significa ser livre? A liberdade é fazer aquilo que é bom para vocês, ir aonde desejarem, pensar o que quiserem? Isso vocês já fazem. Ter meramente uma independência, isso significa liberdade? Muitas pessoas no m undo são independentes, porém bem poucas são livres. Liberdade implica grande inteligência, não é? Ser livre é também ser inteligente, mas a inteligência não ocorre simplesmente com o desejo de ser livre; ela existe somente quando vocês começam a compreender todo o seu ambiente, as influências sociais, religiosas, geracionais e tradicionais que os atacam continuamente. Porém, compreender as várias influências — dos pais, do governo, da sociedade, da cultura à qual vocês pertencem, das crenças, dos deuses e superstições, da tradição à qual vocês se conformam sem se dar conta — e ficar livre delas requer uma sagacidade profunda. Mas vocês geralmente desistem disso porque, no íntimo, têm medo. Temem não conseguir uma boa posição na vida; têm medo do que seu sacerdote dirá; temem não seguir a tradição, não fazer a coisa certa. Mas a liberdade é, na verdade, um estado da mente no qual não existe medo ou compulsão, nem necessidade de se sentir seguro.

A maioria de nós não deseja estar seguro? Não queremos ouvir que somos pessoas maravilhosas, como nossa aparência é bela ou que inteligência extraordinária temos? Pois queremos adicionar títulos aos nossos nomes. Todo esse tipo de coisa nos dá autoconfiança, um senso de importância. Todos desejamos ser pessoas famosas — e no momento que desejamos ser alguma coisa, não somos mais livres.

Por favor, assimilem isto, pois esta é a chave verdadeira para compreender o problema da liberdade. Seja neste mundo de políticos, de poder, posição e autoridade, ou no chamado mundo espiritual, no qual vocês aspiram ser virtuosos, nobres, santos, no momento em que desejam ser alguém, não são mais livres. E o homem ou a mulher que vir o absurdo de todas essas coisas — e i iijo coração é, portanto, inocente e não é movido pelo desejo de ser alguém — é livre. Se vocês entenderem a simplicidade disso, verão também sua extraordinária beleza e profundidade.

Afinal, as provas e testes têm esse propósito — dar a vocês uma posição, fazer de vocês uma pessoa. Títulos, posição e conhecimento os encorajam a serem alguém. Já notaram que seus pais e professores lhes dizem que devem aspirar a algo na vida, que devem ter o sucesso do seu tio ou do seu avô? Ou que vocês devem seguir o exemplo de algum herói, ser como um dos Mestres, os santos; portanto, vocês nunca estão livres. Se se orientarem pelo exemplo de um Mestre, de um santo, professor, parente, ou se optarem por uma tradição em particular, tudo implicará uma demanda de sua parte em ser alguma coisa. E somente quando vocês compreenderem realmente esse fato é que haverá liberdade.

A função da educação, então, é ajudá-los desde a infância a não imitar ninguém, mas, sim, a ser vocês mesmos o tempo todo. I isso não é algo fácil de ser feito. Se são feios ou bonitos, invejosos ou ciumentos, sejam sempre o que são, porém com consciência. Ser vocês mesmos é muito difícil, porque se consideram desprezíveis, e pensam que se pudessem simplemente transformar o que são em algo nobre seria maravilhoso; mas isso nunca acontece. Porém, se olharem para o que realmente são e compreenderem isso, então ocorrerá nessa compreensão uma transformação. Portanto, a liberdade não está em tentar ser algo diferente, em fazer aquilo que gostariam, em seguir um exemplo da tradição, de seus pais, do seu guru, mas em compreender o que vocês são a cada momento.

Vejam, vocês não são educados para isso; a educação que re- t.ebem os encoraja a se tornarem determinado ser — e isso não é a compreensão de si próprios. O seu “ser” é algo muito complexo; não é meramente a entidade que vai à escola, que discute, que joga, que tem medo, mas é também algo oculto, que não está óbvio. É formado não apenas de todos os seus pensamentos, mas também de todas as coisas que foram incutidas em sua mente pelas outras pessoas, pelos livros, pelos jornais, pelos seus líderes; e só será possível compreender tudo isso quando vocês não desejarem ser alguém, quando vocês não imitarem, quando vocês não seguirem — o que significa, na reálidade, quando vocês se revoltarem contra toda tradição de tentar se tornar algo. Essa é a única revolução legítima que conduz à liberdade extraordinária. Cultivar essa liberdade é a verdadeira função da educação.

Pais, professores e seus desejos querem que vocês se identifiquem com alguma coisa para serem felizes em segurança. Mas, para serem inteligentes, vocês não devem transpor todas as influências que os escravizam e os esmagam?

A esperança por um mundo novo está naqueles de vocês que começam a ver o que é falso e se revoltam contra isso, não verbalmente, mas através da ação. E é por isso que vocês devem buscar o tipo certo de educação, pois somente quando crescerem em liberdade poderão criar um mundo novo não baseado na tradição ou moldado de acordo com a idiossincrasia de algum filósofo ou idealista. E não pode haver liberdade enquanto vocês estiverem apenas tentando se tornar alguém ou imitando um exemplo nobre.

Pergunta: O que é inteligência?

Krishnamurti: Vamos nos aprofundar na pergunta, com paciência, para revelá-la. Descobrir não é chegar a uma conclusão. Não sei se vocês percebem a diferença. No momento que chegarem a uma conclusão sobre o que é a inteligência, cessarão de ser inteligentes. Foi isso que a maioria das pessoas mais velhas fez: chegou a conclusões. Então, eles cessaram de ser inteligentes. Com isso, vocês descobriram um dos pontos: que a mente inteligente é a que está em constante aprendizado, sem nunca concluir.

O que é a inteligência? A maioria das pessoas está satisfeita com uma definição. Dizem: “Essa é uma boa explicação”, ou preferem a própria explicação; e uma mente que se satisfaz com uma explanação é muito superficial e, portanto, não é inteligente.

Vocês começaram a entender que uma mente inteligente é uma mente que não se contenta com as explicações, com as conclusões; nem é uma mente que acredita, porque a crença é no vamente uma outra forma de conclusão. Uma mente inteligente é inquiridora, uma mente que observa, aprende, estuda. O que significa isso? Que existe inteligência somente quando não há medo, quando vocês desejam se rebelar, ir contra toda a estrutura social para descobrir o que é Deus, ou para descobrir a verdade sobre algo.

Inteligência não é conhecimento. Se vocês pudessem ler todos os livros do mundo, isso não lhes daria inteligência. A inteligência é algo muito sutil, não tem ancoradouro. Passa a existir somente quando vocês compreendem o processo total da m ente— não de acordo com algum filósofo ou professor, mas de sua própria mente. Ela é o resultado de toda a humanidade, e quando vocês a compreendem não precisam estudar um único livro, porque a mente contém todo o conhecimento do passado. Portanto, a inteligência existe com a compreensão de si mesmo; e vocês podem se compreender somente em relação ao mundo das pessoas, coisas e ideias. A inteligência não é algo que vocês podem adquirir, como o aprendizado. Ela surge com grande revolta, isto é, quando não existe medo — o que significa, realmente, quando existe um senso de amor. Pois quando não existe medo, existe amor.

Se vocês estiverem interessados somente em explicações, temo que sintam que eu não respondi à sua pergunta. Perguntar o que é a inteligência é como perguntar o que é a vida. A vida é estudo, diversão, sexo, trabalho, discussão, inveja, ambição, amor, beleza, verdade — é tudo, não é? Mas, vejam, a maioria de nós não tem a paciência de fazer essa busca com sinceridade e consistência.

Pergunta: A mente rude pode se tornar sensível?

Krishnamurti: Ouçam a pergunta, o significado por trás das palavras. Pode uma mente rude se tornar sensível? Se eu disser que minha mente é rude e tentar me tornar sensível, o próprio esforço é grosseiro. Por favor, vejam isso. Não fiquem intrigados, mas observem. Pois se eu reconhecer que sou rude sem desejar mudar, sem tentar me tornar sensível, se eu começar a compreender o que é a rudeza, observá-la em minha vida, dia após dia — a maneira ávida de comer, a aspereza com que trato as pessoas, o orgulho, a arrogância, a vulgaridade dos meus hábitos e pensamentos — , então essa própria observação transforma o que é.

Da mesma maneira, se sou estúpido e digo que devo me tornar inteligente, o esforço para sê-lo é somente uma forma maior de estupidez, porque o im portante é compreender a estupidez. Mesmo que eu tente muito me tornar inteligente, m inha estupidez subsistirá. Posso adquirir um polimento superficial do aprendizado, posso ser capaz de citar livros, repetir passagens de grandes autores, porém, basicamente, ainda serei estúpido. Mas se eu vir e compreender a estupidez como ela se expressa na m inha vida diária — como eu me comporto com meus empregados, como trato meu vizinho, o homem pobre, o homem rico, o vendedor — , então essa conscientização ocasionará o rompimento da estupidez.

Tentem. Observem-se conversando com seu empregado, n o tem o enorme respeito com o qual vocês tratam um governante e o descaso que mostram pelo homem que nada tèm para lhes dar. Então comecem a descobrir o tamanho da sua estupidez; e nessa compreensão existe inteligência, sensibilidade. Vocês não precisam se tornar sensíveis. O homem que está tentando se tornar algo c ofensivo, insensível; é uma pessoa rude.

Pergunta: Como a criança pode descobrir o que ela é sem a ajuda dos pais e professores?

Krishnamurti: Eu disse que ela pode ou essa é a interpretação de vocês para as minhas palavras? A criança descobrirá sobre si própria se o ambiente no qual ela vive ajudá-la a fazê-lo. Se pais e professores estiverem realmente preocupados que essa jovem pessoa descubra quem ela é, eles não a forçarão; criarão um ambiente no qual ela poderá vir a se conhecer.

Vocês fizeram essa pergunta, mas ela constitui um problema vital? Se sentissem que é importante para a criança descobrir sobre si mesma e que ela não o conseguirá se for dominada por uma autoridade, vocês não ajudariam a formar um ambiente propício? Trata-se, novamente, da conhecida atitude: diga-me o que fazer e eu farei. Não falamos: “Vamos resolver juntos.” O problema de como criar um ambiente no qual a criança possa ter o conhecimento de si mesma preocupa todos — pais, professores e as próprias crianças. Mas o autoconhecimento não pode ser imposto, a compreensão não pode ser forçada; e se isso for um problema vital para vocês e para mim, para pais e professores, então juntos criaremos escolas adequadas.

Pergunta: As crianças me disseram que viram nas aldeias alguns fenômenos estranhos, como obsessão, e também que elas têm medo de fantasmas, espíritos, e por aí vai. Também perguntaram sobre a morte. O que devemos dizer a esse respeito?

Krishnamurti: No devido curso devemos questionar sobre o que é a morte. Mas, vejam, o medo é algo extraordinário. As crianças ouviram falar de fantasmas por intermédio dos pais, de pessoas mais velhas, pois de outra maneira provavelmente não teriam conhecimento de tais seres. Alguém lhes falou sobre obsessão. Elas são muito jovens para saber sobre essas coisas. Não faz parte de suas experiências, é um reflexo do que os adultos lhes contaram. E os próprios adultos, muitas vezes, não sabem nada a respeito disso. Elas apenas leram em algum livro e acham que compreenderam o assunto, o que faz com que surja uma pergunta bem diferente: existe alguma experiência que não seja contaminada pelo passado? Se uma experiência é contaminada pelo passado, ela é apenas uma continuação e, portanto, não é original.

O importante é que aqueles que lidam com crianças não imponham sobre elas suas próprias falácias, noções sobre fantasmas, ideias e experiências particulares. Trata-se de algo muito difícil de ser evitado, porque os adultos falam muito sobre assuntos como esses, que não são essenciais e que não têm relevância para a vida, por isso, aos poucos, passam para as crianças ansiedades, medos e superstições, e estas, naturalmente, repetem o que ouvem. É fundamental que os adultos, que em geral não têm conhecimentos suficientes até para eles mesmos, não conversem sobre esses temas diante das crianças e, pelo contrário, ajudem a criar uma atmosfera na qual elas possam crescer em liberdade e sem medo.

3. Liberdade e amor

TALVEZ ALGUNS DE VOCÊS não tenham com preendido com pletamente o que tenho falado sobre liberdade, mas, como destaquei, é m uito im portante nos expormos a novas ideias, a algo com o qual vocês não estão acostumados. É bom ver o que é belo, porém vocês devem também observar as coisas feias da vida, devem estar atentos a tudo. Da mesma m aneira, precisam estar receptivos às coisas que não compreendem bem, pois quanto mais pensarem e ponderarem sobre assuntos que parecem conflituosos para vocês, m aior será sua capacidade de enriquecer a vida.

Não sei se algum de vocês notou, no início da manhã, a luz do sol sobre as águas. Como a luz é extraordinariamente suave e como as águas escuras dançam, e a estrela da m anhã sobre as árvores, a única estrela no céu. Já observaram? Ou estão tão ocupados, tão atarefados com a rotina diária que se esquecem ou nunca viram a rica beleza da Terra — na qual todos nós vivemos? Não importa se somos comunistas ou capitalistas, hindus ou budistas, muçulmanos ou cristãos, se somos cegos, coxos, ou se estamos bem e felizes, a Terra é nossa. Compreendem? É a nossa Terra, não a de outra pessoa; não é somente a Terra do homem rico, não pertence exclusivamente a regentes poderosos, à nobreza, mas é a nossa Terra — sua e minha. Somos zés-ninguém, mas também vivemos aqui, e todos temos de viver juntos. É o mundo do pobre e também do rico, dos incultos e também dos eruditos; é o nosso mundo, e penso que é muito importante ter esse sentimento e amar a Terra, não só ocasionalmente, em uma manhã pacífica, mas o tempo todo. Somente podemos sentir que é nosso mundo, e amá-lo, quando compreendemos o que é a liberdade.

A liberdade não existe no momento atual, não sabemos o que ela significa. Gostaríamos de ser livres mas, se vocês notarem, todos — professor, pais, advogado, policial, soldado, político, comerciante — estão fazendo algo em seu pequenino universo para evitar a liberdade. Ser livre não é apenas fazer o que queremos, ou romper com circunstâncias externas que nos cerceiam, mas compreender todo o problema da dependência. Sabem o que é dependência? Vocês são dependentes dos pais, não são? Dependem dos seus professores, do cozinheiro, do carteiro, do homem que fornece o leite e de outros. Esse tipo de dependência é fácil de ser compreendido. Mas existe um outro, bem mais profundo, que é preciso compreender antes de podermos ser livres: a dependência do outro para a nossa felicidade. Sabem o que significa depender de alguém para ter felicidade? Não é a mera dependência física a mais limitante, mas a interna, psicológica, da qual vocês acreditam que venha a chamada felicidade, pois quando vocês são dependentes de alguém assim, tornam-se escravos. Se, quando envelhecerem, dependerem emocionalmente dos pais, da esposa ou do marido, de um guru ou de alguma ideia, já existe um início de sujeição. Nós não compreendemos o processo — embora a maio- ría de nós, especialmente quando somos jovens, deseje ser livre.

Para consegui-lo, precisamos nos revoltar contra toda dependência interna, e não podemos fazê-lo se não compreendemos por que somos dependentes. Até rompermos totalmente com a dependência interna, nunca poderemos ser livres, pois somente na compreensão pode haver liberdade. E esta não é simplesmente uma reação. Sabem o que significa reação? Se eu disser algo que ofenda vocês, se eu xingar e deixá-los zangados comigo, temos uma reação — nascida da dependência; e a independência consiste em outra reação. Mas a liberdade não é uma reação, e até que compreendamos o conceito de reação para irmos além dela, nunca seremos livres.

Sabem o que significa amar alguém? Sabem o que significa amar uma árvore, um pássaro, um animal de estimação a ponto de cuidarem dele, alimentá-lo, acarinhá-lo, embora não recebam nada em troca, ele não lhes ofereça proteção nem os siga ou dependa de vocês? A maioria de nós não ama assim. Não sabemos o que isso significa porque nosso amor é sempre cercado de ansiedade, ciúme, medo — o que implica que, no íntimo, dependemos do outro, queremos ser amados. Não somente amamos, mas pedimos algo em troca; e já nesse pedido nos tornam os dependentes.

Portanto, liberdade e amor andam juntos. O amor não é uma reação. Se eu amo você porque você me ama, trata-se simplesmente de comércio, algo a ser comprado no mercado; não é amor. Amar não é pedir algo em troca, nem mesmo sentir que você está dando algo — e é somente nesse tipo de amor que podemos encontrar liberdade. Mas, vejam, vocês não são educados com essa finalidade. Recebem instrução no campo da matemática, da química, da geografia, da história, e acaba aí, porque a única preocupação dos seus pais é auxiliá-los para que consigam um bom emprego e tenham sucesso na vida. Se têm dinheiro, eles os mandam para outro país e, como a maioria, seu único propósito é que vocês enriqueçam e tenham uma posição respeitável na sociedade; e quanto mais vocês enriquecem mais miséria causam aos outros, porque, para obter sucesso, vocês têm de competir, ser implacáveis. Por esse motivo os pais enviam os filhos para as escolas onde existe ambição, competição, onde não há amor, e é por isso que sociedades como a nossa vêm continuamente decaindo e em constante rivalidade; mesmo que p o líticos, juízes, supostos homens nobres, falem sobre paz, tudo isso não tem nenhum significado.

Então vocês e eu precisamos compreender o problema da liberdade. Precisamos descobrir por nós mesmos o que significa amar porque, se não amarmos, nunca poderemos ser ponderados, atentos, nunca seremos solícitos. Sabem o que significa ser solícito? Quando vocês veem uma pedra pontiaguda no caminho por onde passam várias pessoas com pés descalços, vocês a retiram não porque lhe pediram, mas porque se preocupam com o próximo — não im porta quem seja, e vocês talvez nunca cheguem a conhecê-lo. Plantar uma árvore e cuidar dela, observar um rio e desfrutar da totalidade da Terra, olhar um pássaro e perceber a beleza do seu voo, ter sensibilidade e estar receptivo ao extraordinário movimento chamado vida — para tudo isso é preciso haver liberdade; e para ser livre você precisa amar. Sem amor não há liberdade; ela é apenas uma ideia que não tem nenhum valor. Por esse motivo, somente para aqueles que compreendem e rompem com a dependência interior e que, portanto, sabem o que é o amor é que pode haver liberdade; e apenas eles formarão uma nova civilização, um mundo diferente.

Pergunta: Qual é a origem do desejo e como posso me livrar dele?

Krishnamurti: Esta pergunta está sendo feita por um jovem; e por que devemos nos livrar do desejo? Compreendem? Ele é jo vem, cheio de vida, de vitalidade; por que deve se livrar do desejo? A ele foi dito que se livrar do desejo é uma das maiores virtudes e que, por meio da libertação do desejo, ele realizará Deus, ou como é chamado o objetivo último. Por isso ele pergunta: “Qual a origem do desejo e como posso me livrar dele?” Porém a própria urgência em se livrar do desejo é parte do desejo, não é? Ela é, na verdade, insuflada pelo medo.

Qual a origem, a fonte, o início do desejo? Vocês veem um carro, ou um barco, e desejam possuí-lo; ou querem alcançar a posição de um homem rico, ou se tornar um sannyasi. Essa é a origem do desejo: ver, ter contato — do qual origina a sensação, e da sensação surge o desejo. Por isso, reconhecendo que o desejo traz conflito, vocês perguntam: “Como posso me livrar do desejo?” Então o que vocês realmente querem não é a libertação do desejo, mas da preocupação, da ansiedade, da dor que o desejo causa. Querem se libertar dos frutos amargos do desejo, não do próprio desejo, e é muito im portante que esse processo seja compreendido. Se puderem separar o desejo da dor, do sofrimento, da luta e de todas as ansiedades e medos que o acompanham, de modo que só reste o prazer, gostariam, então, de ficar livres do desejo?

Enquanto existir o desejo de ganhar, atingir, vir a ser, em qualquer nível, haverá inevitavelmente ansiedade, tristeza, medo. A ambição de ser rico, ser isso ou aquilo, diminui somente quando vemos a podridão, a natureza corrupta da própria ambição. No momento em que vemos que o desejo pelo poder sob qualquer forma — um prim eiro-m inistro, um juiz, um sacerdote, um guru — é fundamentalmente maligno, deixamos de alimentar esse desejo. Mas não percebemos que a ambição é corruptiva, que o desejo pelo poder é maligno; pelo contrário, vemos que devemos usar o poder para o bem — o que é uma bobagem. Um meio errado nunca pode ser utilizado para uma finalidade correta. Se o meio é errado, o resultado também será errado. O bem não é o oposto do mal; ele acontece somente quando aquilo que for mal cessa por completo.

Portanto, se não compreendermos o significado completo do desejo, com seus resultados, seus subprodutos, o ato de apenas tentar se livrar do desejo não tem significado.

Pergunta: Como me libertar da dependência enquanto estamos vivendo em sociedade?

Krishnamurti: Vocês sabem o que é a sociedade? É a relação entre os homens, não é? Não compliquem, não citem os livros; pensem a respeito em termos simples e verão que a sociedade é o relacionamento entre mim e vocês e os outros. O relacionamento humano forma a sociedade, e nossa sociedade atual é construída por uma relação de consumo, não é? A maioria de nós deseja dinheiro, poder, propriedades, autoridade; em um nível ou outro, queremos posição, prestígio, e por isso temos de construir uma sociedade consumista. Enquanto formos consumistas, pertenceremos a essa sociedade e seremos, portanto, dependentes dela. Mas se alguém não tem esses desejos e permanece sendo apenas aquilo que é, com grande humildade, então esse alguém está fora dela; ele se revoltou e rompeu o laço.

Infelizmente, a educação atual é voltada para fazer vocês se ajustarem, se adaptarem e se moldarem à sociedade consumista. É com tudo isso que pais, professores e os livros se preocupam. Enquanto se conformarem, enquanto forem ambiciosos, con- su mistas, corrompendo e destruindo pessoas em busca de posi­ção e poder, vocês serão considerados cidadãos respeitáveis. Estão sendo ensinados a se ajustarem. No entanto, não considero que seja educação, mas apenas um processo que os condiciona i um padrão. A verdadeira função da educação não é torná-los comerciante, juiz ou primeiro-ministro, mas auxiliá-los a compreender toda a estrutura dessa sociedade apodrecida e permi-1 ir-lhes crescer libertos para que possam rom per e criar um inundo novo. Pode ser que alguns se revoltem, não parcialmente, mas por completo, contra o antigo, porque são somente essas pessoas que podem transformar este m undo em outro não baseado no consumo, no poder e no prestígio.

Posso ouvir as pessoas mais velhas dizendo: “Isso nunca pode ser feito. A natureza humana é assim, e vocês estão falando bobagens.” Mas nunca cogitamos sobre o descondicionamento da mente adulta e o não condicionamento da criança. Certamente, a educação é tanto curadora como preventiva. Os alunos mais an-t igos já estão moldados, condicionados, já ambicionam. Vocês desejam ter o mesmo sucesso que os pais, que o governante, ou outro. Por isso a verdadeira função da educação não é somente auxiliá- los a se descondicionarem, mas também a compreenderem todo o processo de viver dia após dia para que possam crescer em liberdade e criar um m undo novo — que precisa ser totalmente diferente do atual. Infelizmente, nem os pais nem os professores, muito menos o público em geral, estão interessados. Por esse motivo a educação deve ser um processo de educar tanto o educador quanto o aluno.

Pergunta: Por que os homens brigam?

Krishnamurti: Por que os garotos brigam? Vocês costumam b rigar com seus irmãos ou com outros rapazes, não é? Por quê? Por brincadeira. Talvez o outro tenha pegado sua bola ou seu livro, e então vocês brigam. Pessoas adultas o fazem exatamente pela mesm a razão, porém os brinquedos são representados por posições, riqueza e poder. Se vocês desejam o poder, e eu também quero, nós brigamos — razão pela qual as nações entram em guerra. É simples, e somente os filósofos, os políticos e os chamados religiosos complicam as coisas. Sabem, é uma grande arte deter muito conhecimento e experiência — conhecer a riqueza da vida, a beleza da existência, as lutas, as misérias, o riso, as lágrimas — e mesmo assim manter a mente bem simples; e vocês só o conseguirão quando souberem amar.

Pergunta: O que é ciúme?

Krishnamurti: Ciúme implica insatisfação com aquilo que você é e inveja que sente do outro, não é assim? Estar descontente consigo constitui o início do ciúme. Você quer ser como a outra pessoa e ter mais conhecimento, ou ser mais bonito, ou ter uma casa maior, mais poder, uma posição melhor do que a que tem agora. Deseja ser mais virtuoso, saber meditar melhor, atingir a Deus, ser algo diferente; ocorre, então, a inveja, o ciúme. Compreender a nós mesmos é imensamente difícil porque requer uma completa liberdade de todos os desejos para transformar aquilo que somos. O desejo de m udar a si mesmo produz inveja, ciúme, ao passo que com a compreensão ocorre uma transformação. Mas, vejam, toda a educação recebida os incita a tentarem ser diferentes. Quando são ciumentos, vocês ouvem: “Não tenham ciúme, é uma coisa terrível.” Então vocês lutam para não serem ciumentos, mas a própria luta é parte do ciúme, porque vocês desejam ser diferentes.

Uma bela rosa é uma bela rosa, mas nós, seres humanos, recebemos a capacidade de pensar, e a usamos de maneira errada. Saber como requer muito aprofundamento, compreensão, mas saber o que pensar é comparativamente fácil. Nossa educação atual consiste em nos dizer o que pensar, não nos ensina como pensar, como aprofundar, explorar; é somente quando o professor e tam bém o aluno sabem como pensar que a escola torna-se digna do seu nome.

Pergunta: For que nunca estou satisfeita com as coisas?

Krishnamurti: É uma menina quem faz esta pergunta, e estou certo de que não partiu dela. Em sua tenra idade, ela deseja saber por que nunca está satisfeita. O que os adultos acham? É sua fun­ção: vocês criaram este mundo no qual uma menina pergunta por que ela nunca está satisfeita com as coisas. Supõe-se que são educadores, mas vocês não veem a tragédia. Meditam, mas são tolos, vazios, internamente mortos.

Por que os seres humanos nunca estão satisfeitos? Não é porque buscam a felicidade e acham que por meio de uma mudan­ça constante serão felizes? Saem de um emprego para outro, de um relacionamento para outro, de uma religião ou ideologia para outra, achando que por intermédio desse movimento constante encontrarão a felicidade; ou, então, escolhem uma estagnação da vida e permanecem nela. Certamente o contentamento é algo bem diferente. Ele acontece somente quando vocês se veem como são, sem qualquer desejo de mudança, sem qualquer condenação ou comparação — que não significa que vocês apenas aceitam o que veem e vão dormir. Mas quando a mente não fica mais comparando, julgando, avaliando — portanto, apta a ver o que acontece a cada mom ento sem desejar m udar — , nessa percepção está o eterno.

Pergunta: Por que devemos ler?

Krishnamurti: Por que yocês devem ler? Simplesmente ouçam em silêncio. Vocês nunca perguntam por que devem brincar, comer, observar o rio, por que são cruéis. Vocês se rebelam e perguntam por que devem fazer uma coisa quando não gostariam de fazê-la. Mas ler, brincar, rir, ser cruel, ser bom, ver o rio, as nuvens — tudo isso é parte da vida; e se vocês não souberem como ler, se não souberem como caminhar, se forem incapazes de apreciar a beleza de uma folha, não estarão vivendo. Vocês precisam compreender a totalidade da vida, e não somente uma pequena parte dela. Esse é o motivo pelo qual vocês devem ler, e essa é a razão pela qual devem observar os céus, cantar e dançar, escrever poemas, sofrer e compreender, pois tudo isso é a vida.

Pergunta: O que é timidez?

Krishnamurti: Vocês não se sentem tímidos quando encontram um desconhecido? Não ficam tímidos quando fazem esta pergunta? Não se sentiriam envergonhados se tivessem que estar aqui no palco, como eu, e falar? Não se envergonham, não se sentem um pouco desajeitados, preferindo ficar parados, quando de repente encontram uma bela árvore, ou uma flor delicada, ou um pássaro repousando em seu ninho? Vejam, é bom ser tímido. Mas para a maioria de nós a timidez implica autoconscientização. Quando encontramos um grande homem, se existe algum, fica­mos conscientes de nós mesmos. Pensamos: “Como ele é im portante, reconhecido, e eu não sou ninguém.” Então nos sentimos nivergonhados, que é o mesmo que ter consciência de si mesmo. Mas existe um tipo diferente de timidez, que consiste em realmente ser amoroso, e nisso não há nenhuma autoconsciência.

4. Ouvir

POR QUE VOCÊS ESTÁO me ouvindo? Já pensaram por que dão ouvidos às pessoas? E o que significa ouvir alguém? Todos vocês aqui estão sentados diante de alguém que está falando. Estão ouvindo para ver se confirmam, reforçam os seus pensamentos, ou estão ouvindo para aprender? Veem a diferença? Ouvir para aprender possui um significado bem diferente do que ouvir apenas para ratificar aquilo que pensam. Se estão aqui simplesmente para terem confirmações ou serem encorajados, então o ouvir tem pouco significado. Mas se estão ouvindo para aprender, então sua mente está livre, sem compromissos; é bem aguda, afiada, viva, inquiridora, curiosa, e, portanto, capaz de descobrir. Por isso, não é importante considerar por que e o que estão ouvindo?

Já se sentaram em silêncio, sem que sua atenção esteja fixada em alguma coisa, sem fazer esforço para se concentrar, e com a mente bem calma, realmente estabilizada? Então vocês ouvem tudo, não é? Os ruídos distantes e também aqueles que estão mais perto, e os sons bem próximos, imediatos. A mente não está confinada a um pequeno canal estreito. Se conseguem ouvir dessa forma, com facilidade, sem esforço, descobrirão uma mudança extraordinária acontecendo dentro de vocês — que ocorre sem sua vontade, sem que peçam; e nessa mudança há grande beleza e profundidade de insight.

Tentem uma vez, tentem agora. Enquanto me ouvem, escutem não somente a mim, mas tudo à volta. Ouçam aqueles sinos — os das vacas e dos templos; ouçam o trem distante e os carros na estrada; e se chegarem ainda mais perto e me ouvirem também, descobrirão que existe grande profundidade no ouvir. No entanto, é preciso uma mente bem estabilizada. Se de fato desejam ouvir, a mente fica naturalmente calma. Vocês não são distraídos por algo que aconteça próximo a vocês; a mente está calma porque vocês estão ouvindo profundamente tudo. Se conseguirem ouvir assim, sem esforço, com certa felicidade, descobrirão uma transformação surpreendente ocorrendo no coração, na m ente— uma transformação que nunca cogitaram ou atingiram.

O pensamento é algo bem estranho, não é? Sabem o que ele é? O pensamento, ou o ato de pensar, é, para a maioria das pessoas, algo reunido pela mente, e elas batalham com os pensamentos. Mas se vocês conseguirem realmente ouvir tudo — a água de encontro à margem de um rio, o canto dos pássaros, o choro de uma criança, sua mãe resmungando com você, um amigo seu o intimidando, a esposa ou o marido censurando — então descobrirão que vocês vão além das palavras, além das simples expressões verbais que dilaceram as pessoas.

E é muito importante ir além das expressões verbais porque, afinal, o que todos queremos? Jovens ou adultos, inexperientes ou avançados, todos desejamos ser felizes, não é? Como alunos, desejamos ser felizes em nossos jogos e brincadeiras, no estudo, em todas as pequenas coisas que temos de fazer. Quando crescemos, buscamos a felicidade nas posses, no dinheiro, em ter uma bela t .isa, esposa ou marido gentil, um bom emprego. Quando essas t oisas não mais nos satisfazem, procuramos algo mais. Dizemos: " Devo me desapegar para ser feliz.” E começamos a praticar o desapego. Deixamos nossa família e nossas propriedades e nos retinimos do mundo. Ou nos ligamos a uma sociedade religiosa, k hando que seremos felizes nos reunindo e conversando sobre a irmandade, seguindo um líder, um guru, um Mestre, um ideal, ai reditando no que é essencialmente uma autodecepção, uma ilusão, uma superstição.

Compreendem sobre o que estou falando?

Quando vocês penteiam o cabelo, colocam roupas limpas e se embelezam, tudo isso faz parte do desejo de ser feliz, não é? Quando são aprovados nos exames e acrescentam alguns títulos «io nome, quando conseguem um emprego, adquirem uma casa e urna outra propriedade, quando se casam e têm filhos, quando se juntam a um grupo religioso cujos líderes afirmam que recebem mensagens de Mestres invisíveis— por trás de tudo isso está uma enorme necessidade: a compulsão de encontrar a felicidade.

Mas, vejam, a felicidade não chega tão facilmente, porque não consiste em nenhum a dessas coisas. Vocês podem sentir prazer, encontrar uma nova satisfação, porém mais cedo ou mais tarde ficarão entendiados porque não existe felicidade duradoura naquilo que conhecemos. O beijo é seguido de uma lágrima, o riso, pela angústia e pela desolação. Tudo seca, definha. Então, enquanto são jovens, vocês devem começar a descobrir em que consiste essa coisa desconhecida chamada felicidade. É parte essencial da educação.

A felicidade não chega quando você está lutando por ela — esse é o maior segredo, embora seja fácil de dizer. Posso abordá- lo em poucas palavras, porém apenas me ouvir e repetir o que foi falado não os deixará felizes. A felicidade é curiosa; ela chega quando você não a está procurando. Quando vocês não estão se esfor­çando para serem felizes, então, de repente, misteriosamente, a felicidade chega, nascida da pureza, de um encanto de ser. Mas requer muita compreensão, e não dedicar-se a uma organização religiosa ou tentar ser alguém. A verdade não é algo a ser atingido. A verdade existe quando a mente e o coração são purgados de todo o sentido de luta e vocês não estão mais procurando ser alguém; é aí que a mente se estabiliza, ouvindo sem cessar tudo o que está acontecendo. Vocês podem ouvir essas palavras, mas, para que haja felicidade, vocês terão de descobrir como libertar a mente de todo o medo.

Enquanto tiverem medo de alguém ou de algo, não haverá felicidade. Não pode haver felicidade enquanto vocês temem os pais, os professores, têm medo de não passar nas provas, de não progredir, de não se aproximar do Mestre, de não se achegar da verdade, de não ser aprovados, não receber um cumprimento. Mas se realmente não tiverem medo de nada, então descobrirão — quando despertarem numa determinada manhã, ou quando estiverem caminhando sozinhos — que algo estranho acontece: sem ser convidado, solicitado ou procurado, e que pode ser chamado de amor, verdade, de repente, a felicidade está ali.

Por isso é tão importante para vocês serem educados corretamente enquanto são jovens. O que chamamos atualmente de educação não é educação, porque ninguém fala com vocês a respeito disso que estamos discutindo. Os professores os preparam para serem aprovados nos exames, mas não falam sobre como viver, que é o mais im portante, porque bem poucos sabem como viver. A maioria de nós apenas sobrevive; de alguma maneira, somos arrastados, e a vida se torna algo pavoroso. Viver requer realmente muito amor, a grande sensação de silêncio, a grande simplicidade com abundância de experiências; requer uma m ente que seja capaz de pensar com m uita clareza, que não seja limitada pelos preconceitos ou superstições, pela esperança ou pelo medo. Tudo isso é vida, e se vocês não estiverem sendo educados para viver, então a educação não tem significado. Vocês podem i prender a ser bem caprichosos, ter boas maneiras e passar em todos os exames, mas atribuir importância principal às coisas superficiais quando toda a estrutura da sociedade está desmoronando é como limpar e polir as unhas enquanto a casa está caindo. Vejam, ninguém lhes fala a esse respeito, ninguém discute isso com vocês. Enquanto passam dia após dia estudando certos assuntos — matemática, história, geografia — , vocês também deveriam dedicar grande parte do tempo conversando sobre temas mais profundos, porque é o que enriquece a vida.

Pergunta: A adoração a Deus é a verdadeira religião?

Krishnamurti: Em prim eiro lugar, vamos descobrir o que não é religião. Não seria uma abordagem correta? Se conseguirmos compreender o que não é religião, então talvez comecemos a perceber aIgo mais. É como limpar uma janela suja— começa-se a ver com mais clareza através dela. Por isso vamos tentar entender e eliminar de nossas mentes o que não é religião; não vamos dizer “Vou pensar a respeito” e somente brincar com as palavras. Talvez vocês consigam, porém a maioria das pessoas mais velhas já está aprisionada; encontram-se confortavelmente estabelecidas naquilo que não é religião e não desejam ser perturbadas.

Então, o que não é religião? Já pensaram a respeito? Disseram a vocês repetidas vezes o que se supõe ser religião— a crença em Deus e em uma porção de outras coisas— ,mas ninguém lhes pediu para descobrir o que não é religião, e agora juntos vamos descobrir.

Ao me ouvirem, ou a outra pessoa, não aceitem pacificamente o que é dito, mas procurem discernir a verdade. Quando perceberem por si mesmos o que não é religião, então, daqui para a frente, nenhum sacerdote ou livro poderá enganá-los, nenhuma sensação de medo criará uma ilusão na qual poderão acreditar e seguir. Para descobrir o que não é religião vocês precisam come­çar no nível do dia-a-dia e depois se expandirem. Para ir mais longe, é preciso começar de perto, e a etapa seguinte é a mais im portante. Então, o que não é religião? As cerimônias são religião? Fazer o puja repetidas vezes — isso é religião?

A verdadeira educação é aprender como pensar, não o que pensar. Se souberem como pensar, se realmente tiverem essa capacidade, então serão seres humanos livres — livres de dogmas, superstições, cerimônias — e, portanto, poderão descobrir o que é a religião.

As cerimônias certamente não são religião, porque na realização delas vocês estão somente repetindo uma fórmula que lhes foi passada. Vocês podem ter algum prazer em realizá-las, assim como outras pessoas têm ao fumar ou beber, mas isso não é religião. Ao realizar cerimônias vocês estão fazendo algo sobre o qual nada sabem. Seus pais e avós as realizaram, e por isso vocês tam bém as realizam, e se não fizessem isso, eles os repreenderiam. Isso não é religião, não acham?

E o que é um templo? Uma imagem esculpida, moldada por um ser humano segundo sua própria imaginação. A imagem pode ser um símbolo, mas continua a ser somente uma imagem, não algo real. Um símbolo, uma palavra, não o que ela representa. A palavra “porta” não é a porta. A palavra não é o objeto. Vamos ao templo para adorar — o quê? Supomos que a imagem seja um símbolo, mas o símbolo não é o objeto real. Então, por que ir lá? São os fatos. Não estou condenando; e, como são fatos, por que se preocupar com quem frequenta os templos, se são tangíveis ou não, o brâmane ou o não brâmane? Quem se importa? Vejam, as pessoas mais velhas transformaram o símbolo na religião pela qual fias desejam discutir, lutar, matar, mas Deus não está ali. Deus nunca é um símbolo. Por isso a adoração a um símbolo ou a uma imagem não é religião.

E a crença é uma religião? Isso é mais complexo. Começamos de longe e vamos nos aproximando. A crença é religião? Os cristãos acreditam de um jeito, os hindus de outro, os muçulmanos de um terceiro, os budistas ainda de outro, e todos se consideram pessoas muito religiosas; todos têm templos, deuses, símbolos, crenças. Trata-se de religião? É religião quando vocês acreditam em Deus, em Rama, Sita, Ishwara e todo esse tipo de coisas? Como adquiriram essa crença? Acreditam porque seus pais e avós acreditam, ou leram o que se supõe que algum mestre como Shankara ou Buda disse, vocês acreditam e dizem que é verdadeiro. A maioriã de vocês somente acredita no que o Gita diz, portanto não exa- minaram com clareza e diretamente como o fariam com qualquer nutro livro; não tentaram descobrir o que é verdadeiro.

Já vimos que as cerimônias não são religião, que frequentar um templo não é religião, e que a crença não é religião. A crença divide as pessoas. Os cristãos possuem crenças e são separados dos que têm outras crenças, e entre si mesmos; os hindus estão f ternamente cheios de inimigos porque acreditam ser brâmanes ou não brâmanes, isto ou aquilo. Portanto, as crenças trazem inimizades, divisões, destruição; logo, obviamente, não são religião.

Então, o que é religião? Se vocês limparam a janela— ou seja, f vocês realmente deixaram de realizar cerimônias, desistiram de todas as crenças, deixaram de seguir líderes ou gurus — , então a mente, como a janela, está limpa, polida e vocês podem ver cla- i amente através dela. Quando a mente está limpa de imagens, rituais, crenças, símbolos, de todas as palavras, mantras e recitações, de todo o medo, então o que verão será o real, o atemporal, o eterno, que pode ser chamado de Deus. Porém, requer muito insight, compreensão e paciência, sendo somente para aqueles que realmente buscam o que é religião, e a procuram dia após dia até o fim. Apenas tais pessoas saberão o que é a verdadeira religião. O restante está apenas declamando palavras, usando ornamentos e decorando o corpo, realizando pujas e tocando sinos — tudo isso é somente superstição, sem qualquer significado. Apenas quando a mente se revolta contra a chamada religião é que descobrimos a verdade.

5. Insatisfação criativa

Ja SE SENTARAM EM COMPLETO silêncio sem se mexer? Tentem, scntem-se com as costas retas e observem o que a mente faz. Não lentem controlá-la, não digam que ela não deve pular de um pensamento para outro, de um interesse para outro, mas somente conscientizem-se de como a mente vagueia. Não façam nada a respeito, mas observem como se estivessem na margem de um rio olhando a água passar. Nela há m uita coisa — peixes, folhas, animais mortos — , mas está sempre viva, em movimento, e a mente é idêntica. É uma inquietação incessante, pulando de um ponto para outro como uma borboleta.

Quando vocês ouvem uma música, como agem? Podem gostar da pessoa que está cantando, ela pode ter um rosto bonito, e vocês podem acompanhar o significado da letra; porém, por trás de tudo isso, quando ouvem a música, estão ouvindo os tons e o silêncio entre eles, não é? Da mesma maneira, sentem-se em silêncio, sem ficar irrequietos, sem mover as mãos ou até mesmo os dedos dos pés, e simplesmente observem a mente. É divertido. Se tentarem como algo divertido, verão que a mente começa a se estabilizar sem que você se esforce para controlá-la. Não existe um censor, juiz, ou avaliador, e quando a mente fica assim tranquila por si só, espontaneamente estabilizada, descobriremos o que é ser alegre. Sabem o que é a alegria? É rir, se deliciar com algo ou por algo, provar da satisfação de viver, sorrir, olhar direto no rosto do outro sem qualquer sensação de medo.

Já olharam realmente o rosto de alguém? Já olharam o rosto do professor, dos pais, do superior, do empregado, do pobre trabalhador braçal e viram o que acontece? A maioria de nós teme olhar diretamente o rosto do outro, e os outros não desejam que os encaremos dessa maneira porque também estão assustados. Ninguém deseja se revelar; estamos todos em guarda, escondendo-nos por trás de várias camadas de angústia, sofrimento, anseios, esperança, e são bem poucos os que podem olhar vocês diretamente no rosto e sorrir. E é muito importante sorrir, ser feliz, porque, sem uma canção no coração, a vida se torna insípida. Pode-se ir de um templo a outro, trocar de marido ou de esposa, ou encontrar um novo professor ou guru, mas se não houver alegria interna a vida terá pouco significado. E descobrir a satisfação interna não é fácil, porque a maioria de nós está apenas superfi-cialmente descontente.

Sabem o que significa estar descontente? É muito difícil compreender o descontentamento porque a maioria de nós canaliza esse sentimento em uma certa direção, ocultando-o. A única preocupação que temos é nos estabelecermos em uma posição segura, com interesses e prestígios bem estabelecidos, para não sermos perturbados. Acontece nos lares e também nas escolas. Os professores não querem ser perturbados e por isso seguem a velha rotina. Porque, no momento que alguém se sentir realmente descontente e começar a inquirir, questionar, haverá distúrbios. E somente por intermédio do verdadeiro descontentamento é que surge a iniciativa.

Sabem o que é iniciativa? Vocês têm iniciativa quando ini- riam ou começam algo sem serem acionados. Não é preciso algo muito grande ou extraordinário — isso pode surgir mais tarde; mas existe a centelha da iniciativa quando você planta uma árvore sem ser solicitado, quando é espontaneamente gentil, quando orri para um homem que está carregando algo pesado, quando tira uma pedra do caminho ou afaga um animal na rua. Esse é um pequeno início de uma tremenda iniciativa que vocês devem ter se desejam conhecer essa coisa maravilhosa chamada criati- vidade. Ela possui suas raízes na iniciativa que acontece somente quando existe um profundo descontentamento.

Não tenham receio do descontentamento, podem nutri-lo até que a centelha se torne uma chama e vocês permaneçam descontentes com tudo — o emprego, a família, a busca tradicional por dinheiro, posição, poder — , para que realmente comecem a pensar, descobrir. E quando estiverem mais velhos descobrirão que manter o espírito de descontentamento é m uito difícil. Te- i âo filhos para cuidar e deverão considerar as exigências em seus empregos, a opinião dos vizinhos, da sociedade fechando-se sobre vocês, e logo começarão a perder a chama do descontentamento. Quando se sentem descontentes, vocês ligam o rádio, vão a um guru, fazem um puja, vão ao clube, bebem, saem em busca de mulheres — qualquer coisa para encobrir a chama. Mas, observem, sem a chama do descontentam ento nunca terão ini-i iativa, que é o início da criatividade. Para descobrir o que é verdadeiro vocês precisam se revoltar contra a ordem estabelecida, e quanto mais dinheiro seus pais tiverem e mais seguros os professores estiverem em seus empregos, menos eles desejarão se revoltar.

A criatividade não é apenas uma questão de pintar quadros ou escrever poemas — o que também é bom, mas de pouca valia. O importante é estar totalmente descontente, pois esse é o início da iniciativa, que se torna criatividade quando amadurece. E esse é o único caminho para descobrir o que é verdadeiro, o que é Deus, porque o estado criativo é Deus.

Por isso é preciso haver o total descontentamento — mas com alegria. Compreenderam? É preciso estar totalmente desconten- J te, mas não para resmungar, e sim agir com alegria, leveza, com amor. A maioria das pessoas que está descontente é terrivelmente aborrecida; está sempre se queixando que algo não está certo, ou desejando estar em uma posição melhor, ou buscando circunstâncias para ser diferente porque seu descontentamento é bem superficial. E aqueles que não estão descontentes já estão mortos.

Se puderem se rebelar ainda jovens, e enquanto amadurece- I rem mantiverem o descontentamento vivo com a energia da satisfação e do grande afeto, então a chama terá um significado extraordinário, porque ela construirá, criará, montará coisas novas. Para isso é preciso receber a educação correta, que não é do tipo que apenas os prepara para conseguir um emprego, ou subir a ladeira do sucesso, mas a que os ajuda a pensar e ceder espaço — não o de um quarto maior, ou um telhado mais elevado, mas para a mente crescer e não ficar limitada por qualquer cren­ça ou medo.

Pergunta: O descontentamento impede o pensamento claro. Como superar esse obstáculo?

Krishnamurti: Acho que você não me ouviu; provavelmente estava preocupado com sua pergunta, em como iria formulá-la. Isso é o que todos vocês estão fazendo, de maneiras diferentes. Cada um tem sua própria preocupação, e se o que eu disse não é o que gostariam de ouvir, deixam-no de lado, porque a mente de vocês está ocupada com seus problemas. Se quem fez a pergunta tivesse ouvido o que eu falei, se tivesse realmente sentido a natureza interior do descontentamento, da alegria, de ser criativo, acho que não teria feito essa pergunta.

O descontentamento impede o pensamento claro? E o que é o pensamento claro? É possível pensar com clareza se desejam conseguir alguma coisa com seu pensamento? Se sua mente está preocupada com um resultado, poderão pensar com clareza? Ou só conseguem pensar muito claramente quando não estão buscando um fim, um resultado, sem tentar ganhar algo?

E vocês conseguem pensar com clareza se se agarrarem a um preconceito, a uma crença particular— isto é, se pensarem como um hindu, um comunista ou um cristão? Certamente poderão pensar claramente apenas quando a mente não estiver acorrentada a uma ideologia — como um macaco preso a uma estaca; podem pensar m uito claramente apenas quando não estão buscando um resultado; podem pensar com clareza somente quando não têm preconceitos. O que tudo isso significa, na verdade, é que vocês podem pensar com clareza, simples e diretamente, quando a mente não estiver mais buscando qualquer forma de segurança; estando, portanto, livre do medo.

Então, de alguma maneira, o descontentamento impede o pensamento claro. Quando, por meio do descontentamento, vocês procuram um resultado, ou quando buscam minimizar o descontentamento, porque a mente detesta ficar perturbada e tenta a todo custo ficar calma, pacífica, então o pensamento claro não é possível. Mas, se estiverem descontentes com tudo — com seus preconceitos, suas crenças e seus medos— e não estiverem desejando um resultado, então esse mesmo descontentamento dará foco aos seus pensamentos (não sobre um objeto em particular, ou qualquer direção específica), e todo o processo do pensamento se tornará bem simples, direto e claro.

Jovem ou idoso, muitos de nós estamos descontentes apenas porque desejamos alguma coisa: mais conhecimento, um emprego melhor, um carro mais novo, um salário maior. Nosso descontentamento baseia-se no desejo “de ter mais”. É somente porque desejamos algo mais que nos sentimos descontentes. Mas não estou falando sobre esse tipo de descontentamento. É o desejo pelo “mais” que impede o pensamento claro. Se estamos descontentes não por desejarmos alguma coisa, mas por não saber o que desejamos; se estamos insatisfeitos com nosso emprego, com o dinheiro que temos, com a busca por status e poder, com a tradição, com o que temos e com o que deveríamos ter; se estamos insatisfeitos não com algo em particular, mas com tudo, então penso que esse nosso descontentamento trará clareza. Quando não aceitamos ou seguimos, mas questionamos, investigamos, aprofundamos, ocorre um insight do qual brota a criatividade, a satisfação.

Pergunta: O que é autoconhecimento, como alcançá-lo?

Krishnamurti: Veem a mentalidade por trás desta pergunta? Não estou falando por desrespeito a quem a formulou, mas vamos considerar a mentalidade de quem pergunta “como alcançá-lo, por quanto posso comprá-lo? O que devo fazer, que sacrifício empreender, qual disciplina, ou meditação devo praticar para consegui-lo?” É como uma mente mecanizada, medíocre, que diz: “Devo fazer isto para conseguir aquilo.” As chamadas pessoas religiosas pensam assim; porém o autoconhecimento não surge dessa m aneira. Vocês não podem comprá-lo por meio de algum esforço ou prática. O autoconhecimento vem quando vocês se observam em seu relacionamento com seus companheiros e seus professores, mn todas as pessoas à volta; vem quando observam o comportamento do outro, os gestos, a maneira como se veste, como fala, seu l. ,prezo ou bajulação e sua resposta; surge quando vocês observam tudo em vocês, sobre vocês, e se veem a si mesmos enquanto enxergam o próprio rosto no espelho. Quando vocês se olham no espelho, se veem como são, não é? Podem desejar que sua cabeça tivesse um formato diferente, com um pouco mais de cabelo, e o ■ito menos feio; mas o fato está ali, claramente refletido no espelho, e vocês não podem afastá-lo e dizer: “Como sou bonito!”

Mas, se pudessem olhar o relacionamento exatamente como alham um espelho comum, certamente não haveria fim para o luloconhecimento. É como entrar em um oceano insondável, sem limites. A maioria de nós deseja chegar a um fim, ser capazes de iii/er “Cheguei ao autoconhecimento e estou feliz”, mas não é assim. Se puderem se olhar sem condenar o que veem, sem se com­ parar com alguém, sem desejar ser mais belo, ou mais virtuoso, ac puderem somente observar como são e como se comportam, entào descobrirão que é possível ir infinitamente além. E não haverá fim para a viagem — esse seu mistério, sua beleza.

Pergunta: O que é alma?

Krishnamurti: Nossa cultura, nossa civilização, inventou a palavra “alma” — civilização representa o desejo coletivo e a vont.ide de várias pessoas. Vejam a civilização indiana. Não é o resultado de muitas pessoas com seus desejos, suas vontades? Qualquer ci- ilização é o resultado do que pode ser chamado de vontade coletiva; e a vontade coletiva, nesse caso, apregoa que deve haver algo m.lis do que o corpo físico que morre e se desfaz, algo bem maior, mais vasto, algo indestrutível, imortal; portanto, assim foi estabelecida a ideia de alma. Ocasionalmente pode ter havido uma ou duas pessoas que descobriram sozinhas algo sobre essa coisa extraordinária chamada imortalidade — um estado no qual não existe morte — , e então todas as mentes medíocres disseram: “Sim, isto deve ser verdade, deve ser o correto”, e como desejaram a imortalidade, elas se agarraram à palavra “alma”.

Vocês também desejam saber se existe algo mais do que a mera existência física, não é? Esse vai-e-vem incessante de ir para o escritório, trabalhar em algo em que vocês não têm um interesse vital, discutir, ser invejado, criar os filhos, falar sobre os vizinhos, pronunciar palavras inúteis — vocês desejam saber se existe algo mais do que tudo isso. A própria palavra “alma” corporifica a ideia de um estado que é indestrutível, atemporal, não é? Mas, vejam, jamais descobrirão por si mesmos se existe ou não esse estado. Vocês não dizem: “Não estou preocupado com o que Cristo, Shankara ou qualquer outro disse a respeito, nem com o que afir- ma a tradição da chamada civilização. Vou descobrir por mim mesmo se existe ou não um estado além da estrutura do tempo.” Vocês não se revoltam contra o que a civilização ou a mente coletiva formulou; pelo contrário, vocês a aceitam e dizem: “Sim, existe uma alma.” Dão a essa formulação um nome outros a chamam diferente — e então vocês se dividem e se tornam inimigos em função de suas crenças conflitantes.

O homem que realmente deseja descobrir se existe ou não um estado além da estrutura do tempo deve ser livre da civilização, precisa estar liberto da vontade coletiva e permanecer só. Trata- se de uma parte essencial da educação: aprender a ficar só para não ser pego pela vontade de vários, ou de um só, permanecendo, portanto, capaz de descobrir por si mesmo o que é verdadeiro.

Não dependam de ninguém. Eu ou outra pessoa podemos lhes dizer que existe um estado atemporal, mas que valor tem isso para vocês? Se estiverem com fome, desejarão comer, e não desejarão ser alimentados apenas com palavras. O importante é descobrir por si mesmo. Podem ver que tudo à volta está decaindo, sendo destruído.

A chamada civilização deixou de ser mantida pela vontade coletiva; ela se partirá em pedaços. A vida os desafia a cada momento, e se simplesmente responderem a partir da trincheira do hábito, que é responder em termos da aceitação, então sua resposta não terá validade. Vocês podem descobrir se existe ou não um estado atemporal, um estado no qual não existe o movimento de “mais” ou de "menos”somente dizendo: “Não vou aceitar, vou investigar, explo- i ar” — o que significa que não têm mais medo de ficar só.

6. A totalidade da vida

MUTTOS DE NÓS NOS APEGAMOS a alguma pequena parte da vida t pensamos que a partir dela descobriremos o todo. Sem deixar a ila, esperamos explorar toda a extensão e largura do rio e perceber a riqueza dos campos verdes ao longo das margens. Vivemos em uma pequena sala, pintamos uma pequena tela, achando que agarramos a vida pela mão, ou que compreendemos o significado d i morte; mas não é o caso. Para fazermos isso, precisamos deixar a sala. E é extraordinariamente difícil ir para o lado de fora, dei- h ar a sala com a janela estreita e ver tudo como é de fato, sem julgar, sem condenar, sem dizer “Isto eu gosto e aquilo eu não gosto”, porque muitos de nós pensam que por meio da parte entenderemos o todo. Com um único raio não construímos uma roda, não é? f. preciso vários raios, e também um eixo e uma coroa, para fazer o que chamamos de roda, e precisamos ver a roda inteira para compreendê-la. Da mesma maneira, precisamos perceber todo o processo da vida se quisermos realmente compreendê-la.

Espero que estejam acompanhando tudo, porque a educa­ção deveria ajudá-los a compreender toda a vida, e não somente prepará-los para conseguir um emprego e prosseguir da maneira usual com o casamento, os filhos, a renda, os pujas e os pequenos bens. Mas realizar o tipo certo de educação requer m uita inteligência e insight, e por esse motivo é tão im portante para o próprio educador ser culto e compreender todo o processo da vida, e não apenas ensiná-los de acordo com alguma fórmula, nova ou velha.

A vida é um mistério extraordinário — não o dos livros, aquele de que as pessoas falam, mas o que é preciso descobrir por si mesmo; e, por isso, é um assunto tão imenso que vocês devem compreender o pouco, o limitado, o diminuto e o que está além dele.

Se não começarem a entender a vida ainda jovens, crescerão internamente de maneira abominável; serão tolos, vazios no íntimo, embora na superfície talvez tenham dinheiro, desfilem em carros de luxo, sejam arrogantes. Por isso é muito importante deixar sua pequena sala e perceber toda a expansão dos céus. Mas não conseguirão esse feito se não tiverem amor — não o corporal ou o divino, mas somente amor, aquele que se sente pelos pássaros, árvores, flores, pelos professores, pelos pais e, depois dos pais, pela humanidade.

Não seria uma grande tragédia se não descobrissem o que é amar? Se não souberem amar agora, nunca saberão, porque, quando amadurecerem, o que chamamos de amor se tornará algo m uito feio — uma posse, uma forma de comércio a ser comprado e vendido. Mas se começarem agora a ter amor em seu coração, se amarem a árvore que plantam, o animal desprotegido que alimentam, durante o processo de amadurecimento vocês não permanecerão na pequena sala de janela estreita e, sim, a deixarão e amarão toda a vida.

O amor é real; não é emocional, algo a ser reivindicado; não f- um sentimento. O amor não possui sentimentalismo sobre qualquer coisa. Trata-se de um assunto m uito sério e importante que vocês devem conhecer ainda jovens. Os pais e os professo- i rs talvez não saibam amar, e por esse motivo criaram um m u n do terrível, uma sociedade em perpétuas guerras internas e com outras sociedades. As religiões, as filosofias e as ideologias são loisas porque nelas não há amor. Percebem somente uma parte; oIliam por uma janela estreita, através da qual a vista pode ser agradável e extensa, mas não abrange toda a expansão da vida. Sem a sensação de amor intenso vocês nunca terão a percepção do todo; portanto, permanecerão sempre miseráveis, e no final de mas vidas não terão nada além de cinzas — um a imensidão de palavras vazias.

Pergunta: Por que desejamos ser famosos?

Krishnamurti: Por que vocês acham que desejam a fama? Posso explicar, mas no final talvez desistam da vontade de ser famosos. Vocês desejam ser famosos porque todos à sua volta nesta sociedade desejam ser famosos. Os pais, os professores, o guru, o iogue — todos querem ser famosos, e vocês também.

Vamos pensar juntos a respeito. Por que as pessoas desejam ser famosas? Em primeiro lugar, porque é lucrativo ser famoso, f lhes dá muito prazer, não é? Se forem conhecidos em todo o mundo, se sentirão m uito importantes, o que lhes dará um senso de imortalidade. Vocês desejam ser famosos, querem ser conhecidos e comentados em todo o m undo porque, no íntimo vocês não são ninguém. Em seu âmago não há riqueza, não há nada, mas se forem ricos internamente, então, ser ou não conhecido não terá importância.

Ser rico internamente é muito mais trabalhoso do que ser rico e famoso na superfície; é preciso muito mais cuidado e atenção. Se vocês tiverem um pouco de talento e souberem como explorá- lo, serão famosos, mas a riqueza interna não é acumulada dessa maneira. A mente precisa compreender e afastar as coisas que não são importantes, como a fama. A riqueza interior implica ficar só; mas o homem que deseja ser famoso tem medo de ficar só, porque depende da bajulação e da aprovação de outros.

Pergunta: Quando você era jovem, escreveu um livro no qual disse: “Estas não são palavras minhas, mas do meu mestre.” Por que agora você insiste para que pensemos por nós mesmos? E quem foi seu mestre?

Krishnamurti: Uma das coisas mais difíceis na vida é não ser apegado a uma ideia; ser apegado é ser consistente. Se você tem o ideal da não violência, você tenta ser consistente com esse ideal. Então, quem está questionando na verdade está dizendo: “Você nos diz para pensarmos por nós mesmos, que é o contrário do que disse quando era um menino. Por que você não é consistente?”

O que significa ser consistente? Trata-se de um ponto realmente muito importante. Ser consistente é ter uma mente que não vagueia, seguindo um determinado padrão de pensamento — o que significa que você não deve fazer coisas contraditórias, um feito hoje e outro, oposto, amanhã. Estamos tentando descobrir o que é uma mente consistente. Uma mente que diz “Fiz o voto de ser uma coisa e serei assim pelo restante da minha vida” é chamada de consistente; mas, na verdade, trata-se de uma mente muito estúpida, porque chegou a uma determinada conclusão e está vivendo de acordo com ela. É como um homem que constrói um muro em torno de si mesmo e deixa a vida passar lá fora.

Esse é um problema muito complexo. Posso estar simplificando *o demais, mas acho que não. Quando a mente é apenas consMIente, ela se torna mecânica e perde a vitalidade, o brilho, a beleza do movimento livre. Funciona dentro de um padrão. Essa é uma parte da questão.

A outra é: quem é o seu mestre? Vocês não sabem as implica- uí>fs de tudo isso. Ê como uma fonte. Vejam, disseram que escrevi determinado livro quando era menino, e esse cavalheiro citou do v, li vro uma frase que dizia que um mestre me ajudou a escrevê-lo. i h istem grupos de pessoas, como os teosofistas, que acreditam que existem mestres vivendo no remoto Himalaia que guiam e ajudam o mundo; e o cavalheiro desejou saber quem era o tal mes-tie, Ouçam com cuidado, pois também se aplica a vocês.

É realmente importante saber quem é um mestre ou guru? O que importa é a vida— não o guru, um mestre, um líder ou profes- ii que a interpreta para vocês. São vocês que precisam compreender a vida. São vocês que estão sofrendo, que estão angustiados; lo vocês que desejam saber o significado da morte, do nascimento, il i meditação, da tristeza, e ninguém pode lhes dizer. Os outros podem explicar, porém suas noções podem ser totalmente falsas, e até erradas.

Por esse motivo é bom ser cético, porque lhes dá a chance de descobrir, por vocês mesmos, se precisam realmente de um guru. O importante é ser utna luz para si mesmo, ser o próprio mestre e discípulo, ser tâáto professor quanto aluno. Enquanto estão aprendendo, não existe professor. Será somente quando pararem ile explorar, descobrir e compreender todo o processo da vida que surgirá o professor— e ele não terá valor. Então estarão mortos; seu professor também estará morto.

Pergunta: Por que o homem é orgulhoso?

Krishnamurti: Vocês não sentem orgulho quando escrevem bem, quando vencem um jogo ou são aprovados nos exames? Já escre- veram um poema ou pintaram um quadro e depois mostraram a um amigo? Se o amigo diz que é um belo poema ou uma bela pintura, não se sentem felizes? Quando fazem algo que alguém diz que é excelente, vocês experimentam uma sensação de prazer — e está certo, é bom; mas o que acontece quando pintam um quadro, escrevem um poema ou limpam uma sala? Esperam que venham lhes dizer que vocês são pessoas maravilhosas; e se ninguém disser, não mais desejarão pintar, escrever ou limpar. Tornam-se dependentes do prazer que os outros lhes proporcionam com a aprovação. É bem simples. E, então, o que acontece? Q uando crescem, querem que tudo que façam seja reconhecido por todos. Podem dizer: “Faço isso para o meu guru, pelo meu país, pelo homem, por Deus”, mas na verdade estão fazendo para ganhar o reconhecimento do qual surge o orgulho, e quando agem assim, não há valor algum. Pergunto-me se entenderam.

Para compreender algo como o orgulho vocês precisam ser capazes de ver todo o processo; devem saber onde ele começa e o desastre que provoca, observá-lo por inteiro — que significa que devem estar tão interessados a ponto de a mente seguir até o final, e não parar no caminho. Quando estão realmente interessados em um jogo, vocês o jogam até o final, não param de repente no meio e vão para casa. Porém a mente de vocês não está acostumada a esse tipo de pensamento, sendo parte da educação ajudá-los a inquirir sobre todo o processo da vida, e não somente estudar alguns assuntos.

Pergunta: Quando somos crianças, nos dizem o que é bonito e o que é feio, e o resultado é que passamos a vida repetindo: “Isto é bonito, aquilo ê feio.” Como saber o que é verdadeiramente belo e o que não o é?

Krishnamurti: Suponham que vocês achem uma passagem em irco bonita e alguém diga que é feia. O que é importante: lutar contra as opiniões conflitantes se algo é belo ou feio ou ser sensível tanto à beleza quanto à feiúra? Na vida existe a sujeira, a im undície, a degradação, a tristeza, as lágrimas, e também a alegria, o riso, a beleza da flor iluminada pela luz do sol. O que importa, certamente, é ser sensível a tudo, e não apenas decidir o que é bonito e o que é feio, e permanecer com essa opinião. Se digo: “CulI i vo a beleza e rejeito a feiúra”, o que acontece? O cultivo da beleza conduz à insensibilidade. É como um homem que desenvolve o braço direito, tornando-o forte, e deixando o esquerdo definhar. Por isso devem estar atentos tanto à feiúra quanto à beleza. Devem observar a dança das folhas, a água passando sob a ponte, a beleza de um anoitecer; e também estar atentos ao pedinte na rua, à mulher pobre carregando com esforço uma carga pesada, e estar prontos para ajudá-los. Tudo isso é necessário, e somente quando se tornarem sensíveis a tudo é que poderão começar a trabalhar e ajudar, e não rejeitar ou condenar.

Pergunta: Perdoe-me, mas você não disse quem foi seu mestre.

Krishnamurti: Isso im porta muito? Queimem o livro, joguem- no fora. Quando dão importância a algo tão trivial como quem é o mestre, estão transformando a existência em um ponto diminuto. Vejam, sempre queremos saber quem é o mestre, quem é a pessoa erudita, quem é o artista que pintou o quadro. Nunca procuramos descobrir por nós mesmos o conteúdo do quadro independentemente da identidade do artista. Somente quando tomamos conhecimento do autor do poema é que dizemos que ele é maravilhoso. Trata-se de esnobismo, a mera repetição de uma opinião, o que destrói a própria percepção interna da realidade do fato. Se perceberem que um quadro é belo e se sentirem satisfeitos, im portará realmente quem o pintou? Se sua única preocupação é ficar contente, a essência da pintura terá comunicado seu significado.

7. Ambição

TEMOS DISCUTIDO COMO é essencial ter amor , e vimos que ninguém pode adquiri-lo ou comprá-lo, mas sem amor todos os nossos planos de uma ordem social perfeita em que não existe exploração, arregimentação, não terão significado, e acredito que é muito importante que ess a compreensão seja atingida na juventude.

Para onde formos no mundo, não importa o lugar, vemos que a sociedade está em estado perpétuo de conflito. Existe sempre o poderoso, o rico, o próspero, de um lado, e os trabalhadores, do outro, e todos competem com inveja, cada qual deseja a melhor posição, o salário maior, mais poder, mais prestígio. Nisso consiste o mundo, e, em consequência, sempre há guerra— tanto dentro quanto fora da gente.

Mas, se desejarmos fazer uma revolução completa na ordem social, o que primeiro precisamos compreender é nosso instinto de ter o poder. A maioria de nós o deseja de uma forma ou de outra. É possível ver que, por meio da riqueza e do poder, somos capazes de viajar para outros locais, nos associar a pessoas importantes e nos tornar famosos; ou, no sonho, em realizar uma sociedade perfeita. Achamos que conseguiremos o que é bom por meio do poder, porém a própria busca — do poder para nós mesmos, para o país, para uma ideologia — é maléfica, destrutiva, porque o poder, inevitavelmente, criará opositores, e sempre haverá conflito.

Não seria correto, então, que a educação, à medida que vocês se tornam adultos, os auxiliasse a perceber a importância de criar um mundo no qual não existe conflito, seja interno ou externo, — no qual vocês não brigarão com o vizinho ou qualquer grupo em virtude do impulso da ambição, e no qual o desejo pela posi­ção e poder tenha cessado completamente? E é possível criar uma sociedade na qual não exista conflito? A sociedade é a relação entre mim e vocês, e se nosso relacionamento é baseado na ambi­ção, cada um de nós desejando ser mais poderoso que o outro, então, obviamente, estaremos sempre em conflito. A causa do conflito pode ser removida? Podemos todos nos educar para não sermos competitivos, para não nos compararmos com os outros, para não desejarmos esta ou aquela posição — resumindo, para não termos ambição?

Quando vocês saem da escola com os pais, quando leem os jornais ou conversam com as pessoas, devem ter notado que quase todos querem realizar alguma mudança no mundo. Não notaram também que essas mesmas pessoas estão sempre em conflito entre si ou com os outros— a respeito de ideias, propriedades, raça, classe ou religião? Os pais, vizinhos, ministros e burocratas não são sempre ambiciosos, lutando por um a posição melhor e, portanto, sempre em conflito com alguém? Certamente, apenas quando toda essa competitividade for eliminada é que teremos uma sociedade pacífica na qual todos poderemos viver felizes e ser criativos.

Mas como fazer isso? Os regulamentos, a legislação ou o treinamento da mente para não sermos ambiciosos afastará a am bição? Externamente, vocês podem ser treinados; socialmente, podem parar de competir com os outros; porém, internamente, ainda continuam ambiciosos, não é? É possível varrer por completo a ambição que vem trazendo tanta miséria para os seres humanos? Talvez não tenham pensado nisso antes porque ninguém falou com vocês assim, mas agora que alguém os está alertando não gostariam de descobrir se é possível vivermos neste mundo com riqueza, plenitude, sermos felizes, criativos, sem o impulso destrutivo da ambição, sem competição? Não gostariam de saber como viver de modo que sua vida não destrua uma outra nem lance uma sombra em seu caminho?

Vejam, achamos que se trata de um sonho utópico que nunca poderá ser realmente realizado; mas não estou falando de uma utopia, o que seria uma tolice. Poderemos — eu e vocês, que somos pessoas simples, comuns — viver criativamente neste m undo sem o impulso da ambição que se revela de várias formas como o desejo de poder, de posição? Vocês encontrarão a resposta correta quando amarem aquilo que estão fazendo. Se são engenheiros somente porque precisam de um a forma de sustento, ou porque seus pais ou a sociedade esperam isso de vocês, tem-se uma outra maneira de compulsão; e compulsão, sob qualquer forma, gera contradição, conflito. Porém, se realmente gostam de ser engenheiros ou cientistas, ou se podem plantar uma árvore, pintar um quadro, escrever um poema, não para obter o reconhecimento, mas somente porque gostam, verão então que nunca competirão com o outro. Acho que esta é a verdadeira chave: amar aquilo que fazem.

Mas enquanto são jovens muitas vezes é difícil saber o que gostam de fazer, porque querem experimentar de tudo. Querem ser engenheiros, maquinistas, pilotos de avião voando pelos céus, ou talvez desejem ser um orador famoso, ou político. Podem sonhar ser um artista, químico, poeta ou carpinteiro. Podem querer trabalhar com a mente ou fazer coisas com as mãos. Vocês realmente amam uma dessas coisas ou o interesse por elas é apenas uma reação às pressões sociais? Como poderão descobrir? E não será o verdadeiro propósito da educação auxiliá-los na descoberta, para que, quando se tornarem adultos, possam dedicar a mente, o coração e o corpo inteiros àquilo que realmente amam fazer?

Descobrir aquilo que gostam de fazer exige muita inteligência, porque, se temerem não ser capazes de ganhar o sustento ou não se ajustar a essa sociedade infectada, nunca descobrirão. Mas se não tiverem medo, ao se recusarem a ser empurrados para a vala da tradição pelos pais, professores, pelas exigências superficiais da sociedade, então haverá a possibilidade de descobrirem o que realmente gostam. Para isso, não pode haver o medo de não sobreviver.

Porém muitos de nós temos medo. Dizemos: “O que acontecerá comigo se eu não fizer o que meus pais me dizem, se eu não me ajustar a essa sociedade?” Assustados, agimos como nos é dito, e nisso não há amor, somente contradição, que consiste num dos fatores que origina a ambição destrutiva.

Logo, é função básica da educação auxiliá-los na descoberta do que realmente gostam de fazer, para que possam dedicar a mente e o coração inteiros, porque é isso que cria a dignidade humana, que elimina a mediocridade, a pequena mentalidade burguesa. Por isso é muito im portante ter os professores certos, a atmosfera correta para que vocês possam crescér com o amor que se expressa naquilo que fazem. Sem amor, os exames, o conhecimento, as capacidades, a posição e as posses são somente cinzas, sem significado; sem amor, seus atos trarão mais guerras, mais ódio, mais danos, mais destruição.

Tudo isso pode não ter nenhum significado para vocês, por- i'U‘ externamente ainda são muito jovens, mas espero que inspire seus professores, e também vocês em algum ponto interno.

Pergunta: Por que você é tímido?

Krishnamurti: Sabem, é extraordinário ser anônimo na vida — não ser famoso ou notável, nem m uito culto nem um grande frlormador ou revolucionário, mas simplesmente ninguém; e quando nos sentimos realmente assim, ficar repentinamente rodeado de pessoas curiosas cria uma sensação de recolhimento. É só isso.

Pergunta: Como podemos realizar a verdade em nossa vida diária?

Krishnamurti: Vocês acham que a verdade é uma coisa e a sua ida diária é outra, e em sua vida diária vocês desejam realizar o que chamam de verdade. Mas um está separado do outro? Q uando crescerem terão de ganhar o próprio sustento, não é? Afinal, é para isso que precisam ser aprovados nos exames: para se preparar para ganhar o próprio sustento. Porém várias pessoas não se importam com a área em que atuarão ou o trabalho que farão, desde que ganhem algum dinheiro. Enquanto tiverem emprego, não importa que sejam soldado, policial, advogado ou algum tipo de comerciante desonesto.

Bem, descobrir a verdade do que constitui um meio correto de ganhar a vida é importante, não é? Porque a verdade está em suas vidas, não fora dela. A maneira como falam, o que dizem, como sorriem, se são mentirosos, se se aproveitam das pessoas — tudo é a verdade em sua vida diária. Portanto, antes de se tornarem soldado, policial, advogado ou um comerciante astuto, não deveriam perceber a verdade dessas profissões? Certamente, a menos que vejam a verdade daquilo que fazem e sejam guiados por ela, sua vida se tornará uma confusão hedionda.

Vamos falar sobre a questão de ser soldado, porque as demais | profissões são um pouco mais complexas. Além da propaganda e do que se diz, qual a verdade concernente à profissão de soldado? Se um homem se torna soldado, significa que ele deve lutar para proteger seu país; deve disciplinar a mente não para pensar, mas para obedecer. Precisa estar preparado para matar ou ser morto — por quê? Por uma ideia que certas pessoas, grandes ou medíocres, disseram que é certo. Então você escolhe ser soldado para se sa-1 crificar e m atar os outros. É um a profissão correta? Não perguntem, mas descubram por si mesmos a verdade sobre o assunto. Dizem a vocês que matem pelo bem de uma utopia maravilhosa no futuro — como se quem fala soubesse tudo sobre o futuro! Vocês acham que matar é uma profissão correta, seja pelo país ou por alguma religião? Será matar, de alguma maneira, correto?

Portanto, se desejam descobrir a verdade no processo vital que é a própria vida terão de se questionar profundamente sobre todas essas coisas; terão de empenhar a mente e o coração nessa tarefa. Terão de pensar de maneira independente, com clareza, sem preconceitos, pois a verdade não está fora da vida. Ela está em cada movimento do cotidiano.

Pergunta: As imagens, os mestres e os santos não nos ajudam a meditar corretamente?

Krishnamurti: Vocês sabem o que é a meditação correta? Não querem descobrir por si mesmos a verdade sobre o assunto? E chegarão um dia a descobri-la se aceitarem de um especialista o que é a meditação correta?

Trata-se de uma questão extensa. Para descobrir a arte da meditação vocês precisam conhecer toda a profundidade e extensão do extraordinário processo chamado pensamento. Se aceitarem um especialista que diz “Meditem seguindo essas orientações”, serão meros seguidores, servos cegos de um sistema ou ideia. Sua aceitação da autoridade é baseada na esperança de obter um resultado, e isso não é a meditação.

Pergunta: Quais são os deveres de um estudante?

Krishnamurti: O que significa a palavra “dever”? Dever a quê? Dever ao país, segundo um político? Dever ao pai e à mãe, de acordo com os desejos deles? Eles dirão que o seu dever é fazer o que eles dizem a você; e o que dizem está condicionado à formação deles, à tradição. E o que é um estudante? É um menino ou menina que vai para a escola e lê alguns livros para passar nas provas? Ou será somente aquele que está aprendendo o tempo todo e para quem, portanto, não existe fim no aprendizado? Certamente, a pessoa que apenas lê sobre um assunto, faz a prova e depois esquece tudo não é um estudante. O verdadeiro estudante está estudando, aprendendo, questionando, explorando, não somente até os 20 ou 25 anos, mas durante a vida inteira.

Ser estudante é aprender sempre, e enquanto se aprende não existe professor. Quando você é um estudante, não existe ninguém em particular para lhe ensinar, porque você estará aprendendo com tudo. A folha que é levada pelo vento, o murmúrio das águas nas margens de um rio, o voo de um pássaro no alto do céu, o homem pobre que caminha carregando grande peso, as pessoas que pensam que sabem tuctoxobre a vida — vocês aprenderão com todos eles; portanto, não existe um professor, e vocês não são seguidores.

Sendo assim, o dever do estudante é somente aprender. Houve uma vez um pintor famoso na Espanha, chamado Goya. Ele foi um dos melhores, e quando estava bem idoso escreveu, no canto de um dos seus quadros: “Eu ainda estou aprendendo.” Vocês podem aprender com os livros, mas isso não os levará m uito longe. Um livro lhes transm itirá somente o que o autor tem a dizer. Mas o aprendizado adquirido por meio do autoconhecimento não tem limite, porque aprender por intermédio do próprio autoaprendizado é saber como ouvir, como observar, e, portanto, vocês aprenderão com tudo: com a m ú sica, com aquilo que as pessoas dizem e como elas dizem, com a raiva, a ganância, a ambição.

Esta Terra é nossa, não pertence aos comunistas, socialistas ou capitalistas; é de vocês e é minha, para ser vivida com felicidade e riqueza, sem conflitos. Porém, essa riqueza da vida, essa felicidade, essa sensação de “Esta Terra é nossa” não pode acontecer pela força, pela lei. Deve vir do interior, porque amamos a Terra e tudo o que nela existe; e este é o estado do aprendizado.

Pergunta: Qual a diferença entre respeito e amor?

Krishnamurti: Você pode procurar no dicionário “respeito” e “amor” e encontrar a resposta. É o que deseja saber? Deseja conhecer o significado superficial dessas palavras ou o significado por trás delas?

Quando um homem famoso se aproxima — ministro ou governador — , já notou que todos o saúdam? Vocês chamam isso de respeito, não é? Mas esse respeito é falso, porque por trás existe medo, ganância. Vocês desejam algo do pobre coitado e colocam uma guirlanda em torno do pescoço dele. Não é respeito, é ape- nas a moeda com a qual vocês compram e vendem no mercado. Nâo sentem respeito pelo servo ou pelo aldeão, mas somente por aqueles de quem vócês esperam algo. Esse tipo de atitude é, na verdade, medo; não é respeito », não tem significado. Mas se real- mcnte tiverem amor no coração, então, para vocês, o governador, o professor, o servo e o aldeão serão iguais; logo vocês têm respeito, sentimento por todos eles, porque o amor não pede mula em troca.

8. Pensamento disciplinado

Entre tantas coisas na vida, já consideraram por que muitos de nós somos um pouco descuidados — com nossas roupas, nossas maneiras, nossos pensamentos, em como fazemos as coisas? Por que somos tão pouco meticulosos e temos tão pouca consideração pelos outros? E o que ordenará tudo, colocará em ordem nosso vestir, nossos pensamentos, nossa fala, nosso caminhar, nosso modo de tratar os menos afortunados? O que permitirá essa ordem curiosa, que chega sem compulsão, sem planejamento, sem raciocínio deliberado? Já consideraram isso? Sabem o que quero dizer com ordem? Ê sentar calmamente, sem estresse, comer elegantemente, sem pressa, ser vagaroso, embora preciso, ser claro no pensamento, permanecendo expansivo. O que traz essa ordem à vida? É um ponto realmente importante, e acho que, se alguém puder ter conhecimento para descobrir o fator que produz a ordem, isso será muito significativo.

Certamente, a ordem existe somente por meio da virtude; pois, se não forem virtuosos, não apenas nas coisas pequenas, mas em todas, a vida será caótica, não é? Ser virtuoso tem pouco significado em si mesmo, mas ao sermos virtuosos teremos precisão em nosso pensamento, ordem em todo o nosso ser, e é essa a função da virtude.

E o que acontece quando o homem tenta se tornar virtuoso, quando se disciplina para sér gentil, eficiente, amável, atencioso, quando ele tenta não m achucar as pessoas, quando gasta energia tentando estabelecer a ordem na luta para ser bom? Os esforços conduzem somente à respeitabilidade, que traz a m ediocridade da mente; portanto, ele não é virtuoso.

Já observaram de perto uma flor? Como ela é surpreendentemente definida com todas as pétalas; existe uma suavidade extraordinária, um perfume, um encanto nela. Mas quando o homem tenta ser ordenado, a vida pode ser bem definida, mas perde aquela qualidade da gentileza que acontece somente quando, como com a flor, não existe esforço. Logo, nossa dificuldade é ser preciso, claro e expansivo sem esforço.

Vejam, o esforço, para ser ordenado ou ordeiro, traz uma influência limitadora. Se eu tentar deliberadamente ser ordenado em meu quarto, se tenho o cuidado de colocar tudo no lugar, se cuido sempre de mim, se estou ciente de onde piso, o que acontece? Torno-me intoleravelmente desagradável para mim e para os outros. Serei uma pessoa cansativa que está sempre tentando ser alguma coisa, cujos pensamentos são cüidadosamente arrumados, que escolhe um pensamento em detrimento de outro. Pode se tratar de alguém muito ordeiro, limpo, pode usar as palavras com precisão, pode ser muito atencioso e prestativo, mas perdeu a alegria criativa de viver.

Então, qual é o problema? Como é possível ter a alegria criativa de viver, ser expansivo em seus sentimentos, amplo em seu pensamento, e ainda preciso, claro e ordeiro em sua vida? Acho que muitos de nós não somos assim, porque nunca sentimos nada com intensidade, nunca entregamos nossos corações e men- l#s completamente. Lembro-me de observar dois esquilos avermelhados, com caudas longas e peludas e uma bela pelagem, enxotando um ao outro para cima e para baixo em uma árvore alta, por cerca de dez minutos, ininterruptamente — somente pela alegria de viver. Mas vocês e eu não poderemos conhecer essa ale- gria se nãó sentirmos as coisas profundamente, se não houver paixão em nossas vidas — não se trata da paixão em fazer o bem ou realizar alguma mudança, mas a de sentir as coisas com intensidade. E nós podemos ter essa paixão vital somente quando existe urna revolução total em nosso pensamento, em todo o nosso ser.

Já notaram como poucos de nós têm sentimentos mais profundos sobre algo? Já se rebelaram contra os professores, os pais, não somente por não gostarem de algo, mas por terem um sentimento ardente de que não querem fazer determinada coisa? Se sentirem profunda e ardentemente algo, verão que esse sentimento traz, de uma forma curiosa, uma nova ordem para a vida.

A ordem, a arrumação, a clareza de pensamento não são muito importantes em si, porém se tornam valiosos para o homem sensível, que sente com profundidade, que se encontra em perpétuo rstado de revolução interna. Se vocês sentirem com intensidade as dificuldades do pobre, do mendigo que recebe a sujeira no rosto quando o carro do rico passa, se vocês forem extraordinariamente receptivos, sensíveis a tudo, então a própria sensibilidade trará ordem, virtude — e acho exfremamente importante que tanto o educador quanto o aluno entendam isto.

Neste país, infelizmente, assim como em tpdo o mundo, somos pouco curiosos, não temos sentimentos profundos sobre nada. Muitos somos ihtelectuaís — no sentido superficial de ser hem talentoso, cheio de palavras e teorias sobre o que é certo e errado, sobre como deveríamos pensar, o que deveríamos fazer. Mentalmente, somos bastante desenvolvidos, porém, no íntimo, há pouca substância ou significado; e é a substância interna que provoca a ação verdadeira— ou seja, não agir de acordo com uma ideia.

Esse é o motivo de vocês terem sentimentos bem fortes — de paixão, de raiva — e observá-los, brincar com eles, descobrir a verdade deles, pois se apenas os suprimirem e disserem: “Não devo ficar zangado, não devo me sentir apaixonado porque é errado”, verão que a mente, aos poucos, ficará encerrada em uma ideia e, portanto, bem rasa. Vocês podem ser bastante talentosos, ter conhecimento enciclopédico, mas se não houver a vitalidade do sentimento forte e profundo sua compreensão será como uma flor sem perfume.

É muito importante que vocês compreendam todas essas coisas ainda jovens, porque então, quando amadurecerem, serão verdadeiros revolucionários — não de acordo com alguma ideologia, teoria ou livro, mas no sentido total da palavra, como seres humanos integrados em que não haja parte alguma que possa ser contaminada pelo velho. Então a mente será renovada, inocente e, portanto, capaz de uma criatividade extraordinária. Mas se não compreenderem o significado dos fatos, a vida se tornará insípida, pois serão esmagados pela sociedade, pela sua família, pela sua esposa ou pelo seu marido, pelas teorias, pelas organizações religiosas ou políticas. Por isso é tão urgente que vocês recebam a melhor educação — que significa que vocês precisam ter professores que possam ajudá-los a romper a crosta da chamada civilização e serem não máquinas repetidoras, mas indivíduos que realmente têm uma canção interna e que são, portanto, seres humanos criativos e felizes.

Pergunta: O que é raiva e por que ficamos zangados?

Krishnamurti: Se eu pisasse em seu pé, lhe desse um beliscão ou tu asse alguma coisa de você, não ficaria zangado? E por que não? Por que vocês acham que a raiva é errada? Porque alguém disse que é? Por isso é muito im portante descobrir por que alguém está ra ngado, verificar a verdade da raiva, e não simplesmente dizer que é errado ficar zangado.

Bem, por que vocês se zangam? Porque não querem ser mneaçados — que é a necessidade do ser hum ano norm al para a sobrevivência. Sentem que não devem ser usados, esmagados, destruídos ou explorados po r um indivíduo, pelo governo ou pela sociedade. Quando alguém bate em vocês, a sensação é de dor, de humilhação, e vocês não gostam disso. Se a pessoa que os ameaça é grande e poderosa, e vocês não podem revidar, por sua vez, vocês ameaçam outra pessoa, descontam no irmão, na irmã ou no empregado, se tiverem um. E o enredo da raiva prossegue.

Em primeiro lugar, é um a resposta natural evitar ser atingido. Por que alguém poderia explorar vocês? Então, para não serem ameaçados, vocês se protegem, começam a desenvolver uma defesa, uma barreira. Internamente constroem uma parede em lorno de si para não serem abertos, receptivos, tornando-se incapazes de explorar, de ter sentimentos expansivos. Vocês dizem que a raiva é errada e a condenam, assim como condenam vários ou-Iros sentimentos. E gradualmente se tornam áridos, vazios, sem nenhum sentimento forte. Compreenderam?

Pergunta: Por que amamos tanto nossas mães?

Krishnamurti: Vocês am ariam sua mãe se odiassem seu pai? Ouçam com cuidado. Q uando vocês amam muito alguém, excluem os outros desse amor? Se realmente amam sua mãe, amam tam bém seu pai, sua tia, seu vizinho, seu empregado? Vocês não têm a sensação do amor primeiro e depois o amor por alguém em particular? Quando dizem: “Amo muito minha mãe” não seria uma consideração que têm por ela? Então não causem mais problemas sem sentido para ela. E se consideram sua mãe, também consideram seu irmão, sua irmã, seu vizinho? De outra forma, vocês não amam realmente sua mãe; trata-se somente de uma palavra, uma conveniência.

Pergunta: Estou cheio de ódio. Você poderia me ensinar como amar?

Krishnamurti: Ninguém pode ensinar como amar. Se fosse possível, o problema mundial seria bem simples, não? Se pudéssemos aprender a amar por meio dos livros, como aprendemos a matemática, o mundo seria maravilhoso, não haveria ódio, exploração, nem guerras, nenhuma divisão entre ricos e pobres, e seríamos todos realmente amigos. Mas o amor não é tão simples. É fácil odiar, e o ódio une as pessoas em torno de um padrão; cria todos os tipos de fantasias, vários modos de cooperação, como na guerra. Porém o amor é bem mais difícil. Você não pode aprender como amar, mas pode observar o ódio e afastá-lo gentilmente. Não batalhe contra o ódio, não diga que é horrível odiar as pessoas, mas veja-o como ele é, e afaste-o; empurre-o para longe, ele não é importante. O que vale é não deixar o ódio se enraizar na mente. Compreende? A mente é como um solo rico, e se houver tempo suficiente, qualquer problema que surgir germinará como erva daninha, e então você terá o problema de retirá-lo. Mas se você não ceder tempo suficiente para o problema criar raízes, ele não terá como crescer, e definhará. Se encorajar o ódio, possibilitando que crie raízes, cresça, amadureça, ele se tornará um problema enorme. Porém, se a cada vez que o ódio surgir você o afas- liri descobrirá que a mente se torna muito sensível sem ser senti* mental; e então conhecerá o amor.

A mente pode buscar sensações, desejos, mas não pode bus- air o amor. Ele tem de vir à mente. E quando o amor chega, não trin divisão entre sensuale divino: é amor.Estaé a questão extraor- luuiria a respeito do amor: é a única qualidade que traz uma compreensão total de toda a existência.

Pergunta: O que é felicidade?

Krishnamurti: Se você deseja algo agradável, acha que será feliz quando o tiver. Pode desejar se casar com o homem mais rico, com a moça mais bonita, ser aprovado em algum exame ou ser elogiado por alguém, e acha que tendo aquilo que deseja você será feliz. Mas isso é felicidade? Não desaparece logo, como a flor que se abre pela manhã e definha no final da tarde? Mas isso é sua vida, e é i mio que desejamos. Ficamos satisfeitos com as superficialidades: ter um carro ou uma posição segura, sentir uma pequena emoção com algo fútil, como um menino que solta uma pipa com um vento forte e alguns minutos depois está em lágrimas. É nisso que consiste nossa vida, e estamos satisfeitos. Nunca dizemos: " Darei meu coração, minha energia, todo o meu ser para descobrir o que é a felicidade.” Não somos m uito sérios, não sentimos com m uita intensidade; logo, ficamos agradecidos com coisas pequenas.

Mas a felicidade não é algo que você possa procurar; é um resultado, um subproduto. Se buscar a felicidade por ela mesma, nada disso terá significado. A felicidade chega sem ser convidada, p no momento em que você se conscientizar de que é feliz, não será mais. Pergunto-me se vocês já notaram isso. Quando repen­tinamente se sentem felizes sobre nenhum ponto em particular, e existe somente a liberdade de sorrir, de ser feliz. Porém, no mo mento em que se conscientizam disso, vocês a perdem, não é as sim? Ser autoconscientemente feliz, ou buscar a felicidade, é o próprio fim da felicidade. Existe felicidade somente quando o ser e suas exigências são colocadas de lado.

Vocês aprendem m uita matemática, dedicam seus dias para estudar história, geografia, ciências, física, biologia e outras dis ciplinas, mas, assim como os professores, reservam algum tempo para pensar sobre assuntos bem mais sérios? Já se sentaram em silêncio, imóveis, em posição ereta, para conhecer a beleza do silêncio? Já deixaram a mente vagar, não sobre coisas pequenas, mas amplas, largas, profundas, para explorar e descobrir?

E sabem o que está acontecendo no mundo? O que está ocorrendo é uma projeção do que está dentro de cada um de nós; aquilo que somos é o mundo. Muitos de nós estão em turbulência; so mos seres consumistas, possessivos, temos ciúme e condenamos as pessoas; e isso é exatamente o que está ocorrendo no mundo, porém, de maneira mais dramática, impiedosa. No entanto, nem vocês nem os professores dedicam algum tempo para pensar sobre o que se passa. E somente quando dispuserem de uma parte de cada dia para pensar seriamente sobre tais assuntos é que haverá a possibilidade de fazer uma revolução total e criar um mundo novo. E, asseguro a vocês, um mundo novo precisa ser criado, um que não seja a continuação da mesma sociedade apodrecida sob uma forma diferente. Mas vocês não podem criar um mundo novo se a mente não estiver alerta, atenta, amplamente consciente; e por esse motivo é tão importante, enquanto ainda são jovens, dedicar algum tempo para refletir sobre esses assuntos tão sérios, e não somente passar os dias estudando algumas disciplinas que não levam a nada, exceto a um emprego e à morte. Logo, considerem seriamente todas essas coisas, pois será daí que surgirá uma sensação extraordinária de alegria, de felicidade.

Pergunta: O que é vida real?

Krishnamurti: “O que é a vida real?” Um menino fez esta pergunta. Jogar, comer boas comidas, correr, pular, empurrar — essa é a vida real para ele. Vejam, dividimos a vida entre verdadeiro e falso. A vida verdadeira é fazer algo de que gostem com todo o seu ser, para que não haja uma contradição interna, nem guerra entre o que estão fazendo e o que acham que deveriam fazer. A vida será então um processo inteiramente integrado, no qual haverá muita alegria. Mas isso só poderá acontecer quando você não mais depender psicologicamente de ninguém em particular ou de uma sociedade, quando houver, em seu íntimo, um desapego completo, pois somente assim haverá a possibilidade de realmente amar aquilo que faz. Se estiver em um estado de total revolta, não importa se você trabalha em um jardim, se tornou-se primeiro- ministro ou se realiza alguma outra coisa. Você amará aquilo que faz, e desse amor virá uma sensação extraordinária de criatividade.

9. Uma mente aberta

Sabem, É muito interessante descobrir o que significa aprender. Aprendemos com um livro, ou com um professor, matemá- fita, geografia, história; aprendemos a localização de Londres, Moscou ou Nova York. Aprendemos como uma máquina funciona, ou como os pássaros constroem seus ninhos, cuidam dos filhotes e outras coisas. Pela observação e pelo estudo, aprendemos. Esse é um tipo de aprendizagem.

Mas não existe também um outro tipo — o que vem pela experiência? Quando vemos um barco no rio, com suas velas refletidas nas águas calmas, não é uma experiência extraordinária? E, utão, o que acontece? A mente guarda uma experiência desse tipo assim como guarda o conhecimento, e na manhã seguinte saímos para ver o barco, esperando ter o mesmo tipo de sensação — uma experiência de alegria, essa sensação de paz que surge tão rara- mente em nossas vidas. Então, a mente está diligentemente esto- m do as experiências; e é esse estoque como memória que nos faz pensar, não é? O que chamamos de pensar é a resposta da memória. Tendo observado o barco no rio e sentido a sensação de alegria, guardamos a experiência como memória e depois de sejamos repeti-la; e o processo de pensar continua, não é?

Vejam, muito poucos de nós sabem como pensar. A maioria apenas repete o que leu em um livro, o que alguém contou ou nosso pensamento é resultado da nossa própria experiência limi tada. Mesmo quando viajamos pelo mundo e passamos por inú meras experiências, encontram os várias pessoas diferentes e ouvimos o que elas têm a dizer, observamos seus hábitos, religiões, maneiras, e retemos a lembrança de tudo aquilo — do que resul ta o que chamamos pensar. Comparamos, julgamos, escolhemos e, por meio desse processo, esperamos descobrir alguma atitude razoável em relação à vida. Mas esse tipo de pensamento é muito limitado, confinado a uma área muito restrita. Pode-se ter expe riência ao ver um barco no rio, um corpo sendo levado para o crematório ou uma mulher de uma aldeia carregando um fardo pesado — todas essas impressões estão ali, mas somos tão insen síveis que elas não nos penetram nem amadurecem, e é somente por meio da sensibilidade a tudo que nos rodeia que acontece o início de um tipo diferente de pensamento, que não é limitado pelo nosso condicionamento.

Se vocês se agarrarem a algum grupo de crenças, verão tudo através daquele preconceito ou tradição em particular; não terão contato com a realidade. Já notaram as camponesas conduzindo cargas pesadas para a cidade? Quando notam, o que acontece com vocês, o que sentem? Ou será que as veem com tanta frequência que não experimentam mais nenhuma sensação, porque se acostum aram à cena? E mesmo quando observam alguma coisa pela primeira vez, o que acontece? Vocês, automaticamente, traduzem o que viram segundo seus preconceitos, não é assim? Vivenciam de acordo com o condicionamento, como um comunista, um socialista, um capitalista, ou outro “ista”. Porém, se não pertencem a nenhuma dessas classes, e, portanto, não olham através da leia de nenhuma crença e têm realmente um contato direto, então notarão uma ligação extraordinária que existe, entre vocês e o que observam. Se não têm preconceitos, tendências, se são abertos, então tudo à volta se torna extraordinariamente interessante, demasiado vivo.

Daí a importância, enquanto ainda são jovens, de notarem todas essas coisas. Estejam conscientes do barco no rio, observem a passagem do trem, vejam o servo transportando cargas pesadas, notem a insolência do rico, o orgulho dos ministros, das pessoas arrogantes, daqueles que pensam que sabem muito — simplesmente observem, não critiquem. No momento que criticarem, deixarão de ter um relacionamento, uma vez que já terão erguido uma barreira entre vocês; porém, se apenas observarem, então terão um relacionamento direto com as pessoas e com as coisas. Se pu derem observar de modo atento, perspicaz, porém sem julgar, sem concluir, descobrirão que seu pensamento se tornará surpreendentemente penetrante. Então estarão aprendendo durante todo o tempo.

À sua volta existe nascimento e morte, luta por dinheiro, posição, poder, o processo interminável do que chamamos vida; e vocês não se perguntam algumas vezes, mesmo quando são ainda bem jovens, o motivo de tudo isso? Vejam, muitos desejamos uma resposta, queremos que nos digam o motivo; por isso, escolhemos um livro político ou religioso, ou pedimos a alguém que nos indique algum. Mas ninguém pode afirmar, porque a vida não é algo que possamos entender por meio dos livros, nem seu significado pode ser resumido ao seguirmos alguém, ou por intermédio de alguma prece. Vocês e eu precisamos compreendê- la por nós mesmos — o que poderemos fazer somente quando estivermos totalmente vivos, alertas, atentos, observando. Interessados em tudo à nossa volta. Então descobriremos o que é ser reàlmente feliz.

Muita gente é infeliz porque não há amor nos seus corações. O amor surgirá quando não houver barreira entre você e o outro, quando encontrarem as pessoas e as observarem sem julgá- las, quando somente virem o barco no rio e aproveitarem a beleza do que veem. Não deixem que preconceitos prejudiquem a observação de como as coisas são; simplesmente observem, e descobrirão que com a simples observação e conscientização que tiverem das árvores, dos pássaros, das pessoas caminhando, trabalhando, sorrindo, acontecerá alguma coisa dentro de vocês. Sem essa realização extraordinária dentro de vocês, sem o surgimento do amor em seu coração, a vida possui pouco significado, e por isso é tão im portante que o educador aprenda a ajudá-los a compreender o significado de todas essas coisas.

Pergunta: Por que desejamos viver com luxo?

Krishnamurti: O que você quer dizer com luxo? Ter roupas limpas,manter o corpo limpo, comer boa comida — chama isso de luxo? Acredito que seja luxo para o homem que está faminto, com as roupas em trapos e que não pode tomar banho todos os dias. Portanto, o luxo varia de acordo com os desejos de cada um; é uma questão de grau.

E sabe o que acontece se você ficar ligado ao luxo, apegado ao conforto e desejar sempre se sentar em um sofá ou em uma cadeira estofada? A mente adormece. É bom ter um pouco de conforto corporal, porém enfatizá-lo, dar a ele grande importância, é ter a mente adormecida. Já notou como a maioria das pessoas gordas é feliz? Náda parece perturbá-las sob suas várias camadas de gordura. Essa é uma condição física, mas a mente também coloca camadas de gordura. Ela não quer ser questionada ou per- turbada, e, aos poucos, adormece. O que agora chamamos de edu- i ação geralmente induz o estudante ao sono, porque se ele faz perguntas realmente penetrantes, profundas, o professor fica perturbado e diz: “Vamos continuar com a aula.”

Então, quando a mente está apegada a qualquer forma de conforto, quando está ligada a um hábito, a uma crença ou a um ponto em particular que chama de “minha casa”, ela começa a adorme- i cr. E compreender esse fato é mais importante do que se vivemos ou não com luxo. À mente que é bem ativa, alerta, atenta, nunca está ligada ao conforto; o luxo nada significa para ela. Mas nnplesmente ter poucas roupas não quer dizer que a mente esteia alerta. O sannyasi, que vive externamente de modo bem simples pode ser internamente bem complexo, cultivando a virtude, desejando atingir a verdade, Deus. O importante é ser internamente muito simples, muito austero, ou seja, não ter uma mente ilravancada por crenças, medos, desejos inumeráveis, pois somente assim será capaz do verdadeiro pensar, explorar e descobrir.

Pergunta: Pode haver paz em nossa vida enquanto estivermos lutando contra nosso ambiente?

Krishnamurti: Vocês não têm de lutar contra o sèu ambiente? Não devem rompê-lo? Aquilo em que os pais acreditam, a base social, as tradições, o tipo de comida que ingerem e coisas próximas a vocês tomo a religião, o sacerdote, o rico, o pobre — tudo isso é seu ambiente. E vocês não precisam romper com ele questionando-o, insurgindo-se contra ele? Se não se insurgirem, se simplesmente o aceitarem, haverá um tipo de paz, mas a paz da morte; porém, se lutarem e descobrirem por si mesmos o que é verdade, encontrarão ainda um outro tipo de paz, que não é mera estagnação. É essencial lutar contra seu entorno. Vocês precisam. Portanto, a paz não é importante. O importante é compreender e romper com seu ambiente, e daí virá a paz. Porém, se a buscarem apenas aceitando seu ambiente, serão induzidos ao sono, e talvez até à morte. Por isso, desde a mais tenra idade, deve haver um senso de revolta em vocês. De outra forma, vocês somente serão vencidos.

Pergunta: Você é feliz ou não?

Krishnamurti: Não sei. Nunca pensei a respeito. No momento em que acham que são felizes, deixam de sê-lo, não é? Quando estão brincando e gritando de alegria, o que acontece no momento em que tomam consciência dessa alegria? Vocês deixam de ficar alegres. Já notaram? Portanto, a felicidade é algo que não está no campo da autoconsciência.

Quando vocês tentam ser bons, conseguem? A bondade pode ser praticada? Ou ela é algo que chega naturalmente porque vocês a veem, observam, compreendem? Da mesma maneira, quando estão conscientes de que são felizes, a felicidade sai pela janela. Buscar a felicidade é absurdo, porque ela existe somente quando você não a procura.

Sabem o que significa a palavra “humildade”? E vocês podem cultivar a humildade? Se repetirem a cada manhã “Serei humilde”, isso é humildade? Ou ela surge por si mesma quando vocês não sentem mais orgulho, vaidade? Da mesma maneira, quando tudo que impede a felicidade acaba, quando a ansiedade, a frustração, a busca pela própria segurança deixam de existir, então a felicidade estará ali, vocês não terão de procurá-la.

Por que a maioria de vocês é tão silenciosa? Por que não discutem comigo? Sabefri, é im portante expressar seus pensamentos e sentimentos, mesmos que não sejam bons, porque eles têm grande significado para vocês, e direi o porquê. Se começarem a expressar seus pensamentos e sentimentos agora, mesmo hesitantes, quando forem adultos não serão asfixiados pelo ambiente em que vivem, pelos pais, pela sociedade, pela tradição. Mas infelizmente os professores não os encorajam a questionar, não perguntam sobre o que estão pensando.

Pergunta: Por que choramos, o que é tristeza?

Krishnamurti: Um menino pequeno deseja saber por que choramos e o que é a tristeza. Quando vocês choram? Choram quando alguém pega seu brinquedo, quando alguém os machuca, quando não vencem um jogo, quando o professor ou os pais chamam sua atenção, quando alguém bate em vocês? Quando se tornam adultos, chorarão cada vez menos, porque ficarão mais resistentes à vida. Poucos são os adultos que choram, porque perderam muito da sensibilidade da infância. Mas a tristeza não é apenas a perda de algo, não é somente a sensação de ser impedido, frustrado; é algo bem mais profundo. Vejam, existe algo chamado falta de compreensão. Se não houver compreensão, haverá muita tristeza. Se a mente não penetrar além das próprias barreiras, haverá angústia.

Pergunta: Como podemos ficar integrados sem conflito?

Krishnamurti: Por que afastam o conflito? Parece que todos vocês acham que o conflito é algo terrível. No momento, nós estamos em conflito, não é? Estou tentando dizer algo e vocês não compreendem. Por isso existe um senso de atrito, de conflito. E o que há de errado no atrito, no conflito, na perturbação? Vocês não deveriam ficar alterados? A integração não ocorre se vocês evitam o conflito. É somente por meio do conflito e da compreensão do conflito que ela acontece.

A integração é uma das coisas mais difíceis de existir, porque significa a unificação completa de seu ser em tudo o que vocês fazem, dizem, pensam. Vocês não podem ter integração sem compreender o relacionamento — a relação com a sociedade, com o pobre, o aldeão, o pedinte, o milionário e o governo. Para compreender a relação, vocês devem lutar contra ela, devem questioná- la, e não apenas aceitar os valores estabelecidos pela tradição, pelos pais, pelo sacerdote, pela religião e pelo sistema econômico da sociedade. Por isso é essencial que vocês se revoltem, pois de outra forma nunca haverá integração. t

10. Beleza interior

ESTOU CERTO DE QUE EM ALGUM momento vivenciamos um grande senso de tranquilidade e beleza chegando a nós vindo dos i ampos verdes, do sol se pondo, das águas paradas, dos picos cobertos de neve. Mas o que é a beleza? Será apenas a apreciação que sentimos ou será algo separado da percepção? Se você tiver bom gosto para as roupas, se usar as cores harmoniosamente, se tiver maneiras dignas, se falar com tranquilidade e se mantiver ereto, tudo isso contribui para a beleza, não é? Mas isso é somente a expressão externa de um estado interno, como um poema que vocês escrevem ou um quadro que pintam. Podem olhar para o campo verdejante refletido no rio e não experimentar a sensação de beleza; somente passam por ele. Se, como pescadores, virem as andorinhas voando sobre as águas, isso provavelmente terá pouco significado para vocês. Porém, se estiverem conscientes da beleza extraordinária de uma experiência dessas, o que acontecerá em seu interior lhes fará dizer: “Que beleza!” O que forma esse sentido interno de beleza? Existe a beleza da forma externa: roupas bonitas, belos quadros, móveis atraentes, ou nenhum a m obília e paredes nuas, bem proporcionadas, janelas com formato perfeito e outros aspectos. Não estou me referindo simplesmente a isso, mas ao que colabora para formar a beleza interna.

Certamente, para existir beleza interna é preciso haver um abandono completo; a sensação de não ser aprisionado, de não haver restrição, nenhuma defesa, nenhum a resistência. Mas o abandono se torna caótico se não houver austeridade. E nós sabemos o que significa ser austero, ficar satisfeito com pouco e não pensar em termos de “mais”? É preciso haver abandono com profunda austeridade interna — que é extraordinariamente simples, porque a mente não está adquirindo, ganhando nem pensando em termos de “mais”. É a simplicidade nascida do abandono com austeridade que forma o estado da beleza criativa. E se não houver amor, vocês não poderão ser simples, não poderão ser austeros. Podem falar sobre simplicidade e austeridade, porém sem amor existe apenas uma forma de compulsão e, portanto, nenhum abandono. Somente aquele que ama abandona a si mesmo, esquece de si mesmo completamente e consegue criar o estado de beleza criativa.

A beleza inclui, obviamente, a beleza da forma. Porém, sem a beleza interna, a mera apreciação sensual da beleza da forma conduz à degradação, à desintegração. Existe a beleza interna somente quando vocês sentem o amor verdadeiro pelas pessoas e por todas as coisas da Terra; e com esse amor vem junto um tremendo sentido de consideração, de atenção, de paciência. Vocês podem ter uma técnica perfeita como cantor ou poeta, podem saber pintar ou unir as palavras, porém, sem a beleza criativa interior, seu talento terá muito pouco significado.

Infelizmente, muitos de nós estão se tornando meros técnicos. Somos aprovados em exames, adquirimos esta ou aquela técnica para ganhar o sustento, mas adquirir determinada técnica ou desenvolver certa capacidade sem prestar atenção ao estado interior traz feiúra e caos para o mundo. Se despertarmos a beleza criativa internamente, ela se expressará externamente, e então haverá ordem. Porém esse processo é m uito mais difícil do que adquirir alguma técnica, porque significa abandonar a nós mesmos completamente, ficar sem medo, sem restrição, sem resistência, sem defesa. E só podemos nos abandonar assim quando existe austeridade, um senso de grande simplicidade interna. Externamente podemos ser simples, podemos ter poucas roupas e ficar satisfeitos com apenas uma refeição ao dia, mas isso não é austeridade. Existe austeridade quando a mente é capaz de ter experiência infinita — quando possui experiência e, mesmo assim, permanece bem simples. Mas tal estado só pode existir quando a mente não mais está pensando em termos de “mais”, em termos de ter ou se tornar algo com o tempo.

O que estou falando pode ser difícil para vocês entenderem, mas é realmente muito importante. Vejam, os técnicos não são criativos, e existe cada vez mais técnicos no mundo, pessoas que sabem o que fazer e como fazer, mas que não são criadores. Na América existem máquinas de calcular capazes de resolver em poucos minutos problemas matemáticos que um homem precisaria trabalhar dez horas por dia por cem anos para resolver. Essas máquinas extraordinárias estão sendo desenvolvidas. Porém_ elas nunca serão criativas — e os seres humanos estão se tornando cada vez mais parecidos com máquinas. Mesmo quando se rebelam, a rebelião fica restrita aos limites da máquina, não havendo, portanto, nenhum a rebelião.

Por isso é muito importante descobrir o que é ser criativo. Vocês podem sê-lo somente quando houver abandono — que significa, na verdade, quando não houver um senso de compulsão, nenhum medo de não ser, de não ganhar, de não chegar. Então haverá grande austeridade, simplicidade, e com isso haverá amor. Essa totalidade é a beleza, o senso de criatividade.

Pergunta: A alma sobrevive à morte?

Krishnamurti: Se você realmente quer saber, como irá descobrir? Lendo o que Shankara, Buda ou Cristo disseram a respeito? Ouvindo um líder ou santo em particular? Eles podem estar totalmente errados. Você está preparado para admitir — o que significa que a mente está em posição de questionar?

Você precisa, primeiro, descobrir se existe realmente uma alma para sobreviver. O que é a alma? Sabe o que é? Ou simplesmente lhe disseram que existe — seus pais, o sacerdote, um determinado livro, seu ambiente cultural — e você aceitou?

A palavra “alma” implica algo além da mera existência física, não é? Existe o corpo físico e também o caráter, as tendências, as virtudes; e, transcendendo tudo, você diz que existe alma. Se tal estado existe, deve ser espiritual, algo que possui a qualidade da atemporalidade; e você está peguntando se esse algo espiritual sobrevive à morte. Essa é uma parte da questão.

A outra é: o que é a morte? Você sabe? Você deseja saber se existe sobreviência após a morte, mas, veja, essa questão não é importante. A pergunta importante é: você pode entender a morte enquanto está vivo? Qual o significado de alguém dizer que existe ou não a sobrevivência após a morte? Você vai continuar sem saber. Mas pode descobrir por si mesmo o que é a morte, não depois de estar morto, mas enquanto está vivo, saudável, vigoroso; enquanto pensa, sente.

Também faz parte da educação. Ser educado não é somente ser proficiente em matemática, história ou geografia, é também ter a capacidade de compreender o fenômeno extraordinário chamado morte — não quando estiver fisicamente morrendo, mas enquanto está vivo, rindo, subindo em uma árvore, velejando ou nadando. A morte é desconhecida, e o que importa é saber sobre o desconhecido enquanto você está vivo.

Pergunta: Quando ficamos doentes, por que nossos pais se preocupam tanto conosco?

Krishnamurti: A maioria dos pais está, pelo m enos parcial- mente, interessada em cuidar dos filhos, nutri-los, mas quan do se preocupam , a preocupação indica que eles estão mais interessados neles mesmos do que nos filhos. Não querem que eles m orram , porque dizem: “Se m eu filho ou filha morrer, o que acontecerá conosco?” Se os pais amassem os filhos, sabem o que aconteceria? Eles ficariam atentos para que vocês não tivessem nenhum motivo para sentir medo, para que fossem seres humanos saudáveis e felizes; cuidariam para que não h ouvesse guerras nem pobreza no m undo, que a sociedade não destruísse vocês nem ninguém à volta, nem os camponeses, ou iis pessoas da cidade, ou os animais. É porque os pais não amam verdadeiramente os filhos que existem guerras, que existem os ricos e os pobres. Investiram a própria vida nos filhos, e através deles esperam perpetuar-se, e se vocês ficarem seriamente doentes, eles se preocuparão; logo, estão interessados na própria angústia. Mas nunca admitirão.

Vejam, a propriedade, a terra, o nome, a riqueza e a família são os meios da própria continuidade de alguém, o que também é chamado de imortalidade; e quando algo acontece aos filhos, os pais ficam horrorizados, impulsionados por uma grande angús­tia porque estão primeiramente interessados em si mesmos. Se os pais estivessem realmente interessados nos filhos, a sociedade seria transformada da noite para o dia; teríamos um tipo diferente de educação, casas diferentes, um m undo sem guerras.

Pergunta: Os templos deveriam ser abertos a todos para a cerimônia de adoração?

Krishnamurti: O que é o templo? É um local de adoração no qual existe um símbolo de Deus, que consiste numa imagem concebida pela mente e esculpida pela mão na pedra. Essa pedra, essa imagem não é Deus, certo? É somente um símbolo, e esse é como sua sombra quando você anda sob o sol. A sombra não é você; e essas imagens e os símbolos no templo não são Deus, nem a verdade. Então, qual a importância de quem entra ou não no templo? Por que tanta confusão? A verdade pode estar sob uma folha morta, em uma pedra na beira do caminho, nas águas que refletem a ternura de um entardecer, nas nuvens, no sorriso de uma mulher que transporta seu fardo. No m undo inteiro existe a realidade, não necessariamente no templo, e em geral não está no templo, porque este é construído em função do medo do homem, baseado em seu desejo de segurança, em suas divisões de credo e classe. Este m undo é nosso, seres hum anos vivendo em união, e se o homem está buscando Deus, deve evitar os templos, porque eles dividem as pessoas. A igreja bristã, a mesquita muçulmana, o templo hindu — todos eles dividem as pessoas, e um homem que está buscando Deus não terá nenhum a resposta. Então, o questionamento sobre se alguém deve o,u não buscar o templo se torna um assunto meramente político; não se trata da realidade.

Pergunta: Qual a função da disciplina em nossas vidas?

Krishnamurti: Infelizmente ela desempenha um grande papel, não é? Uma grande parte de suas vidas é disciplinada: façam isto, não façam aquilo. Dizem a vocês a que horas devem se levantar, o que comer e o que não comer, o que devem saber e o que não devem; dizem que devem ler, ir às aulas, ser aprovados e outras coisas. Os pais, os professores, a sociedade, a tradição, os livros sagrados, todos lhes dizem o que fazer; por isso sua vida está limitada, cercada pela disciplina, não é? Vocês são prisioneiros dos sins e nãos, eles são as barras de ferro de sua cela.

E o que acontece com uma mente limitada pela disciplina? Certamente, apenas quando tiverem medo de algo, quando resistirem a alguma coisa, haverá disciplina; então deverão se controlar, se segurar. Vocês o farão por vontade própria ou a sociedade — representada pelos pais, professores, tradição, livros sagrados — o fará por vocês. Porém, se começarem a questionar, a buscar, se aprenderem e compreenderem sem medo, a disciplina será necessária? Então sua compreensão trará a própria ordem verdadeira, que não é nascida da imposição ou da compulsão.

Pensem a respeito, porque, se forem disciplinados pelo medo, esmagados pela compulsão da sociedade, dominados pelo que dizem os pais e os professores, então não haverá liberdade, alegria, e toda a iniciativa evaporará. Quanto mais antiga a cultura, maior o peso da tradição que disciplina, diz o que fazer e o que não fazer; e vocês ficam sobrecarregados, psicologicamente achatados, como se um rolo compressor tivesse passado sobre vocês. Foi o que se deu na índia. O peso da tradição é tão grande que toda a iniciativa foi destruída e todos deixaram de ser indivíduos; são meramente partes de uma máquina social com a qual se contentam. Compreendem? Não se revoltam, não explodem, não rompem. Os pais não querem que se revoltem, os professores não querem que rompam, portanto a educação que receberam almeja conformá-los ao padrão estabelecido. Logo, não são seres humanos completos, porque o medo corrói o coração; e enquanto houver medo, não existe alegria nem criatividade.

Pergunta: Agora há pouco, quando você falou sobre o templo, referiuse ao símbolo de Deus como uma mera sombra. Não podemos vera sombra de um homem sem que o homem real a projete?

Krishnamurti: Você se satisfaz com a sombra? Se estiver com fome, ficará satisfeito simplesmente ao olhar para a comida? Então, por que ficar satisfeito com a sombra no templo? Se desejarem compreender profundamente o real, deixarão a sombra de lado. Mas, vejam, vocês estão influenciados pela sombra, pelo símbolo, pela imagem de pedra. Observem o que aconteceu no mundo. As pessoas estão divididas porque adoram uma determinada sombra na mesquita, no templo, na igreja, porém existe somente uma realidade, que não pode ser dividida; e para a realidade não existe caminho, nem cristão nem muçulmano, nem hindu nem qualquer outro.

Pergunta: As provas podem ser desnecessárias para os jovens ricos cujo futuro está assegurado, mas não serão uma necessidade para os alunos pobres que precisam estar jpreparados para ganhar o sustento? E a necessidade deles seria njienos urgente, especialmente se considerarmos a sociedade como eía é?

Krishnamurti: Vocês acham que a sociedade está estabelecida. Por quê? Vocês, que não pertencem à classe pobre, que estão bem na vida, por que não se revoltam — não como comunistas ou socialistas, mas contra todo o sistema social? Vocês podem fazê- li >. então por que não utilizam a inteligência para descobrir o que ê verdadeiro a fim de criar uma nova sociedade? O pobre não irá ie revoltar porque ele não tem energia nem tempo para pensar; filá totalmente ocupado, precisa de comida, de trabalho. Mas vocês, que podem se divertir, que têm tempo livre para usar a in teligência, por que vocês não se rebelam? Por que não descobrem í|ual é a sociedade correta, a sociedade verdadeira, e constroem uma nova civilização? Se ela não começar com vocês, obviamen- ut não será com os pobres.

Pergunta: O rico estará preparado para abrir mão de parte do que u>m pelo bem do pobre?

Krishnamurti: Não estamos falando sobre o rico abrir mão pelo bem do pobre. Tudo o que eles doarem não satisfará o pobre — mas não é esse o problema. Vocês que são abastados, e que portanto têm condições de cultivar a inteligência, não podem por meio da revolta criar uma nova sociedade? Depende de vocês, de ninguém mais; depende de cada um de nós, não do rico ou do i-obre, ou dos comunistas. Vejam, muitos de nós não têm espírito de revolta, a urgência em abrir caminho, descobrir; e é esse espírito que é importante.

11. Conformismo e revolta

Já SE SENTARAM EM SILÊNCIO, com os olhos fechados, e observaram o movimento do pensamento? Já viram a mente trabalhando —- ou, melhor, já se observaram em operação somente para ver como são seus pensamentos, seus sentimentos, como vocês observam as árvores, as flores, os pássaros, as pessoas, como respondem a uma sugestão ou reagem a uma nova ideia? Já fizeram isso? Se não o fizeram, estão perdendo. Saber como sua mente funciona é o propósito básico da educação. Se vocês não souberem como suas mentes reagem, se não estiverem conscientes de suas próprias atividades, vocês nunca descobrirão o que é a sociedade. Podem ler em livros de sociologia, estudar as ciências sociais, mas se não souberem como a própria mente trabalha não poderão realmente compreender o que. é a sociedade, porque a mente é parte da sociedade; ela é a sociedade. Suas reações, crenças, idas ao templo, as roupas que usam, as coisas que fazem e não fazem e aquilo que pensam — a sociedade é formada por tudo isso; é a réplica do que está se passando em sua própria mente. Por isso, a mente não está separada da sociedade, não é distinta da cultura, da religião, das várias divisões de classes, das ambições e conflitos de muitos. Tudo isso é a sociedade, e vocês são parte dela. Não existe “você” separado da sociedade.

Mas a sociedade está sempre tentando controlar, moldar o pensamento do jovem. Desde o momento em que vocês nasceram e começaram a armazenar impressões, seu pai e sua mãe estão constantemente lhes dizendo o que fazer e o que não fazer, em que acreditar e em que não acreditar; dizem que existe um Deus, ou que não existe um Deus, porém o Estado e algum ditador é seu profeta. Desde a infância, essas coisas são despejadas sobre vocês, o que significa que a mente — que é muito jovem, impressionável, questionadora, curiosa em saber, desejando descobrir — é gradualmente aprisionada, condicionada, moldada de forma que vocês se ajustem ao padrão de um a sociedade em particular e não se tornem revolucionários. Como o hábito do pensamento compartilhado já está estabelecido em vocês, mesmo que se “revoltem”, será dentro de um padrão. Como prisioneiros se revoltando para conseguir um alimento melhor, mais conveniências — porém sempre dentro da prisão. Quando buscam Deus, ou tentam descobrir qual é o governo certo, será sempre dentro do padrão da sociedade que diz: “Isto é verdadeiro e isso é falso; isto é bom e isso é mau; este é o líder certo e esses são os santos.” Então vocês se revoltam, a chamada revolução realizada pela ambição ou por pessoas bem astutas, que é sempre limitada pelo passado. Isso não é revolta, não é revolução; é apenas uma atividade ampliada, uma luta mais valente dentro de um padrão. A verdadeira revolta, a verdadeira revolução é se afastar do padrão e questionar fora dele.

Vejam, todos os reformadores — não im porta quem eles são — estão simplesmente preocupados em melhórar as condiçoes dentro da prisão. Eles nunca lhes dizem para não se conformarem, nunca falam: “Rompam as paredes da tradição e da autoridade, sacudam o condicionamento que prende a mente.” Isso r educação real, e n ão requer apenas que vocês sejam aprovados nos exames para o s quais se prepararam, ou escrevam algo que iprenderam de cor, mas para lhes ajudar a ver as paredes da pri- vlo na qual a m ente está presa. A sociedade influencia todos nós, molda constantemente nosso pensamento, e sua pressão externa é gradualmente traduzida ao interior; porém, embora penetre pro- lundamente, ela ainda pertence ao lado de fora, e não existe esse interior enquanto vocês não romperem com o condicionamento. Vocês precisam saber o que estão pensando e se o fazem como hindu, muçulmano ou cristão, ou seja, em termos da religião à qual vocês pertencem. Tudo isso é o padrão da sociedade, e, a menos que estejam conscientes desse padrão e romperem com ele, ainda permanecerão como prisioneiros, embora possam pensar que estão livres.

Porém, vejam, muitos de nós estaremos concentrados com a revolta dentro da prisão; queremos uma comida melhor, uma luz mais clara, uma janela maior para que possamos ver um pouco mais do céu. Estamos preocupados se os párias entrarão ou não no templo; queremos romper com essa casta em particular, e nesse rompimento criamos outra, uma “superior”; por isso permanecemos prisioneiros, e não existe liberdade na prisão. A liberdade está fora das paredes, fora do padrão da sociedade; mas para ser livre desse padrão vocês precisam compreender todo o conteúdo, que é compreender a própria mente. Foi a mente quem criou a atual civilizarão, a tradição ligada à cultura ou à sociedade; e sem compreender a própria mente o m e ro revoltar-se como comunista, socialista, isto ou aquilo possui bem pouco significado. Por isso é muito importante ter autoconhecimento, estar consciente de todas as suas atividades, pensamentos e sentimentos; e isso é educação, não é? Porque, quando estamos totalmente conscientes de nós mesmos, nossa mente se torna muito sensível, bem alerta.

Tentem isso — não algum dia em um futuro distante, mas amanhã ou esta tarde. Se houver pessoas demais na sala, se sua casa estiver cheia de gente, saia e sente-se sob uma árvore ou à margem de um rio e observe em silêncio como sua mente funciona. Não a corrija, não diga: “Isto é certo, isso é errado”, mas simplesmente assista, como a um filme. Quando vão ao cinema, vocês não participam do filme; atores e atrizes participam, vocês somente observam. Da mesma maneira, observem como a m ente funciona. É realmente muito interessante, bem mais do que qualquer filme, porque ela é o resíduo do m undo inteiro e contém tudo que os seres humanos vivenciaram. Compreendem? Sua mente é a humanidade, e quando vocês percebem isso, experimentam imensa compaixão. E da compreensão surge um grande amor; e então vocês se darão conta, quando virem as coisas do amor, da beleza que existe.

Pergunta: Como você aprendeu sobre tudo que está falando, e como poderemos aprender também?

Krishnamurti: Trata-se de uma boa pergunta , não acham ?

Se me permitem falar um pouco sobre mim mesmo, não li livros sobre tais assuntos, nem os Upanishades, o Bhagavad Gita, nem livros de psicologia; porém, como lhes disse, se observarem a própria mente, está tudo ali. Portanto, quando iniciarem a jornada do autoconhecimento, os livros não são importantes. É como entrar em uma terra desconhecida onde começam a ver coisas novas e a fazer descobertas surpreendentes; mas, vejam, isso tudo será destruído ,se derem importância a si mesmos. No momento que disserem: “Eu descobri, eu sei, eu sou um grande homem porque descobri isto e aquilo”, vocês se perdem. Se tiverem que fazer uma longa viagem, devem carregar muito pouco; se desejarem subir uma grande altura, devem viajar com pouco peso.

Por esse motivo, a questão é realmente im portante, porque a descoberta'e a compreensão vêm por meio do autoconhe-cimento, da observação dos meandros da mente. O que dizem do vizinho, como falam, como andam, como observam os céus, os pássaros, como tratam as pessoas, como cortam um galho — todas essas coisas são importantes porque agem como espelhos que lhes mostram como vocês são e, se estão alertas, descobrirão coisas novas a cada momento.

Pergunta: Devemos formar uma ideia sobre o outro, ou não?

Krishnamurti: Vocês devem ter ideias sobre as pessoas? Devem formar uma opinião, fazer um julgamento sobre alguém? Quando vocês têm ideias sobre o professor, o que é importante para vocês? Não o professor, mas as ideias sobre ele. E é isso que acontece na vida, não é? Todos temos opiniões sobre as pessoas; dizemos: “Ele é bom”; “Ele é fútil”; “Ele é supersticioso”; “Ele faz isto ou aquilo.” Temos uma lista de ideias entre nós mesmos e a outra pessoa, portanto nunca encontramos realmente aquela pessoa. Ao ver alguém ou algo, dizemos: “Ele fez isto”, por isso se torna importante datar os eventos. Compreendem? Se vocês veem alguém fazendo algo que consideram bom ou ruim, vocês têm uma opinião sobre ela que tende a se tornar fixa, e quando encontram aquela pessoa dez dias ou um ano depois, ainda pensam nela baseados nessa opinião. Mas durante esse período ela pode ter m udado; portanto, é muito importante não dizer “Ela é assim”, mas “Ela era assim em fevereiro”, porque no final daquele ano ela pode ser inteiramente diferente. Se vocês disserem de alguém: “Conhe­ço aquela pessoa”, podem estar inteiramente errados, porque vocês a conhecem somente até certo ponto, ou pelos eventos que ocorreram em determinada data, e, além disso, vocês não a conhecem mais. O importante é encontrar outro ser humano sempre com a mente aberta, não com preconceitos, ideias fixas e com as próprias opiniões.

Pergunta: O que é sentimento, como sentimos?

Krishnamurti: Se vocês frequentaram as aulas de fisiologia, o professor provavelmente explicou como o sistema nervoso hum ano é formado. Quando alguém os belisca, vocês sentem dor. O que significa? Os nervos transmitem uma sensação para o cérebro, o cérebro a traduz como dor e, então, vocês dizem: “Você me m achucou.” É a parte física do sentimento.

Da mesma forma, existe o sentimento psicológico, não é? Se vocês se acham maravilhosos e belos e alguém diz: “Você é feio”, ficam magoados. O que significa? Vocês ouvem certas palavras que o cérebro traduz como desagradáveis ou insultantes, e ficam perturbados; ou alguém faz um elogio, e vocês dizem: “Como é agradável ouvir isso.” Portanto, sentir/pensar é uma reação — a uma alfinetada, a um insulto, a um elogio. Tudo isso é o processo do sentir/pensar, porém é bem mais complexo, e vocês poderão se aprofundar nele.

Vejam, quando temos um sentimento, sempre damos um nome a ele, não é? Dizemos que é agradável ou doloroso. Q uando ficamos zangados, damos um nome ao sentimento, nós o chamamos de raiva; mas já pensaram se vocês não atribuíssem um nome ao sentimento? Tentem. Na próxima vez que se sentirem zangados, não nomeiem, não chamem de raiva; simplesmente fi- quem conscientes, sem dar um nome, e vejam o que acontece.

Pergunta: Qual a diferença entre a cultura indiana e a norte- americana?

Krishnamurti: Quando falamos sobre cultura norte-americana, geralmente nos referimos à cultura européia, que foi transplantada para os Estados Unidos, e desde então se modificou e se estendeu ao encontrar novas fronteiras, físicas e também mentais.

E o que é a cultura indiana? Qual é a cultura que vocês têm aqui? O que entendem da palavra “cultura”? Se já fizeram jardinagem, sabem como cultivar e preparar o solo. Vocês cavam, removem as raízes e, se necessário, adicionam um composto, uma mistura feita de folhas, forragem, estrume e outros tipos de m atéria orgânica para tornar o solo rico, e depois vocês plantam. O solo rico nutre a planta, que gradualmente produz aquela flor maravilhosa chamada rosa.

A cultura indiana é assim. Milhões de pessoas a produziram i om lutas, exercendo suas vontades, desejando isto e resistindo iquilo, pensando constantemente, sofrendo, temendo, evitando, desfrutando; também o clima, o alimento e o vestuário exerceram influência sobre ela. Por isso temos aqui um solo extraordinário, o solo sendo a mente; e antes de ele ser completamente moldado, existiram alguns povos vitais, criativos que se espalha-i am por toda a Ásia. Eles não disseram, como vocês dizem: “Devo aceitar os editos da sociedade. O que meu pai pensará se eu não aceitar?” Pelo contrário, houve pessoas que descobriram coisas, e elas não ficaram indiferentes, mas se interessaram. E tudo isso é a i ultura indiana. Aquilo que pensam, o alimento que comem, as roupas que vestem, os modos, as tradições, a fala, as pinturas e estátuas, os deuses, sacerdotes e livros sagrados — tudo isso é .1 cultura indiana, não é?

Por isso a cultura indiana é, de alguma forma, diferente da européia, porém, na base, o movimento é o mesmo. Ele pode se ex pressar diferentemente nos Estados Unidos porque as exigências lá são diferentes; lá existe menos tradição e eles têm mais geladei ras, carros etc. Porém, na essência, é 0 mesmo movimento — 0 de encontrar a felicidade, descobrir o que é Deus, o que é a verdade; e quando o movimento pára, a cultura declina, como aconteceu neste país. Quando ele é bloqueado pela autoridade, pela tradição, pelo medo, ocorre a decadência, a deterioração.

A urgência em descobrir o que é a verdade, o que é Deus, é a única urgência real, todas as outras são subsidiárias. Quando vocês jogam uma pedra na água parada, ela forma círculos que se expandem. Os círculos em expansão são movimentos subsidiários, as reações sociais; porém, 0 movimento verdadeiro está no centro, que é o da descoberta da felicidade, de Deus, da verdade; e vocês não o conseguem enquanto estiverem aprisionados no medo, detidos pela ameaça. No momento em que surgem a ameaça e o medo, a cultura declina.

Por isso é muito importante, enquanto são jovens, não se tornarem condicionados, não serem freados pelo medo dos pais, da sociedade, para que haja em vocês 0 movimento atemporal para descobrir 0 que é a verdade. Os homens que buscam a verdade, Deus, são os únicos que podem criar uma nova civilização, uma nova cultura, não as pessoas que se conformam ou que apenas se revoltam dentro da prisão do antigo condicionamento. Vocês podem tomar as vestes de um asceta, ligar-se a esta sociedade ou àquela, trocar uma religião por outra, tentar várias maneiras de ser livre, porém, a menos que haja dentro de vocês o movimento para descobrir 0 que é o real,'o que é verdade, o que é amor, seus esforços não terão significado. Vocês podem ser muito cultos e realizar coisas que a sociedade chama de positivo, mas estão todas elas dentro das paredes da prisão da tradição e, portanto, sem qualquer valor revolucionário.

Pergunta: O que você acha dos indianos?

Krishnamurti: Esta é realmente uma pergunta inocente, não é?

Ver os fatos sem ter opiniões é uma coisa, mas ter opiniões sobre ratos é totalmente diferente ». Simplesmente ver o fato de todo um povo aprisionado pela superstição, pelo medo é uma coisa, e ou- tra é ver esse fato e condená-lo. Opiniões não são importantes, porque sempre poderei pensar diferentemente de vocês. Estar preo- e upado com as opiniões é uma forma estúpida de pensar. O im portante é ver os fatos como eles são, sem emitir opinião, sem julgar, sem comparar.

Sentir a beleza sem opinar é a única percepção real da beleza. Da mesma forma, se vocês puderem ver o povo da índia como ele é, vê-lo claramente, sem opiniões rígidas, sem julgar, então o que verão será real.

Os indianos possuem certas maneiras, certos costumes p ró prios, porém, fundamentalmente, eles são como qualquer outro povo. Eles se aborrecem, são cruéis, sentem medo, se revoltam internamente na prisão da sociedade, assim como as pessoas fazem em outros lugares. Como os norte-americanos, eles tam bém desejam o conforto, mas no presente eles não o têm na mesma extensão. Possuem uma tradição pesada sobre renunciar ao m undo e tentar viver santamente; mas tam bém possuem ambições bem enraizadas, hipocrisia, ganância, inveja, e são divididos em castas, como seres humanos em outros lugares, porém aqui é bem mais brutal. Aqui na índia vocês podem ver mais de perto todo o fenômeno que está acontecendo no m un do. Queremos ser amados, mas não sabemos o que é o amor; somos infelizes, sedentos por algo real, e buscamos nos livros, nos Upanishades, no Gita ou na Bíblia, e nos perdem os em palavras e especulações. Seja aqui, na Rússia ou nos Estados Unidos, a mente humana é similar, somente se expressa de m aneiras diferentes, sob céus e governos diferentes.

12. A confiança da inocência

DISCUTIMOS SOBRE A QUESTÃO da revolta dentro da prisão: como lodos os reformadores, idealistas e os que estão incessantemente ativos na produção de certos resultados, estão sempre se revoltando dentro das paredes do próprio condicionamento, dentro dos muros da própria estrutura social, dentro do padrão cultural da civilização, que é uma expressão da vontade coletiva de vários. Penso que agora seria válido se pudéssemos considerar o que é a confiança e como ela surge.

Por meio da iniciativa surge a confiança; porém, a iniciativa dentro de um padrão traz somente autoconfiança, que é inteiramente diferente da confiança fora do ser. Sabem o que significa ter confiança? Se vocês fazem uma coisa com as próprias mãos, se plantam uma árvore e a veem crescer, se pintam um quadro ou escrevem um poema, ou, quando estão mais velhos, constroem uma ponte ou realizam extremamente bem algum trabalho administrativo, isso lhes dá confiança de que são capazes de fazer algo. Mas, vejam, a confiança como a conhecemos agora está sempre dentro da prisão, aquela que a sociedade — seja comunista, hindu ou cristã — cons truiu em torno de nós. A iniciativa dentro da prisão cria certa con fiança, porque vocês sentem que podem fazer coisas; podem projetar um motor, ser um médico muito bom, um excelente cientista etc. Mas o sentimento de confiança que chega com a capacidade de ser bem-sucedido — dentro da estrutura-social, ou para reformá-la, clarear mais, decorar o interior da prisão — é realmente autoconfiança; vocês sabem fazer algo, e se sentem importantes ao realizá-lo. Porém quando, pela investigação, pela compreensão, vocês rompem com a estrutura social da qual são parte integrante, surge um tipo totalmente diferente de confiança, sem o senso de autoimportância; e se conseguimos compreender a diferença entre elas — a autoconfiança e a confiança sem o eu — , acredito que terá um grande significado ém nossa vida.

Quando vocês jogam um jogo muito bem, como badminton, críquete ou futebol, têm um senso de confiança, não é assim? Ele lhes dá o sentimento de que são muito bons nele. Se vocês são rápidos em resolver problemas de matemática, isso também pro duz um sentimento de autoafirmação. Q uando a confiança é nascida da ação dentro da estrutura social, ela sempre vem com uma estranha arrogância, não é? A confiança de um homem que consegue fazer coisas, que é capaz de atingir resultados, é sempre colorida pela arrogância do ser, o sentimento do “Fui eu que fiz”. Então, no próprio ato de atingir um resultado, de realizar uma reforma social dentro da prisão, existe a arrogância do ser, o sentimento de que fui eu que fiz, esse meu ideal é importante, esse meu grupo teve sucesso. O senso de “meu” sempre vem com a confiança que se expressa dentro da prisão social.

Já notaram como os idealistas são arrogantes? Os líderes políticos que conseguem certos resultados, que realizam grandes reform as — já notaram como são cheios de si mesmos, incensados pelos seus ideais e realizações? Em sua auto-estima, eles são muito importantes. Leiam alguns dos discursos políticos, vejam algumas dessas pessoas que se intitulam reformadores e verão que no processo de reforma eles estão cultivando o próprio ego; as reformas, embora extensas, ainda ocorrem dentro da prisão, sendo portanto destrutivas e, fínalmente, conduzindo a mais miséria e conflito para o homem.

Mas, se conseguem ver, por meio de toda a estrutura social, o padrão cultural da vontade coletiva que chamamos de civiliza­ção — se conseguem compreender e se afastam dela, rompem as paredes da prisão de sua sociedade particular, seja hindu, comunista ou cristã — , então vocês sentem que surge uma confiança que não é maculada pelo sentido de arrogância. É a confiança da inocência. É como a confiança de uma criança que é tão completamente inocente que tentará qualquer coisa. É essa confiança inocente que formará uma nova civilização; mas que não pode existir enquanto vocês permanecerem dentro do padrão social.

Por favor, ouçam isso com muito cuidado. O orador não é, de forma alguma, importante; o fundamental é que vocês compreendam a verdade do que está sendo dito. Afinal, educação é isso, não é? A função da educação não é fazê-los se ajustar ao padrão social; pelo contrário, é auxiliá-los a compreender inteira, profunda, totalmente, e, portanto, romper com o padrão social para que possam ser indivíduos sem a arrogância do ser; e vocês terão confiança porque serão realmente inocentes.

Não é uma grande tragédia que muitos estejamos somente preocupados de que maneira nos ajustarmos à sociedade ou em como reformá-la? Já notaram que a maioria das perguntas que fizeram reflete essa atitude? Vocês, na verdade, querem dizer: “Como posso me ajustar à sociedade? O que dirão meus pais, e o que acontecerá comigo se eu não me ajustar?” Essa atitude destrói qualquer confiança, qualqu'er iniciativa que tenham. E vocês deixam a escola, a faculdade como tantos autômatos, talvez altamente eficientes, porém sem qualquer chama criativa. Por isso é tão importante compreender a sociedade, o ambiente no qual se vive e, nesse próprio processo de compreensão, romper com ela.

Vejam, trata-se de um problema que ocorre no mundo inteiro. O homem está buscando uma resposta nova, um novo acesso à vida, porque as atitudes antigas estão decadentes, seja na Europa, na Rússia ou aqui. A vida é um desafio contínuo, e simplesmente tentar realizar uma ordem econômica melhor não é a resposta completa a esse desafio, que é sempre novo; e quando culturas, povos, civilizações são incapazes de responder totalmente ao desafio do novo, são destruídos.

A menos que sejam adequadamente educados, a menos que tenham a extraordinária confiança da inocência, vocês estarão no caminho inevitável de serem absorvidos pelo coletivo e se perderem na mediocridade. Acrescentarão títulos após o nome, se casarão, terão filhos, e será o fim de vocês.

Vejam, muitos de nós temos medo. Os pais, os educadores, os governos e as religiões temem o fato de que vocês se tornem indivíduos integrais, porque todos desejam que permaneçam seguramente dentro da prisão das influências ambientais e culturais. Mas são somente os indivíduos que rompem com o padrão social, quando o compreendem — e que não estão, portanto, limitados pelo condicionamento das próprias mentes—, que podem realizar uma nova civilização, não aqueles que apenas se conformam ou que resistem a um padrão particular porque são moldados por outro. A busca por Deus ou pela verdade não está dentro da prisão, mas na compreensão da prisão e no rompimento de suas paredes — e o próprio movimento em direção à liberdade cria uma nova cultura, um mundo diferente.

Pergunta: Senhor, por que desejamos ter uma companhia?

Krishnamurti: Um a moça pergunta por que desejamos um a umpanhia. Por que alguém deseja uma companhia? Vocês conseguem viver no mundo sem marido ou esposa, sem filhos, sem miigos? A maioria das pessoas não consegue viver sozinha, e por-lauto necessita de companhia. É preciso uma inteligência enor- int! para ficar só; e vocês precisam ficar a sós para encontrar Deus, a verdade. É bom ter uma companhia, marido ou esposa, e tam- lirm ter bebês. Mas, vejam, nós nos perdemos em tudo isso; perdemo-nos na família, no emprego, na rotina tola e m onótona da existência decadente. Acostumamo-nos a ela e, depois, o pensamento de viver sozinho torna-se assustador, algo a se temer. Muitos de nós colocamos toda a nossa fé em uma coisa, todos ms nossos ovos na m esm a cesta, e nossas vidas não têm riqueza i parada das nossas companhias, longe das nossas famílias e dos nossos empregos. Mas se houver riqueza na vida da pessoa — u.lo a riqueza de dinheiro ou de conhecimento, que qualquer um pode adquirir, mas aquela que é o movimento da realidade sem início e sem fim — , então o companheirismo se torna um as- unto secundário.

Porém, vejam, vocês não são educados para ficarem a sós. Já foram passear sozinhos? É muito importante sair sozinho, sentar-se sob uma árvore — não com um livro, mas sem uma companhia, sozinho consigo mesmo — e observar a queda de uma folha, ouvir o m arulhar das águas, o canto do pescador, o voo de um pássaro e os próprios pensamentos, quando estes se perseguem no espaço da sua mente. Se vocês conseguirem ficar a sós e observar tais coisas, então descobrirão riquezas extraordinárias que nenhum governo pode taxar, nenhum a empresa hum ana pode lorrom per e que nunca podem ser destruídas.

Pergunta: É seu passatempo dar palestras? Não fica cansado de falar? Por que está fazendo isso?

Krishnamurti: Fico contente por você ter feito esta pergunta. Sa bem, se amam uma coisa, nunca se cansam dela — quero dizer o amor que existe sem a busca por um resultado, sem desejar algo em troca. Quando amam alguma coisa, não é autorrealização, por tanto não há desapontamento, não há fim. Por que estou fazendo isso? Vocês podem perguntar também por que as rosas florescem, por que o jasmim espalha seu perfume ou por que o pássaro voa.

Vejam, tentei não falar, descobrir o que acontece se eu não falar. Também está certo. Compreendem? Se vocês falam porque con seguem algo com essa ação — dinheiro, recompensa, um senso da sua própria importância — , então vem o cansaço, a fala se tor na destrutiva, não há significado, porque é somente autorrealização. Mas se houver amor no coração, e o coração não estiver cheio das coisas da mente, então será como uma fonte, como uma nas cente que sempre tem fornecido água pura.

Pergunta: Quando eu amo uma pessoa e ela fica zangada, por que sua raiva é tão intensa?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, você ama alguém? Sabe o que é amar? É dar completamente a mente, o coração, todo o ser e não pedir nada em retorno, não estender uma tigela de esmola para receber amor. Compreende? Q uando existe esse tipo de amor, existe a raiva? E por que ficamos zangados quando ama mos alguém com o chamado amor comum? É porque não estamos conseguindo algo que esperamos dessa pessoa, não é? Eu amo minha esposa ou meu marido, meu filho ou m inha filha, mas no momento em que fazem algo de “errado” fico zangado. Por quê?

Por que o pai fica zangado com o filho ou com a filha? Porque ele quer que a criança seja ou faça algo, se ajuste a determinado padrão, e a criança se rebela. Os pais tentam se realizar, se im ortalizar por meio de suas propriedades, dos filhos, e quando a criança faz algo que eles desaprovam, ficam violentamente zangados. Têm um ideal daquilo que a criança deveria ser, e mediante esse ideal eles estão realizando a si próprios; e ficam bravos quando a criança não se ajusta a esse padrão, que é a realização deles.

Já notaram como, às vezes, vocês ficam zangados com um amigo? É o mesmo processo. Estão esperando alguma coisa dele, e quando a expectativa não é realizada, ficam desapontados — significa, na verdade, que, interna e psicologicamente, vocês estão dependentes dessa pessoa. Portanto, onde houver dependência psicológica, haverá frustração; e esta produz inevitavelmente raiva, amargor, ciúme e várias outras formas de conflito. Por isso, é muito importante, sobretudo quando ainda se é jovem, amar algo com todo o ser — uma árvore, um animal, o professor, o pai — , pois então descobrirão por si mesmos o que é existir sem conflito, sem medo.

Mas, vejam, o educador está, em geral, preocupado consigo mesmo; fica aprisionado nas próprias preocupações pessoais em relaÇão à família, ao dinheiro, à posição. Não tem amor no cora­ção, e essa é uma das dificuldades na educação. Vocês podem ter amor no coração, porque amar é algo natural quando se é jovem, mas que é logo destruído pelos pais, pelo educador, pelo am biente social. Manter a inocência, o amor, que é o perfume da vida, é extraordinariamente trabalhoso; requer muita inteligência, muito insight.

Pergunta: Como a mente pode ultrapassar seus obstáculos?

Krishnamurti: Para ir além dos impedimentos a mente precisa, primeiro, estar consciente deles, não é? Vocês devem conhecer os limites, as divisões, as fronteiras da própria mente, e bem poucos de nós os conhecem. Dizemos que sabemos, mas é somente uma afirmação verbal. Nunca dizemos: “Aqui está uma barreira, um cativeiro dentro de mim, e quero compreendê-lo; portanto, desejo reconhecê-lo, ver como começou a existir e toda a sua natureza.” Quando se sabe qual é a doença, existe uma possibilidade de cura. Mas para cònhecer a doença, saber qual é a limitação, divisão ou impedimento em particular da mente, e compreendê-la, é preciso não condená-la; não se deve dizer que é certa ou errada. É necessário observar sem em itir opinião, um preconceito sobre ela — o que é extraordinariamente difícil, porque somos induzidos a condenar.

Para compreender uma criança, não pode haver condenação. Condená-la não tem significado. É preciso observá-la brincando, chorando, comendo. Vocês têm de observá-la em todos os seus humores, e não conseguirão fazê-lo se disserem que ela é feia, estúpida, isto ou aquilo. Similarmente, se alguém consegue observar os impedimentos da mente, não apenas os superficiais, mas também os mais profundos no inconsciente — observá-los sem condenar — , então a mente poderá ir além deles. 0 movimento será em direção da verdade.

Pergunta: Por que Deus criou tantos homens e mulheres no mundo?

Krishnamurti: Por que você garante que Deus nos criou? Existe uma explicação bem simplès: o instinto biológico. Instinto, desejo, paixão, luxúria, todos são parte da vida. Se vocês dizem: “A vida é Deus”, então é diferente. Então Deus é tudo, inclusive pai- xlo, luxúria, inveja, medo. Todos esses fatores ajudaram a produzir no mundo um número esmagador de homens e mulheres, por isso existe o problema da superpopulação, que é uma das maldições desta terra. Mas, vejam, o problema não é de fácil resolução. Existem várias urgências e compulsões que o homem herdou e, sem a compreensão dessa complexidade, simplesmente tentar regular à taxa de nascimento não tem muito significado. Fizemos uma bagunça no mundo, cada um de nós, porque não sabemos o que é viver. Viver não é essa coisa vistosa, medíocre, disciplinada que chamamos de nossa existência. Viver é algo bem diferente; é demasiado rico, interminavelmente mutável, e enquanto não compreendermos esse movimento eterno, nossas vidas estarão destinadas a ter muito pouco significado.

13. Igualdade e liberdade

A CHUVA CAINDO SOBRE A TERRA seca é uma coisa extraordinária, não é? Ela lava as folhas, a terra é refrescada. E acho que todos devemos lavar e deixar nossas mentes completamente limpas, assim como as árvores são lavadas pela chuva, porque elas ficam muito sobrecarregadas com a poeira de vários séculos, que chamamos de conhecimento, experiência. Se vocês e eu lavássemos a mente todos os dias, deixando-a livre das reminiscências de ontem, cada um de nós teria uma mente aberta, capaz de lidar com os vários problemas da existência.

Um dos grandes problemas que está perturbando o mundo é o que chamamos de igualdade. Em certo sentido, não existe essa igualdade, porque todos nós temos várias capacidades diferentes; porém, estamos discutindo a igualdade do ponto de vista de que todas as pessoas deveriam ser tratadas igualmente. Na escola, por exemplo, diretores, professores e monitores são meramente empregos, funções; contudo, junto com certos empregos e funções, vem o que chamamos de status, que é respeitado porque implica poder, prestígio; significa estar em uma posição de destacar pessoas, distribuir os indivíduos, dar emprego aos amigos e membros da família. Então, com a função, vem o status. Mas se conseguirmos remover a ideia de status, poder, posição, prestígio e de distribuir benefícios aos outros, então a função teria um significado bem diferente e mais simples, não é? Então, se as pessoas fossem governantes, primeiros-ministros, cozinheiros ou meros professores, todos seriam tratados com o mesmo respeito, porque todos estariam realizando uma função diferente, porém necessária, na sociedade.

Sabem o que aconteceria, especialmente em uma escola, se pudéssemos retirar da função todo o sentido de poder, posição, prestígio, o sentimento de “Eu sou o chefe, eu sou importante”? Todos estaríamos vivendo em uma atmosfera bem diferente, não? Não haveria autoridade no sentido de alto e baixo, grande homem e pequeno homem, e existiria, portanto, liberdade. E é muito importante que possamos criar esse tipo de atmosfera na escola: de liberdade, na qual existe amor, na qual se sente um tremendo senso de confiança, porque, vejam, a confiança existe quando nos sentimos completamente à vontade, seguros. Vocês se sentem seguros na própria casa se seu pai, sua mãe e sua avó estão constantemente lhes dizendo o que fazer, de maneira que vocês, aos poucos, perdem toda a confiança para realizar algo por si mesmos? Quando crescerem, vocês deverão ser capazes de discutir, de descobrir se aquilo que pensam é verdadeiro e se apegar a isso. Deverão ser capazes de defender algo que sentem que é correto, mesmo que traga dor, sofrimento, perda de dinheiro e todo o restante; e para isso vocês devem se sentir, enquanto são jovens, completamente seguros e à vontade.

A maioria das pessoas jovens não se sente segura porque têm medo. Temem os mais velhos, os professores, os pais; por isso, nunca estão realmente à vontade em casa. Mas quando sentem, acon- fpi e uma coisa muito estranha. Quando podem ir para o quarto, trancar a porta e ficar a sós consigo mesmos, sem serem notados, iim ninguém lhes dizer o que fazer, se sentem inteiramente segu- t .1 ■; e, então, começam a florescer, a compreender, a desabrochar. Ajuda-las a desabrochar é função da escola. E se ela não o fizer, não é uma escola.

Quando se sentem à vontade em um lugar — seguros, não derrotados, não compelidos a fazer isto ou aquilo — , quando e sentem felizes, completamente relaxados, então não estão fa- rndo travessuras. Q uando estão de fato felizes, não querem machucar ninguém, não querem destruir nada. Mas fazer o aluno se sentir completamente feliz é difícil demais, porque ele vem para a escola com a ideia de que o diretor, os professores e os monitores irão lhe dizer o que fazer, cerceando-o, e por isso existe o medo.

A maioria de vocês vem de lares ou de escolas nas quais foram ensinados a respeitar o status. O pai e a mãe têm status, o diretor tem status, por isso vocês chegam com medo, respeitando o status. Mas devemos criar na escola uma atmosfera verdadeira de liberdade, e isso só pode ocorrer quando existe a função sem r>tutus; logo, um sentimento de igualdade. A verdadeira preocupa­ção da educação correta é ajudá-los a ser seres humanos vivos, sensíveis, que não sentem medo e que não têm o senso falso do tespeito em relação ao status.

Pergunta: Por que sentimos prazer nos jogos e não nos estudos?

Krishnamurti: Pela simples razão de que os professores não sabem como ensinar. Só isso, não existe nenhum a razão complicada. Se o professor adora matemática, história ou a m até- ria que ele ensina, então vocês tam bém gostarão dessa m atéria porque o am or por algo é transm itido. Não sabiam? Se um músico adora cantar e todo o seu ser fica envolvido, o sentimento passa para aqueles que estão ouvindo. Vocês sentem que tam bém gostariam de aprender a cantar. Porém, a m aioria dos educadores não ama o que ensina; tornou-se um fardo para eles, um a rotina por meio da qual ganham o sustento. Se os professores realmente gostassem de ensinar, sabem o que aconteceria? Vocês seriam seres hum anos extraordinários. Amariam não somente os jogos e os estudos, mas as flores, o rio, os pássaros, a terra, porque haveria algo vibrando em seus corações; e vocês aprenderiam m uito mais rapidam ente, suas mentes seriam excelentes, e não medíocres.

Por isso é muito importante educar o educador, o que é muito difícil, porque a maior parte deles já está estabelecida em seus hábitos. Mas o hábito não é entranhado tão pesadamente nos jovens, e se vocês amam pelo menos uma coisa — se realmente amam os jogos, a matemática, a história, pintar ou cantar — , então descobrirão que estão intelectualmente alertas, vivos, e se sairão bem nos estudos. Afinal, a mente deseja questionar, saber porque é curiosa, mas a curiosidade é destruída pelo tipo errado de educação. Portanto, não é somente o aluno que precisa ser educado, mas também o professor. O próprio ato de viver é um processo de educação, de aprendizado. Existe um fim para as provas, mas não existe um fim para aprender, e vocês podem aprender a partir de tudo se a mente for curiosa, alerta.

Pergunta: Você disse que quando alguém vê que algo é falso, a coisa falsa é suprimida. Vejo diariamente que fum ar é algo falso, mas ele continua a existir.

Krishnamurti: Já viu adultos fumando, inclusive os pais, professores, vizinhos ou qualquer outra pessoa? Tornou-se um hábito para eles, não é? Continuam a fumar dia após dia, ano após ano, são escravos do hábito. Muitos deles compreendem como é estúpido ser escravo de algo, e lutam, disciplinam-se, resistem, tentam de todas as maneiras se livrar disto. Mas, vejam, o hábito é algo inerte, é uma ação que se tornou automática, e quanto mais o enfrentam, mais o reforçam. Mas se a pessoa que fuma se deu conta da dependência, se está consciente ao buscar o maço de cigarros, tirar um deles, colocá-lo na boca, acendê-lo e puxar a primeira tragada — se a cada vez que passar por essa rotina, observar o ato sem condenar, sem dizer como é terrível fum ar— , ela não o estará alimentando em particular. Mas, para realmente acabar com algo que se tornou um hábito, é preciso investigar muito mais, o que significa penetrar no problema de por que a mente o cultiva — ou seja, por que a mente está tão desatenta. Se vocês escovam os dentes todos os dias olhando pela janela, a limpeza se tornou um hábito; porém, se sempre limpam os dentes com muito cuidado, dedicanto toda a atenção, então não se tornou um costume, uma rotina que é repetida sem pensar.

Experimentem, observem como a mente deseja dorm ir por intermédio do hábito para não ser perturbada. A mente de m uitas pessoas sempre funciona no trilho das manias, e à medida que crescemos, fica pior. Provavelmente, vocês já adquiriram dúzias de hábitos. Temem o que acontecerá se não fizerem o que os pais dizem, se não se casarem como eles desejam, e a mente já segue no trilho. E quando ela se mantém no caminho, mesmo se vocês só têm 10 ou 15 anos, já estão velhos, internamente decadentes. Podem ter um bom corpo, porém nada além disso. O corpo pode ser jovem e ereto, mas a mente já está curvada sob o próprio peso.

Por isso, é muito importante compreender todo o problema de por que a mente sempre se refugia nos hábitos, anda na linha, move-se ao longo de determinado par de trilhos como um bonde, e teme questionar, inquirir. Se vocês dizem: “Meu pai é um sique, portanto sou um sique e deixarei o cabelo crescer e usarei turbante”— se vocês dizem-no sem inquirir, sem questionar, sem qualquer pensamento sobre se revoltar, então vocês são uma máquina. O ato de fumar também os transforma em uma máquina, um escravo do hábito, e será somente quando compreenderem tudo isso que a mente ficará refeita, jovem, ativa, para que cada dia seja um novo dia, cada entardecer refletido no rio seja um belo espetáculo para ser visto.

Pergunta: Por que temos medo quando pessoas mais velhas ficam sérias? E o que as deixa tão sérias?

Krishnamurti: Já pensaram sobre o que significa ser sério? Vocês são sempre sérios? Estão sempre alegres, constantemente leves, rindo, ou existem momentos em que ficam quietos, sérios — não a respeito de alguma coisa, mas somente sérios? E por que devemos ficar assustados quando as pessoas mais velhas ficam sérias? O que existe para haver medo? Temem que elas notem algo em vocês que não gostam em si mesmos? Vejam, muitos de nós não pensam nesses assuntos; se sentimos medo na presença de uma pessoa mais velha, que é séria, fechada, não perguntamos o porquê, nem a nós mesmos. “Por que estamos com medo?”

Mas o que é ser sério? Vamos descobrir. Vocês podem ser sérios a respeito de coisas bem superficiais. Ao comprar um sári, por exemplo, podem dedicar toda a atenção ao ato, preocupar-se, ir a dez lojas diferentes e passar uma manhã inteira olhando as diversas estamparias. Isso é também chamado de ser sério; no entanto, essa pessoa é séria somente de modo superficial. Vocês podem ser sérios em relação a ir ao templo todos os dias, levar uma guirlanda para colocar lá, dar dinheiro para os sacerdotes; é muito fácil, não é? Porque a verdade ou Deus não está em nenhum templo. E vocês podem ser bem sérios a respeito do nacionalismo, que também é algo falso.

Sabem o que é o nacionalismo? É o sentimento de “Minha ín dia, meu país, certo ou errado”, ou o de que a índia possui vários tesouros de conhecimento espiritual, sendo, portanto, maior do que qualquer outra nação. Quando nos identificamos com um país em particular e sentimos orgulho, despertamos o nacionalismo no mundo. O nacionalismo é um deus falso, porém milhões de pessoas são bem sérias quanto a isso; vão para a guerra, destroem, matam ou são mortas em nome de seu país, e esse tipo de seriedade é utilizada e explorada pelos políticos.

Então vocês podem encarar com seriedade coisas falsas, mas se realmente começarem a inquirir sobre o que significa ser sério, descobrirão que existe uma seriedade que não é medida pela atividade do falso ou moldada por um determinado padrão — uma seriedade que acontece quando a mente não está buscando um resultado, um fim.

Pergunta: O que é destino?

Krishnamurti: Querem realmente encarar o problema? Fazer esta pergunta é a coisa mais fácil do mundo, mas só terá significado se ela afetar vocês diretamente a fim de que a encarem com seriedade. Já notaram quantas pessoas perdem o interesse depois de fazer perguntas? Outro dia um homem apresentou uma questão e depois começou a bocejar, coçar a cabeça e conversar com a pessoa ao lado. Tinha perdido completamente o interesse. Por isso sugiro que vocês só façam uma pergunta quando estiverem realmente interessados nela.

O problema de saber o que é o destino é muito difícil e complexo. Vejam, se a causa for estabelecer uma meta, ele inevitavelmente produzirá um resultado. Um vasto número de pessoas, sejam russas, norte-americanas ou hindus, se prepara para a guerra; o destino é a guerra; embora possam pensar que desejam a paz e que estão se preparando somente para sua própria defesa, estabeleceram causas que trarão a guerra. Da mesma forma, quando milhões de pessoas, por séculos, tomaram parte no desenvolvimento de uma determinada civilização ou cultura, deram início a movimentos nos quais os seres humanos, como indivíduos, são aprisionados e eliminados, gostando ou não. E todo o processo de ser preso e eliminado por uma corrente particular de cultura ou civilização pode ser chamado de destino.

Afinal, se você nasceu filho de um advogado, que insiste que você também se torne advogado, e se você cede aos desejos dele mesmo que deseje ser outra coisa, então seu destino será obviamente tornar-se um advogado. Mas se recusar-se, se insistir em fazer aquilo que sente que é verdadeiro, que realmente quer fazer — seja escrever, pintar ou não ter dinheiro e esmolar — , então saiu da corrente, rompeu com o destino que seu pai pretendeu para você. É o mesmo que acontece com uma cultura ou civilização.

Por isso, é muito importante que sejamos corretamente educados — não para sermos asfixiados pela tradição; não para cairmos no destino de um determinado grupo racial, cultural ou familiar; não para nos tornarmos seres mecanizados nos movendo para um determinado fim. O homem que compreender todo o processo, que romper com ele e permanecer só, criará o próprio momentunv, e se sua ação for romper com a falsidade em direção à verdade, então o próprio momentum se tornará a verdade. Trata-se de homens livres do destino.

14. Autodisciplina

JA CONSIDERARAM POR QUE SOMOS disciplinados ou por que nos disciplinamos? Partidos políticos em todo o mundo insistem que a disciplina do partido precisa ser seguida. Os pais, os professores, a sociedade à sua volta — todos lhes dizem que vocês devem er disciplinados, controlados. Por quê? E existe realmente uma necessidade de haver disciplina? Sei que estamos acostumados a pensar que a disciplina é necessária— aquela imposta pela socie- ilade, por um professor religioso ou por um código moral particular, ou pela nossa própria experiência. O hom em ambicioso que ileseja ter sucesso, quer ter dinheiro, almeja ser um grande políti- io — a ambição se torna o meio da própria disciplina. Então, todos à nossa volta dizem que a disciplina é necessária: vocês devem ir para a cama e se levantar a determinada hora, devem estudar, ser aprovados, obedecer ao pai e à mãe, e assim por diante.

Bem, por que devem realmente ser disciplinados? O que significa disciplina? Significa ajustar-se a alguma coisa, não é? Ajus-liir seu pensamento ao que os outros dizem, resistir a certas formas de desejo e aceitar outras, ceder a esta prática e não a outra, se conformar, suprimir, seguir não somente de maneira superficial na mente, mas também com profundidade — tudo isso implica disciplina. E por séculos, era após era, nos é dito pelos pró- fessores, gurus, sacerdotes, políticos, reis, advogados, pela sociedade na qual vivemos que deve haver disciplina.

Por isso eu me pergunto — e espero que vocês também o façam — se a disciplina é realmente necessária, e se não existiria uma abordagem bem diferente para esse problema? Acho que existe, e esse é o ponto que todas as escolas, e também o mundo inteiro, estão questionando. Vejam, é geralmente aceito que para serem eficientes vocês devem ser disciplinados, seja por um código moral, um credo político ou por serem treinados a trabalhar como máquinas em uma fábrica. Porém, o próprio processo da disciplina está deixando a mente entorpecida pelo conformismo.

E a disciplina os deixa livres ou os fazem se conformar a um padrão ideológico, seja o utópico do comunismo, ou algum tipo de moral ou religião? A disciplina pode libertá-los? Ao limitá-los, deixando-os prisioneiros, como fazem todas as formas de disciplina, poderá deixá-los livres? De que maneira? Ou existe uma outra abordagem — que é despertar um verdadeiro insight para todo o problema da disciplina? Isto é, pode o indivíduo ter somente um desejo e não dois ou mais conflitantes? Entendem o que quero dizer? No momento que tiverem dois, três ou dez desejos, vocês terão também o problema da disciplina, ou não? Querem ser ricos, ter carros, casas, e ao mesmo tempo querem renunciar a essas coisas porque acham que possuir pouco ou nada é moral, ético, religioso. E é possível ser educado da maneira correta para que todo o ser permaneça integrado, sem contradição e, portanto, sem a necessidade da disciplina? Ser integrado implica um senso de liberdade, e quando essa integração ocorre, certamente não há necessidade de disciplina. Integração significa ser algo totalmente, em todos os níveis, ao mesmo tempo.

Vejam, se conseguirem receber a educação correta desde a mais tenra idade, se formará um estado no qual não existe nenhuma contradição, seja interior ou exterior; e, então, não haverá necessidade de disciplina ou compulsão, porque vocês estarão fazendo algo totalmente, com liberdade, com todo o seu ser. A disciplina surge somente quando existe a contradição. Políticos, governos, religiões organizadas desejam que vocês tenham somente uma maneira de pensar porque, se puderem lhes transformar em um comunista completo, um católico perfeito, ou qualquer outra coisa, então vocês não serão um problema, e simplesmente acreditarão e trabalharão como máquina; não haverá contradição, porque vocês apenas seguirão. Mas o ato de seguir cegamente é destrutivo, porque é mecânico; um mero conformismo no qual não há liberação criativa.

Mas nós poderemos formar desde cedo o senso de completa segurança, a sensação de estar em casa para que em vocês não haja luta para ser isto e não aquilo? No m om ento em que houver uma luta interna, haverá conflito, e para superar esse conflito será preciso disciplina. Porém, se forem profundamente educados, então tudo que fizerem será uma ação integrada. Enquanto não houver integração, será necessário disciplina, mas esta é destrutiva, porque não conduz à liberdade.

Ser integrado não exige qualquer forma de disciplina. Isto é, se eu estou fazendo o que é bom, o que é intrinsecamente verdade, o que é de fato belo, realizando-o com todo o meu ser, não haverá contradição em mim, e não estarei simplesmente me conformando com algo. Se o que fizer for totalmente bom, certo por si— não segundo alguma tradição hindu ou teoria comunista, mas atem-poralmente sob todas as circunstâncias —, então serei um ser humano integrado e não terei necessidade de disciplina. E não é fun­ção da escola formar em vocês o senso de confiança integrada, para que aquilo que fizerem não seja apenas o que desejam, mas o que é fundamentalmente certo e bom> a verdade permanente?

Sabem, se vocês amam, não há necessidade de disciplina. O amor traz a própria compreensão criativa, portanto, não há resistência, conflito. Mas amar com integração completa só é possível quando vocês se sentem profundamente seguros, bastante à vontade, em particular quando são jovens. Significa, na verdade, que educador e aluno devem ter confiança completa entre si, pois de outra forma criaremos uma sociedade que é tão danosa e destrutiva quanto a atual. Se pudermos compreender o significado da ação completamente integrada, na qual não existe contradi­ção e, portanto, sem necessidade de disciplina, então acho que criaremos um tipo totalmente diferente de cultura, uma nova civilização. Mas se apenas resistirmos, suprimirmos, então o que for suprimido inevitavelmente será desviado para outras direções e estabelecerá várias atividades errôneas e eventos destrutivos.

Por isso é muito importante compreender a questão da disciplina. Para mim, a disciplina é algo danoso; não é criativa, mas destrutiva. E simplesmente terminar aqui, com uma frase desse tipo, pode deixar implícito que vocês devem fazer tudo que querem. É somente o amor que conduz à ação correta. O que traz o amor para o mundo é amar e deixar o amor agir.

Pergunta: Por que detestamos pessoas pobres?

Krishnamurti: Vocês realmente detestam os pobres? Não os estou condenando,só perguntando se realmente detestam os pobres. E por quê? É porque poderão ser pobres um dia e, ao imaginar a situação difícil, vocês a rejeitam? Ou será que sentem aversão pela existência sórdida, suja, descuidada dos pobres? Ao rejeitar o desleixo, a desordem, a imundície, a sujeira, vocês dizem: “Não quero nada igual aos pobres.” Ê isso? Mas quem criou a pobreza, a imundície e a desordem no mundo? Vocês, seus pais, seu governo — toda a sociedade os criou, porque não têm amor nos corações. Não temos amor nem pelos nossos filhos, nem pelos nossos vizinhos, nem pelos vivos ou pelos mortos. Não temos amor por coisa alguma. Os políticos, as religiões e os reformadores não erradicarão a miséria e a feiúra do m undo porque só estão preocupados em remendar aqui e ali; mas, se houvesse amor, o feio desapareceria amanhã.

Vocês amam alguma coisa? Sabem o que é o amor? Quando amam algo completamente, com todo o seu ser, esse amor não é sentimental, não é um dever, não é dividido entre físico ou divino. Amam alguém ou alguma coisa com todo o ser— os pais, o amigo, o cachorro, a árvore? Amam? Temo que não. Esse é o motivo de existirem vastos espaços em seu ser onde existe feiúra, ódio, inveja. Vejam, o homem que ama não tem espaço para nada mais. Deveríamos realmente dedicar nosso tempo para discutir e descobrir como remover as coisas que estão desordenando nossa mente, de modo que não conseguimos amar; pois somente quando amarmos é que poderemos ser livres e felizes. Só as pessoas que amam e estão vivas e felizes podem criar um mundo novo — não os políticos, não os reformadores ou alguns santos ideológicos.

Pergunta: Você falou sobre a verdade, o bem e a integração, o que implica que do outro lado estão o falso, o mal e a desintegração. Então, como ser verdadeiro, bom e integrado sem disciplina?

Krishnamurti: Em outras palavras, sendo invejoso, como pode- se ficar livre da inveja sem a disciplina? Acho que é muito importante compreender a pergunta em si, porque a resposta está na própria pergunta, e não fora dela.

Sabem o que significa a inveja? Vocês têm uma boa aparência, estão bem-vestidos, usam um belo turbante ou sári, e eu tam bém gostaria de estar bem-vestido assim. Mas não posso, e por isso sinto inveja. Tenho inveja porque desejo o que vocês têm; quero ser diferente do que sou.

Sinto inveja porque quero ser tão bonito quanto vocês; quero ter belas roupas, uma casa elegante ou uma posição na sociedade, como vocês. Estando insatisfeito com a maneira como sou, quero ser como vocês; mas se compreendo minha insatisfação e suas causas, então não gostaria de ser como vocês, nem ansiar pelas coisas que vocês têm. Em outras palavras, quando começar a compreender o que sou, não me compararei com o outro nem terei inveja de ninguém. A inveja surge porque quero m udar a mim mesmo e ser como o outro. E se eu disser: “Seja como for, é isso que desejo compreender”, então a inveja desaparecerá; não haverá necessidade de disciplina, e da compreensão do que sou surgirá a integração.

Nossa educação, nosso ambiente, toda a nossa cultura insiste em que sejamos alguma coisa. As filosofias, as religiões e os livros sagrados, todos dizem a mesma coisa. Porém, agora, vejo que o próprio processo de ser alguma coisa implica inveja; o que significa que não estou satisfeito com o que sou; e quero compreender o que sou, quero descobrir por que estou sempre me comparando com alguém, tentando me tornar alguma coisa; e com a compreensão do que sou não há necessidade de disciplina. No processo dessa compreensão, surge a integração. A contradição em mim conduz à compreensão de mim, e isso, por sua vez, produz uma ação que é integral, total.

Pergunta: O que é poder?

Krishnamurti: Existe o poder mecânico, o poder produzido pela máquina de combustão interna, pelo vapor ou pela eletricidade. Existe o poder que habita a árvore, que faz a seiva fluir, que cria a folha. Existe o poder de pensar com clareza, o de amar, o de odiar, o de um ditador, o de explorar pessoas em nome de Deus, em nome dos mestres, em nome de um país. Todas são formas de poder.

E o poder como eletricidade ou luz, o atôm ico e os o u tros — todas essas formas de poder são boas em si mesmas, não são? Mas o poder da mente, que o utiliza para propósitos de agressão e tirania, para ganhos pessoais, é maligno sob todas as circunstâncias. O líder de qualquer sociedade, igreja ou grupo religioso que tem poder sobre outras pessoas é uma pessoa má, porque ele está controlando, moldando, guiando os outros sem saber para onde ele próprio está indo. Isso é verdade, não somente em relação a grande organizações, mas também nas pequenas sociedades em todo o m undo. No mom ento em que a pessoa fica sem barreiras e pensa com clareza, ela deixa de ser um líder e, portanto, não tem poder.

Por isso é muito importante compreender por que a mente humana exige ter poder sobre os outros. Os pais têm poder sobre os fijhos, a esposa sobre o marido, ou o marido sobre a esposa. Começando em uma família pequena, o mal se estende até se tornar uma tirania de governos, líderes políticos e intérpretes religiosos. E alguém pode viver sem a fome de poder, sem desejar influenciar ou explorar pessoas, sem desejar poder para si, para um grupo ou uma nação ou para um mestre ou um santo? Todas as formas de poder são destrutivas, trazem miséria ao homem. Ao passo que ser realmente gentil, respeitar as pessoas, amar, é uma coisa estranha, possui seu próprio efeito atemporal. O amor é a própria eternidade, e onde existe amor não existe poder maléfico.

Pergunta: Porque buscamos a fama?

Krishnamurti: Já pensaram a respeito? Desejamos ser famosos como escritor, poeta, pintor, político, cantor. Por quê? Porque realmente não gostamos daquilo que fazemos. Se amássemos cantar, pintar ou escrever poemas — se realmente amássemos — , não estaríamos preocupados se somos famosos ou não. Desejar ser famoso denota mau gosto, é trivial, estúpido, sem significado. Mas, como não gostamos do que fazemos, desejamos nos enriquecer com a fama. A educação atual é apodrecida porque nos ensina a amar o sucesso, e não aquilo que estamos fazendo. O resultado tornou-se mais importante do que a ação.

Sabem, é bom esconder o próprio brilhantismo, ser anônimo, amar o que está fazendo e não se mostrar. É bom ser gentil sem aparecer. Isso não lhes trará a fama, não fará com que sua fotografia saia nos jornais. Os políticos não baterão à sua porta. Vocês serão somente seres humanos criativos vivendo anonimamente, e nisso há riqueza e grande beleza.

15. Cooperação e participação

TEMOS FALADO A RESPEITO de tantos assuntos, de vários problemas da vida, não é? Porém me pergunto se realmente sabemos o que é um problema. Os problemas se tornam difíceis de serem resolvidos se permitirmos que eles criem raízes na mente. A mente os cria, e depois se torna o solo no qual eles se enraízam; e uma vez bem estabelecidos na mente é m uito difícil arrancá- los. O essencial é que a própria mente os veja e não ceda espaço para que cresçam.

Um dos problemas básicos confrontando o mundo é o da cooperação. O que significa a palavra cooperação? Cooperar é fazer as coisas juntos, construir juntos, sentir juntos, ter alguma coisa em comum para podermos trabalhar livremente juntos. Porém, as pessoas em geral não se sentem inclinadas a trabalhar juntas, de m odo natural, fácil e feliz; por isso, são compelidas a fazê-lo por meio de vários incentivos: ameaça, medo, punição, recompensa. Essa é a prática comum no mundo. Sob governos tirânicos, vocês são brutalmente forçados a trabalhar juntos; se não “cooperarem”, estarão liquidados ou enviados para um campo de concentração. Nas chamadas nações civilizadas, vocês são induzidos a trabalhar juntos por meio do conceito de “meu país”, ou por uma ideologia que foi cuidadosamente planejada e am plamente propagada para que a aceitem; ou vocês trabalham juntos para realizar um plano que alguém bolou, um esquema para uma Utopia.

Então, esse é o plano, a ideia, a autoridade que induz as pessoas a trabalharem unidas. Em geral, chamamos de cooperação, e nela existe sempre a implicação de recompensa ou punição, que significa que por trás dessa “cooperação” existe medo. Vocês estão sempre trabalhando por alguma coisa — pelo país, para o rei, para o partido, por Deus ou pelo mestre, pela paz ou para fazer esta ou aquela reforma. A ideia que vocês têm de cooperação é trabalhar juntos para um determinado resultado; têm um ideal — construir uma escola perfeita ou o que for — , para o qual estão trabalhando, e dizem, portanto, que a cooperação é necessária. Tudo isso implica autoridade, não é? Existe sempre alguém que supomos que sabe qual é a coisa certa a se fazer, e então vocês dizem: “Precisamos cooperar para realizar.”

Não chamo isso de cooperação. Não é cooperação, trata-se de uma forma de ganância, de medo, de compulsão. Por trás existe a ameaça de que, se não cooperarem, o governo não os reconhecerá, ou um Plano de Cinco Anos falhará, ou serão enviados para um campo de concentração, ou o país perderá a guerra, ou vocês não irão para o céu. Existe sempre alguma forma de incentivo, e onde existe incentivo não pode haver cooperação verdadeira.

Nem existe cooperação quando vocês e eu trabalhamos ju n tos apenas porque concordamos mutuamente em fazer algo. Em qualquer acordo, o importante é fazer o que foi determinado, não trabalhar juntos. Vocês e eu podemos concordar em construir uma ponte, fazer uma estrada ou plantar algumas árvores juntos, mas nesse acordo existe sempre o medo do desacordo, o medo de que eu não faça a minha parte e deixe que vocês façam tudo.

Por isso não existe cooperação quando trabalhamos juntos por meio de qualquer forma de incentivo, ou por mero acordo, porque por trás de todo esforço existe a implicação de ganhar ou evitar algo.

Para mim, cooperação é completamente diferente. Coopera­ção é a diversão de ser e fazer juntos — não necessariamente fazer algo em particular. Compreendem? As crianças possuem, em geral, o sentimento de ser e fazer juntos. Já notaram? Elas cooperam em tudo. Não existe problema de acordo ou desacordo, recompensa ou punição; elas só querem ajudar. Cooperam instintivamente pela alegria de ser e fazer juntos. Mas as pessoas adultas destroem o espírito natural, espontâneo, de cooperação nas crianças ao dizerem: “Se vocês fizerem isto, eu lhes darei aquilo; se não o fizerem, não deixarei vocês irem ao cinema”, o que introduz o elemento corruptor.

Então, a verdadeira cooperação surge não apenas no acordo de realizar juntos algum projeto, mas na alegria, na sensação da união, se podemos usar esta palavra, porque nela não existe obstinação de ideação, de opinião pessoal.

Quando vocês conhecem a cooperação, conhecem também o não cooperar, que é igualmente importante. Compreendem? É necessário que todos despertemos em nós mesmos o espírito de cooperação, pois então não será um mero plano, ou acordo, que nos fará trabalhar juntos, mas a sensação extraordinária da união, a sensação de alegria em ser e fazer juntos sem qualquer pensamento de recompensa ou punição. É muito importante. Mas é igualmente importante saber quando não cooperar, porque, se não formos sábios, poderemos cooperar com os não sábios, com líderes ambiciosos que têm esquemas grandiosos, ideias fantásticas, como Hitler e outros tiranos da história. Por isso, precisamos saber quando não cooperar; e somente poderemos saber quando conhecermos a alegria da verdadeira cooperação.

Trata-se de uma questão muito importante, sobre a qual devemos conversar, porque, quando é sugerido que trabalhemos juntos, a resposta imediata provavelmente será: “Para quê? O que teremos de fazer?” Em outras palavras, a coisa a ser feita torna-se mais importante do que a sensação de ser e fazer juntos; e quando a coisa a ser feita — plano, conceito, utopia ideológica — assume a importância primária, então não existe cooperação verdadeira. É somente a ideia que está nos mantendo juntos; e se uma ideia pode nos unir, outra pode nos dividir. Portanto, o que im porta é despertarmos em nós o espírito de cooperação, o sentimento de alegria em ser e fazer juntos, sem qualquer noção de recompensa ou punição. Muitas pessoas jovens o possuem espontânea e livremente, se não foram corrompidas pelos mais velhos.

Pergunta: Como nos livrarmos das preocupações mentais se não podemos evitar as situações que as originam?

Krishnamurti: Então vocês têm de enfrentá-las, não é? Para se livrarem das preocupações, vocês geralmente tentam escapar do problema; vão a um templo ou ao cinema, leem uma revista, ligam o rádio, ou buscam uma outra forma de distração. Mas escapar não resolve o problema porque, quando vocês retornam, ele continua ali; então, por que não encará-lo desde o início?

E o que significa preocupação? Vocês se preocupam se serão aprovados nos exames, e temem que isso não aconteça; então labutam contra isso, passam noites acordados. Se não passarem, os pais ficarão desapontados, mas também vocês gostariam de dizer: “Consegui, fui aprovado.” Continuam a se preocupar até o dia da prova e, depois, até saberem os resultados. Podem escapar, sair da situação? Na verdade, não. Por isso têm de encará-la. Mas por que se preocupar? Vocês estudaram, deram o melhor de si, e passarão ou não. Quanto mais se preocuparem, mais assustados e nervosos ficarão, e menos capazes de pensar; e quando o dia chega, vocês não conseguem escrever uma linha, só conseguem olhar para o relógio — isso aconteceu comigo!

Quando a mente pensa e remói um problema, permanecendo totalmente concentrada nele, é isso que chamamos de preocupação, não é? E como se livrar dela? Em primeiro lugar, é importante para a mente não ceder espaço para que o problema crie raízes.

Sabem o que é a mente? Grandes filósofos passaram vários anos examinando a natureza da mente, e livros foram escritos sobre ela; mas se alguém dedicar realmente toda a atenção a ela, acho que será bem simples descobrir o que é a mente. Já observaram a própria mente? Tudo que aprenderam até agora, a memória de todas as suas pequenas experiências, o que lhes foi dito por seus pais, pelos professores, o que leram nos livros ou observaram no mundo à sua volta — tudo isso é a mente. É ela que observa, que discerne, que aprende, que cultiva as chamadas virtudes, que comunica as ideias, que tem desejos e medos. Não é somente o que você vê na superfície, mas também nas camadas profundas do inconsciente, nas quais estão escondidas as ambições raciais, os motivos, as urgências, os conflitos. Tudo isso é a mente, que é chamada de consciência.

E ela deseja ficar ocupada com alguma coisa, como a mãe que se preocupa com os filhos, ou a dona de casa com a cozinha, ou um político com sua popularidade ou posição no parlamento; e a mente que está ocupada é incapaz de resolver qualquer problema. Compreendem? Apenas a mente não ocupada pode estar disponível para compreender um problema.

Observem sua própria mente e verão como ela é inquieta, sempre ocupada com algo: com o que alguém falou ontem, com o que acabou de aprender, com o que você irá fazer amanhã, e assim por diante. Ela nunca está desocupada — o que não significa que seja uma mente estagnada ou um tipo de vácuo mental. Enquanto está ocupada, seja com o mais elevado ou o mais baixo, a mente é pe- – quena, diminuta; e uma mente dim inuta nunca pode resolver qualquer problema, consegue apenas ficar ocupada com ele. Inde- pendentemente do tamanho que o problema tenha, estar ocupada com ele a deixa diminuta. Só uma mente que não está ocupada e, portanto, disponível pode agarrar e resolver o problema.

Mas é muito difícil ter a mente desocupada. Algumas vezes, quando vocês estão sentados em silêncio perto do rio, ou no quarto, observem-se e verão como de modo constante aquele pequeno espaço do qual somos conscientes e que chamamos de mente está repleto de vários pensamentos que chegam precipitadamente a ele. Enquanto a mente estiver cheia, ocupada com algo — seja a mente de uma dona de casa ou a de um grande cientista — , é pequena, diminuta, e não conseguirá resolver qualquer problema a que ela se atenha. Porém, a mente desocupada, que possui espaço, pode reter o problema e resolvê-lo, porque ela está refeita, aborda de outra forma o problema, não com a antiga herança das próprias memórias e tradições.

Pergunta: Como podemos nos conhecer?

Krishnamurti: Vocês conhecem o próprio rosto porque já o olharam muitas vezes refletido no espelho. Existe um espelho no qual vocês podem se ver inteiramente— não a face, mas tudo que vocês pensam, que sentem, os motivos, os apetites, as urgências e os medos. Esse espelho é o dos relacionamentos: a relação entre vocês e seus pais, entre vocês e seus professores, entre vocês e o rio, as árvores, a terra, entre vocês e seus pensamentos. O relacionamento é um espelho no qual vocês podem se ver, não como gostariam de ser, mas como são. Posso desejar, ao olhar num espelho comum, que ele me mostre como uma pessoa bonita, mas isso não acontece porque o espelho reflete minha face exatamente como ela é, e eu não posso me enganar. Da mesma maneira, posso me ver exatamente como sou no espelho dos meus relacionamentos com os outros. Posso observar como falo com as pessoas: de maneira mais polida com aqueles que acho que podem me dar algo e rude ou desdenhosamente com os que não podem. Sou solícito com aqueles que temo. Levanto-me quando pessoas importantes se aproximam, mas quando os empregados entram, não presto atenção. Então, ao me observar nos relacionamentos, descubro como respeito de maneira falsa as pessoas, não é? Posso também descobrir como ajo nos relacionamentos com as árvores e os pássaros, com as ideias e os livros.

Vocês podem ter todos os graus acadêmicos do mundo, porém, se não se conhecerem, serão pessoas muito estúpidas. Conhecer a si mesmo é o verdadeiro propósito de toda educação. Sem o autoconhecimento, simplesmente reunir fatos ou tom ar notas para passar nos exames é uma maneira estúpida de existência. Vocês podem ser capazes de citar o Bhagavaã Gita, os Upanishades, o Corão e a Bíblia, mas sem conhecerem a si mesmos serão como papagaios repetindo palavras. Porém, no momento em que começarem a conhecer a si mesmos, mesmo que pouco, já terá início um extraordinário processo de criatividade. Será a descoberta de verem de repente a si mesmos como realmente são: gananciosos, briguentos, zangados, invejosos, estúpidos. Encarar o fato sem tentar alterá-lo, somente para verem exatamente como são, é uma revelação surpreendente. Partindo desse ponto, vocês poderão aprofundar cada vez mais, infinitamente, porque não existe fim para o autoconhecimento.

Por meio do autoconhecimento, vocês começam a descobrir o que é Deus, o que é a verdade, o que é o estado atemporal. O professor pode ultrapassá-los no conhecimento que ele recebeu do professor dele, e vocês se sairão bem em seus exames, receberão um diploma etc. Mas, sem conhecerem a si mesmos como conhecem seu próprio rosto no espelho, todo outro conhecimento terá pouco significado. As pessoas eruditas que não se conhecem não são realmente inteligentes, não sabem o que é pensar, o que é a vida. Por isso é importante para o educador ser educado no verdadeiro sentido da palavra, que significa que ele deve conhecer os trabalhos da própria mente e coração, ver-se exatamente como é no espelho do relacionamento. O autoconhecimento é o começo da sabedoria. No autoconhecimento está todo o universo; ele abarca todas as lutas da humanidade.

Pergunta: Podemos nos conhecer sem alguém que nos inspire?

Krishnamurti: Para vocês se conhecerem precisam ter alguém que os inspire, alguém que os incite, estimule, empurre-os para a frente? Ouçam a pergunta com bastante cuidado e descobrirão a resposta verdadeira. Sabem, a metade do problema é resolvida se o estudarem, não é? Mas vocês não podem estudar inteiramente o problema se a mente estiver ocupada e muito ansiosa para encontrar a resposta.

A pergunta é: para ter autoconhecimento não é preciso que alguém nos inspire?

Bem, se vocês precisam de um guru, alguém que os inspire, que os encoraje, que diga que estão indo bem, significa que confiam nessa pessoa e ficarão perdidos quando ela for embora algum dia. No momento em que dependerem de uma pessoa ou de uma ideia para a inspiração, provavelmente existirá o medo e, portanto, não será uma inspiração verdadeira. E se vocês observarem um cadáver sendo levado embora, ou duas pessoas discutindo, isso não os fará pensar? Quando veem alguém muito ambicioso, ou notam como todos caem aos pés de um governante quando ele chega, isso não os faz refletir?Portanto, existe inspiração em tudo, desde a queda de uma folha ou a morte de um pássaro, até o próprio comportamento do homem. Se observarem todas essas coisas, aprenderão o tempo todo; mas se elegerem uma pessoa como instrutor, então estarão perdidos, e aquela pessoa se tornará seu pesadelo. Por isso é muito importante não seguir ninguém nem ter um instrutor particular, mas aprender com o rio, com as flores, com as árvores, com a mulher que transporta um fardo, com as pessoas de sua família e com os próprios pensamentos. Trata-se de uma educação que ninguém pode lhes dar, exceto vocês mesmos, e é nela que consiste a beleza. Exige uma atenção incessante, uma mente constantemente inquiridora. Vocês precisam aprender pela observação, pela luta, sendo felizes e tristes.

Pergunta: Com todas as nossos contradições, como é possível ser e fazer simultaneamente?

Krishnamurti: Vocês sabem o que é a autocontradição? Se quero fazer alguma coisa em particular na vida e, ao mesmo tempo, jquero agradar meus pais, os quais desejam que eu faça outra coisa, existe em mim o conflito, a contradição. Bem, como posso resolvê-la? Se não consigo resolver a contradição em mim, obviamente não poderá haver integração entre o ser e o fazer. Por isso, o primeiro passo é ficar livre da autocontradição.

Suponham que vocês desejam estudar pintura porque pintar é a alegria de sua vida, e seu pai diz que vocês devem ser advogados ou comerciantes; caso contrário ele não os sustentará e não pagará seus estudos; existirá, então, uma contradição em vocês, não é? Como remover a contradição interna, ficar livre da luta e da dor que ela provoca? Enquanto estiverem presos na autocontradição, não conseguirão pensar; por isso devem removê-la, devem fazer uma coisa ou outra. Qual será? Obedecer ao pai? Se obedecerem, significa que terão desistido da alegria e se aliado a algo que não amam; e isso resolverá a contradição? Se resistirem ao pai, se disserem: “Sinto muito, não me importo se tiver de mendigar, passar fome, eu vou aprender a pintar”, então não haverá contradição; então, ser e fazer serão simultâneos porque vocês sabem o que querem fazer e o fazem com todo empenho. Porém, se optarem por ser um advogado ou comerciante enquanto por dentro anseiam em ser pintor, então, pelo restante da vida, serão um ser humano entorpecido, deprimido, vivendo em tormento, em frustração, na miséria, sendo destruído e destruindo os outros.

Trata-se de um problema muito importante para vocês pensarem a respeito, porque, quando se tornarem adultos, seus pais vão querer que vocês façam certas coisas, e se vocês não souberem com clareza o que realmente desejam fazer, serão conduzidos como carneiros para o matadouro. Porém, se descobrirem o que amam fazer e se dedicarem integralmente a isso, então não haverá contradição, e, nesse estado, seu ser estará realizado.

Pergunta: Pelo bem do que amamos fazer, podemos nos esquecer dos nossos deveres com os pais?

Krishnamurti: O que entendem da extraordinária palavra “dever”? Dever a quem? Aos pais, ao governo, à sociedade? Se seus pais dizem que é seu dever ser advogado e sustentá-los adequadamente, mas vocês na realidade desejam ser um sannyasi, o que farão? Na índia, ser um sannyasi é seguro e respeitável, por isso os pais poderão concordar. Quando vocês assumem o manto do asceta, já se tornaram um grande homem, e os pais podem se aproveitar disso. Mas se quiserem trabalhar com as mãos, se desejarem ser um simples carpinteiro ou artesão, então, onde está seu dever? Poderá alguém lhes dizer? Vocês não deveriam pensar com bastante cuidado, pesando todas as implicações envolvidas para poderem dizer: “O que eu sinto é o certo a fazer e serei fiel a isso, quer meus pais concordem ou não”? Não meramente ceder ao que os pais e a sociedade desejam que vocês façam, mas pensar sobre as implicações dos deveres; ver muito claramente o que é verdade e ser fiel a ela durante a vida inteira, mesmo que ela signifique fome, miséria, morte— isso requer muita inteligência, percepção, insight e também muito amor. Vejam: se vocês sustentam seus pais simplesmente porque acham que é um dever, então o sustento é uma mercadoria, sem significado profundo, porque não existe amor.

Pergunta: Mesmo que eu deseje muito ser engenheiro, se meu pai se opuser e não me ajudar, como poderei estudar engenharia?

Krishnamurti: Você quer dizer que se persistir no desejo de ser um engenheiro e seu pai o puser para fora de casa não terá meios para estudar engenharia? Você pedirá esmola, recorrerá a amigos. Rapaz, a vida é muito estranha. No momento em que souber com clareza o que deseja fazer, as coisas acontecerão. A vida vem em sua ajuda — um amigo, um parente, um professor, uma avó, alguém o ajudará. Mas se tiver medo de tentar porque seu pai poderá lhe expulsar, então você estará perdido. A vida nunca vem em auxílio daqueles que apenas se submetem a alguma exigência em função do medo. Mas se você disser: “É o que eu realmente quero fazer e vou lutar por isso”, então verá que algo de milagroso acontecerá. Pode ficar faminto, lutando para conseguir, mas será um ser humano digno, não uma simples cópia, e esse é o milagre.

Vejam, muitos têm medo de ficar só, e sei que se trata de algo especialmente difícil para os jovens, porque não existe liberdade econômica neste país como há na América ou na Europa. Aqui há superpopulação, e por isso todos desistem. Vocês dizem: “O que acontecerá comigo?” Mas ao se manterem firmes verão que algo ou alguém os auxiliará. Quando vocês realmente resistem à exigência popular, tornam-se indivíduos, e a vida virá em seu auxílio.

Sabem, na biologia existe um fenômeno chamado mutação, que é um desvio súbito e espontâneo do comum. Se vocês têm um jardim no qual cultivam determinada espécie de flor, uma manhã poderão descobrir que algo totalmente novo surgiu daquela espécie. Essa coisa nova é chamada de mutação. Sendo nova, ela se destaca, e o jardineiro tem um interesse especial por ela. E a vida é assim. No momento em que se aventurarem, algo ocorrerá em vocês e à sua volta. A vida vem em seu auxílio de várias m aneiras. Podem não gostar da forma que ela chega — pode ser na miséria, na luta, na fome — , mas quando a convidam, as coisas começam a acontecer. Mas, vejam, não queremos convidar a vida, queremos o jogo seguro, e os que jogam com segurança morrem em segurança. Não é assim?

16. Renovando a mente

OUTRO DIA VI UM CADÁVER ser.do conduzido para a cremação. Estava enrolado em um pano de cor magenta brilhante e balan­çava no ritmo dos quatro mortaii que o estavam transportando. Pergunto-me qual a impressão cue um cadáver causa nas pessoas. Já se perguntaram por que ocorre a deterioração? Vocês compram uma nova marca de motor e em poucos anos está gasto. O corpo também desgasta, e vocês aão pesquisam um pouco mais para descobrir por que a mente deteriora? Mais cedo ou mais tarde ocorrerá a morte do corpo, pcrém muitos de nós possuímos mentes que já estão mortas. A deterioração já começou a acontecer; e por que a mente deteriora? O corpo deteriora porque o estamos usando constantemente, e o organismo físico se desgasta. Doenças, acidentes, velhice, alimentação ruim, hereditariedade — são os fatores que causam a deterioração e a morte do corpo. Mas por que a mente se deteriora, fica velha, pesada, entorpecida?

Ao verem um corpo morto, já se perguntaram a respeito? Embora nossos corpos devam morrer, por que a mente se deteriora? Esta pergunta já ocorreu a vocês? Pois a mente se deteriora — vemos não somente nas pessoas idosas, mas também nos jovens. Vemos nos jovens como a mente já está se tornando entorpecida, pesada, insensível, e se pudermos descobrir por que a mente se deteriora, então talvez descobriremos alguma coisa realmente indestrutível. Poderemos compreender o que é a vida eterna, a vida sem fim, não ligada ao tempo, a vida incorruptível, que não decai como o corpo que é levado aos ghats,* cremado e tem seus restos lançados ao rio.

Mas por que a mente se deteriora? Já pensaram nisso? Sendo ainda bem jovens — e se ainda não estão entorpecidos pela sociedade, pelos pais, pelas circunstâncias — , vocês possuem uma mente receptiva, inquiridora, curiosa. Desejam saber por que as estrelas existem, por que os pássaros morrem, por que as folhas caem, como o avião consegue voar; querem saber tantas coisas. Porém, essa necessidade vital de questionar, de descobrir logo decresce, não é? É abafada pelo medo, pelo peso da tradição, pela nossa própria incapacidade de encarar essa coisa extraordinária chamada vida. Já notaram a rapidez com que a vivacidade é destruída por uma palavra áspera, por um gesto de descrédito, pelo medo de uma prova ou pela ameaça de um pai — isso significa que a sensibilidade já está sendo deixada de lado e a m ente entorpeceu?

Outra causa do entorpecimento é a imitação. Vocês são moldados para imitar a tradição. O peso do passado os impulsiona para se conformarem, seguir a linha, e por meio do conformismo a mente se sente segura, a salvo; estabelecendo-se em uma trilha bem oleada para que possa deslizar suavemente sem ser perturbada, sem um arrepio de dúvida. Observem as pessoas adultas à sua volta e verão que suas mentes não querem ser perturbadas. Querem a paz, mesmo que seja a paz da morte; porém, a verdadeira paz é algo inteiramente diferente.

* Na Índia, crematórios situados às margens de um rio (N. do E.)

Quando a mente segue pela trilha, em um padrão, já notaram que ela é sempre acionada pelo desejo de segurança? Por isso segue um ideal, um exemplo, um guru. Deseja estar a salvo, sem perturbações, e por isso ela imita. Quando vocês leem nos livros de história a respeito de líderes, santos, guerreiros, não sentem vontade de copiá-los? Não que não existam grandes seres no m undo, mas o instinto é imitar as grandes pessoas, tornar-se como elas, e esse é um dos fatores da deterioração, porque a mente se estabelece dentro de um molde.

Além disso, a sociedade não deseja indivíduos que estejam alertas, atentos, revolucionários, porque não se ajustarão ao padrão social estabelecido e podem rompê-lo. Logo, a sociedade busca manter a mente em seu padrão e por esse motivo a educação que recebem tenta encorajá-los a imitar, seguir, se conformar.

E a mente pode parar de imitar? Ou seja, pode deixar de formar hábitos? E a mente, que já está aprisionada ao hábito, consegue ficar livre dele?

A mente é o resultado do hábito, não é? É o resultado da tradição, do tempo — tempo é repetição, a continuidade do passado. E pode a mente, a sua mente, parar de pensar em termos do que foi — e do que será, que é na verdade uma projeção do que tem sido? Pode a mente se libertar dos hábitos e parar de criar outros? Se vocês se aprofundarem nesse problema, descobrirão que ela pode. E quando a mente se renova, sem se conformar com novos padrões, hábitos, sem novamente cair na trilha da imita­ção, então ela permanecerá receptiva, jovem, inocente; portanto, capaz de uma compreensão infinita.

Para essa mente não existe morte, porque não existe mais um processo de acumulação. É o processo de acumulação que cria o hábito, a imitação, e para a mente que acumula ocorre a deterioração, a morte. Mas a mente que não acumula, que não reúne, que está agonizando a cada dia, a cada minuto — para ela não existe a morte. Está num estado de espaço infinito.

Então a mente precisa m orrer para tudo o que reuniu — to dos os hábitos, as virtudes imitadas, todas as coisas sobre as quais se apoiou pelo sentimento de segurança. Então, não ficará mais presa na trama do próprio ato de pensar. Ao morrer a cada m omento para o passado, a mente se renovará e, portanto, nunca se deteriorará ou caminhará na onda da escuridão.

Pergunta: Como podemos colocar em prática o que você está nos dizendo?

Krishnamurti: Vocês ouvem algo que acham que está certo e desejam realizá-lo na vida diária; então existe um hiato entre o que vocês pensam e o que fazem, não é? Pensam uma coisa e estão fazendo outra. Mas querem colocar em prática o que pensam, e então ocorre um hiato entre a ação e o pensamento. E assim vocês perguntam como acabar com o hiato, como ligar o pensamento à ação.

Bem, quando querem muito algo, vocês agem, não é? Q uando querem jogar críquete, ou fazer uma outra coisa na qual estão realmente interessados, vocês descobrem maneiras e meios de fazê-lo. Nunca perguntam como colocar em prática. Vocês o fazem porque estão ansiosos, porque todo o ser, a mente e o cora­ção estão ali juntos.

Mas nesse outro assunto vocês estão sendo espertos, pensando uma coisa e fazendo outra. Dizem: “Essa é uma ideia excelente e, intelectualmente, eu aprovo, mas não sei o que fazer a respeito; por isso, por favor, me diga como colocar em prática” — o que significa que, na verdade, não querem agir. O que realmente desejam é adiar a ação, porque gostam de ser um pouco invejosos, ou alguma outra coisa. Dizem: “Todos são invejosos, por que eu não serei?”, e continuam como antes. Mas se realmente não desejam ser invejosos e veem a verdade da inveja como a de uma cobra, então deixam de ser invejosos, esse é o fim dela; nunca perguntam como se livrar da inveja.

Então o importante é ver a verdade de algo e não perguntar como se livrar dele — o que, na verdade, significa que vocês não viram a verdade dele. Quando se deparam com uma cobra no caminho, vocês não perguntam o que devem fazer. Compreendem muito bem o perigo e se afastam dela. Mas nunca realmente examinaram todas as implicações da inveja; ninguém falou sobre isso, nem aprofundou o assunto com vocês. Já lhes disseram para não serem invejosos, mas vocês nunca observaram a natureza da inveja, nunca notaram como a sociedade e todas as religiões organizadas são construídas, nem o desejo de vir a ser alguma coisa. No momento em que penetrarem na inveja e realmente vislumbrarem sua verdade, ela cessará.

Perguntar como fazer é uma questão impensada porque, quando estão realmente interessados em algo que não sabem como fazer, vocês se mobilizam e logo descobrem. Se ficarem sentados e pedirem: “Por favor, diga-me um modo prático de me livrar da ganância”, continuarão gananciosos. Mas se questionarem sobre a ganância com a mente alerta, sem qualquer preconceito, e se dedicarem, descobrirão por si mesmos a verdade sobre ela. E a verdade os libertará; não a busca de alguma maneira de se libertar.

Pergunta: Por que nossos desejos nunca são totalmente realizados? Por que sempre existem obstáculos que nos impedem de fazer as coisas exatamente como desejamos?

Krishnamurti: Se o desejo de fazer alguma coisa for completo, se todo o ser estiver ali, sem buscar um resultado, sem desejar realizar — ou seja, sem medo — , então não existe entraves. Existe obstáculo, contradição, somente quando o desejo é incompleto, rompido: vocês querem fazer algo e ao mesmo tempo temem fazê-lo, ou metade de vocês deseja outra coisa. Além disso, é possível realizar totalmente os desejos? Compreendem? Vou explicar.

A sociedade, que é a relação coletiva entre homem e homem, não quer que vocês tenham um desejo completo porque, se o tiverem, vocês serão uma inconveniência, um perigo para ela. Permitem a vocês ter desejos respeitáveis como ambição, inveja — estes, perfeitamente corretos. Sendo formada por seres humanos invejosos, ambiciosos, que acreditam e imitam, a sociedade aceita a inveja, a ambição, a crença, a imitação, embora sejam, todas, insinuações de medo. Enquanto os desejos se ajustarem ao padrão estabelecido, vocês serão cidadãos respeitáveis. Mas no momento em que tiverem um desejo completo, que não pertence ao padrão, vão se tornar um perigo; por isso, a sociedade está sempre observando, para evitar que vocês tenham um desejo completo, uma vontade que seria a expressão do seu ser total, trazendo, portanto, uma ação revolucionária.

A ação de ser é inteiramente diferente da ação de vir a ser. A ação de ser é tão revolucionária que a sociedade a rejeita e preocupa-se exclusivamente com a ação de vir a ser, que é respeitável porque se ajusta ao padrão. Porém, qualquer desejo que se expressa na ação do vir a ser, que é uma forma de ambição, não possui realização. Mais cedo ou mai; tarde é contrariado, impedido, frustrado, e nós nos revoltamos contra a frustração de maneiras nocivas.

Essa é uma questão muito importante a ser considerada porque, à medida que vocês íe tornam adultos, veem que seus desejos nunca são realmente satisfeitos. Na satisfação existe sempre a sombra da frustração, e m coração não há canção, mas choro. O desejo de vir a ser — umgrande homem, um grande santo, um grande isto ou aquilo — ião possui fim e, portanto, não é realizado; exige cada vez mais,a esse desejo sempre gera agonia, miséria, guerras. Mas quando e está livre de todos os desejos de vir a ser, há um estado de ser cuja ação é totalmente diferente. Ele é. Atemporal. Não pensa en termos de realização. Seu próprio ser é a realização.

Pergunta: Vejo que sou tolo.mas os outros dizem que sou inteligente. O que deveria mé afetar: ninha visão ou o que os outros falam?

Krishnamurti: Ouçam apergunta com muito cuidado, calmamente, não tentem enconirar a resposta. Se vocês dizem que sou um homem inteligente, e ei que sou tolo, o que vocês me dizem me afeta? Afetaria se eu esivesse tentando ser inteligente, não é? Então eu estaria lisonjeadc, influenciado pela observação. Mas se vejo que uma pessoa tola iunca poderá deixar de ser tola tentando ser inteligente, então oque acontecerá?

Certamente, se sou estípido e tento ser inteligente, continuarei a ser estúpido, porquetentar ser ou vir a ser alguma coisa é parte da estupidez. Uma jessoa estúpida pode adquirir o ornamento da esperteza, pode ,er aprovado em algumas provas, conseguir um emprego, mas rão deixará de ser estúpido. (Por favor, sigam o raciocínio, não é una frase cínica.) Mas no momento em que a pessoa estiver con ciente de que é tola, estúpida — e, em vez de tentar ser inteligente começar a examinar e compreender sua estupidez — , haverá o despertar da inteligência.

Considerem a ganância. Sabem o que ela é? É comer mais do que precisam, desejar se destacar nos jogos, desejar mais prosperidade, um carro maior do que o do vizinho. Então vocês dizem que não devem ser gananciosos, e praticam a não ganância — o que é realmente tolo, porque a ganância nunca cessará com a tentativa de não ser. Mas, se começarem a compreender todas, as implica­ções dela, se dedicarem mente e coração para descobrir a verdade sobre ela, então ficarão livres da ganância e também do seu oposto. Assim serão realmente seres humanos inteligentes, porque estarão agarrando o que é, e não imitando o que deveria ser.

Então, se são tolos, não tentem ser inteligentes ou astutos, mas compreendam o que os está deixando tolos. Imitação, medo, copiar alguém, seguir um exemplo ou ideal— tudo isso deixa a mente entorpecida. Quando pararem de seguir, quando não tiverem medo, quando forem capazes de pensar com clareza sobre si mesmos, serão, então, os mais brilhantes entre os homens. Mas se forem tolos e tentarem ser espertos, farão parte das classes daqueles que estão bem tolos em seu talento.

Pergunta: Por que somos travessos?

Krishnamurti: A o fazerem esta pergunta quando ainda são tra vessos, então ela tem significado. Mas quando estão zangados, por exemplo, nunca perguntam por que estão zangados, não é? É somente mais tarde que fazem essa pergunta. Ao ficarem zangados, vocês dizem: “Como sou estúpido, não deveria me zangar.” Porém, se estivessem conscientes, atentos no momento da raiva, sem condená-la, se estivessem “presentes” quando o turbilhão surge na mente, então veriam a rapidez com que ela se desfaria.

As crianças são travesas em determinada idade, e devem ser, porque estão cheias de energia, vida, vitalidade, que precisa ser expressa de alguma forma. Porém, vejam, essa é na verdade uma pergunta complexa, porque a travessura pode ser em virtude da alimentação errada, da falta de sono ou da sensação de insegurança, entre outras causas. Se todos os fatores envolvidos não forem devidamente compreendidos, então a travessura das crianças se torna uma revolta dentro da sociedade, na qual não há libera­ção para elas.

Sabem o que são menores “delinquentes”? São crianças que fazem todos os tipos de coisas terríveis; estão revoltadas dentro da prisão da sociedade porque nunca foram auxiliadas a compreender todo o problema da existência. São tão vigorosas, e algumas delas extraordinariamente inteligentes, e sua revolta é uma maneira de dizer: “Ajudem-nos a compreender, a rom per a compulsão, o terrível conformismo.” Por isso essa pergunta é tão im portante para o educador, que precisa mais de educação do que as crianças.

Pergunta: Estou acostumado a beber chá. Um professor diz que se trata de um hábito nocivo e outro diz que não.

Krishnamurti: O que você acha? Coloque de lado por um momento o que as outras pessoas dizem — pode ser preconceito delas — e ouça a pergunta. O que você acha de um jovem já ser “apegado” a algo — tomar chá, fumar, participar de torneios de comilança ou qualquer outro hábito? Pode ser certo adquirir o hábito de algo quando você tem 70 ou 80 anos, próximo do fim da jornada; mas se você está somente iniciando sua vida e já está acostumado a alguma coisa, é terrível, não acha? Esta é a pergunta importante, não se você deve tomar chá.

Veja, quando você se acostuma com alguma coisa, sua m ente já está a caminho do cemitério. Se você pensa como hindu, comunista, católico, protestante, então sua mente já está se restringindo, deteriorando. Mas se ela está alerta, inquirindo para descobrir por que está aprisionada por determinado hábito, por que você pensa de determinada maneira, então a pergunta secundária, que é se você deveria fumar ou tom ar chá, poderá ser examinada.

17. O rio da vida

Não sei se NOTARAM em suas caminhadas um pequeno lago com prido e estreito ao lado do rio. Alguns pescadores devem tê-lo cavado, e ele não está ligado ao rio. O rio corre constante, profundo e largo, mas o lago está coberto com espuma p o rque não está ligado à vida do rio, e não há peixes nele. É um lago estagnado, e o rio fundo, cheio de vida e força corre rápido ao seu lado.

Vocês acham que os seres humanos também são assim? Eles cavam um pequeno lago para si próprios, distante da corrente rápida da vida, e nesse pequeno lago estacionam, morrem; e à estagnação, à decadência, damos o nome de existência. Ou seja, todos desejamos um estado de permanência, temos certa aspira­ção de durar para sempre, queremos os prazeres infindáveis. Cavamos um pequeno buraco e levantamos barricadas para nossas famílias e para nós mesmos, com nossas ambições, nossas culturas, nossos medos, nossos deuses, nossas várias formas de adoração, e lá morremos, deixando passar a vida — que é impermanente, que muda constantemente, que é tão rápida, que tem profundidades enormes, bem como extraordinária vitalidade e beleza.

Já notaram que ao se sentarem em silêncio na margem do rio ouvem a canção dele — o m arulhar da água, o som da correnteza passando? Existe sempre um sentido de movimento, um movimento extraordinário para o mais amplo e mais profundo. Mas no pequeno lago não há nenhum movimento, a água é estagnada. E, se observarem, verão que isso é o que muitos de nós queremos: pequenos lagos estagnados na existência, fora da vida. Dizemos que nossa existência-lago é certa e inventamos uma filosofia para justificá-la. Desenvolvemos teorias sociais, políticas, econômicas e religiosas para apoiá-la e não queremos ser perturbados porque, vejam, o que buscamos é um senso de permanência.

Sabem o que quer dizer buscar a permanência? Significa desejar que o aprazível continue indefinidamente e que aquilo que não é agradável termine o mais rapidamente possível. Desejamos que nosso nome seja conhecido e continue a existir por intermédio da família, da propriedade. Desejamos um senso de permanência em nossos relacionamentos, em nossas atividades, o que significa que estamos buscando uma vida duradoura, contínua, no lago estagnado; não queremos que ocorra qualquer mudança real. Por isso, construímos uma sociedade que nos garanta a permanência da propriedade, do nome, da fama.

Mas, vejam, a vida não é bem assim; ela não é permanente. Como as folhas que caem de uma árvore, todas as coisas são impermanentes, nada perdura; existe sempre a mudança e a morte. Já notaram como é bela uma árvore contra o céu, com os galhos desfolhados? Todos os galhos estão delineados, e em sua nudez existe um poema, uma canção. Cada folha se foi e ela está aguardando pela primavera. Quando esta chega novamente, enche a árvore com a música de várias folhas, que na devida estação cairão e serão levadas; assim é a vida.

Mas não queremos nada desse tipo. Apegamo-nos aos filhos, às tradições, à sociedade, aos nomes e a pequenas virtudes porque desejamos a permanência. Por isso temos medo de morrer. Tememos perder as coisas que conhecemos. Mas a vida não é o que gostaríamos que ela fosse; a vida não é, de modo algum, permanente. Pássaros morrem, a neve derrete, as árvores são destruídas pelas tempestades ou são cortadas. Mas nós queremos que tudo que nos traz satisfação seja permanente; desejamos que nossa posição, a autoridade que temos sobre as pessoas perdure. Recusamo-nos a aceitar a vida como ela é de fato.

O fato é que a vida é como o rio: move-se interminavelmente, sempre buscando, explorando, empurrando, cobrindo as margens, penetrando em cada fissura com sua água. Mas, vejam, a mente não permite que isso aconteça com ela. A mente vê que é perigoso, arriscado viver fem um estado de impermanência, inseguran­ça; por isso, constrói uma parede em torno de si: a parede da tradição, da religião organizada, das teorias políticas e sociais. Família, nome, propriedade, as pequenas virtudes que temos cultivado — tudo isso está dentro das paredes, longe da vida. A vida é movimento, não é permanente, e tenta incessantemente penetrar, romper as paredes, por trás das quais existem confusão e miséria. Os deuses dentro das paredes são falsos, e os escritos e filosofias não têm significado, porque a vida está além deles.

Então, a mente não tem paredes, não é afligida pelas próprias aquisições, acúmulos, pelo próprio conhecimento; uma mente que vive sem um tempo definido, sem segurança — para essa mente a vida é algo extraordinário. A mente é a própria vida, porque a vida não tem local de repouso. Porém muitos de nós desejam um local desses. Desejamos uma pequena casa, um nome, uma posição, e dizemos que essas coisas são muito importantes. Exigimos a permanência e criamos uma cultura baseada nessa exigência, inventando deuses que não são deuses, mas somente uma proje­ção dos nossos próprios desejos.

Uma mente que está buscando uma permanência logo fica estagnada; como aquele lago ao longo do rio; logo torna-se repleta de corrupção, de decadência. Apenas a mente que não tem paredes, nem posição segura, nem barreiras, nem local de repouso, que está se movendo junto com a vida, sempre empurrando, explorando, expandindo — apenas essa mente pode ser feliz, eternamente nova, porque é criativa por si mesma.

Compreendem o que estou dizendo? Deveriam, porque tudo isso é parte da verdadeira educação, e quando vocês com preenderem, toda a sua vida será transformada, o relacionamento com o m undo, com o vizinho, com a esposa ou marido, terá um significado totalmente diferente. Então não tentarão preencher a si mesmos com outras coisas, vendo que a busca da realização é somente um convite para a tristeza e a miséria. Por isso, devem perguntar aos professores sobre tudo isso e discutir entre vocês. Se compreenderem, terão começado a perceber a verdade extraordinária do que é a vida, e nessa percepção existe grande beleza e am or — o florescer da bondade. Porém, os esforços de uma mente que está buscando o lago da segurança, da permanência, poderá levar somente à corrupção e à escuridão. Uma vez estabelecida no lago, a mente teme se aventurar, buscar, explorar; mas a verdade, Deus, a realidade, ou como desejarem chamar, está além do lago.

Sabem o que é religião? Não está no canto, na realização dos pujas ou de qualquer ritual, não está na adoração de deuses de estanho ou de imagens de pedra, não está nos templos e nas igrejas, não está na leitura da Bíblia ou do Gita, não está na repetição de um nome sagrado ou em seguir alguma outra superstição inventada pelos homens. Nada disso é religião.

Religião é a sensação de bondade, aquele amor que é como o rio, movendo-se interminavelmente. Nesse estado vocês descobrirão um momento em que não há mais nenhum a busca; e o térm ino da busca é o começo de algo totalmente diferente. A busca por Deus, pela verdade, pela sensação de estar completamente bem — não o cultivo da bondade, da humildade, mas a busca de algo além das invenções e truques da mente, o que significa ter a sensação por aquele algo, vivendo nele, sendo ele: isso é religião. Mas vocês só poderão fazê-lo quando deixarem o lago que cavaram para si e entrarem no rio da vida. Então a vida mostrará uma maneira surpreendente de cuidar de vocês, porque não haverá restrições de sua parte. A vida os levará para onde quiserem, porque vocês são parte dela; então não haverá problema de segurança nem do que as pessoas dizem ou não, e essa é a beleza da vida.

Pergunta: O que nos faz temer a morte?

Krishnamurti: Vocês acham que um a folha que cai no chão teme a morte? Acreditam que um pássaro vive com medo de morrer? Ele encontra a morte quando ela chega, mas não está preocupado com ela, pois está muito ocupado em viver, capturar insetos, construir um ninho, cantar uma canção, voar pelo simples prazer de voar. Já viram passarinhos pairando no ar sem baterem as asas, sendo carregados pelo vento? Parece um divertimento sem fim! Eles não estão preocupados com a morte. Se ela chegar, está certo, eles acabaram. Não há preocupação com o que irá acontecer; eles estão vivendo cada momento, não é? Nós, seres humanos, é que estamos sempre preocupados com a morte — porque não estamos vivendo. Esse é o problema: estamos morrendo, não estamos vivendo. As pessoas mais velhas estão mais próximas do fim, e os jovens vêm logo atrás.

Vejam, existe a preocupação com a morte porque temos medo de perder o conhecim ento, as coisas que reunim os. Temos medo de perder a esposa ou o marido, um filho ou um amigo; temos medo de perder o que aprendemos, acumulamos. Se pudéssemos carregar tudo que reunimos — nossos amigos, nossas posses, nossas virtudes, nosso caráter— , então não teríamos medo da morte, não é? Por isso inventamos teorias sobre a morte e o além. O fato é que a morte é um fim, e muitos de nós não queremos encará-lo. Não queremos deixar o conhecimento; portanto, é o apego ao conhecimento, e não o desconhecido, que cria o medo em nós. O desconhecido não pode ser percebido pelo conhecido. Mas a mente, sendo formada pelo conhecimento, diz: “Vou acabar”, e fica assustada.

Mas se conseguirem viver cada momento e não se preocuparem com o futuro, se conseguirem viver sem o pensamento do amanhã — o que não significa a superficialidade de meramente estar ocupado com o hoje — , se, estando consciente de todo o processo do conhecimento, vocês puderem soltar o conhecimento, deixá-lo ir inteiramente, verão algo surpreendente acontecendo. Tentem por um dia: coloquem de lado tudo que conhecem, esqueçam, e simplesmente vejam o que ocorre. Não transportem preocupações de um dia para o outro, de uma hora para a seguinte, de momento para momento; soltem tudo e verão que da liberdade surgirá uma vida extraordinária, que inclui tanto viver como m orrer. A morte é somente o término de alguma coisa, e na própria morte existe a renovação.

Pergunta: Dizem que em cada um de nós a verdade épermanente e atemporal; mas, como nossa vida é transitória, como pode haver verdade em nós?

Krishnamurti: Vejam, vocês fizeram da verdade algo permanente. A verdade é permanente? Se for, então está dentro do campo do tempo. Dizer que algo é permanente implica que ele é contínuo; e aquilo que é contínuo não é verdadeiro. Essa é a beleza da verdade: ela deve ser descoberta a cada momento, não relembrada. Uma verdade relembrada é uma coisa morta. A verdade precisa ser descoberta a cada momento, porque é viva, nunca é a mesma; e, ainda assim, cada vez que você a descobrir, ela é a mesma.

O importante não é fazer uma teoria da verdade, não é dizer que a verdade é permanente em todos nós; trata-se de uma invenção dos velhos, que estão assustados tanto com a morte quanto com a vida. Essas teorias maravilhosas — de que a verdade é permanente, que vocês não precisam ter medo porque têm uma alma imortal, e outras mais — foram inventadas por pessoas medrosas cujas mentes são decadentes e cujas filosofias não possuem validade. O fato é que a verdade é vida, e a vida não é permanente. A vida precisa ser descoberta a cada momento, a cada dia; precisa ser descoberta, não pode ser garantida. Se vocês têm certeza de que conhecem a vida, não estão vivendo. Três refeições por dia, roupas, abrigo, sexo, emprego, diversões e o processo do pensamento — esse processo todo, repetitivo não é a vida. A vida é algo a ser descoberto, e vocês não poderão descobri-la se não perderam, se não colocaram de lado coisas que descobriram. Experimentem o que estou dizendo. Ponham de lado as filosofias, as religiões, os hábitos, os tabus e todo o restante, pois eles não são a vida. Se vocês ficarem presos a essas coisas, nunca descobrirão a vida, e a função da educação é justamente auxiliá-los a descobrir sempre a vida.

O homem que afirma que conhece já está m orto, mas o hom em que pensa “Eu não sei”, que está descobrindo, procurando, que não está buscando um fim, nem pensando em termos de chegar ou de vir a ser — esse homem está vivendo, e esse viver é a verdade.

Pergunta: Posso ter alguma ideia do que éperfeição?

Krishnamurti: Provavelmente sim. Ao especular, inventar, projetar, ao dizer: "Isto é feio, e isto, perfeito”, vocês terão algum a ideia da perfeição. Mas a ideia da perfeição, assim como a crença em Deus, não tem significado. A perfeição é algo que é vivido em um m om ento não prem editado, e esse m om ento não tem continuidade; portanto, a perfeição não pode ser im aginada, e não existe um meio para torná-la perm anente. Apenas a mente, que é bem calma, que não prem edita, inventa ou projeta, pode conhecer um mom ento de perfeição, um m om ento que seja completo.

Pergunta: Por que desejamos nos vingar de alguém que nos atingiu?

Krishnamurti: É um a resposta instintiva, de sobrevivência, não acham? Porém, a mente inteligente, a mente que está desperta, que já pensou sobre isso profundam ente, não sente o desejo de revidar — não porque está tentando ser virtuosa ou cultivar o perdão, mas porque percebe que o revide é bobagem, não tem significado algum. Mas, vejam, isso requer meditação.

Pergunta: Eu me divirto provocando os outros, mas fico zangado se implicam comigo. Por quê?

Krishnamurti: Acho que o mesmo acontece com as pessoas mais velhas. Muitos de nós gostamos de nos aproveitar dos outros, mas não gostamos quando chega nossa vez de sermos explorados. Desejar atingir ou aborrecer os outros é falta de consideração, não é? Esse comportamento surge de uma vida autocentrada. Nem vocês nem o outro gostam de ser provocados, então por que não param ambos? A isso chamamos consideração.

Pergunta: Qual é o trabalho ideal para o homem?

Krishnamurti: O que vocês acham? É estudar, passar nas provas, conseguir um emprego e permanecer nele pelo restante de suas vidas? É ir ao templo, reunir-se em grupos, lançar várias mudan­ças? Será trabalho para um homem matar animais para comê-los? Será trabalho para um homem construir uma ponte para o trem passar, cavar póços nas regiões secas, descobrir petróleo, subir montanhas, conquistar a terra e o ar, escrever poemas, pintar, amar, odiar? Tudo isso é trabalho para o homem? Construir civilizações que ruirão em alguns séculos, guerrear, criar Deus à sua própria imagem, matar pessoas em nome da religião ou do Estado, falar sobre paz e irmandade enquanto usurpa o poder e é im placável com os outros — é isso que o homem vem fazendo pelo mundo, não é? E esse é o verdadeiro trabalho para o homem?

Vocês podem constatar que todo esse trabalho conduz à destruição e à miséria, ao caos e ao desespero. Grandes luxos coexistem lado a lado com a extrema pobreza; doença e fome com geladeiras e aviões. Tudo isso é trabalho do homem, e quando vocês o veem, não se perguntam: “Isso é tudo, não existe algo além que seja o verdadeiro trabalho do homem?” Se conseguirmos descobrir qual é o verdadeiro trabalho do homem, então os aviões, as máquinas de lavar, as pontes, as hospedarias, todos terão um significado totalmente diferente; mas, sem descobrir qual é o verdadeiro trabalho do homem, simplesmente permitir reformas, reformular aquilo que o homem já fez, não conduzirá a nada.

Então, qual é o verdadeiro trabalho do homem? Certamente, o verdadeiro trabalho do homem é descobrir a verdade, Deus, é amar e não permanecer em suas próprias atividades autolimi- tadoras. Na própria descoberta do que é verdadeiro existe o amor, e esse amor no relacionamento do homem com o homem criará uma civilização diferente, um mundo novo.

Pergunta: Por que adoramos a Deus?

Krishnamurti: Acho que nós não adoramos a Deus. Não riam. Vejam, nós não amamos Deus; se amássemos, não haveria o ato que chamamos de adoração. Adoramos a Deus porque O tememos; existe medo em nossos corações, não amor. O templo, o puja, o rosário sagrado — não são de Deus, são criações da vaidade e do medo do homem. São somente os infelizes e os assustados que adoram a Deus. Aqueles que têm riqueza, posição e autoridade não são pessoas felizes. Um homem ambicioso é um ser humano muito infeliz. A felicidade chega somente quando vocês estão livres de tudo isso — e então não adoram a Deus. É o miserável, o torturado, aquele que está em desespero que rasteja até o templo; mas se as pessoas colocassem de lado essa chamada adoração e compreendessem sua miséria, então seriam homens e mulheres felizes, pois descobririam o que é a verdade, o que é Deus.

18. A mente atenta

Já PRESTARAM ATENÇÃO ao tilintar dos sinos do templo? Bem, o que vocês ouvem? As notas ou o silêncio entre elas? Se não houver silêncio, haverá notas? E se vocês ouvirem o silêncio, as notas não seriam mais penetrantes, de uma qualidade diferente? Mas, vejam, vocês nem sémpre prestam uma atenção real a alguma coisa, e acho que é im portante descobrir o que significa prestar atenção. Quando o professor está explicando um problema de matemática, quando vocês estão lendo um livro chato, quando um amigo está falando, contando uma história, quando vocês estão perto do rio e ouvem o m urm urar das águas batendo contra as margens, geralmente prestam muito pouca atenção. E se pudermos descobrir o que significa prestar atenção, talvez o aprendiza-dq tenha um significado bem diferente e seja bem mais fácil.

Quando o professor lhes diz para prestarem atenção à aula, o que significa? Ele quer dizer que vocês não devem ficar olhando para a janela, que não devem dispersar a atenção, mas sim se concentrarem inteiramente no que se supõe ser o estudo. Ou quando estão absortos em um romance, toda a mente está tão concentrada que naquele momento vocês perdem o interesse pelo que está à volta. Essa é uma outra forma de atenção. Então, no sentido comum, prestar atenção é um processo de restrição, não é?

Bem, penso que também existe outro tipo diferente de aten­ção. A que é geralmente defendida, praticada ou estimulada é um estreitamento da mente sobre um ponto, o que é um processo de exclusão. Quando vocês fazem um esforço para prestar atenção, estão na verdade resistindo a algo — ao desejo de olhar pela janela, de ver quem chega etc. Parte da energia já se foi, junto com a resistência. Vocês constroem uma parede em torno da mente para fazê-la se concentrar completamente em determinada coisa, e vocês chamam isso de disciplinar a mente para prestar atenção. Tentam excluir dela todos os pensamentos, deixando somente aquilo no que desejam se concentrar totalmente. É o que a maioria das pessoas chama de prestar atenção. Mas acredito que existe um tipo diferente de atenção, um estado da mente que não é exclusivo, que não elimina nada, e, como não existe resistência, a mente é capaz de uma atenção muito maior. Mas a atenção sem resistência não significa a atenção da absorção.

O tipo de atenção que gostaria de discutir é totalmente diferente daquele que geralmente chamamos de atenção, e possui possibilidades imensas porque não é exclusivo. Q uando vocês se concentram num assunto, numa palestra ou numa conversa, consciente ou inconscientemente constroem uma parede de resistência contra a intrusão de outros pensamentos, e, portanto, a mente não está toda ali; apenas de modo parcial, ainda que prestem muita atenção, porque parte dela está resistindo a qualquer intrusão, qualquer desvio ou distração.

Vamos iniciar pelo outro lado. Sabem o que é distração? Vocês querem prestar atenção ao que estão lendo, mas a mente é distraída por alguir barulho externo e vocês olham pela janela. Quando desejam seconcentrar em alguma coisa e a mente divaga, a peram- bulação é :hamada de distração. Então, parte da mente resiste à chamada distração, e ocorre um gasto de energia nessa resistência. Bem, ;e vocês estiverem conscientes de todos os momentos da mente £ todo tempo, então não existirá a tal distração e a energia da merte não será desperdiçada na resistência a algo. Por isso é importante descobrir o que é realmente atenção.

Se ouvirem tanto o som quanto o silêncio dos sinos entre as badaladas; o todo dessa audição é atenção. Da mesma forma, quando aljuém está falando, a atenção é a doação da mente não somente àí palavras, mas também ao silêncio entre as palavras. Se vivenciaren isso, descobrirão que a mente pode prestar toda a aten­ção sem ditração e sem resistência. Quando disciplinam a mente dizendo: “Ião devo olhar pela janela, não devo dar atenção às pessoas que elegam, devo prestar atenção mesmo querendo fazer outra coisa”, ciam uma divisão que é muito destrutiva, porque dissipa a energia di mente. Mas se ouvirem de modo abrangente, para que não haja d/isão e, portanto, nenhuma forma de resistência, então descobrira* que a mente pode prestar toda a atenção a qualquer coisa sem sforço. Compreendem? Estou sqpçto claro?

Certanente disciplinar a mente para prestar atenção é causar sua detericação — o que não significa que a mente tenha de passear para láe para cá como um macaco. Porém, excetuando a aten­ção da abso-ção, esses dois estados são tudo o que conhecemos. Ou tentamos csciplinar a mente tão tensamente que ela não pode se deáviar ouleixamos que perambule de um ponto a outro. Mas o que estou escrevendo não é um compromisso entre os dois; pelo contrário, ão é nenhum dos dois. É uma abordagem bem diferente; é estar otalmente consciente para que a mente esteja atenta durante too o tempo sem ser pega no processo de exclusão.

Tentem fazer o que estou dizendo e verão como a mente pode aprender rapidamente. Podem ouvir uma cantiga ou um som e deixar que a mente seja envolvida totalmente de modo que não haja esforço no aprendizado. Afinal, se souberem como ouvir o que o professor está dizendo sobre algum fato histórico, se puderem ouvir sem resistência, porque a mente possui espaço e silêncio e, portanto, não se distrai, vocês ficarão conscientes não somente do fato histórico, mas também do preconceito que ele pode transm itir e a própria resposta interna.

Vou dizer a vocês uma coisa. Sabem o que é espaço. Existe espaço nesta sala. A distância entre os quartos e aqui, entre a ponte e sua casa, entre esta margem do rio e a outra — tudo isso é espa­ço. Bem, existe também espaço na sua mente? Ou ela está tão povoada que não existe espaço? Se a mente possui espaço, então nesse espaço existe silêncio — e desse silêncio surge tudo, pois vocês podem ouvir, podem prestar atenção sem resistência. Essa é a importância de haver espaço na mente. Se a mente não estiver superpovoada, ocupada sempre, então poderá ouvir o cachorro latindo, o trem atravessando a ponte distante, e estará também totalmente consciente do que for falado por uma pessoa aqui. Então, a mente é uma coisa viva, não está morta.

Pergunta: Ontem, após o encontro, nós vimos você observando duas crianças da aldeia, caracteristicamentepobres, brincando na margem da estrada. Gostaríamos de saber quais os sentimentos que surgiram em sua mente enquanto as observava.

Krishnamurti: Ontem à tarde vários alunos me encontraram na estrada, e logo depois de deixá-los vi os dois filhos do jardineiro brincando. Quem perguntou deseja saber que sentimentos tive enquanto observava as duas crianças.

Bem, quais os sentimentos que vocês têm quando observam crianças pobres? Isso é mais importante do que aquilo que senti. Ou vocês estão sempre tão ocupados quando vão para seus quartos ou para sua sala de aula que nunca as observam?

Quando vocês olham aquelas mulheres pobres carregando fardos pesados para o mercado ou veem crianças da aldeia brincando na lama com pouca coisa para se divertir, e que não receberão a mesma educação que vocês estão tendo, não têm um lar adequado, limpeza, roupas e alimento suficientes — quando observam tudo isso, qual é sua reação? É muito importante descobrirem qual é sua reação. Eu direi a vocês qual foi a minha.

Aquelas crianças não têm um local adequado para dormir; o pai e a mãe estão ocupados o dia inteiro, sem nenhum a folga; as crianças não sabem o que é ser amado, receber carinhos; os pais nunca se sentam com elas para contar histórias sobre a beleza da Terra e dos céus. E que tipo de sociedade é essa que produz circunstâncias em que pessoas imensamente ricas possuem tudo o que querem na Terra, e, ao mesmo tempo, existem crian­ças que não têm nada? Como essa sociedade surgiu? Vocês podem fazer uma revolução, romper os padrões, porém, do próprio desmoronar nascerá uma outra, idênticaVsob outra forma — os comissários com suas casas especiais no campo, os privilégios, os uniformes e outras coisas. É o que tem acontecido após cada revolução — a francesa, a russa, a chinesa. E será possível criar uma sociedade na qual corrupção e miséria não existam? Ela p o d e p ser criada somente quando vocês e eu estivermos livres da ambição e soubermos o que significa amar. Essa foi toda a minha reação, em um átimo.

E vocês, ouviram o que eu disse?

Pergunta: Como a mente pode ouvir várias coisas ao mesmo tempo?

Krishnamurti: Não foi a isso que eu me referi. Existem pessoas que conseguem se concentrar em várias coisas ao mesmo tem po — o que é simplesmente um treino da mente. Não estou falando sobre isso. Mas sobre a mente que não tem resistência, que pode ouvir porque tem espaço, o silêncio do qual podem brotar todas as coisas.

Pergunta: Por que gostamos de ser preguiçosos?

Krishnamurti: O que há de errado com a preguiça? O que há de errado em simplesmente ficar sentado parado e ouvindo um som distante se aproximando? Ou ficar na cama uma m anhã observando os passarinhos em uma árvore próxima, ou uma única folha dançando na brisa enquanto todas as outras estão paradas? O que há de errado nisso? Condenam os a preguiça porque achamos que é errado ser preguiçoso; então, vamos descobrir o que significa a preguiça. Se vocês estão se sentindo bem e permanecem deitados após certa hora, algumas pessoas podem lhes chamar de preguiçosos. Se não querem brincar ou estudar porque têm pouca energia ou por razões de saúde, isso também pode ser chamado de preguiça. Mas o que é realmente a preguiça?

Quando a mente não está consciente das suas reações, do próprio movimento sutil, é uma mente preguiçosa, ignorante. Se vocês não passam nas provas, se não leram vários livros e possuem muito pouca informação, isso não é ignorância. A verdadeira ignorância é não ter conhecimento de si próprio, nenhuma percepção de como a própria mente trabalha, quais são seus m otivos, bem como suas respostas. Da mesma forma, existe a preguiça quando a mente está adormecida. Ea mente da maioria das pessoas está adormecida. Estão drogacks pelo conhecimento, pelas Escrituras, pelo que Shankara ou algiém mais disse. Seguem uma filosofia, praticam a disciplina; portinto, suas mentes — que deveriam ser ricas, plenas, repletas cono o rio — são tornadas estreitas, entorpecidas, gastas. Essa merte é preguiçosa. E uma mente que é ambiciosa, que busca um resultado, não é ativa no sentido verdadeiro da palavra. Embora seja aiperficialmente ativa, esfor­çando-se, trabalhando todos os dias para obter o que deseja, no fundo está carregada de desespero, ce frustração.

Por isso, é preciso estar muito atmto para descobrir se alguém é realmente preguiçoso. Não aceiten passivamente se as pessoas disserem que vocês são preguiçosos. Descubram por si mesmos o que é a preguiça. O homem que apenas aceita, rejeita ou imita, aquele que, tendo medo, cava um pe.jueno buraco para si — ele é preguiçoso e, portanto, sua mente se deteriora, se desfaz. Mas quem permanece atento não é pregiiçoso, embora possa muitas vezes se sentar em silêncio e observir as árvores, os pássaros, as pessoas, as estrelas e o rio tranquilo.

Pergunta: Você diz que devemos nos :evoltarxontra a sociedade e, ao mesmo tempo, diz que não devenos ter ambição. O desejo de melhorar a sociedade não é uma amiição?

Krishnamurti: Expliquei cuidadoiamente o que entendo por revolta, mas devo utilizar duas pahvras diferentes para deixar mai^ claro. Revoltar-se dentro da sociedade para melhorá-la um pouco, realizar certas reformas, é cono a revolta de prisioneiros para melhorar a vida dentro das paredes da prisão; e essa revolta não é realmente uma revolta, mas »omente um motim. Compreendem a diferença? Revoltar-se dentro da sociedade é como um motim de prisioneiros que querem uma comida melhor, um tratamento melhor dentro da prisão, mas a revolta nascida da compreensão é um indivíduo rompendo com a sociedade; essa é a revolução criativa.

Porém, se vocês como indivíduos rompem com a sociedade, essa ação é motivada pela ambição? Se for, então vocês não rom peram, continuam dentro da prisão, porque a própria base da sociedade é a ambição, o poder da ambição, a ganância. Mas se compreenderem e fizerem uma revolução no próprio coração e mente, então não serão mais ambiciosos; não serão mais motivados pela inveja, pela ganância, pelo poder de compra, e estarão, portanto, totalmente fora de uma sociedade que é baseada nesses elementos. Então serão indivíduos criativos, e na sua ação haverá a semente de uma nova cultura.

Portanto, existe uma vasta diferença entre a ação da revolu­ção criativa e a da revolta ou motim dentro da sociedade. Enquanto estiverem preocupados com a mera reforma, em decorar as barras e as paredes da prisão, não serão criativos. Uma emenda sempre precisa de outra reforma, e traz somente mais miséria, mais destruição, enquanto a mente que compreende toda essa estrutura de poder aquisitivo, de ganância, de ambição, e rompe com ela, está em constante revolução. É expansiva, criativa; portanto, como uma pedra atirada na água do lago, sua ação produz ondas, e elas formam uma civilização totalmente diferente.

Pergunta: Por que me detesto quando não estudo?

Krishnamurti: Ouça a pergunta. Por que me detesto quando não estudo aquilo que é esperado de mim? Por que me detesto quando não sou bom como deveria? Em outras palavras, por que não vivo de acordo com os meus ideais?

Bem, não seria mais simples não ter ideais? Se vocês não tivessem ideais, não teriam motivos para se detestar. Então, por que dizem “Devo ser gentil, ser generoso, prestar atenção, estudar”? Se descobrirem o motivo e se libertarem dos ideais, então talvez ajam de maneira bem diferente — falarei sobre isso agora.

Então, por que vocês têm ideais? Em primeiro lugar, porque as pessoas sempre lhes disseram que se não tivessem ideais seriam pessoas sem valor. A sociedade, seja segundo o padrão comunista ou o capitalista, diz: “Este é o ideal”, e vocês o aceitam, tentam viver de acordo com ele, não é? Porém, antes de tentarem viver segundo um ideal, vocês não deveriam descobrir se é necessário tê-los? Certamente, faz mais sentido. Vocês têm o ideal de Rama e Sita e tantos outros que a sociedade transm itiu ou que vocês mesmos inventaram. Sabem por que os mantêm? Porque têm medo de ser o que são.

Vamos continuar em termos simples, sem complicar. Vocês têm medo de ser o que são — o que significa que não têm confiança em si mesmos. Por isso, tentam ser o que a sociedade, os pais e a religião dizem para ser.

Vocês têm medo de ser o que são? Por que não começam com o que são e não com o que deveriam ser? Serft compreender o que são, não faz sentido tentar mudar para o que pensam que deveriam ser. Portanto, joguem fora todos os ideais. Sei que as pessoas mais velhas não gostarão disso, mas não importa. Livrem-se dos ideais, joguem todos na lata de lixo e comecem com o que são — que é o quê?

Voçês são preguiçosos, não gostam de estudar, preferem jo gar, se distrair, como todos os jovens. Comecem com isso. Usem a mente para examinar o que querem dizer quando falam em se divertir — descubram o que está realmente envolvido nisso, não sigam o que seus pais ou os ideais dizem. Usem a mente para descobrir por que não gostam de estudar. Utilizem-na para descobrir o que querem fazer na vida — o que vocês querem fazer, não o que a sociedade ou alguns ideais mandam. Ao se dedicarem por inteiro a essa busca, então serão revolucionários, terão confiança para criar, ser o que são, e nisso há vitalidade, que se renova sempre. De outra maneira, vocês estarão dispersando energia ao tentarem ser como alguém.

Compreendem como é extraordinário ter tanto medo de ser o que são? Porque a beleza está em ser o que somos. Se descobrirem que são preguiçosos, que são tolos, e se compreenderem a preguiça e encarar a estupidez sem tentarem transformar em algo mais, então, nesse estado, descobrirão que existe uma enorme liberação, uma grande beleza, uma vasta inteligência.

Pergunta: Mesmo se criarmos uma nova sociedade revoltando-nos contra a atual, essa sociedade recém-criada não seria uma forma de ambição?

Krishnamurti: Acho que vocês não ouviram m inha explicação. Quando a mente se fevolta dentro de um padrão da sociedade, a revolta é como um motim em uma prisão, sendo apenas uma outra forma de ambição. Mas quando a mente compreende todo esse processo de destruição da atual sociedade e sai dela, então a ação não é ambição. Ela pode criar uma nova cultura, uma ordem social melhor, um mundo diferente, mas a mente não está preocupada com essa criação. A única finalidade é descobrir o que é verdadeiro; e é o movimento da verdade que cria um mundo novo, não a mente que está em revolta contra a sociedade.

19. Conhecimento e tradição

Gostaria de saber quantos de vocês notaran o arco-íris na tarde de ontem. Formou-se sobre a água e surgiu de repente. Foi belo ver, experimentar um grande senso de alegia, a consciência da vastidão e da beleza da Terra. Para comunbar essa alegria é preciso conhecer as palavras, o ritmo e a beleza ca linguagem correta, não é? Porém o mais importante é o própiio sentimento, o êxtase que vem junto com a apreciação profunda de algo adorável; e tal sentimento não pode ser despertado aptnas pelo simples cultivo do conhecimento ou da memória.

Vejam, precisamos ter conhecimento para nos comunicarmos, falarmos uns com os outros sobre algum assunto, e para cultivar o conhecimento é preciso haver memória. Sem conhecimento, yocês não podem pilotar um avião, não poderr construir grandes estradas, cuidar das árvores, dos animais e realizar várias outras atividades que um homem civilizado ceve fazer. Gerar eletricidade, trabalhar nas várias ciências, ajudu a humanidade por meio da medicina — para tudo isso vocês precisam ter conhecimento, informação, memória, e para tais assuntos é necessário receber a melhor instrução possível. Esse é o motivo por que é tão importante que vocês tenham professores de primeira linha, a fim de lhes dar a informação correta que os auxilie a cultivar um conhecimento integral sobre vários temas.

Mas, vejam, embora o conhecimento seja necessário em um nível, em outro ele se torna um impedimento. Existe muito conhecimento disponível a respeito da existência física, e ele aumenta sempre. É essencial utilizá-lo para o benefício do homem. Mas não existe um outro tipo de conhecimento que no nível psicológico torna-se um impedimento para a descoberta do que é verdadeiro? Afinal, o conhecimento é uma forma de tradição, não é? E tradição é o cultivo da memória. A tradição em assuntos mecânicos é essencial, mas quando é utilizada como um meio de guiar internamente o homem torna-se um impedimento para descobrir coisas maiores.

Confiamos no saber, na memória das coisas mecânicas e em nossa vida diária. Sem ele não seríamos capazes de dirigir um carro ou de fazer várias coisas. Mas ele também é um impedimento quando se torna uma tradição, uma crença que guia a mente, a psique, o ser interior; e também divide o homem. Já notaram como as pessoas no mundo inteiro são divididas em grupos, chamando a si mesmas de hindus, muçulmanos, budistas, cristãos etc.? O que as divide? Não é a investigação da ciência, não é o conhecimento da agricultura, de como construir pontes ou pilotar aviões a jato. O que as divide é a tradição: as crenças que condicionam a mente de determinada maneira.

Por isso o saber é um obstáculo quando se torrta uma tradi­ção que molda ou condiciona a mente em determinado padrão, porque ele não somente divide as pessoas e cria inimigos, mas também impede a descoberta profunda do que é verdade, vida, Deus. Para descobrir o que é Deus a mente precisa estar livre de toda a tradição, de todo o acúmulo, de todo o conhecimento que é utilizado como segurança psicológica.

A função da educação é dar ao aluno um conhecimento abundante em vários campos do desenvolvimento humano e, ao mesmo tempo, libertar a mente de toda tradição, para torná-lo capaz de investigar, resolver, descobrir. De outra maneira, a mente se torna mecânica, oprimida pela máquina do conhecimento. A menos que se liberte continuamente dos acúmulos da tradição, a mente é incapaz de descobrir o Supremo, o que é eterno; mas é claro que se deve adquirir cada vez mais saber e informação para poder lidar com as coisas que o homem precisa e deve produzir.

Portanto, o conhecimento, que é o cultivo da mem ória, é útil e necessário até certo ponto, mas em outro nível torna-se um estorvo. Reconhecer a diferença — ver quando ele é destrutivo e deve ser rejeitado e em que situação é essencial e deve ser executado tão amplamente quanto possível — é o começo da inteligência.

Mas o que está acontecendo na educação no momento atual? Vocês recebem vários tipos de conhecimento, não é? Quando forem para a universidade serão engenheiros, médicos ou advogados, farão mestrado em matemática ou alguma outra área do saber, poderão estudar ciências domésticas e aprender como cuidar da casa, como cozinhar, e outros assuntos, mas ninguém os auxilia a se livrarem de todas as tradições, para que desde o início ai mente de vocês esteja receptiva, viva e, portanto, capaz de descobrir algq totalmente novo o tempo todo. As filosofias, teorias e crenças que adquirem nos livros, e que se tornam sua tradição, são realmente um impedimento para a mente, porque ela as utiliza como um meio para a própria segurança psicológica, ficando, então, condicionada por elas. Por isso é tão necessário libertar a mente de toda a tradição e, ao mesmo tempo, cultivar o conhecimento, a técnica; essa é a função da educação.

O difícil é libertar a mente do saber para que ela possa descobrir o novo a todo momento. Um grande matemático menciona ter trabalhado num problema por alguns dias sem encontrar a solução. Certa manhã, enquanto fazia a costumeira caminhada, ele viu a resposta. O que acontecera? Sua mente, permanecendo em silêncio, estava livre para ver o problema, e o próprio problema revelou a resposta. A pessoa tem a informação sobre o problema, mas a mente deve estar livre dele para encontrar a resposta.

Muitos de nós aprendemos os fatos, reunimos informação ou conhecimento, mas a mente nunca aprende como se aquietar, como se livrar de todas as tormentas da vida, do solo no qual os problemas lançam suas raízes. Unimo-nos a sociedades, aderimos a algumas filosofias, dedicamo-nos a um a crença, porém tudo é inteiramente inútil porque não resolve nossos problemas hum anos. Pelo contrário, traz maior sofrimento, maior tristeza. O necessário não é uma filosofia ou crença, mas que a mente esteja livre para investigar, descobrir e ser criativa.

Vocês se concentram para serem aprovados nas provas, reúnem muita informação e anotam tudo para conseguir uma boa nota, esperando encontrar um emprego e se casar; e chega? Vocês adquiriram conhecimento, técnica, mas a mente não está livre, e vocês se tornam escravos do sistema existente — o que na verdade significa que não são seres humanos criativos. Podem ter filhos, pintar alguns quadros ou escrever um ou outro poema, mas certamente sem criatividade. Primeiro, deve haver liberdade na mente para que ocorra a criatividade, que pode ser expressada, depois, pela técnica. Mas a técnica é inútil sem uma mente criativa, sem a criatividade extraordinária que acompanha a descoberta do que é verdadeiro. Infelizmente, muitos de nós não conhecemos a criatividade por que sobrecarregamos nossas mentes com conhecimento, tradição, memória, com o que Shankara, Buda, Marx ou outros disseram. Porém, se a mente estiver livre para descobrir o que é verdadeiro, então vocês descobrirão uma riqueza abundante e incorruptível na qual existe grande alegria. Então todos os relacionamentos— com pessoas, ideias e coisas — terão um significado diferente.

Pergunta: O menino travesso pode mudar por meio da punição ou do amor?

Krishnamurti: O que vocês acham? Ouçam com cuidado a pergunta: pensem, sintam-na. Um menino travesso mudará por meio da punição ou do amor? Se m udar pela punição, que é uma forma de compulsão, será uma transformação? Você é uma pessoa de destaque, tem autoridade como professor ou pai; se ameaçá-lo, assustá-lo, o pobre garoto pode agir como você comanda, mas isso é uma mudança? Existe mudança por alguma forma de compulsão? Pode haver transformação por meio de legislação, de qualquer forma de medo?

E quando você pergunta se o amor ocasionará uma mudança no menino travesso o que quer dizer com a palavra “am or”? Se amar é compreender o menino — não modificá-lo, mas entender as causas que estão produzindo as travessuras — , então essa compreensão produzirá nele o fim das travessuras. Se eu desejar m udar o menino para que ele pare de fazer travessuras, meu pró- iprio desejo de mudá-lo consiste em uma forma de compulsão, não é? Mas se eu começâr a compreender por que ele é travesso, se conseguir descobrir e erradicar as causas que estão produzindo esse comportamento — alimentação errada, falta de sono, desejo de afeto, outro menino implicando com ele etc.— , então o menino não será mais travesso. Mas se o meu desejo for apenas de mudar o menino, para que ele se molde a um determinado padrão, então não posso compreendê-lo.

Vejam, isso traz o problema do que queremos dizer com m udar. Mesmo que o menino pare de ser travesso em função do seu amor por ele, o que é um tipo de influência, é uma mudança verdadeira? Pode ser amor, e, mesmo assim, uma forma de pressão sobre ele para que faça ou seja alguma coisa. E quando vocês dizem que um menino precisa mudar, o que querem dizer? Modifi-car-se de que para quê? Do que ele é para o que deveria ser? Se ele m udar para o que deveria ser, ele simplesmente não modificou o que era, não havendo, portanto, nenhuma mudança.

Em outros termos, se sou ganancioso e me torno desapegado porque vocês, a sociedade e os livros sagrados me dizem para sê- lo, eu mudei ou estou apenas chamando a ganância por outro nome? Porém, se eu for capaz de investigar e compreender todo o problema da minha ganância, então ficarei livre dela — o que é totalmente diferente de me tornar desapegado.

Pergunta: Como me tornar inteligente?

Krishnamurti: No momento em que tentar ser inteligente, deixará de sê-lo. Ê algo realmente importante, por isso não se preocupe. Se sou um tolo e todos me dizem que devo ser inteligente, o que acontece em geral? Luto para me tornar inteligente, estudo mais, tento conseguir notas melhores. Então as pessoas dizem: “Ele é um lutador” e dão tapinhas nas minhas costas; mas continuo sendo tolo, porque adquiri somente os adornos da inteligência. Por isso, o problema não é como me tornar inteligente, mas como ficar livre da estupidez. Se sendo estúpido tento me tornar inteligente, continuo a agir de maneira estúpida.

Vejam, o problema básico é o da mudança. Quando vocês perguntam: “O que é inteligência e como me tornar inteligente?” implica um conceito do que é inteligência, e então tentam ser como o conceito. Ter uma fórmula, uma teoria ou concep­ção do que é inteligência é tolice, não é? E se alguém é tolo e começa a descobrir o que é a estupidez sem nenhum desejo de mudar, sem dizer: “Eu sou tolo, sou estúpido, que coisa terrível!”, descobrirá que, ao desenrolar o problema, ali está a inteligência livre da estupidez, sem esforço.

Pergunta: Sou muçulmano. Se não seguir diariamente as tradições da minha religião, meus pais ameaçam me expulsar de casa. O que devo fazer?

Krishnamurti: Vocês que não são muçulmanos provavelmente aconselhariam que ele saísse de casa, não é? Mas, independente do rótulo que usam — hindu, parsi, comunista, cristão ou outro — , o mesmo se aplica a vocês; portanto, não se sintam superiores. Se disserem a seus pais que suas tradições são na verdade superstições, eles também os poriam para fora de casa.

Bem, se vocês foram criados em uma determinada religião e seus pais disserem que saiam de casa se não seguirem determinadas práticas que agora vocês veem como velhas superstições, o que farão? Depende da força com que não desejam seguir as antigas superstições, não é? Dirão: “Pensei muito sobre o assunto e acho quç se considerar muçulmano, hindu, budista, cristão ou qualquer outra religião é bobagem. Se por essa razão devo sair de casa, sairei. Estou pronto para enfrentar o que a vida trouxer, até a m iséria e a morte, porque é isso que acho correto, e defenderei minha opinião” — é isso? Caso contrário, serão engolidos pela tradição, pelo coletivo.

Então, o que fazer? Se a educação não lhes dá algum tipo de confiança, então qual é o seu propósito? Será apenas prepará-los para conseguir um emprego e fazer parte de uma sociedade que é obviamente destrutiva? Não digam: “Somente alguns conseguem romper, e não tenho força suficiente.” Qualquer um pode se desprender dos que tolhem a mente. Para compreender e suportar a pressão da tradição, vocês não devem ter força, mas confiança — a enorme confiança que vem quando vocês sabem como pensar sozinhos. Mas, vejam, a educação que recebem não lhes ensina como pensar; ela diz o que pensar. Afirma que vocês são muçulmanos, hindus, cristãos, isto ou aquilo. Mas a função da educação correta é ajudá-los a pensar por si mesmos, de modo que a partir do seu próprio pensamento vocês sintam enorme confiança. Então serão seres humanos criativos, não uma máquina escrava.

Pergunta: Você nos diz que não devemos usar resistência no ato de prestar atenção. Como conseguir isso?

Krishnamurti: Tenho dito que qualquer forma de resistência é falta de atenção, distração. Não aceitem simplesmente, pensem a respeito. Não aceitem nada, não importa quem tenha dito, mas investiguem por si mesmos. Se meramente aceitarem, vocês se tornarão mecânicos, apáticos, já estarão mortos. Mas se investigarem, se pensarem, então serão seres humanos vivos, ativos, criativos.

Mas conseguem prestar atenção no que está sendo dito e ao mesmo tempo estar consciente de que alguém chega, sem virar a cabeça para ver quem é nem qualquer esforço para não virar a cabeça? Se resistirem para não virar a cabeça para olhar, sua aten­ção já se dividiu e vocês estão gastando energia mental nessa resistência. Portanto, pode haver um estado de atenção total no qual não existe distração e, portanto, nenhum a resistência? Ou seja, podem prestar atenção a alguma coisa com todo o ser e, mesmo assim, manter a parte externa da consciência sensível ao que está acontecendo à volta e dentro de vocês?

Vejam, a mente é um instrumento extraordinário, que está absorvendo constantemente — vendo as várias formas e cores, recebendo inúmeras impressões, captando o significado das palavras, de um olhar etc.; e nosso problema é prestar atenção em algo enquanto mantemos a mente realmente sensível a tudo que está acontecendo, inclusive todas as impressões e respostas inconscientes.

O que estou dizendo envolve realmente todo o problema da meditação. Não podemos entrar nesse tema agora, mas, se alguém não sabe como meditar, não é um ser humano maduro. A medita­ção é uma das coisas mais importantes na vida— bem mais do que ser aprovado em exames para conseguir um título. Compreender o que é a meditação correta não é praticar meditação. A “prática” de qualquer coisa nos assuntos espirituais é mortal. Para compreender o que é a meditação correta é preciso a conscientização das operações da própria consciência; assim, haverá a atenção adequada, que não é possível quando existe alguma forma de resistência. Vejam, muitos de nós são educados para prestar atenção por meio da resistência, e, portanto, nossa atenção é sempre parcial, nunca completa— e é por isso que o processo da aprendizagem se torna tedioso, aborrecido, algo a se temer. Logo, é muito importante prestar atenção no sentido profundo da palavra, que é estar consciente dos meandros da própria mente. Sem o autoconhecimento, vpcês não conseguirão ter uma atenção correta. Por isso, em uma escola verdadeira, o aluno não somente deve aprender vários assuntos como também ser auxiliado a estar consciente do processo é prestar atenção sem resistência, pois a compreensão do próprio ser é o caminho da meditação.

Pergunta: Por que estamos interessados em fazer perguntas?

Krishnamurti: Muito simples: porque som os curiosos. Não querem aprender a jogar críquete ou futebol, ou a empinar uma pipa? No momento em que pararem de fazer perguntas, já estarão mortos — o que geralmente acontece com as pessoas mais velhas. Elas cessaram de questionar porque suas mentes estão lotadas com informações que outros disseram; elas aceitaram tudo e estão fixas na tradição. Se vocês fizerem perguntas, abrirão caminho, mas, no momento em que começarem a aceitar, estarão psicologicamente mortos. Portanto, durante toda a vida, não aceitem as coisas, mas questionem, investiguem. Então descobrirão que a mente é algo realmente extraordinário, sem fim; para ela não existe a morte.

20. Ser religioso é ser sensível à realidade

A QUELE CAMPO VERDE com flores amarelo-mostarda e com o regato atravessando-o é algo belo de ser visto, não acham? Ontem à noite fiquei olhando para ele, e quando vemos a extraordinária beleza e calma de uma paisagem rural invariavelmente nos perguntamos o que é a beleza. Existe uma resposta imediata para o que é belo e também para o que é feio, para o prazer e para a dor, e colocamos esse sentimento em palâvras dizendo: “Isto é belo” ou “Isto é feio”. Mas o que importa não é o prazer ou a dor; pelo contrário, é estar em comunhão com todas as coisas, ser sensível tanto ao feio quanto ao belo.

E o que é beleza? É uma das perguntas mais fundamentais, não é, superficial; portanto, não a coloquem de lado. Compreender o que é a beleza — sentir aquela bondade que chega quando a mente e o coração estão em comunhão com algo belo, sem qualquer impedimento, de modo que a péssoa se sinta completamente bem — , certamente isso é de grande significado na vida. E até que conheçamos essa resposta à beleza, nossas vidas serão fúteis. É possível estar rodeado por grande beleza, por montanhas, campos e rios, mas se não formos sensíveis a tudo isso, estaremos como mortos.

Vocês, jovens, adultos e idosos, devem se perguntar: o que é a beleza? Limpeza, o capricho de uma roupa, um sorriso, um gesto gracioso, o ritmo do andar, uma flor no cabelo, boas maneiras, clareza na fala, atenção, consideração pelos outros, pontualidade— tudo isso faz parte da beleza, mas está somente na superfície, não é? E é somente isso que forma a beleza ou existe algo bem mais profundo?

Existe a beleza da forma, do projeto, da vida. Já observaram o belo formato de uma árvore com todas as folhas ou a delicadeza extraordinária de galhos desfolhados com o céu ao fundo? Essas coisas são belas de serem vistas, porém são todas expressões superficiais de algo bem mais profundo. Então, o que é que chamamos de beleza?

Vocês podem ter um belo rosto, feições bem delineadas, se vestir com bom gosto e ter boas maneiras, podem pintar bem ou escrever sobre a beleza de uma paisagem, mas, sem o senso interior da bondade, todos os complementos externos da beleza conduzirão a uma vida bem superficial e sofisticada; uma vida sem m uito significado.

Por isso precisamos descobrir o que é realmente a beleza, não é? Vejam, não estou dizendo que devemos evitar as expressões externas da beleza. Todos devemos ter boas maneiras, estar fisicamente limpos e bem vestidos, sem ostentação, ser pontuais, claros em nossa fala e todas as outras coisas. Elas são necessárias e criam uma atmosfera agradável, mas em si mesmas não têm muito significado.

É a beleza interna que traz a graça— gentileza requintada com a forrria e o movimento externos. Em que consiste a beleza interna sem a qual a vida se torna fútil? Já pensaram nisso? Provavelmente não. Vocês estão muito ocupados, as mentes estão muito atarefadas com estudos, jogos, conversas, em rir e implicar uns com os outros. Mas ajudar vocês a descobrir o que é a beleza interna, sem a qual a forma e o movimento externos possuem pouca relevância, é uma das funções da educação correta; e a aprecia­ção profunda da beleza é parte essencial da própria vida.

Uma mente fútil consegue apreciar a beleza? Pode falar sobre beleza, mas conseguirá vivenciar o crescer de uma imensa alegria ao olhar algo que é realmente belo? Quando a mente está somente preocupada consigo mesma e com suas atividades, ela não é bonita; não importa o que fizer, ela permanecerá sem atrativos, limitada e, portanto, incapaz de saber o que é a beleza. Bem, a mente que não está preocupada consigo mesma, que está livre da ambição, que não está presa nos próprios desejos ou impulsionada pela busca por sucesso não é fútil, e floresce na bondade. Compreendem? É a bondade interior que traz a beleza, mesmo para um rosto considerado feio. Onde existe a bondade interna, o rosto feio é transformado, pois a bondade interna é realmente um sentimento religioso profundo.

Sabem o que é ser religioso? Não está ligado aos sinos dos templos, embora eles soem bonito a distância, nem aos pujas, nem às cerimônias dos sacerdotes e todo o restante de uma ritualística sem propósito. Ser religioso é ser sensível à realidade. O seu ser total — corpo, mente e coração — é sensível à beleza e à feiura, ao burrico preso a um poste, à pobreza e à sujeira da cidade, ao riso e às lágrimas, a tudo de vocês. Da sensibilidade pelo todo da existência brota a bondade, o amor; e sem ela não existe beleza, embora vocês possam ter talento, andar bem vestidos, escrupulosamente limpos e dirigindo um carro de luxo.

O amor é algo extraordinário, não é? Vocês não conseguem amar se estiverem pensando em si mesmos — o que não significa que devam estar pensando a respeito de outra pessoa. O amor é, não possui objeto. A mente que ama é realmente religiosa, porque está no movimento da realidade, da verdade, de Deus, e é apenas essa mente que pode conhecer o que é a beleza. Aquela que não está presa a qualquer filosofia, que não está enclausurada em qualquer sistema ou crença, que não é impulsionada pela própria am bição, sendo, portanto, sensível, alerta e atenta — essa mente possui beleza.

É muito importante, enquanto são jovens, que vocês aprendam a ser asseados e limpos, a se sentar bem, sem movimentos inquietos, a ter boas maneiras à mesa e a ser atenciosos, pontuais; porém, tudo isso, embora necessário, é superficial, e se cultivarem somente o superficial, sem compreenderem o lado mais profundo, nunca conhecerão o verdadeiro significado da beleza. A mente que não pertence a nenhuma nação, grupo ou sociedade, que não possui autoridade, que não é motivada pela ambição ou tolhida pelo medo, está sempre florindo no amor e na bondade. Porque é no movimento da realidade que se conhece o que é a beleza; e ao sermos sensíveis tanto à feiúra quanto à beleza, nossa mente será criativa, com uma compreensão ilimitada.

Pergunta: Se eu tiver alguma ambição quando criança, serei capaz de realizá-la quando adulto?

Krishnamurti: Uma ambição infantil geralmente não é duradoura, certo? Um menino pequeno deseja ser maquinista, ou vê um avião brilhando no céu e deseja ser um piloto, ou ouve um orador político e deseja ser como ele, ou vê um sannyasi e decide ser um também. Uma menina pode desejar ter vários filhos, ou ser a esposa de um homem rico e viver em uma casa grande, ou pode aspirar a pintar ou a escrever poemas.

Bem, sonhos infantis são realizados? E são sonhos dignos de serem realizados? Buscar a realização de qualquer desejo, não importa qual seja, sempre traz tristeza. Talvez vocês ainda não tenham notado, mas o farão quando crescerem. A tristeza é a sombra de um desejo. Se quero ser rico ou famoso, luto para atingir meu objetivo, deixando os outros de lado e criando inimizades; e mesmo que eu consiga satisfazer minha vontade, mais cedo ou mais tarde alguma coisa invariavelmente acontece. Fico doente, ou na própria realização do meu desejo anseio por outra coisa; e existe sempre a morte à espreita na esquina. Ambição, desejo e realização conduzem inevitavelmente a frustração, tristeza. Vocês podem observar o processo por si mesmos. Estudem as pessoas mais velhas à sua volta, os homens que são famosos, que se destacam na Terra, aqueles que fizeram nome e adquiriram poder. Olhem para os rostos deles, vejam como são tristes, ou gordos e pomposos. Suas faces possuem feições feias. Não florescem na bondade porque em seus corações existe tristeza.

Não é possível viver neste mundo sem ambição, sendo somente aquilo que são? Se começarem a compreender aquilo que são sem tentar mudar, então o que são passará por uma transforma­ção. Penso que é possível viver de maneira anônima, completamente desconhecido, sem ser famoso, ambicioso ou cruel. É possível viver feliz quando não damos importância ao ser; e isso também faz parte da educação correta.

O mundo inteiro está idolatrando o sucesso. Vocês ouvem histórias de como um menino pobre estudou à noite e finalmente tornou-se um juiz, ou como ele começou vendendo jornais e ter-mjnou multimilionário. Vocês são alimentados com a glorifica­ção do sucesso. Com a realização de um grande sucesso surge também grande tristeza, porém muitos de nós somos pegos pelo desejo de realizar, e o sucesso é muito mais importante para nós do que a compreensão e â dissolução do sofrimento.

Pergunta: No atual sistema social não é muito difícil colocar em ação o que você tem falado?

Krishnamurti: Quando sentem fo rte m e n te algum a coisa, vocês consideram a dificuldade de colocá-la em ação? Q uando são hábeis no críquete, vocês jogam com toda a vontade, não é? E chamam isso de dificuldade? Somente quando vocês não sentem realmente a verdade de uma coisa é que a consideram difícil de pôr em ação. Vocês não a amam. O que amam, fazem com fervor, com alegria, e então a sociedade ou o que os seus pais dizem deixa de ter im portância. Mas se não estão profundam ente convencidos, se não se sentem livres e felizes ao fazer o que acham que é certo, certam ente o interesse é falso, irreal; então, a tarefa se torna complicada, e vocês dizem que é difícil colocá-la em ação.

Ao fazerem o que gostam, certamente encontrarão dificuldades, mas elas não incomodarão vocês; faz parte da vida. Vejam, nós construímos uma filosofia da dificuldade, consideramos que é uma virtude fazer esforço, lutar, se opor.

Não estou me referindo à proficiência através do esforço e da luta, mas do amor em fazer algo. Mas não batalhem contra a sociedade, não se atraquem contra a tradição ultrapassada a menos que haja amor em vocês, senão a luta será vã, e vocês simplesmente causarão mais danos. Porém, ao sentirem que algo é correto e pode portanto, permanecer por si só, então a ação nascida do amor terá um significado extraordinário, terá vitalidade, beleza.

Sabem, é somente na mente equilibrada que nascem as grandes ações, e uma mente equilibrada não é atingida através do esforço, do controle, da disciplina.

Pergunta: O que quer dizer com mudança total, como ela pode ser realizada no próprio ser?

Krishnamurti: Acham que pode ocorrer uma m udança total se tentarem realizá-la? Sabem o que é uma mudança? Suponham que vocês são ambiciosos e que começaram a ver tudo que está relacionado a ela: esperança, satisfação, frustração, crueldade, tristeza, desconsideração, ganância, inveja e total falta de amor. Ao verem tudo isso, o que farão? O esforço para m udar ou transformar a ambição é uma outra forma de ambição, não é? Implica um desejo de ser algo mais. Vocês podem rejeitar um desejo, porém, nesse mesmo processo cultivam um outro desejo, que tam bém traz sofrimento.

No entanto, se virem que a ambição traz sofrimento e que o desejo de dar um fim a ela também traz sofrimento, se virem cla- ramente, por si mesmos, a verdade e não agirem, mas permitirem que a verdade aja, então ela causará uma mudança fundamental na mente, uma revolução total. Mas isso requer muita atenção, penetração, insight.

Quando lhes dizem que devem ser bons, que devem amar, o que geralmente acontece? Vocês falam: “Devo praticar o bem, devo mostrar o amor pelos meus pais, pelos empregados, pelo burrico, por tudo.” Isso significa que estão fazendo um esforço para mostrar amor — e então o “amor” torna-se falso, bonitinho, como acontece com os nacionalistas que estão sempre praticando a fraternidade, que é tola, estúpida. É a ganância que gera essas práticas. Mas, se virem a verdade do nacionalismo, da ganância, e deixarem que a verdade trabalhe sobre vocês, que ela aja, então serão fraternos sem fazer qualquér esforço. A mente que pratica o amor não pode amar. Mas se amarem e não interferirem nisso, então o amor agirá.

Pergunta: Senhor, o que é autoexpansao?

Krishnamurti: Se desejam se tornar um governante ou um p rofessor famoso, se imitam um grande homem ou um herói, se tentam seguir o guru ou um santo, então o processo de vir a ser, da imitação, de seguir, é uma forma de autoexpansão, não é? Um homem ambicioso, que deseja ser grande, que quer realizar-se, pode dizer: “Estou fazendo isso em nome da paz e pelo bem do meu país”, mas essa ação ainda é uma expansão de si mesmo.

Pergunta: Por que o homem rico é orgulhoso?

Krishnamurti: Um menino me pergunta por que o hom em rico é orgulhoso. Vocês notaram mesmo que o homem rico é orgulhoso? E não viram que o pobre também tem orgulho? Todos nós temos nossa própria arrogância peculiar, que revelamos de várias maneiras. O rico, o pobre, o erudito, o capaz, o santo, o líder— cada um à sua maneira tem o sentimento de que conseguiu, que é um sucesso, que é alguém ou que pode fazer alguma coisa. Mas aquele que é ninguém, que não deseja ser alguém, que é somente ele e que compreende a si próprio: essa pessoa é livre da arrogância, do orgulho.

Pergunta: Por que somos sempre pelo “eu” e pelo “m eu”, epor que continuamos a trazer para estes nossos encontros os problemas que tal estado da mente produz?

Krishnamurti: Você realmente quer saber ou alguém lhe pediu para fazer esta pergunta? No problema do “eu” e do “meu” estamos todos envolvidos. É realmente o único problema que temos, e estamos sempre falando sobre isso, de diversas formas, algumas vezes em termos de realização e em outras em termos de frustra­ção, sofrimento. O desejo de ter uma felicidade duradoura, medo de morrer ou de perder as propriedades, o prazer de ser elogiado, o ressentimento ao ser insultado, a discussão sobre o seu deus e o meu, a sua maneira e a minha — a mente está incessantemente ocupada com tudo isso, e nada além. Pode pretender buscar a paz, sentir a fraternidade, ser boa, amar, mas por trás dessa tela de palavras ela continua presa no conflito do “eu” e do “meu”, e por isso cria os problemas que vocês trazem a cada manhã, com palavras diferentes.

Pergunta: Por que as mulheres gostam ãe se vestir hem?

Krishnamurti: Já perguntou a elas? E nunca observou os pássaros? Com frequência, o macho é o mais colorido, mais vistoso. Ser fisicamente atraente faz parte do relacionamento sexual para produzir a outra geração mais jovem. Isso é vida. E os meninos também se arrumam. Quando crescem, gostam de pentear os cabelos de determinada maneira, de usar um boné bonito, roupas bonitas — o que é a mesma coisa. Todos gostamos de aparecer. O rico, no carro de luxo, a moça que se maquia, para ficar mais bonita, o rapaz que tenta ser esperto — todos querem mostrar que têm alguma coisa. Mundo estranho, não é? Vejam, um lírio ou uma rosa nunca pretendem ser belos, e sua beleza provém do fato de que são porque são.

21. O propósito do aprendizado

Estão INTERESSADOS em tentar descobrir o que é o aprendizado? Vocês vão para a escola para aprender, não é? E o que é o aprendizado? Já pensaram nisso? Como aprendem, por que aprendem e o que estão aprendendo? Qual é o significado, o sentido mais profundo do aprendizado? Já aprenderam a ler e a escrever, a estudar vários assuntos e também a adquirir uma técnica, a se preparar para uma profissão com a qual conseguirão ganhar a vida. Queremos dizer tudo isso quando falamos em aprendizagem — e a maioria das pessoas pára aqui. Assim que somos aprovados em concursos e conseguimos um emprego, uma profissão, parece que esquecemos tudo sobre aprendizagem.

Mas existe alguma finalidade no aprendizado? Dizemos que aprender com os livros e aprender pela experiência são coisas diferentes; são mesmo? Com os livros aprendemos aquilo que outros escreveram sobre ciências, por exemplo. Então fazemos nossos próprios experimentos e continuamos a aprender por meio deles. E também aprendemos pela experiência — pelo menos é o que dizemos. Mas, afinal, para sondar as extraordinárias profundidades da vida, descobrir o que é Deus ou verdade, é preciso haver liberdade; e, pela experiência, existe liberdade para ser descoberta, para aprender?

Já pensaram sobre o que é a experiência? É o sentimento em resposta a um desafio, não é? Responder a um desafio é uma experiência. E vocês aprendem por meio da experiência? Quando vocês respondem a um desafio, a um estímulo, sua resposta é baseada no seu condicionamento, na educação que receberam, na sua base cultural, religiosa, social e econômica. Vocês respondem a um desafio condicionados pela sua formação como hindu, cristão, comunista ou o que for. Se não romperem com sua formação, a resposta a qualquer desafio somente reforça ou modifica essa base. Então, nunca estarão realmente livres para explorar, descobrir, compreender o que é a verdade, o que é Deus.

Portanto, a experiência não liberta a mente, e o aprendizado pela experiência é somente um processo de formação de novos padrões baseados em um antigo condicionamento. Acho que é muito importante compreender isso porque, à medida que nos tornamos adultos, ficamos cada vez mais entrincheirados na nossa experiência, esperando aprender; mas o que aprendemos é ditado pelo conhecimento, o que significa que, por meio da experiência pela qual aprendemos, nunca existe liberdade, mas somente a modificação do condicionamento.

E o que é aprendizagem? Vocês começam aprendendo a ler e escrever, como se sentar em silêncio, como obedecer ou não; aprendem a história deste ou daquele país, aprendem línguas que são necessárias à comunicação; aprendem como ganhar o sustento, como cultivar os campos etc. Mas existirá um estado de aprendizagem no qual a mente esteja livre do conhecimento, um estado no qual não existe busca? Compreendem a questão?

Aquilo que chamamos dí aprendizagem é um processo contínuo de ajustamento, resistêicia, submissão; aprendemos a evitar ou ganhar algo. Bem, exis irá um estado no qual a mente não é o instrumento do aprendizido, mas de ser? Veem a diferença? Enquanto estamos adquirindo, ganhando, evitando, a mente precisa aprender, e nesse aprendi;ado existe sempre uma grande tensão, uma resistência. Para apnnder vocês precisam se concentrar, não é? E o que é a concentraçío?

Já notaram o que acontece quando se concentram em alguma coisa? Quando são convocidos para estudar um livro que não gostariam de ler ou, mesmo qjerendo, vocês têm de resistir e desistir de outras coisas. Resisten à inclinação de olhar pela janela ou de conversar com alguérr para se concentrarem. Então, na concentração existe sempre ( esforço, não é? Na concentração existe um motivo, um incentvo, um esforço para aprender para conseguir alguma coisa; e nos;a vida é uma série desses esforços, um estado de tensão no qual estamos tentando aprender. Mas se não houver nenhuma tensão,nenhuma aquisição, nenhum aumento de conhecimento, a m:nte não é capaz de aprender com mais profundidade e rapidez? íntão ela se torna um instrumento de questionamento para desobrir o que é a verdade, o que é a beleza, o que é Deus — o que ãgnifica na verdade que ela não se submete a qualquer autoridadi, seja a do conhecimento ou da sociedade, da religião, da cultun ou do condicionamento.

Vejam, é somente quando i mente fica livre do fardo do saber que vocês conseguem descobrf o que é verdadeiro, e no processo da descoberta não ocorre o acúnulo, não é? No momento em que vocês começam a acumular o cue vivenciaram ou aprenderam, o conhecimento se torna uma âicora, que prende a mente e impede que ela prossiga. No proceso da inquirição, a mente verte dia após dia o que aprendeu, de mido que está sempre receptiva, sem se contaminar pela experiência do ontem. A verdade é viva, não é estática, e a mente que vai descobrir a verdade precisa tam bém estar viva, não sobrecarregada pelo conhecimento ou experiência. Então haverá somente aquele estado no qual a verdade pode acontecer.

Tudo isso pode ser difícil no sentido verbal, porém o significado não é difícil se vocês aplicarem sua mente a ele. Para questionar sobre as coisas mais profundas da vida, a mente precisa estar livre, e no momento que aprenderem e fizerem desse aprendizado a base para questionar mais, ela não estará livre, e vocês não mais questionarão.

Pergunta: Por que esquecemos com tanta facilidade aquilo que achamos difícil aprender?

Krishnamurti: Vocês estão aprendendo somente porque as circunstâncias os forçam a isso. Afinal, se estão estudando física e matemática, mas desejam muito ser um advogado, logo esquecerão a física e a matemática. Vocês realmente aprendem se tiverem um incentivo para aprender. Se querem passar em certas provas somente para conseguir um emprego e se casar, podem fazer um esforço para se concentrar e aprender, mas assim que são aprovados esquecem o que aprenderam , não é? Q uando aprender é somente um meio para conseguir alguma coisa, no momento em que chegarem aonde desejam, esquecem os meios— e certamente isso não é aprendizagem. Portanto, só existe o processo de aprendizagem quando não há um motivo, um incentivo; quando vocês agem pelo próprio amor.

Pergunta: Qual o significado da palavra “progresso”?

Krishnamurti: Como a maioria das pessoas, vocês têm ideais, não é? Um ideal não é real nem factual; é o que deveria ser, algo no futuro. Bem, o que digo é: esqueçam o ideal e estejam atentos àquilo que são. Não busquem o que deveriam ser, mas compreendam o que é. A compreensão daquilo que vocês realmente são é bem mais importante do que a busca daquilo que deveriam ser. Por quê? Porque na compreensão do que são tem início um processo espontâneo de transformação, enquanto no vir a ser aquilo que pensam que deveriam ser não ocorre nenhuma mudança, mas somente uma continuação da mesma coisa antiga, sob uma forma diferente. Se a mente, ao ver que é estúpida, tenta mudar a estupidez em inteligência, que é o que deveria ser, isso é bobagem, não tem significado, nem realidade; é somente a busca da autoprojeção, um adiamento da compreensão do que é. Enquanto a mente tenta mudar sua estupidez em outra coisa, ela permanece estúpida. Mas se ela diz: “Compreendo que sou estúpida e desejo compreender o que é a estupidez, por isso mergulharei nela e observarei como ela acontece”, então o próprio processo da inquirição opera uma transformação fundamental.

“Qual o significado da palavra ‘progresso’?” Ele existe? Vocês veem um carro de boi movendo-se a 4 km/h e um avião viajando a 900 km /h ou mais. Isso é progresso, não é? Existe um progresso tecnológico: melhores meios de comunicação, melhor saúde e outros. Mas existe outra forma de progresso? Há o psicológico, no sentido do avanço espiritual ao longo do tempo? A ideia do progresso na espiritualidade é realmente espiritual, ou apenas uma invenção da mente?

Sabem, é muito importante fazer perguntas fundamentais, mas, infelizmenté, descobrimos respostas muito fáceis para elas. Achamos que uma resposta fácil é uma solução, mas não é. Devemos formular a pergunta fundamental e deixar que a questão opere, funcione em nós para descobrir qual é a sua verdade.

O progresso implica tempo, não é? Afinal, foram precisos séculos para sair do carro de boi para o avião. Mas achamos que podemos descobrir a realidade, ou Deus, da mesma maneira, com o tempo. Estamos aqui e achamos que Deus está ali, ou em algum lugar distante, e para cobrir aquela distância, esse espaço interm ediário, dizemos que precisamos de tempo. Porém, Deus, ou a realidade, não é fixo. Nem nós somos fixos; não existe um ponto fixo do qual começamos e nenhum outro para o qual nos movemos. Por razões de segurança psicológica agarram o-nos à ideia de que existe um ponto fixo em cada um de nós, e que essa realidade é tam bém fixa, mas isso é um a ilusão, não é verdade. No m om ento em que desejamos tem po para evoluir ou progredir interna e espiritualm ente, o que estam os fazendo não é mais espiritual, porque a verdade não está no tem po. A m ente aprisionada no tem po exige tem po para descobrir a realidade. E a realidade está além do tem po. A m ente precisa estar liberta de todo s os acúm ulos, conscientes e tam bém inconscientes, e som ente então será capaz de descobrir o que é a verdade, o que é Deus.

Pergunta: Por que os pássaros fogem quando nos aproximamos?

Krishnamurti: Como seria bom se os pássaros não voassem para longe quando vocês se aproximam! Se pudessem tocá-los, ser amigáveis com eles, como seria bom! Mas, vejam, nós, seres humanos, somos cruéis. Matamos pássaros, torturamos, os tiramos dos ninhos e os colocamos em gaiolas. Pensem em um belo papagaio aprisionado em uma gaiola! A cada entardecer ele chama pela companheira e vê outros pássaros voando pelo céu aberto. Quando agimos assim com os pássaros, não acham que eles se assustam quando nos aproximamos? Mas se vocês ficarem sentados tranquilos em um ponto isolado e permanecerem imóveis, realmente sutis, logo verão que eles se aproximam; eles rodeiam bem perto e é possível observar seus movimentos ágeis, as garras delicadas, a força extraordinária e a beleza das penas. Mas para isso vocês precisam ter demasiada paciência, o que significa que precisam ter muito amor, e também nenhum medo. Os animais parecem sentir o medo em nós, e eles por sua vez ficam assustados e fogem. Por isso é muito importante compreender a si mesmo.

Busquem isso, ao sentar sob uma árvore, mas não somente por dois ou três minutos, porque os pássaros não ficarão acostumados a vocês em tão pouco tempo. Sentem-se em silêncio sob a mesma árvore todos os dias, e logo começarão a ficar conscientes de que tudo à sua volta está vivo. Verão as folhas da grama brilhando sob a luz do sol, a atividade incessante dos passarinhos, o extraordinário esplendor de uma cobra, ou um milhafre voando alto nos céus aproveitando a brisa sem movimentar as asas. Mas para ver tudo isso e captar sua alegria é preciso ter a verdadeira quietude dentro de você.

Pergunta: Qual a diferença entre mim e você?

Krishnamurti: Existe alguma diferença fundamental entre nós?

Você tem a pele clara e a minha é escura;você pode ser bem esperto e saber bem mais do que eu; ou eu posso morar na aldeia enquanto você viaja pelo mundo inteiro e assim por diante. Obviamente, existem diferenças na forma, na fala, no conhecimento, nos modos, na tradição e na cultura, mas se somos brâmanes ou não brâmanes, americanos, russos, japoneses, chineses, ou qualquer outro povo, não existe uma grande similaridade entre todos nós? Todos sentimos medo, todos desejamos segurança, todos desejamos ser amados, todos desejamos comer e ser feliz. Mas, vejam, as diferenças superficiais destroem nossa conscientização da similaridade fundamental entre nós como seres humanos. Compreender e se libertar dessa similaridade traz muito amor, m uita consideração. Infelizmente, muitos de nós ficamos aprisionados nela, e, portanto, nos dividimos em virtude das diferen­ças superficiais de raça, cultura, crença. As crenças são uma maldição; elas segregam as pessoas e criam antagonismos. É somente quando vamos além de todas as crenças, além de todas as diferenças e semelhanças, que a mente pode se libertar para descobrir o que é a verdade.

Pergunta: Por que o professor chama minha atenção quando eu fumo?

Krishnamurti: Provavelmente, ele lhe disse várias vezes para não fumar porque isso não é bom para os jovens; mas você continua a fumar porque aprecia o gosto; logo ele se opõe a você. Mas o que você pensa? Acha que alguém deve criar o hábito de fumar, ou qualquer outro, enquanto é ainda tão jovem? Se, na sua idade, seu corpo se acostuma a fumar, significa que você já é escravo de algo, e isso não é uma coisa terrível? Fumar pode parecer certo para pessoas mais velhas, mas mesmo assim é extremamente duvidoso. Infelizmente elas têm as próprias desculpas por serem escravas de vários hábitos. Mas vocês, que são bem jovens, imaturos, adolescentes, que ainda estão em fase de crescimento, por que devem se acostumar a uma coisa, criar um hábito que somente os deixa insensíveis? No momento em que a mente se acostuma a uma coisa, ela começa a funcionar dentro do sulco do hábito, tornando-se, portanto, entorpecida e não mais vulnerável; perde essa sensibilidade, que é necessária para descobrir o que é Deus, o que é a beleza, o que é o amor.

Pergunta: Por que os homens caçam tigres?

Krishnamurti: Porque querem m atar pela emoção do ato. Todos fazemos inúmeras coisas impensadamente — como rasgar as asas de uma mosca para ver o que acontece. Conversamos e dizemos coisas estúpidas sobre outras pessoas; matamos para comer; assassinamos pela suposta paz; tiramos vidas pelo nosso país ou pelos nossos ideais. Portanto, existe um grande veio de crueldade em nós, não é? Mas se pudermos compreender e rejeitar isso, simplesmente observar os tigres passarem será um grande divertimento — como fizemos vários de nós uma noite nas cercanias de Bombaim. Um amigo nos levou até a floresta em seu carro para observarmos um tigre que alguém tinha visto em um local próximo. Estávamos retornando e tínhamos acabado de fazer uma curva quando, de repente, lá estava o tigre no meio da estrada.

Amarelo e preto, esbelto e de pelo lustroso, com uma longa cauda, era adorável de se olhar, cheio de graça e poder. Desligamos os faróis e ele se aproximou rosnando, passando tão perto que quase roçou no carro. Foi uma visão maravilhosa. É muito mais divertido poder observar uma cena dessas sem um rifle na mão; uma cena de grande beleza.

Pergunta: Por que somos afligidos pelo sofrimento?

Krishnamurti: Aceitamos o sofrimento como parte inevitável da vida, e construímos filosofias sobre isso; justificamos o sofrimento e dizemos que ele é necessário para encontrarmos Deus. Eu digo, ao contrário, que existe sofrimento porque o homem é cruel com o homem. E também não compreendemos muitas coisas na vida que trazem o sofrimento — coisas como a morte, o desemprego, a pobreza e a miséria. Não compreendemos nada, então ficamos amargurados; e quanto maior a sensibilidade, maior o sofrimento. Em vez de compreender tais fatos, justificamos o sofrimento; em vez de nos revoltarmos contra todo o sistema apodrecido e romper com ele, simplesmente nos ajustamos a ele. Para ficarmos livres da tristeza, é preciso ficar livre do desejo de causar o mal — e também do desejo de fazer o “bem”, o chamado bem que tam bém é resultado do nosso condicionamento.

22. A simplicidade do amor

Um HOMEM COM vestes de sannyasi costumava, todas as manhãs, colher flores em um jardim próximo. As mãos e os olhos buscavam ansiosos pelas flores, e ele apanhava todas que conseguia alcançar. Evidentemente, ele as oferecia a alguma imagem morta, algo feito de pedra. As flores eram lindas, suaves, recém-abertas ao sol da manhã, e ele não as colhia com gentileza, mas as arrancava, perversamente tirando-as do jardim. O deus que ele cultuava exigia muitas flores — muitas coisas vivas para uma imagem de pedra, morta.

O utro dia vi alguns meninos apanhando flores. Não iam oferecê-las a nenhum deus; conversavam, e, sem pensar, arrancavam as flores e as atiravam a esmo. Já se observaram agindo assim? Pergunto-me por que fazem isso. Enquanto caminham, quebram um galho, tiram folhas e jogam fora. Já notaram em voçês alguma ação impensada como essas? Os adultos agem assim e têm a própria maneira de expressar a brutalidade interna, o desrespeito terrível pelas coisas vivas. Eles falam sobre inocência, embora tudo o que façam seja destrutivo.

Ê compreensível que vocês colham um a flor ou duas para colocar no cabelo, ou para dar a alguém que amem, mas por que apenas dilacerá-las? Os adultos são terríveis em sua ambição, chacinam-se em suas guerras e se corrompem pelo dinheiro. Possuem suas próprias formas de atos horrendos, e aparentemente os jovens aqui, como em outros lugares, estão seguindo os mesmos passos.

Outro dia eu estava caminhando com um dos rapazes, e encontramos uma pedra no caminho. Quando eu a retirei, ele perguntou: “Por que fez isso?” O que esta pergunta indica? Falta de consideração, de respeito? Vocês devem mostrar respeito não pelo medo, não é? Prontamente se levantam quando uma pessoa mais velha entra na sala, mas isso não é respeito, é medo, porque, se realmente sentissem respeito, retirariam a pedra do caminho, não destruiriam as flores, cuidariam das árvores e ajudariam a m anter o jardim. Adultos ou jovens, não costumamos dar o devido valor às coisas. Por quê? Será porque não sabemos o que é o amor?

Compreendem o que é o amor simples? Não a complexidade do amor sexual, não o amor de Deus, mas somente o amor, ser carinhoso, realmente gentil na abordagem de todas as coisas. Em casa vocês nem sempre recebem o amor simples, pois seus pais são muito ocupados; em casa talvez não haja a verdadeira afei­ção, o carinho, então vocês chegam aqui tendo vivenciado a insensibilidade e se comportam como os outros. E como é possível despertar a sensibilidade? Não que seja preciso haver regras contra tirar flores, pois quando são meramente restringidos pelas regras existe medo. Mas como desenvolver a sensibilidade que os alerte para que não causem danos a pessoas, animais e flores?

Estão interessados nesse assunto? Deveriam estar. Se não estão interessados em serem sensíveis, daria no mesmo se estivessem mortos — e a maioria das pessoas está. Embora tenha três refeições por dia, empregos, filbs, dirija seus carros, use roupas sofisticadas, muita gente age coio se estivesse morta.

Sabem em que consiste ser snsível? Significa, certamente, ter sentimentos ternos pelas coisasver um animal sofrendo e fazer algo para aliviar sua dor, tirar um pedra do caminho porque muitos pés descalços passarão por à, recolher um prego da estrada porque poderá furar o pneu de íguém. Ser sensível é sentir pelas pessoas, pelos pássaros, pelas flces, pelas árvores — não porque são suas, mas porque estão condentes da beleza extraordinária das coisas. E como a sensibilidae pode ser despertada?

No momento em que forenprofundamente sensíveis, vocês naturalmente não arrancarão aflores; haverá um desejo espontâneo de não destruir, de não pnudicar, o que significa ter o verdadeiro respeito, amor. Amar é coisa mais importante na vida. Mas o que entendemos por ame? Quando vocês amam alguém porque aquela pessoa ama voes, certamente isso não é amor. Amar é ter um sentimento extraedinário de afeto sem pedir nada em troca. Podem ser muito espetos, serem aprovados em tudo, fazer doutorado e atingir uma psição elevada, mas se não tiverem sensibilidade, o sentimentole amor simples, o coração será vazio, e vocês permanecerão inflizes pelo resto da vida.

Por isso é muito importantejue o coração esteja preenchido com o afeto, pois assim vocês nã destruirão, não serão cruéis, e não haverá mais guerras. Serão sres humanos felizes, e por estarem felizes não rezarão, não busirão a Deus, pois a própria felicidade é Deus.

E como surge o amor? Certaiente, ele deve começar com o educador, o professor. Se, além c passar informações sobre m atemática, geografia ou história, (professor tiver o sentimento de amor em seu coração e falar sobi ele, se retirar espontaneamente a pedra do caminho e não pemitir que o empregado faça todos o trabalho “sujo”. Se, na conversa, no trabalho, na função que exerce, quando come, quando está com vocês ou sozinho, ele sente essa coisa estranha e a destaca com frequência para vocês, então vocês também saberão o que é amar.

Vocês podem ter a pele clara, o rosto bonito, usar um belo sári ou ser um grande atleta, mas sem amor no coração serão seres humanos feios além do aceitável; e quando amam, o rosto pode ser grosseiro ou belo, mas será radiante. Amar é a maior coisa na vida, e é muito importante falar sobre o amor, senti-lo, nutri-lo, valorizá-lo, senão, ele logo se dissipará, pois o mundo é brutal. Se enquanto jovens vocês não sentem o amor, se não olham com amor para as pessoas, os animais, as flores, quando crescerem descobrirão que sua vida é vazia; serão pessoas solitárias, e as sombras escuras do medo os seguirão sempre. Mas no momento em que tiverem no coração essa coisa extraordinária chamada amor e sentirem a profundidade, o prazer, o êxtase dele, descobrirão que para vocês o mundo se transforma.

Pergunta: Por que sempre as pessoas ricas e importantes são convidadas para assumir cargos na escola?

Krishnamurti: O que vocês acham? Querem que seu pai seja um homem importante? Não ficariam orgulhosos se ele se tornasse um membro do Parlamento e fosse mencionado nos jornais? Se ele lhes levar para m orar em uma casa grande, ou se for para a Europa e voltar fumando um charuto, vocês não ficariam felizes?

Vejam, os ricos e os que estão no poder são muito úteis para as instituições. A instituição os valoriza e eles fazem algo por ela, é uma função dupla. Mas a questão não é somente por que a escola convida as pessoas importantes para ocupar cargos; é por que vocês também desejam ser pessoas importantes, ou por que desejam se casar com o homem mais rico, mais conhecido ou mais bonito. Todos vocês não desejam ter algum destaque em alguma área? E por terem esses desejos já se encontra em vocês a semente da corrupção. Compreendem o que estou dizendo?

Ponham de lado por um momento a questão de por que a escola convida os ricos, pois existem também pessoas pobres nessas funções. Mas algum de vocês se senta perto dos pobres, dos camponeses? Sentam? E já notaram algo extraordinário: como os sannyasis gostam de se sentar em um lugar de destaque, como gostam de ficar na frente? Todos queremos ser destacados, ser reconhecidos. O verdadeiro brâmane é aquele que não pergunta nada a ninguém, não por ser orgulhoso, mas porque é uma luz para si mesmo. Mas nós perdemos tudo isso.

Sabem, existe uma história maravilhosa sobre quando Alexandre, o Grande, chegou na índia. Tendo conquistado o país, quis encontrar com o primeiro-ministro que tinha criado aquela ordem na Terra e tinha conseguido tanta honestidade, tanta incorruptibilidade entre as pessoas. Quando o rei explicou que o primeiro-ministro era um brâmane que tinha retornado para sua aldeia, Alexandre pediu para que ele fosse vê-lo. O rei enviou um mensageiro ao primeiro-ministro, mas este não compareceu porque não queria se mostrar para ninguém. Infelizmente perdemos esse espírito. Sendo vazios, tolos, magoados em nós mesmos, somos pedintes— psicologicamente falando — , em busca de alguém ou de algo para nos nutrir, dar esperança, nos sustentar, e essa é a razão de fazermos do normal algo feio.

É certo que algum funcionário proeminente venha para lan­çar a pedra fundamental de uma construção; que mal há nisso? Mas a corrupção está no espírito por trás do gesto. Vocês não costum am visitar os camponeses, não é? Nunca conversam com eles, nem os sentem, nem veem por si mesmos o pouco que têm para comer, como trabalham pesadamente dia após dia sem descanso; em consequência de eu ter destacado para vocês certos aspectos, vocês já estão prontos para criticar os outros. Não se reúnam para criticar, isso é vazio, mas saiam e descubram por vocês mesmos as condições das aldeias e façam algo útil: plantem uma árvore, conversem com os camponeses, convidem todos para vir até aqui, brinquem com as crianças. Então verão que um tipo diferente de sociedade começa a surgir, porque haverá amor na Terra. A sociedade sem amor é como a terra sem rios: um deserto; mas onde existem rios, a terra é rica, há abundância, beleza. Muitos de nós crescemos sem amor, e esse é o motivo de termos criado uma sociedade tão chocante quanto as pessoas que vivem nela.

Pergunta: Você diz que Deus não está na imagem esculpida, porém outras pessoas dizem que sim, e que se tivermos fé em nossos corações seu poder se manifestará. Qual a verdade sobre a adoração?

Krishnamurti: O mundo está tão cheio de opiniões quanto de pessoas. E vocês sabem o que é opinião. Vocês dizem uma coisa e alguém diz outra. Cada um tem a sua, mas a opinião não é a verdade; portanto, não ouçam a m era opinião, não importa de quem, e descubram por si mesmos qual é a verdade. A opinião pode mudar da noite para o dia mas a verdade, não.

Bem, vocês desejam descobrir por si mesmos se Deus ou a verdade está na imagem esculpida, não é? O que é uma escultura? É algo concebido pela mente e moldado na madeira ou na pedra pela mão. A mente projeta a imagem; e vocês acham que uma imagem projetada pela mente é Deus, ainda que um milhão de pessoas afirme que é?

Vocês dizem que, se a mente tiver fé na imagem, esta infundirá poder naquela. Obviamente, a mente cria a imagem e então deriva o poder da própria criação. É iss> que a mente faz sem cessar: produz imagens e retira a força, a felicidade, beneficiando-se delas e permanecendo vazia, golpeada hternamente pela pobreza. Então, o importante não é a imagem, cu o que milhões de pessoas dizem a seu respeito, mas compreende a operação da própria mente.

A mente faz e desfaz deuss, pode ser cruel ou gentil. Ela possui o poder de fazer as coisas mais extraordinárias. Pode sustentar opiniões, criar ilusces, inventar aeronaves que viajam a velocidades tremendas, )ode construir belas pontes, firm ar extensas linhas férreas, pnjetar máquinas que calculam além da capacidade do homen. Mas a mente não pode criar a verdade. O que ela cria não : verdade, mas simplesmente a opinião, o juízo. Por isso é inportante descobrir o que é verdade por si próprio.

Para descobrir o que é a vedade, a mente precisa estar imóvel, completamente equilibrala. A quietude é o ato de adora­ção — não a ida ao templo pira oferecer flores e rejeitando o pedinte que está no caminho. Vccês aplacam os deuses porque têm medo deles, e isso não é adonção. Quando compreenderem a mente e ela estiver completamgite equilibrada, e não forçada à estabilidade, então esse estado é cato da adoração; e aí surge aquilo que é a verdade, que é o belo, cue é Deus.

Pergunta: Você disse que devenvs nos sentar em silêncio e observar a atividade da nossa mente; porén, nossos pensamentos desaparecem assim que começamos a observá-os conscientemente. Como podemos perceber a nossa mente quandc a mente é que percebe e também aquilo a ser percebido?

Krishnamurti: Trata-se de una pergunta muito complexa, com vários itens envolvidos.

Bem, existe aquele que percebe ou apenas a percepção? Por favor, sigam com cuidado esse pensamento. Existe aquele que pensa ou só há o pensamento? Certamente, aquele que pensa não existe antes. Primeiro vem o pensamento, que, depois, cria o pensador — o que significa que ocorreu uma separação no pensamento. É quando a separação ocorre que começa a existir o observador e o que é observado, o que percebe e o objeto da percepção. Como disse a pessoa que fez a pergunta, se você observa sua mente, se você observa um pensamento, esse pensamento desaparece, se desfaz; mas, na verdade, existe somente a percepção e não aquele que percebe. Quando vocês olham uma flor, quando a veem, naquele momento existe uma entidade que vê? Ou existe somente o que é visto? Ver a flor os faz dizer: “Como é bonita, eu a quero”; então o “eu” começa a existir por meio do desejo, do medo, da ganância, da ambição, que seguem a onda da visão. É isso que cria o “eu”, e o “eu” não existe sem esses sentimentos.

Se vocês se aprofundarem nessa questão, descobrirão que quando a mente está bem calma, completamente equilibrada, quando não existe um movimento do pensamento e, portanto, nenhum experienciador, nenhum observador, então o próprio equilíbrio possui a compreensão criativa. Nessa quietude a mente é transformada em algo mais. Porém, a mente não pode encontrar o equilíbrio por um meio, por uma disciplina, por qualquer prática; ele não surge ao ficarmos sentados em um canto tentando nos concentrar. Esse equilíbrio chega quando vocês compreendem os caminhos da mente. Foi a mente quem criou a imagem de pedra que as pessoas veneram; foi a mente quem criou o Gita, as religiões organizadas, as inúmeras crenças; e para descobrir o que é real vocês devem ir além das criações da mente.

Pergunta: O homem é apenas mente e cérebro ou é algo mais?

Krishnamurti: Como iremos descobrir? Se vocês meramente acreditarem, especularem ou aceitarem o que Shankara, Buda ou alguém mais disse, não estarão investigando, não estarão tentando descobrir o que é verdade.

Vocês só possuem um instrumento, que é a mente; e a mente é também o cérebro. Portanto, para descobrir a verdade, vocês precisam compreender os caminhos da mente, não é? Se a mente estiver distorcida, nunca verão direito; se ela for limitada, não poderão perceber o ilimitado. A mente é o instrumento da percepção, e para perceber verdadeiramente é preciso que a mente esteja correta, limpa de todo condicionamento, de todo medo. Ela precisa também estar livre do conhecimento, porque o saber a distrai e complica tudo. A mente tem uma enorme capacidade para inventar, imaginar, especular, pensar — não é preciso que essa capacidade seja colocada de lado para que a mente fique limpa e simples? Porque é somente a mente inocente, a que vivenciou enormemente e ainda assim está livre do conhecimento e da experiência, que pode descobrir o que existe além do cérebro e da mente. De outra forma, o que descobrirem será influenciado pelo que vocês já viveram, e sua experiência será o resultado do seu condicionamento.

Pergunta: Qual a diferença entre necessidade e ganância?

Krishnamurti: Vocês não sabem? Não sabem quando têm o que necessitam? E algo não lhes diz quando são gananciosos? Comecem com o nível mais baixo e vocês verão. Sabem que quando têm roupas e jóias suficientes, ou qualquer outro bem, vocês não precisam filosofar. Mas é no momento em que a necessidade penetra no campo da ganância que vocês começam a filosofar, a racionalizar, a explicar o motivo da ganância. Um bom hospital, por exemplo, requer muitos leitos, um padrão de limpeza, certa assepsia, isto e aquilo. Um homem que viaja talvez precise de um carro, de um sobretudo e outros acessórios. Isso é o necessário. Vocês precisam de conhecimento e habilidade para realizarem seu trabalho. Se são engenheiros, devem conhecer certas coisas— mas esse conhecimento pode se tornar um instrumento da ganância. Por meio da ganância a mente utiliza os objetos da necessidade como veículos para o avanço pessoal. É um processo bem simples se vocês observarem. Se, estando conscientes das suas atuais necessidades, vocês virem como a ganância se aproxima, como a mente utiliza os objetos da necessidade para o próprio engrandecimento, então não será difícil distinguir a necessidade da ganância.

Pergunta: Se mente e cérebro são um só, então por que, quando um pensamento ou um impulso surge e o cérebro nos diz que é malévolo, a mente, com frequência, continua com ele?

Krishnamurti: Na verdade, o que ocorre? Se um alfinete espeta seu braço, os nervos transportam a sensação para seu cérebro, o cérebro a transforma em dor e você afasta o alfinete ou faz outra coisa. Mas existem coisas que a mente retém, mesmo sabendo que elas são malévolas ou estúpidas. Ela sabe como fumar é, em essência, uma estupidez, mas continua a fumar. Por quê? Porque gosta da sensação de fumar, só isso. Se a mente estivesse perspicazmente consciente da estupidez de fumar como está da dor de uma alfinetada, ela pararia de fumar na hora. Mas não quer ver com clareza porque fumar tornou-se um hábito prazeroso. Acontece o mesmo com a ganância ou com a violência. Se a ganância fosse tão dolorosa quanto uma alfinetada no braço, vocês parariam de imediato de ser gananciosos, não filosofariam sobre isso; e se estivessem realmente conscientes do total significado da violência, não escreveriam volumes sabre não violência — o que é bobagem, porque vocês não a semem, mas somente falam a respeito. Se comessem algo que lhes provocasse uma violenta dor de barriga, não continuariam a comer, não é? Deixariam tudo imediatamente de lado. Da mesma forna, uma vez compreendido que a inveja e a ambição são venenosas,odiosas, cruéis, mortais como a mordida de uma cobra, vocês despertariam para elas. Mas a mente não deseja olhar de perto para esss assuntos; nessa área ela tem interesses fixos e se recusa a adnitir que a ambição, a inveja, a ganância, a luxúria, são venenoses. Então diz: “Vamos discutir sobre a não ganância, a não violêicia, vamos falar sobre ideais” — e, enquanto isso, continua comseus venenos. Portanto, descubram por si mesmos como essas coisas são corruptoras, destruidoras e venenosas, e logo as deixarão de lado; mas se disserem simplesmente “Eu não devo” e coatinuarem como antes, bancarão os hipócritas. Sejam uma coia ou outra, quente ou frio.

23. A necessidade de estar a sós

NãO É ESTRANHO que NESTE mundo, onde existe tanta distra­ção, entretenimento, que quase todos sejam espectadores e poucos os participantes? Sempre que temos algum tempo livre, muitos de nós buscam alguma forma de diversão. Pegamos um livro sério, um romance ou uma revista. Se estamos nos Estados Unidos, ligamos o rádio ou a televisão, ou entabulamos uma conversa sem fim. Existe uma exigência constante de diversão, de se distrair, de se afastar de si mesmo. Temos medo de ficar sozinhos, medo de ficar sem companhia, sem um tipo de distração. Bem poucos já foram caminhar nos campos ou nas florestas, não para falar ou cantar, mas somente para andar em silêncio e observar os arredores ou o seu interior. Quase nunca fazemos isso, porque m uitos de nós estão entediados; ficamos presos em uma rotina tola de aprender ou ensinar, com os deveres de uma casa ou de um emprego; então, em nosso tempo livre, queremos nos divertir, seja com algo leve ou mais sério. Lemos ou vamos ao cinema — ou buscamos uma religião, o que é a mesma coisa. A religião também se tornou uma forma de distração, um tipo de escape sério do tédio, da rotina.

Não sei se notaram tudo isso. Muitas pessoas estão constantemente ocupadas com alguma coisa — com o puja, com a repetição de certas palavras, se preocupando com isto ou aquilo — porque têm medo de ficar sozinhas consigo mesmas. Tentem ficar a sós, sem qualquer forma de distração, e verão a rapidez com que desejam sair de si e esquecer quem são. Por isso, a enorme estrutura de diversão profissional, de distração automatizada, é tão destacada em nossa chamada civilização. Se observarem, ve- rão que gente em todo o mundo está se distraindo cada vez m ais, com cada vez mais sofisticação e mundanidade. A multiplicação dos prazeres, os inúmeros livros que estão sendo publicados, as páginas dos jornais cheias de eventos esportivos — certamente tudo isso indica que queremos nos divertir o tempo inteiro. Como somos internamente vazios, tolos, medíocres, usamos nossos re- lacionamentos e nossas reformas sociais como meios para esca- par de nós mesmos. Pergunto-me se já notaram como a maioria das pessoas é sozinha. E para escapar da solidão corremos para os templos, igrejas ou mesquitas; vestimo-nos bem e frequenta- mos reuniões sociais, vemos televisão, ouvimos rádio, lemos etc.

Sabem o significado da solidão? Alguns de vocês podem não estar familiarizados com a palavra, mas conhecem bem o sentimento. Tentem sair para caminhar sozinhos, ou ficar sem um livro, sem alguém com quem conversar, e verão a rapidez com que se sentem entediados. Conhecem bem essa sensação, mas não sabem por que se entediam, e nunca se perguntaram sobre isso. Se pesquisarem um pouco mais sobre o tédio, descobrirão que a causa é a solidão. É para escapar da solidão que queremos estar juntos, que desejamos nos divertir, uma distração de qualquer tipo: gurus, cerimônias religiosas, orações ou lançamentos literários. Estando internamente sós, tornam o-nos meros espectadores na vida, e só poderemos participar dela quando compreendermos a solidão para superá-la.

Aãnal, a maioria das pessoas se casa e busca outros relacionamentos sociais porque não sabe como viver sozinha. Não que devamos viver sozinhos, mas se vocês se casam porque desejam ser amados, ou se estão entediados e usam o emprego como um meio nara esquecer a si mesmos, então verão que toda a sua vida nada mais é do que uma busca interminável pelas distrações. Bem poucos vão além desse medo extraordinário da solidão; mas alguém tem de ir, porque lá está o verdadeiro tesouro.

Sabem, existe uma enorme diferença entre sentir solidão e ser solitáiio. Alguns dos jovens alunos podem ainda não ter sentido solidão, porém os mais velhos a conhecem: a sensação de estar totalmente desligado, de repentinamente sentir medo sem uma causa aparente. A mente conhece o medo quando compreende que não pode confiar em nada, que nenhuma distração consegue afastar o sentido de vazio envolvente. Isso é solidão. Mas ser solitário é algo totalmente diferente; ,é um estado de liberdade(que surge quando vòcês atravessaram a solidão e a compreenderam. Nesse estado de isolamento, vocês não se apoiam psicologicamente em ninguém, porque não estão m ais buscando o p razer, o conforto, a gratificação. H somente então que a mente está completamente só, e aaenas ela é criativa.

Tudo isso é parte da educação: encarar a dor da solidão — a sensação extraordinária de vazio que todos conhecemos — e não nos assustar quando ela chega; n ão ligar o rádio, nem se entregar ao trai alho, ou correr para o cinema, mas olhar para ela, penetrá- la, compreendê-la. Não existe ser humano que não a tenha expe- rimeníado ou que não venha a sentir essa ansiedade desgastante. É por tentarmos evítá-la mediante todas as formas de distração e gratificação — do sexo, de Deus, do trabalho, da bebida, de escrever poemas ou repetir certas palavras que aprendemos de cor — que nunca a compreendemos quando ela se abate sobre nós.

Então, quando a dor da solidão cair sobre vocês, enfrentem- na, olhem para ela sem qualquer pensamento de fuga. Se fugirem, nunca a compreenderão, e ela estará sempre por perto, aguardando. Portanto, se p uderem compreender a solidão e ultrapassá-la, descobrirão que não há necessidade de escapar, nenhuma urgência em ser gratificado ou entretido, pois a mente conhecerá a riqueza, que é incorruptível e não pode ser destruída.

Tudo isso faz parte da educação. Se na escola vocês aprenderem assuntos apenas para que sejam aprovados, então o próprio aprendizado será um meio para escapar da solidão. Conversem com os educadores, e logo descobrirão como eles são solitários, e como vocês são solitários. Mas aqueles que são internamente sós, cujas mentes e corações estão livres da dor da solidão — esses são pessoas verdadeiras, pois podem descobrir por si mesmos o que é a realidade e podem assimilar o que é atemporal.

Pergunta: Qual a diferença entre conscientização e sensibilidade?

Krishnamurti: Pergunto-me se existe diferença. Quando vocês fazem uma pergunta, o importante é descobrir por si mesmos a verdade do assunto, e não meramente aceitar o que alguém diz. Por isso vamos juntos, descobrir o que é ser consciente.

Vocês veem uma bela árvore com folhas brilhando após a chuva; veem a luz do sol cintilando sobre a água e nas penas acinzentadas dos pássaros; veem os camponeses a caminho da cidade com suas cargas pesadas e ouvem suas risadas; escutam o latido de um cão ou o mugido de um bezerro chamando a mãe. Tudo isso é parte da conscientização, a tomada de consciência do que está ocorrendo à volta, não é? Observando um pouco mais, vocês notam a relação entre as pessoas, as ideias e as coisas; vocês estão conscientes de como veem a casa, a estrada; observam as reações ao que as pessoas dizem sobre vocês e como a mente está sempre avaliando, julgando, comparando ou condenando. É tudo parte da consciência, que começa na superfície e depois se aprofunda, porém para muitos de nós ela pára em determinado ponto. Percebemos os barulhos, as canções, as visões belas e feias, mas não estamos conscientes das nossas reações. Dizemos: “Isso é bonito” ou “Isso é feio” e prosseguimos. Não questionamos o que é a beleza, o que é a feiura. Certamente, ver quais são suas reações, ficar cada vez mais alerta a cada movimento do seu próprio pensamento, observar que a mente está condicionada pela influência dos pais, dos professores, da raça e da cultura — tudo faz parte da conscientização, não é?

Quanto mais fundo a mente penetra nos próprios processos de pensamento, compreende com mais clareza que todas as formas de pensamento são condicionadas; portanto, a mente é espontaneamente serena — o que não significa que seja adormecida. Pelo contrário, está extraordinariamente alerta, não mais drogada por mantras, pela repetição de palavras ou moldada pela disciplina. O estado de alerta silencioso também é parte da conscientização; e se vocês penetrarem nele mais profundamente, descobrirão que não existe divisão entre a pessoa que está consciente e o objeto do qual ela está consciente.

Bem, e o que significa ser sensível? Estar ciente da cor e da forma, do que as pessoas dizem e da resposta que vocês lhes dão; considerar, ter bom gosto, boas maneiras, não ser rude, não prejudicar as pessoas física ou internamente sem perceber; ver uma bela cena e permanecer com ela; ouvir atentamente sem ser incomodado por tudo que é dito, de maneira que a mente se torne afiade, aguçada — tudo isso é sensibilidade, não é? Portanto, existe muita diferença entre sensibilidade e conscientização? Acho que não.

Vejam, enquanto sua mente está condenando, julgando, formando opiniões, concluindo, ela não é consciente nem sensível. Quando vocês são rudes com as pessoas, quando arrancam as flores e as jogam fora, quando maltratam os animais, quando escrevem o próprio nome nos móveis ou quebram a perna de uma cadeira, quando não são pontuais para as refeições e seus modos são deselegantes em geral, tudo isso indica uma insensibilidade, não é? Indica uma mente que não é capaz de um ajuste alerta. E certamente faz parte da educação ajudar o aluno a ser sensível para que ele não se conforme ou resista, mas que desperte para todo o movimento da vida. As pessoas que são sensíveis na vida podem sofrer muito mais do que as que são insensíveis; mas se compreenderem e forem além do seu sofrimento, descobrirão coisas extraordinárias.

Pergunta: Por que rimos quando alguém tropeça e cai?

Krishnamurti: É um a forma de insensibilidade, não é? E ta m bém existe o que denominamos sadismo. Sabem o que significa? Um autor chamado Marquês de Sade uma vez escreveu um livro sobre um homem que gostava de machucar as pessoas e vê-las sofrer. Daí veio a palavra “sadismo”, que significa obter prazer com o sofrimento dos outros. Para certas pessoas existe a satisfa­ção peculiar em ver os outros sofrerem. Observem a si mesmos e vejam se têm esse prazer. Ele pode não ser óbvio, mas, se for, vocês descobrirão que ele se expressa no impulso para rir quando alguém cai. Querem que aquele que está no alto caia; vocês criticam, falam sobre os outros sem pensar, tudo isso é uma expressão de insensibilidade, uma forma de desejar atingir alguém. Pode-se causar dano de propósito, com vingança, ou pode ser inconscientemente, com uma palavra, um gesto, um olhar; porém, em ambos os casos, o motivo é atingir o outro, e são poucos os que radicalmente colocam de lado essa forma pervertida de prazer.

Pergunta: Um dos nossos professores diz que tudo o que você está dizendo não éprático. Ele o desafia a criar seis meninos e seis meninas com um salário de 120 rupias. Qual a sua resposta a essa crítica?

Krishnamurti: Se eu tivesse um salário de somente 120 rupias, não tentaria criar seis meninos e seis meninas; esse é o primeiro ponto. Em segundo, se eu fosse professor, isso seria dedicação e não um emprego. Veem a diferença? Ensinar em qualquer nível não é uma profissão nem um simples emprego; é um ato de dedicação. Compreendem o significado da palavra “dedica­ção”? Ser dedicado é se entregar totalm ente a algo, sem pedir nada em troca; ser como um monge, um eremita, como são os grandes mestres e cientistas — não aqueles que passam em algumas provas e se atribuem o título de professor. Refiro-me àqueles que se dedicaram a ensinar, não por dinheiro, mas porque se trata de sua vocação, de seu amor. Se existe esse tipo de professor, eles descobrirão que rapazes e moças podem ser ensinados da m aneira mais prática sobre tudo o que tenho falado. Mas é o mestre, o educador, o professor para quem ensinar é somente um emprego para ganhar a vida quem lhes dirá que não são coisas práticas.

Afinal, o que é prático? Pensem. A maneira como estamos vivendo agora, o jeito como ensinamos, o modo como os nossos governantes lidam com a corrupção e com as guerras incessantes — chamam isso de prático? A ambição é prática, a ganância é prática? A ambição gera a competição e, portanto, destrói as pessoas. A sociedade baseada na ganância e na aquisição tem sempre em si o espectro da guerra, do conflito, do sofrimento; e isso é prático? Obviamente, não. É o que estou tentando lhes dizer nesses vários encontros.

O amor é o que há de mais prático no mundo. Amar, ser gentil, não ser ganancioso nem ambicioso, não ser influenciado pelas pessoas, mas pensar por si mesmo; são coisas bem práticas, e formarão uma sociedade prática, feliz. Mas o professor que não é dedicado, que não ama, que pode ostentar alguns títulos, é m eramente um distribuidor da informação que recolheu em alguns livros — ele lhes dirá que tudo isso não é prático porque na verdade não pensou a respeito. Amar é ser prático — bem mais do que a praticabilidade absurda da chamada educação que produz cidadãos totalmente incapazes de ficarem a sós e refletierem sobre qualquer problema por si mesmos.

Vejam, é parte da conscientização: estar ciente de que eles ficam ali no canto, rindo, e ao mesmo tempo continuar com a própria seriedade.

A dificuldade com muitos adultos é que eles não resolveram o problema do seu próprio viver, mas falam para vocês: “Eu lhes direi o que é prático e o que não é.” Ensinar é a maior vocação na vida, embora seja agora a mais menosprezada; é o mais elevado, o mais nobre dos chamados. Mas o professor deve ser totalmente dedicado, deve se doar por completo, deve ensinar com o coração e a mente, com todo o ser; e por intermédio dessa dedicação tudo se torna possível.

Pergunta: Qual o bem da educação, se enquanto somos educados somos também destruídos pelos luxos do mundo moderno?

Krishnamurti: Temo que você esteja usando as palavras erradas. É preciso ter um certo conforto, não é? Quando sentamos calmamente em uma sala, é bom que esse cômodo esteja limpo e arrumado, embora possa estar quase sem móveis, só com um tapete; deve também ter boas proporções e janelas de tamanho adequado. Se houver um quadro, deverá retratar um bom cenário, e se houver uma flor em um vaso, ela deve trazer o espírito da pessoa que a colocou ali. É preciso também boa alimentação e um local silencioso para dormir. Tudo faz parte do conforto que é oferecido pelo mundo moderno; e o conforto está destruindo o chamado homem culto? Ou é o chamado homem culto, por sua ambição e ganância, quem está destruindo o conforto comum a todos? Nos países prósperos, a educação moderna está deixando as pessoas cada vez mais materialistas e, portanto, todas as formas de luxúria estão pervertendo e destruindo a mente; e nos países pobres, como a índia, a educação não as encoraja a criar um tipo radicalmente novo de cultura, não as ajuda a se tornarem revolucionárias — não daquelas que jogam bombas, do tipo fatal. Essas pessoas não são revolucionárias. Um verdadeiro revolucionário é o homem que está livre de todo induzimento, isento de ideologias e enfeitiçamentos da sociedade, que são expressão da vontade coletiva de vários; e sua educação não o auxilia a ser esse tipo de revolucionário. Pelo contrário, ela os está ensinando a se conformarem ou meramente reformarem o que já existe.

Portanto, é sua chamada educação que os está destruindo, não o luxo que o mundo moderno provê. Por que não podem ter carros e boas estradas? Mas, vejam, todas as técnicas e invenções m odernas estão sendo utilizadas para a guerra, ou simplesmente para a diversão, como um meio para escapar de si mesmos. Por isso a mente se perde em inventos, recursos mecânicos ou máquinas que os ajudam a cozinhar, a limpar, a passar a ferro, a calcular, e várias outras atividades essenciais, para que vocês não tenham que pensar nelas o tempo todo. Vocês devem usar os inventos, mas não se perder nas invenções, e libertar a mente para fazer algo diferente.

Pergunta: Tenho apele bem escura, e a maioria das pessoas prefere a mais clara. Como conquistar a admiração delas?

Krishnamurti: Acredito que existem cosmésticos especiais que deixam sua pele mais clara, mas resolverá o problema? Você continuará a querer ser admirada, ter destaque social, ainda ansiará por uma posição, pelo prestígio; e em seu desejo pela admiração, na luta pela proeminência, existe sempre o ferrão do sofrimento. Enquanto você desejar ser admirada, proeminente, sua educação a destruirá, porque ela a auxiliará a ser alguém nesta sociedade, que está bem apodrecida. Nós construímos a sociedade destruidora por meio da nossa ganância, da nossa inveja, do medo, e ela não será transformada se a ignorarmos ou a chamarmos de ilusória. Somente o tipo correto de educação afastará a ganância, o medo, o desejo de aquisição, para que possamos construir uma cultura radicalmente nova e um mundo totalmente diferente; e o tipo correto de educação só existirá quando a mente realmente desejar compreender a si mesma e se libertar do sofrimento.

24. A energia da vida

Um DOS NOSSOS problemas mais difíceis é o que chamamos de disciplina, e é realmente muito complexo. Vejam, a sociedade acha que ela deve controlar ou disciplinar o cidadão, moldar sua mente segundo certos padrões religiosos, sociais, morais e econômicos.

Mas essa disciplina toda é necessária? Por favor, ouçam com cuidado e não digam “sim” ou “não” imediatamente. Muita gente acha, especialmente quando ainda é jovem, que não deve haver disciplina alguma, que se deve poder fazer tudo o que se queira, e acha que isso é liberdade. Mas simplesmente dizer que nós devemos ou não ter disciplina, que devemos ser livres etc. tem muito pouco significado sem a compreensão de todo o problema da disciplina.

O atleta dedicado está se disciplinando o tempo inteiro, não é? Sua alegria em competir e a própria necessidade de se manter em forma o faz ir cedo para a cama, não fumar, comer bem e, em geral, observar as regras para uma boa saúde. A disciplina não é uma imposição ou um conflito, mas resultado natural da sua alegria pelo atletismo.

Mas a disciplina aumenta ou diminuí a energia humana? Os seres humanos no mundo inteiro, em todas as religiões, em todas as escolas filosóficas, impõem a disciplina da mente, o que implica controle, resistência, ajuste, supressão; é necessário tudo isso? Se a disciplina aumenta a produção da energia humana, então vale o esforço e existe um significado; mas se ela meramente reprime a energia humana, ela é prejudicial, destrutiva. Todos temos energia, e a questão é se essa energia, por meio da disciplina, pode se tornar vital, rica e abundante, ou se destrói qualquer energia que tivermos. Acho que esse é o ponto central da questão.

Muitos seres humanos não possuem grande quantidade de energia, e o pouco que conseguem reter logo é sufocado e destruído pelos controles, ameaças e tabus da sociedade a que pertencem no meio daquilo que denominam educação; portanto, eles se tornam cidadãos sem vitalidade, imitadores daquela sociedade. E a disciplina fornece mais energia para o indivíduo que tem pouca para começar? Ela torna a vida rica e plena de vitalidade?

Quando vocês são muito jovens, como agora, estão cheios de energia, não é? Querem brincar, correr, conversar; não conseguem ficar parados, estão cheios de vida. Então, o que acontece? À medida que vocês vão se tornando adultos, os professores começam a cercear a energia, podando-a, dirigindo-a para vários moldes; e quando finalmente vocês se tornam adultos, homens e mulheres, a pouca energia que restou logo é sufocada pela sociedade, que diz que devem ser cidadãos ajustados e se comportar de determinada maneira. Pela chamada educação e compulsão da sociedade, a energia abundante que vocês trazem quando são jovens é gradualmente destruída.

E essa energia que vocês possuem agora pode se tornar mais vital por meio da disciplina? Se vocês tiverem somente um pouco de energia, a disciplina poderá aumentá-la? Se conseguirem, então a disciplina possui um significado; mas se ela, na verdade, destruir a energia existente, então, obviamente, deve ser deixada de lado.

Em que consiste a energia que todos temos? Ela é o pensamento, o sentimento; é o interesse, o entusiasmo, a ganância, a paixão, a luxúria, a ambição, o ódio. Pintar quadros, inventar máquinas, construir pontes, fazer estradas, cultivar os campos, jogar, escrever poemas, cantar, dançar, ir ao templo, adorar — todas são expressões da energia; e a energia cria também a ilusão, o engano, a miséria. As qualidades mais refinadas e mais destrutivas são igualmente expressões da energia humana. Mas, vejam, o processo de controlar ou disciplinar a energia, deixá-la ir em uma direção e restringir outra, torna-se meramente uma conveniência social; a mente é moldada de acordo com o padrão de uma determinada cultura e, portanto, a energia é gradualmente dissipada.

Portanto, nosso problema é: pode a energia, que em algum grau todos nós possuímos, ser aumentada, ter mais vitalidade — e se assim for, para fazer o quê? Para que é essa energia? 0 propósito da energia é fazer a guerra? É inventar aviões a jato e inúmeras outras máquinas, buscar um guru, ser aprovado na escola, ter filhos, preocupar-se interminavelmente com este ou aquele problema? Ou a energia pode ser utilizada de maneira diferente, para que todas as nossas atividades tenham um significado em relação a algo que as transcende? Certamente, se a mente humana, que é capaz dessa energia supreendente, não estiver buscando a realidade ou Deus, então toda a expressão da sua energia se torna um meio de destruição e miséria. Buscar a realidade requer uma energia imensa; e se o homem não fizer isso, ele a dissipa de maneiras que criam o engano, e então a sociedade terá de controlá-lo. Mas é possível liberar a energia na busca de Deus ou da verdade e, no processo da descoberta do que é a verdade, ser um cidadão que compreende os aspectos fundamentais da vida e a quem a sociedade não pode destruir? Estão seguindo o raciocínio, ou está um pouco complexo demais?

Vejam, o homem é energia, e se o homem não buscar a verdade, a energia se torna destrutiva; portanto a sociedade controla e molda o indivíduo, o que sufoca sua energia. É o que acontece com a maioria dos adultos em todo o mundo. E talvez vocês tenham notado outro fato interessante e bem simples: no momento em que vocês realmente desejarem alguma coisa, terão energia para fazê-lo. O que acontece quando estão ansiosos para disputar um jogo? A energia chega imediatamente, não é? Ela se torna um meio de controle pessoal, então vocês não precisam da disciplina externa. Na busca pela realidade, a energia cria a própria disciplina. O homem que está buscando espontaneamente a realidade torna-se o tipo correto de cidadão, o que não está de acordo com o padrão de qualquer sociedade ou governo em particular.

Portanto, os alunos, bem como os professores, devem trabalhar juntos para produzir a liberação dessa enorme energia para descobrir a realidade, Deus ou a verdade. Na própria busca haverá disciplina, e então vocês serão um ser humano legítimo, um indivíduo completo, e não apenas um indiano ou parse limitado pela sociedade e pela cultura. Se, em vez de cercear sua energia, como está fazendo agora, a escola pudesse ajudar o aluno a despertá-la na busca da verdade, então vocês descobririam que a disciplina tem um significado bem diferente.

Por que será que em casa, na sala de aula e na hospedaria sempre lhes dizem o que devem fazer ou deixar de fazer? Certamente é porque pais e professores, como o restante da sociedade, não perceberam que o homem existe para somente um propósito: encontrar a realidade ou Deus. E mesmo um pequeno grupo de educadores deve compreender e dedicar toda a atenção a essa busca e criar um novo tipo de educação e uma sociedade diferente.

Vocês não notam como a maioria das pessoas à sua volta possui pouca energia, incluindo pais e professores? Eles estão m orrendo lentamente, mesmo quando seus corpos ainda não são velhos. Por quê? Porque eles têm sido derrotados pela submissão à sociedade. Vejam, sem compreender seu propósito fundam ental — que é descobrir a verdade ou Deus e libertar essa coisa extraordinária chamada mente, com sua capacidade de criar submarinos atômicos e aviões a jato, que escreve a poesia e a prosa mais surpreendentes, que pode tornar o mundo mais belo e tam bém destruí-lo —, a energia se torna destrutiva; e então a sociedade diz: “Precisamos moldar e controlar a energia do indivíduo.”

Então, a mim parece que a função da educação é liberar a energia na busca do bem, da verdade ou Deus, o que por sua vez faz do indivíduo um ser humano verdadeiro e, portanto, um tipo correto de cidadão. Porém, a mera disciplina, sem a compreensão total de tudo isso, não possui significado, é algo nocivo. A menos que cada um de nós seja educado de modo que, ao deixarmos a escola e entrarmos no m undo, estejamos cheios de vitalidade e inteligência, plenos de energia para descobrir o que é verdadeiro, seremos simplesmente absorvidos pela sociedade. Seremos sufocados, destruídos, e ficaremos infelizes e miseráveis pelo restante de nossas vidas. Assim como um rio cria as margens que o delimitam, a energia que busca a verdade produz a própria disciplina sem qualquer forma de imposição; e, como o rio que encontra o mar, essa energia encontrará a própria liberdade.

Pergunta: Por que os britânicos governaram a índia?

Krishnamurti: Vejam, as pessoas que possuem mais energia, vitalidade, capacidade, espírito, trazem tanto a miséria quanto o bem-estar para os vizinhos menos vigorosos. Em uma época, a Índia se expandiu por toda a Ásia; seu povo tinha um zelo criativo e levou a religião para a China, o Japão, a Indonésia e a Birmânia. As outras nações eram comerciantes, o que também teve sua importância, e trazia seu quinhão de misérias — mas essa é a vida. A parte que causa estranhamento é que aqueles que estão buscando a verdade ou Deus são muito mais explosivos e liberam muita energia, não somente em si mesmos, como também nos outros; e eles são os verdadeiros revolucionários, não os comunistas, os socialistas ou os que somente realizam reformas. Conquistadores e governantes vêm e vão, mas o problema hum ano é sempre o mesmo. Todos desejamos dominar, submeter ou resistir, mas o homem que está buscando a verdade é livre de to das as sociedades e de todas as culturas.

Pergunta: Mesmo durante a meditação, as pessoas parecem não perceber o que é verdadeiro; por favor, diga-nos o que é verdadeiro.

Krishnamurti: Vamos deixar por um mom ento a questão do que é verdadeiro e considerar primeiro o que é a meditação. Para mim, meditar é algo totalmente diferente do que os seus livros e os seus gurus ensinam. A meditação é o processo da compreensão da própria mente. Se vocês não compreendem seu pensamento, que é o autoconhecimento, tudo o que pensarem terá pouco significado. Sem a base do autoconhecimento, o pensar conduz ao erro. Cada pensamento possui um significado; e se a mente é capaz de ver o significado, não somente de um ou dois pensamentos, mas de cada um que surge, então a mera concentração em uma ideia, imagem ou grupo de palavras em particular— o que é geralmente chamado de meditação — é uma forma de auto-hipnose.

Então, enquanto estão sentados em silêncio, conversando ou jogando, vocês estão conscientes do significado de cada pensamento, de cada reação que acontece? Tentem e verão como é difícil notar cada movimento do seu pensamento, porque eles se acumulam muito rapidamente uns sobre os outros. E se vocês desejam examinar cada um, se realmente querem analisar o conteúdo deles, então descobrirão que eles diminuem e vocês poderão observá-los. A diminuição do ritmo do pensar e o exame de cada pensamento consiste no processo da meditação; e se penetrarem nesse processo descobrirão que, ao permanecerem conscientes de cada pensamento, a mente— que é agora um vasto depósito de pensamentos inquietos guerreando entre si — torna-se mais calma, completamente equilibrada. Então, não há urgência nem compulsão nem medo sob qualquer forma; e, na quietude, o que é verdade surge. Não existe um “você” que vivenda a verdade, mas na mente que permanece equilibrada, a verdade aparece. No m omento em que existe o “você”, existe aquele que vivenda, e que é meramente o resultado do pensamento, não possui uma base sem o pensamento.

Pergunta: Se cometemos um erro e alguém chama nossa atenção, por que cometemos o mesmo erro novamente?

Krishnamurti: O que você pensa? Por que você arranca uma flor, rasga as plantas, destrói os móveis ou joga papel no chão, embora eu tenha certeza de que disseram a vocês várias vezes para que não o fizessem? Ouçam com atenção e compreenderão. Quando fazem essas coisas, vocês estão em um estado de desconsideração, não é? Não estão conscientes, não estão pensando; a mente foi dormir, e vocês fazèin coisas que são obviamente estúpidas. Enquanto não estiverem totalmente conscientes, inteiramente a q u i, não adianta apenas dizer que vocês não devem fazer certas coisas. Mas se o educador puder auxiliá-los a ter consideração, a estar de fato conscientes, a observar com prazer as árvores, os pássaros, o rio, a extraordinária riqueza da Terra, então bastará uma insinuação, porque vocês estarão sensíveis, atentos a tudo à volta e em seu interior.

Infelizmente, sua sensibilidade é destruída porque, desde o momento em que nascem até o dia em que morrerem, vocês estão sempre ouvindo o que devem e o que não devem fazer. Pais, professores, sociedade, religião, sacerdote e também suas ambições, ganâncias e invejas — todos dizem “sim” e “não”. Ficarem livres de todos esses sins e nãos e continuarem sensíveis para que sejam espontaneamente gentis e não prejudiquem as pessoas, não joguem papel no chão ou passem por uma pedra na estrada sem retirá-la, requer grande consideração. E o propósito da educação, certamente, não é a aquisição de títulos, mas despertar em vocês o espírito de consideração, para que sejam sensíveis, alertas, cuidadosos e gentis.

Pergunta: O que é a vida, como podemos ser felizes?

Krishnamurti: Uma boa pergunta para um jovem. O que é a vida? Se perguntarem a um negociante, ele dirá que a vida é o processo de vender coisas e fazer dinheiro, porque essa é a vida que ele tem de manhã até a noite. O homem de ambição dirá que a vida é uma luta para realizar, atingir uma meta. Para o homem que atingiu uma posição e poder, que é o chefe de uma organiza­ção ou de um país, a vida é cheia de atividades que ele mesmo realizou. E para o trabalhador, especialmente neste país, a vida é um trabalho interminável sem um dia de descanso; é ser sujo, miserável e não ter comida suficiente.

Bem, o homem consegue ser feliz com toda a competição, luta, fome e miséria? Obviamente, não. Então, o que ele faz? Ele não questiona, não pergunta o que é a vida, mas filosofa a respeito da felicidade. Fala sobre fraternidade enquanto explora os outros. Inventa um ser superior, uma superalma, algo que fmalmente o deixará permanentemente feliz. Mas a felicidade não surge quando você a procura; é um produto secundário, acontece quando existe a bondade, quando existe amor, quando não há ambição, quando a mente está calmamente buscando o que é a verdade.

Pergunta: Por que lutamos entre nós?

Krishnamurti: Acho que as pessoas mais velhas também fazem esta pergunta, não é? Por que lutamos? Os Estados Unidos contra a Rússia, a China contra o Ocidente. Por quê? Falamos sobre paz e nos preparamos para a guerra. Por quê? Porque acho que a maioria dos seres humanos ama competir, lutar. Isso é um fato, pois de outra forma interromperíamos isso. Na luta existe o sentido elevado de estar vivo, o que também é um fato. Achamos que lutar sob qualquer forma é necessário para nos manter vivos; mas, vejam, esse tipo de vida é muito destrutivo. Existe uma maneira de viver sem lutar. É como o lírio, como a flor que desabrocha; ela não luta, ela é. O estado de ser de qualquer coisa é seu bem. Mas não somos educados para isso. Somos educados para competir, para lutar, para ser soldados, advogados, policiais, professores, diretores, negociantes, todos querendo chegar ao topo. Todos desejamos o sucesso. Existem alguns que têm as pretensões exteriores da humildade, mas só são felizes aqueles que de fato são humildes internamente, e estes são os que não lutam.

Pergunta: Por que a mente abusa dos outros e também de si mesma?

Krishnamurti: O que queremos dizer com abuso ? A mente ambiciosa, gananciosa, invejosa, que é oprimida pela crença e tradição, que é desumana, que explora as pessoas — em ação, ela obviamente cria o abuso e constrói a sociedade que vive em conflito. Enquanto a mente não compreender a si mesma, sua ação está destinada a ser destrutiva; enquanto não tiver autoconhecimento, deve procriar a inimizade. Por isso é essencial que vocês venham a conhecer a si mesmos, e não meramente aprender com os livros. Nenhum livro pode lhes ensinar o autoconhecimento. Pode trazer informações sobre o assunto, mas não equivale a conhecer a si mesmo em ação. Quando a mente se vê no espelho do relacionamento, dessa percepção surge o autoconhecimento, sem o qual não poderemos resolver a confusão, o terrível sofrimento que criamos no mundo.

Pergunta: A mente que almeja o sucesso é diferente da que busca a verdade?

Krishnamurti: É a mesma mente, esteja aspirando ao sucesso ou à verdade, mas enquanto a mente buscar o sucesso, não poderá encontrar a verdade. Compreender a verdade é vê-la no falso, e vê-la também no verdadeiro .

25. Viver sem esforço

Já SE PERGUNTARAM POR QUE quando as pessoas amadurecem elas parecem perder toda a alegria na vida? Atualmente, a maioria de vocês, que são jovens, é razoavelmente feliz; tem problemas pequenos, provas com que se preocupar, mas, apesar dessas atribulações, há em sua vida certa alegria, não é? Existe uma aceitação espontânea e fácil da vida, uma visão leve e feliz das coisas. E por que quando amadurecemos parecemos perder essa insinuação alegre de algo além, de algo de maior significado? Por que tantos de nós, quando entramos na chamada maturidade, nos tornamos apáticos, insensíveis à beleza, à imensidão do céu e à maravilhosa Terra?

Sabem, quando nos fazemos esta pergunta, surgem várias explicações na mente. Estamos muito preocupados conosco — esta é uma delas. Lutamos para ser alguém, para atingir e manter certa posição; temosTilhos e outras responsabilidades e precisamos ganhar dinheiro. Todas estas coisas externas logo pesam sobre nós, e por isso perdemos a alegria de viver. Olhem para os rostos mais velhos à volta, vejam como muitos são tristes, como são preocupados e até doentes, como são retraídos, arredios e, às vezes, neuróticos, sem um sorriso. Não se perguntam por quê? E mesmo quando perguntamos, a maioria das pessoas parece se satisfazer com explicações simples.

Ontem à noite vi um barco subindo o rio com as velas enfunadas, dirigidas pelo vento oeste. Era um barco grande, carregado com lenha para a cidade. O sol estava se pondo, e o barco visto contra o céu era surpreendentemente belo. O barqueiro só o guiava, sem esforço, pois o vento fazia todo o trabalho. Da mesma forma, se cada um de nós pudesse compreender o problema da luta e do conflito, acredito que seríamos todos capazes de viver sem esforço, felizes, com um sorriso no rosto.

Penso que é o esforço que nos destrói, a luta na qual nos engajamos em quase todos os momentos de nossas vidas. Se observarem as pessoas mais velhas que estão próximas a vocês, verão que para a maioria delas a vida é uma série de batalhas com elas mesmas, com as esposas ou com os maridos, com os vizinhos, com a sociedade; e a competição incessante dissipa a energia. O homem que é alegre, realmente feliz, não é aprisionado no esforço. Não fazer esforço não significa que vocês estagnaram, que são tolos e estúpidos; pelo contrário, somente os sábios, os extraordinariamente inteligentes é que estão de fato livres do esforço da luta.

Porém, vejam, quando ouvimos falar em não fazer esforço, queremos ser assim, desejamos .atingir um estado no qual não teremos competição nem conflito; assim fazemos disso nosso objetivo, nosso ideal, e lutamos por ele; e no momento em que o fazemos, perdemos a alegria de viver. Somos novamente pegos no esforço, na luta. O objeto da luta varia, mas ela é a mesma na essência. Pode-se lutar para realizar reformas sociais, para encontra r Deus ou para criar um relacionam ento m elhor entre as pessoas, esposas, maridos ou vizinhos; a pessoa pode se sentar na margem do Ganges, adorar aos pés de algum guru etc. Tudo é esforço, luta. Por isso o importante não é o objeto da luta, mas compreender a própria luta.

Bem, é possível à mente manter-se consciente de que em determinado momento ela não luta, estando completamente livre dessa luta contínua, e, assim, descobrir um estado de alegria no qual não existe sentido de superioridade e inferioridade?

Nossa dificuldade é que a mente se sente inferior; e é por isso que ela luta para ser, ou vir a ser, alguma coisa, ou para transpor os vários desejos contraditórios. Mas não vamos tentar dar explicações de por que a mente é preenchida com a luta. Todo homem pensante sabe por que existe luta tanto dentro quanto fora de si. Nossa inveja, ganância, ambição, competitividade, conduzindo a uma eficácia implacável — estes são, obviamente, os fatores que nos levam a lutar, seja neste ou no próximo mundo. Por isso não precisamos estudar os livros de psicologia para saber por que lutamos; e o importante é certamente descobrir se a mente pode se libertar totalmente da luta.

Afinal, quando lutamos, o conflito está entre o que somos e o que deveríamos ou queríamos ser. Bem, sem dar explicações, pode alguém entender todo esse processo de luta para que ele chegue ao fim? Como aquele barco que estava se movendo com o vento, pode a mente existir sem luta? Certamente, essa é a questão, e não como atingir um estado no qual não existe luta. O próprio esfor­ço para atingir esse estado consiste em um processo de luta; portanto, esse estado nunca é atingido. Mas se vocês observarem a cada momento como a mente fica aprisionada na luta interminável — somen je observarem o fato, sem tentar alterá-lo, sem tentar forçar sobre a mente um determinado estado que chamam de paz — , então descobrirão que ela espontaneamente deixa de lutar; e nesse estado pode aprender muito. Aprender, então, não é simplesmente o processo de reunir informação, mas a descoberta das riquezas extraordinárias que estão além do alcance da mente, e para a mente que faz essa descoberta existe alegria.

Observem a si mesmos e verão como lutam desde o amanhecer até a noite, e como a energia é gasta nessa luta. Se simplesmente explicarem por que lutam, se perderão em teorias, e a luta continuará; porém, se observarem a mente com calma e sem interpretar, se somente deixarem a mente ficar alerta sobre a própria luta, logo descobrirão que surgirá um estado no qual não existe nenhuma luta, mas um senso de alerta surpreendente. Nesse estado de vigilância não existe superior e inferior, não há o grande ou o pequeno, nem guru nenhum. Todos esses absurdos se desfazem porque a mente está totalmente desperta, e a mente que é totalmente desperta é alegre.

Pergunta: Quero fazer uma determinada coisa, e embora tenha tentado várias vezes, não obtive sucesso em nenhuma delas. Devo desistir de lutar ou persistir no esforço?

Krishnamurti: Ter sucesso é chegar, atingir um lugar; e nós adoramos o sucesso, não é? Quando um menino pobre cresce e se torna multimilionário, ou um aluno comum se torna primeiro-ministro, é aplaudido, se esforçou; portanto, cada rapaz e moça deseja de alguma maneira conseguir o sucesso.

Mas existe isso que denominamos sucesso, ou é somente uma ideia que o homem busca? Porque, no momento em que você atinge o ponto, existe sempre um outro à frente que ainda não foi alcançado. Enquanto vocês buscarem o sucesso em qualquer direção, se sentirão pressionados, em conflito, não é? Mesmo depois de terem conquistado, não há descanso para vocês, porque desejam subir ainda mais, ter mais. Compreendem? A busca pelo sucesso é o desejo de ter “mais”,e a mente que está exigindo constantemente o “mais” não é inteligente; pelo contrário, ela é medíocre, estúpida, porque exigir o “mais” implica uma luta constante, em termos do padrão que a sociedade estabeleceu para nós.

Afinal, em que consistem c contentamento e o descontentamento? O descontentamento é a luta pelo “mais”, e o contentamento é a cessação da luta; mas vocês não conseguem atingir o contentamento sem a compreensão de todo o processo do “mais”, de por que a mente o exige.

Se forem reprovados em uma prova, por exemplo, terão de fazê-la novamente, não é? Qualquer avaliação é lamentável, porque não indica nada de significativo, não revela o valor verdadeiro da sua inteligência. Passar em uma prova é, sobretudo, um truque da memória, ou pode ser questão de sorte; mas vocês lutam para serem aprovados e, se não obtiverem sucesso, continuarão a se submeter a elas. Com muitos de nós ocorre o mesmo processo na vida diária. Estamos lutando por alguma coisa e nunca fazemos uma pausa para indagar se essa coisi que buscamos vale realmente o esforço de lutar por ela. Nunca nos perguntamos se vale o esforço; por isso, ainda não descobrimos que não vale e mantemos a opinião de nossos pais, da sociedade, de todos os mestres e gurus. Somente quando compreendermos todo o significado do “mais” deixaremos de pensar em termos de fracasso e sucesso.

Vejam, temos tanto medo de falhar, de cometer erros não so- menté nas provas, mas na vida. Cometer um erro é considerado terrível, porque seremos criticados; alguém nos repreenderá. Mas, afinal, por que voçês não cometem erros? Todo mundo não comete? E o mundo deixará de estar nessa terrível confusão se vocês nunca cometerem erros? Se tiverem medo de falhar, nunca aprenderão. As pessoas mais velhas erram o tempo inteiro, mas não querem que vocês errem, e por isso sufocam suas iniciativas. Por quê? Porque temem que ao observar e questionar tudo, ao experimentar e cometer erros, vocês poderão descobrir algo por si próprios e rom per com a autoridade dos pais, da sociedade, da tradição. Por isso, o ideal do sucesso é mantido para que vocês o sigam; e o sucesso, como notarão, é sempre calcado na respeitabilidade. Mesmo o santo em suas chamadas realizações espirituais deve se tornar respeitável, pois de outra forma não terá reconhecimento nem seguidores.

Logo, estamos sempre pensando em termos de sucesso, em termos de “mais”; e o “mais” é avaliado pela sociedade respeitável. Em outras palavras, a sociedade estabeleceu muito cuidadosamente um certo padrão de acordo com o qual ela classifica sucessos ou fracassos. Porém, se vocês amarem algo com todo o ser, não se preocuparão com sucesso ou fracasso. Nenhuma pessoa inteligente se preocupa. Mas infelizmente são bem poucas as pessoas inteligentes, e ninguém fala sobre isso com vocês. Toda a preocupação de uma pessoa inteligente é ver os fatos e compreender o problema — que é não pensar em termos de sucesso ou fracasso. É somente quando não amamos realmente o que estamos fazendo que pensamos nesses termos.

Pergunta: Porque somos fundamentalmente egoístas? Podemos tentar ao máximo não ser egoístas em nosso comportamento, mas quando nossos interesses estão envolvidos, tornamo-nos autocentrados e indiferentes aos interesses dos outros.

Krishnamurti: Acho que é muito importante não rotular ninguém de egoísta ou altruísta, porque as palavras exercem uma influência extraordinária sobre a mente. Chamem um homem de egoísta e ele está condenado; chamem-no de professor e algo acontece na abordagem a ele; chamem-no de Mahatma, ou grande alma, e ime­diatamente cria-se um halo em torno dele. Observem suas respostas e verão que palavras como advogado, comerciante, governante, servo, amor e Deus exercem um efeito estranho sobre seus nervos e também sobre sua mente. A palavra que denota uma função em particular evoca a sensação de status; portanto, o primeiro a fazer é se libertar desse hábito inconsciente de associar sentimentos a palavras, não é? A mente foi condicionada a pensar que o termo “egoísta” representa algo muito errado, não espiritual, e no momento em que vocês o aplicam a qualquer coisa, a mente a condena. Portanto, quando fazem a pergunta: “Por que somos fundamentalmente egoístas?”, já existe um significado de condenação.

É muito importante estar consciente de que certas palavras nos causam uma resposta nervosa, emocional ou intelectual de aprovação ou condenação. Quando vocês se classificam como ciumentos, por exemplo, imediatamente bloqueiam um outro questionamento e param de penetrar no problema do ciúme. Similarmente, muitas pessoas dizem que estão trabalhando pela fraternidade, embora tudo o que façam seja contra ela; mas não veem esse fato porque “fraternidade” significa algo para elas, que já estão persuadidas pela palavra; não perguntam mais e, por isso, nunca descobrem quais são os fatos independentemente da resposta neurológica ou emocional que o termo evoca.

Portanto, esse é o primeiro passo: experimentar e descobrir se vocês podem olhar para os fatos sem as implicações conde- natórias ou elogiosas associadas a certas palavras. Se puderem encarar os fatos sèm os sentimentos de condenação ou aprova­ção, descobrirão que no próprio processo da observação existe a dissolução de todas as barreiras que a mente erigiu entre ela mesma e os fatos.

Simplesmente observem como vocês abordam alguém que os outros chamam de “grande pessoa”. As palavras os influenciaram; os jornais, os livros, os seguidores, todos disseram que ele é um grande homem, e sua mente aceitou. Ou busquem o oposto e digam: “Que estupidez, ele não é um grande homem.” Mas se puderem dissociar a mente de toda influência e apenas olharem para os fatos, então descobrirão que a abordagem será totalmente diferente. Da mesma maneira, a palavra “camponês”, que está associada a pobreza, sujeira, imundície, ou algo parecido, influencia seu pensamento. Mas quando a mente está livre da influência, quando ela não condena nem aprova, mas simplesmente olha, observa, então ela não é autocentrada, e não existe mais o problema do egoísmo tentando não ser egoísta.

Pergunta: Por que, do nascimento até a morte, o indivíduo deseja sempre ser amado, e se ele não consegue, ele não é equilibrado nem cheio de confiança como seus companheiros?

Krishnamurti: Você acha que seus companheiros estão cheios de confiança? Eles podem se pavonear ou andar emproados, mas você descobrirá que por trás dessa demonstração de confiança a maioria das pessoas é vazia, tola, medíocre e não tem nenhuma confian­ça. E por que queremos ser amados? Vocês não desejam ser amados pelos pais, pelos professores, pelos amigos? E, se já são adultos, querem ser amados pela esposa, pelo marido, pelos filhos — ou pelo guru. Por que o anseio eterno de ser amado? Ouçam com cuidado. Vocês desejam ser amados porque não amam; mas, qo momento em que amarem, isso acaba; vocês não mais questionarão se são amados ou não. Enquanto'exigirem ser amados, não haverá amor em vocês; e se não sentirem nenhum amor, serão feios, brutos, e, então, por que seriam amados? Sem amor, vocês são como coisas mortas; e quando algo sem vida pede amor, ele continua morto. Mas se o coração de vocês estiver cheio de amor, jamais pedirão para ser amados, nunca estenderão o potede esmolas para que alguém o encha. É somente o vazio que pede para ser preenchido, e um coração vazio nunca pode ficar cheio correndo atrás de gurus ou buscando amor em centenas de outros ciminhos.

Pergunta: Por que os adultos roubam!

Krishnamurti: Vocês não roubam,às vezes? Não souberam do menino que roubou algo que desejava de outro menino? É exatamente o mesmo na vida, sejam vocês jovens ou adultos. A diferença é que as pessoas mais velhas o fizem de maneira mais astuta, com várias palavras bonitas; elas desejam riqueza, poder, posi­ção, e são coniventes, maquinam, filosofam para conseguir o que querem. Elas roubam, porém não é mamado de roubo, mas recebe outro nome mais respeitável. E poi que nós roubamos? Em primeiro lugar, porque a maneira como a sociedade é constituída atualmente priva muitas pessoas dasnecessidades da vida; certas partes da população têm comida, rojpa e abrigo insuficientes e, portanto, fazem alguma coisa a respáto. Existem também aqueles que roubam porque são o que se chama de antisocials. Para eles, roubar tornou-se um jogo, umaforma de excitação — o que significa que eles não receberam uma educação verdadeira. Esta consiste na compreensão do signifcado da vida, não somente cansar-se dè ser aprovado nas provas Existe também o roubo em um nível mais pito: o roubo das ideia alheias, o roubo do conhecimento. Quando estamos atrás do « mais” sob qualquer forma, estamos obviamente roubando.

Por que estamos sempre pergunando, implorando, desejando, roubando? Porque em nós não exke nada; interna e psicologicamente somos como um tambor vaio. Estando ocos, tentamos nos encher, não somente roubando coisas, mas imitando os outros. A imitação é uma forma de roubo: você não é ninguém, mas ele é alguém, então você conseguirá alguma glória ao copiá-lo. Esse tipo de corrupção atravessa a vida humana, e muito poucos estão livres dele. Então o importante é descobrir se o vazio interior pode ser preenchido. Enquanto a mente estiver buscando preencher a si mesma, ela sempre estará vazia. Somente quando ela deixa de se preocupar em preencher seu próprio vazio, este deixará de existir.

26. A mente não é tudo

Sabem, É TÃO AGRADÁVEL ficar somente em silêncio, sentado ereto com dignidade, com equilíbrio — é tão importante quanto olhar para aquelas árvores sem folhas. Já notaram como elas são lindas quando vistas contra o céu azul pálido do amanhecer? Os galhos nus de uma árvore revelam sua beleza, e na primavera, no verão e no outono, existe nelas também uma beleza extraordinária. A beleza das árvores muda com as estações, e perceber esse fato é tão importante quanto considerar as mudanças em nossa vida.

Vivendo na Rússia, nos Estados Unidos ou na índia, somos todos sires humanos; como tal, temos problemas comuns, e é absurdo pensar em nós como indianos, norte-americanos, russos, chineses etc. Existem divisões políticas, geográficas, raciais e econômicas, porém enfatizá-las ocasiona somente antagonismo e ódio. Os norte-americanos podem ser mais prósperos, atualmente, o que significa que têm mais recursos, mais rádios, mais aparelhos de televisão, mais tudo, inclusive alimento, enquanto aqui existe mais fome, mais sujeira, maior população e desemprego. Porém, independentemente de onde estivermos, somos todos seres humanos e, assim, criamos nossos próprios problemas; é muito im portante compreender que, ao nos vermos como indianos, norte-americanos ou ingleses, ou como brancos, pardos, negros ou amarelos, estamos criando entre nós barreiras desnecessárias.

Uma das nossas principais dificuldades é que a educação m oderna em todo o mundo está preocupada principalmente em nos tornar meros técnicos. Aprendemos como projetar aeronaves, construir estradas pavimentadas, m ontar carros ou submarinos nucleares mais modernos e, em meio a toda essa tecnologia, esquecemos que somos seres humanos — o que significa que estamos preenchendo nossos corações com questões da mente. Nos Estados Unidos, a automatização está liberando cada vez mais as pessoas das longas horas de trabalho, como também acontece atualmente aqui, e então teremos o imenso problema de como utilizar nosso tempo. Fábricas enormes, que agora empregam milhares de trabalhadores, serão provavelmente dirigidas por alguns técnicos; e o que acontecerá com todos os que estão acostumados a trabalhar e que terão muito tempo disponível nas mãos? Até que a educação comece a considerar esse e outros problemas hum anos, nossas vidas serão vazias.

Nossas vidas já são vazias agora, não é? Vocês podem ter alguma formação universitária, podem se casar e estar bem empregados, podem ser espertos, ter m uita informação, conhecer os últimos lançamentos editoriais, mas, enquanto preencherem seu coração com as coisas da mente, sua vida está destinada a ser vazia, apagada e com pouco significado. Existem beleza e significado na vida somente quando o coração está limpo das questões da mente.

Vejam, tudo isso é um problema individual nosso, e não uma questão especulativa que não nos diz respeito. Se, como seres humanos, não soubermos como cuidar da Terra e do que existe nela, se não soubermos amar nossos filhos e ficarmos somente preocupados conosco, com noèsos avanços e sucesso pessoal ou nacional, teremos um m undo abominável — que é o que já estamos construindo. Um país pode ser xruito rico, porém suas riquezas serão danosas enquanto houver outra nação onde exista x fome. Somos uma humanidade, a Terra é para ser partilhada por nós, ey com os devidos cuidados, ela produzirá alimento, roupa e abrigo para todos.

Portanto, a função da educação não é meramente prepará-los para serem aprovados, mas ajudá-los a compreender o problema da qualidade do amor — no qual está incluído o sexo, ganhar o sustento, rir, ter iniciativa, ser diligente e saber pensar com profundidade. É também problema nosso descobrir o que é Deus, porque essa é a base da nossa vida. Uma casa não conseguirá se sustentar por muito tempo sem uma base adequada, e todas as invenções engenhosas do homem não terão significado se não procurarmos o que é Deus ou a verdade.

O educador deve ser capaz de auxiliá-los a compreender isso, pois devem começar ainda pequenos e não puando estiverem com 60 anos. Nunca descobrirão Deus com 60 anos, pois nessa idade a maioria das pessoas já está cansada, sentindo-se acabada. Devem começar ainda jovens, porque então poderão lançar o alicerce correto para que sua casa permaneça firme darante as tempestades que os seresKumanos criam para si própros. Então poderão viver felizes, porque sua felicidade não depmde de nada, não depende de s^ris nem de joias, de carros ou efe rádios, ou se alguém os ama ou os rejeita. Serão felizes não porqie possuem coisas, mas porque sua vida tem significado nela mesna. Porém esse significado somente é descoberto quando vocês estão buscando a realidade a cada momento — e ela está em tuco, e não é encontrada na igreja, no templo, na mesquita ou em algum ritual.

Para buscar a realidade, precisamos saber como remover a poeira dos séculos depositada sobre ela; e, por favor, acreditem- me, a busca pela realidade é a verdadeira educação. Qualquer homem esperto consegue ler livros e acumular informações, atingir uma posição e explorar os outros, mas isso não é educação. O estudo de certos assuntos é apenas uma pequena parte da educação, mas existe uma vasta área em nossa vida para a qual não fomos educados e não temos uma abordagem correta.

Descobrir como abordar a vida para que nosso dia-a-dia, nossos rádios, carros e aviões possuam um significado em relação a algo mais que inclua e transcenda tudo isso — isso é educação. Em outras palavras, a educação deve começar com a religião. Mas a religião não está ligada a um sacerdote, a uma igreja, a qualquer dogma ou crença. Religião é amar sem motivo, ser generoso, ser bom, pois somente então seremos seres humanos reais. Mas a bondade, a generosidade ou o amor não serão salvos por meio da busca pela realidade.

Infelizmente, todo esse vasto campo da vida é ignorado pela chamada educação atual. Vocês estão constantemente ocupados com livros de pouco significado e em serem aprovados, o que possui ainda menos significado. Eles podem lhes ajudar a conseguir um emprego, e isso tem alguma relevância. Mas, atualmente, várias fábricas estão sendo conduzidas quase unicamente por m áquinas, e esse é o motivo para começarmos agora a ser educados para usar corretamente nosso prazer: não na busca de ideais, mas para descobrir e compreender as vastas áreas da nossa existência das quais estamos agora inconscientes e sobre as quais nada sabemos. A mente com argumentos astutos não é tudo. Existe algo vasto e incomensurável além da mente, um encanto que ela não consegue compreender. Nessa imensidão existe o êxtase, a glória, e vivenciar essa experiência é o caminho da educação. A menos que vocês recebam esse tipo de educação, quando se lançarem ao mundo perpetuarão a confusão abominável que gerações passadas criaram.

Portanto, professores e alunos, pensem nisso. Não se queixem, mas se levantem e ajudem a criar uma instituição em que a religião, no sentido correto, é investigada, amada, trabalhada e vivida. Então verão que a vida se tornará surpreendentemente rica — bem mais do que todas as contas bancárias no mundo.

Pergunta: Como o homem obteve tanto conhecimento? Como evoluiu materialmente? De onde tira tanta energia?

Krishnamurti: “Como o homem obteve tanto conhecimento?” É muito simples. Vocês aprendem alguma coisa e repassam aos filhos; eles acrescentam mais um pouco e passam para os filhos deles, e assim por diante por eras. Reunimos conhecimento aos poucos. Nossos bisavós não sabiam nada sobre aeronaves e as maravilhas eletrônicas de hoje, mas a curiosidade, a necessidade, a guerra, o medo e a ganância provocaram todo o conhecimento gradual.

Mas existe um aspecto peculiar sobre o conhecimento. Vocês podem saber muito, reunir vastos estoques de informação, mas a mente que fica enevoada pelo conhecimento, sobrecarregada pelas informações, é incapaz de descobrir. Ela pode utilizar a descoberta por meio do saber e da técnica, porém a própria descoberta é algo original que explode de repente na mente, independentemente do conhecimento; e é a explosão da descoberta que é essencial. A maioria das pessoas, sobretudo aqui neste país, fica tão sufocada pelo conhecimento, pela tradição, pela opinião, pelo medo do que os pais ou vizinhos dirão, que não tem confiança. São como pessoas mortas — é isso que o peso do conhecimento faz com a mente. O conhecimento é útil, porém, sem algo mais, é quase destrutivo, e isso pode ser visto pelos atuais eventos mundiais.

Vejam o que está acontecendo no mundo. Existem milhares de invenções maravilhosas: o radar, que detecta a aproximação de um avião enquanto ele ainda está bem distante; os submarinos, que podem submergir em qualquer lugar do mundo sem a necessidade de subir à tona; o milagre de sermos capazes de falar de Bombaim para Benares ou Nova York, e assim por diante. Tudo é produto do conhecimento. Mas está faltando algo, e por esse motivo o conhecimento é mal utilizado. Existe guerra, destrui­ção, miséria e vários milhões de pessoas passando fome. Elas recebem apenas uma refeição por dia, ou até menos — e vocês não sabem nada a respeito. Conhecem somente seus livros e os próprios pequenos problemas e prazeres em um canto particular de Benares, Delhi ou Bombaim. Vejam, vocês podem ter muito conhecimento, mas sem o algo mais, pelo qual o homem vive e no qual existe a glória, o êxtase, iremos nos destruir.

Materialmente acontece o mesmo: o homem evoluiu nesse aspecto por meio de um processo gradual. E de onde ele retira tanta energia? Os grandes inventores, exploradores e descobridores em todos os campos devem ter tido bastante energia, porém muitos de nós temos bem pouca, não é? Enquanto somos jovens, jogamos, nos divertimos, dançamos e cantamos, mas quando amadurecemos essa energia logo é destruída. Já notaram? Tornamo-nos donas de casa cansadas ou ficamos nos escritórios horas sem fim, dia após dia, mês após mês, simplesmente ganhando nosso sustento; então temos, naturalmente, pouca ou nenhum a energia. Se tivéssemos, talvez destruíssemos a sociedade apodrecida e fizéssemos coisas perturbadoras; portanto, a sociedade cuida para que não a tenhamos; ela gradualmente nos sufoca por meio da “educação”, da tradição, da chamada religião e da cultura. Vejam, a função da verdadeira educação é despertar a energia e fazê-la vir à tona, torná-la contínua, forte, apaixonada, embora seja espontaneamente restringida e empregada na descoberta da realidade. Então essa energia se torna imensa, ilimitada, e não causa mais miséria, sendo ela mesma criadora de uma nova sociedade.

Ouçam o que digo, não desdenhem minhas palavras porque elas são realmente importantes. Não concordem ou discordem apenas, mas descubram por si mesmos se existe a verdade no que está sendo dito. Não fiquem indiferentes: sejam quentes ou frios. Se veem a verdade de tudo e querem realmente colaborar, o calor, a energia crescerá e formará uma nova sociedade. Ela não será dissipada pela simples revolta dentro da sociedade atual, que é como decorar as paredes de uma prisão.

Então nosso problema, especialmente na educação, é como manter qualquer energia que tenhamos e adicionar mais vitalidade, uma força explosiva maior. O que requer ampla compreensão, porque os próprios professores, em geral, têm pouca energia; eles são sufocados com informações e afogados nos próprios problemas e, portanto, não conseguem ajudar o aluno a despertar a energia criativa. Logo, a compreensão deve ser preocupação tanto do professor quanto do aluno.

Pergunta: Por que meus pais se zangam quando digo que desejo seguir outra religião?

Krishnamurti: Em primeiro lugar, eles estão ligados à religião deles e acham que é a melhor, senão a única no mundo, então desejam naturalmente que você escolha o mesmo caminho. Além disso, desejam que você siga a maneira particular deles de pensar, o grupo deles, sua raça, classe. São algumas das razões; e, também, veja, se você seguir outra religião, você se tornará inconveniente, um problema para a família.

Mas o que acontece quando vocês simplesmente deixam uma religião estabelecida para seguir outra? Não se moveram somente para uma outra prisão? Vejam, enquanto a mente se agarra a uma crença, ela está presa. Se vocês nasceram hindus e se tornaram cristãos; seus pais podem ficar zangados, mas isso é secundário. O iifiportante é ver que quando vocês se ligam a outra religião simplesmente assumem um novo grupo de dogmas. Vocês poderão ficar mais ativos, um pouco mais isto ou aquilo, porém ainda estarão dentro da prisão da crença e do dogma.

Por isso, não troquem de religião, que é meramente se revoltar dentro da prisão, mas derrubem as paredes e descubram Deus por si mesmos, que é a verdade. Isso tem significado e lhes trará enorme vitalidade, energia. Mas simplesmente sair de uma prisão para outra e discutir sobre qual delas é melhor é um jogo infantil.

Para sair da prisão da crença é preciso ter a mente amadurecida, ponderada, que percebe a natureza do próprio aprisionamento e não compara uma prisão com a outra. Para compreender algo, você não precisa compará-lo a outro. A compreensão não chega pela comparação, mas somente quando você examina o assunto. Se vocês examinarem a natureza da religião preestabelecida, verão que todas são, essencialmente, semelhantes, seja o hinduísmo, o budismo, o islamismo, o cristianismo — ou o comunismo, que é uma forma de religião surgida no século XX. No momento em que compreenderem a prisão, que é perceber todas as implicações da crença, dos rituais e dos sacerdotes, nunca pertencerão novamente a qualquer religião, porque somente o homem que é livre da crença pode descobrir aquilo que está além de toda crença, que é imensurável.

Pergunta: Qual o modo verdadeiro de construir o caráter?

Krishnamurti: Ter caráter significa, certamente, ser capaz de se opor ao falso e persistir na verdade. Mas construir o caráter é difícil porque, para muitos de nós, aquilo que é dito pelo livro, pelo professor, pelos pais, pelo governo é mais importante do que descobrir o que nós pensamos. É o pensar por si mesmo, descobrir o que é verdadeiro e persistir nele, sem ser influenciado, mesmo que a vida traga sofrimento ou felicidade,que constrói o caráter.

Digamos, por exemplo, que vocês não acreditem na guerra, não porque algum reformador ou mestre religioso tenha dito, mas porque pensaram por si mesmos. Vocês investigaram, penetraram na questão, meditaram sobre ela; logo, para vocês, matar é errado, seja para comer, pelo ódio ou pelo chamado amor ao país. Se sentirem fortemente e persistirem, independentemente do perigo de serem presos ou mortos por isso, como acontece em certos países, então vocês têm caráter. E este possui um significado bem diferente, e não é o caráter que a sociedade cultiva.

Mas, vejam, não somos encorajados nessa direção; nem o educador nem o aluno possuem a vitalidade, a energia para pensar e verificar qual é a verdade, e se manter nela, abandonando o falso. Mas, se jpuderem fazer isso, então não seguirão nenhum líder político ou religioso, porque serão a luz para si mesmos, e a descoberta e o cultivo da luz, não somente enquanto ainda são jovens, mas durante toda a vida, é a educação.

Pergunta: Como a idade influencia na maneira de compreender Deus?

Krishnamurti: O que é a idade? É o número de anos que você viveu? É parte da idade; você nasceu em tal ano e agora está com 15,40 ou 60 anos. O corpo envelheceu — e também a mente, quando fica sobrecarregada com todas as experiências, misérias e desgastes da vida; e a mente nunca poderá descobrir o que é a verdade. Ela pode descobrir somente quando é jovem, viçosa, inocente; mas a inocência não depende da idade. Não é somente a criança que é inocente — ela pode não ser — mas também a mente que é capaz de vivenciar sem acumular o resíduo da experiência. A mente precisa vivenciar, é inevitável. Ela precisa responder a tudo — ao rio, ao animal doente, ao cadáver sendo carregado para ser cremado, aos pobres aldeões carregando seus fardos ao longo da estrada, às torturas e misérias da vida; de outro modo, já estará morta. Mas ela deve ser capaz de responder sem ficar presa pela experiência. É a tradição, o acúmulo da experiência, as cinzas da memória que deixam a mente velha. Aquela que morre todos os dias para as memórias de ontem, para todas as alegrias e tristezas do passado, é viçosa, inocente, não tem idade; e, sem a inocência, tenham vocês 10 ou 60 anos, não encontrarão Deus.

27. Buscar Deus

Um entre os vários problemas com os quais todos nos confrontamos, e especialmente quem está sendo educado agora e logo irá enfrentar o mundo, é essa questão da reforma. Vários grupos de pessoas — socialistas, comunistas e reformadores de todos os tipos — estão preocupados em tentar fazer determinadas transformações no mundo, mudanças que são obviamente necessárias. Embora em alguns países exista um bom grau de prosperidade, no mundo todo ainda encontramos fome, inanição e milhões de pessoasjnecessitadas de vestimentas e lugar adequado para dormir. E como poderá ocorrer uma reforma fundamental sem que se crie mais caos, mais miséria, mais discórdia? Esse é o verdadeiro problema, não é? Se alguém ler um pouco da história e observar ascendências políticas atuais, torna-se óbvio que aquilo que chamamos de reforma, embora desejável e necessária, sempre trará em seu rastro ainda outras formas de confusão e conflito; e para neutralizar o sofrimento, mais legislação, mais repressão e impedimentos se tornarão necessários. A reforma cria novas desordens; para consertá-las são produzidas ainda outras desordens, e o círculo vicioso prosseguirá. É isso que encaramos, um processo que parece não ter fim.

E como romper com o círculo vicioso? Lembrem-se, é óbvio que uma reforma é imprescindível, mas ela será possível sem trazer ainda mais confusão? A mim parece que se trata de um dos pontos fundamentais com o qual qualquer pessoa ponderada se preocupa. A questão não é qual tipo de modificação é necessária, ou em que nível, mas se ela é possível sem trazer outros problemas que criarão a necessidade de uma nova reforma. E o que fazer para romper com esse processo interminável? Certamente, é função da educação — seja numa escola pequena ou numa grande universidade — atacar o problema não de maneira abstrata, teórica, não apenas filosofando ou escrevendo livros a respeito, mas encarando de fato o círculo vicioso da modificação que sempre precisa de outra e que se não for interrompido, os problemas não poderão ser solucionados.

Então, que tipo de educação, que tipo de pensamento, são necessários para romper com o círculo vicioso? Qual ação dará um fim ao aumento de problemas em nossas atividades? Haverá um movimento de pensamento, em alguma direção, que possa libertar o homem desse modo de vida, a modificação que sempre precisa de uma outra? Em outras palavras, haverá uma ação que não nasça da reação?

Acho que existe um modo de vida no qual não ocorre o processo de modificação que produz mais sofrimento, e esse modo pode ser chamado de religioso. A pessoa verdadeiramente religiosa não está preocupada com a reforma, nem com apenas produzir mudanças na ordem social; pelo contrário, ela busca o que é a verdade, e essa busca exerce um efeito transformador na sociedade. Por isso, a educação deve preocupar-se, sobretudo, em auxiliar o aluno a buscar a verdade ou Deus, e não só em prepará-lo para que se adapte ao padrão de determinada sociedade.

Acho que é muito importante compreender esse processo enquanto somos jovens porque, quando amadurecemos e começamos a aBrir mão de nossas pequenas diversões e distrações, nossos apetites sexuais e pequenas ambições, tornamo-nos mais cientes dos imensos problemas que existem no mundo e, então, desejamos fazer algo a respeito, queremos realizar alguma melhoria. Mas se pão formos profundamente religiosos criaremos somente mais confusão, mais sofrimento; e religião não significa estar ligado a sacerdotes, igrejas, dogmas ou crenças. Não são uma religião, mas meras conveniências sociais para nos manter dentro de determinado padrão de pensamento e ação; são meios para explorar nossa credulidade, esperança e medo. A religião é a busca do que é a verdade, do que é Deus, e a procura requer m uita energia, ampla inteligência, pensamento sutil. É na busca do imensurável que está a ação social correta, não na chamada modificação de uma determinada sociedade.

Para descobrir o que é a verdade é preciso haver muito amor e profunda consciência do relacionamento do homem com todas as coisas — o que significa que não há preocupação com o próprio progresso e realizações. A procura da verdade é a verdadeira religião, e o homem que sai ao seu encontro é o único religioso. Ele, em função de seu amor, está fora da sociedade, e sua ação sobre ela é, portanto, totalmente diferente da do indivíduo que está na sociedade e preocupado com mudanças. O reformador jamais copsegue criar uma nova cultura. O importante é a busca do homem verdadeiramente religioso, pois essa procura traz a sua própria cultura e é nossa única esperança. Vejam, a tentativa de encontrar a verdade provoca uma criatividade impactante na mente, que é a verdadeira revolução, porque nesse empreendimento a mente não está contaminada pelos editos e sanções da sociedade. Livre de tudo isso, o homem religioso é capaz de descobrir o que é verdadeiro, e é a constante descoberta do que é verdadeiro que cria uma nova cultura.

É muito importante que vocês recebam o tipo certo de educação. Assim, o próprio educador deve ter sido corretamente educado, não para encarar o ensino como um mero meio de ganhar seu sustento, mas para ajudar o aluno a colocar de lado to dos os dogmas e não se amparar em nenhum a religião ou crença. As pessoas que buscam apoio em uma autoridade religiosa, ou que praticam certos ideais, estão todas preocupadas com a reforma social, que consiste simplesmente em decorar as paredes da prisão. Somente o homem realmente religioso é o verdadeiro revolucionário. E é função da educação ajudar cada um de nós a ser religioso no sentido correto da palavra, pois somente nessa dire­ção está nossa salvação.

Pergunta: Quero realizar um trabalho social, mas não sei como começar.

Krishnamurti: Acho que o importante não é descobrir como começar, mas por que você quer realizar um trabalho social. Por que você quer realizar um trabalho social? Porque vê a miséria do m undo — fome, doença, exploração, indiferença brutal da enorme riqueza diante de uma pobreza estarrecedora, inimizade entre os homens? É essa a razão? Quer realizar um trabalho social porque em seu coração existe amor e, portanto, você não está preocupado com sua realização pessoal? Ou o trabalho social será um meio de escapar de si mesmo? Compreende? Você vê, por exemplo, todo o horror envolvido em um casamento ortodoxo e então decide: “Nunca me casarei”, e se volta para o trabalho social; ou talvez seus pais o incentivaram, ou você tem um ideal. Se for um meio de escape, ou se você está simplesmente buscando un ideal estabelecido pela sociedade, por um líder ou um sacerdote, *u por você mesmo, então qualquer trabalho social que fizer somorte criará mais miséria. Mas se você tiver amor no coração, se estver buscando a verdade sendo, portanto, uma pessoa verdadeirarrente religiosa, se deixar de ser ambicioso e de perseguir o sucesso,; se a sua virtude não o conduz à respeitabilidade, então a própria fida o ajudará a realizar uma transformação total na sociedade.

Acho que é muito importante comprender isso. Quando somos jovens, como a maioria de vocês, deejamos fazer algo, e o trabalho social é atraente; há livros a res>eito, os jornais fazem própaganda dele, existem escolas para tránar os agentes sociais etc. Mas, vejam, sem o autoconhecimentosem a compreensão de si mesmo e de seus relacionamentos, qualqier trabalho social que realizarem nqo terá valor.

É o homem feliz, não o idealista ou o figitivo, que é revolucionário; e o homem feliz não é aquele que Um grandes posses. É o verdadeiramente religioso, e a própria v id é seu trabalho social. Mas se vocês se tomarem apenas um entn os vários agentes sociais, o coração continuará vazio. Vocês poierão doar seu dinheiro ou persuadir outras pessoas a contribuíram com o delas, realizar vária^/reformas, mas enquanto o coração :stiver vazio e a mente cheia de teorias, sua vida será tola, tediosa:sem alegria. Portanto, primeiro compreendam a si mesmos, e de.se autoconhecimento virá a ação correta.

Pergunta: Por que o homem é tão insensívet

Krishnamurti: Essa é muito simples, não :? Quando a educação se limita a transmitir conhecimento e a jreparar o aluno para obter um emprego, quando ela se limita a manter ideais e o ensina a se preocupar com o próprio sucesso, obviamente, o homem se torna insensível. Vejam, muitos de nós não temos amor no coração. Nunca olhamos para as estrelas ou nos alegramos com o marulhar das águas; nunca observamos a dança do luar sobre um regato, nem o voo de um pássaro. Não temos música em nossos corações; estamos sempre ocupados; nossas mentes estão repletas de esquemas e ideais para salvar a humanidade; professamos a fraternidade, e nossa aparência é uma negação dela. Por isso é importante receber o tipo certo de educação enquanto somos jovens, para que nossas mentes e corações permaneçam abertos, sensíveis, ardentes. Mas a vivacidade, a energia, a compreensão impactantes são destruídas quando sentimos medo; e muitos de nós têm medo. Tememos nossos pais, os professores, o sacerdote, o governo, o patrão; temos medo de nós mesmos. Então a vida se torna um veículo do medo, da escuridão, e por isso o homem se torna insensível.

Pergunta: Ao nos refrearmos daquilo que gostamos de fazer, mesmo assim é possível encontrar o caminho para a liberdade?

Krishnamurti: Sabe, uma das coisas mais difíceis é saber o que queremos fazer, e não somente quando somos adolescentes, mas durante a vida inteira. E a menos que vocês descubram por si mesmos o que realmente desejam fazer, com todo o seu ser, terminarão realizando alguma coisa que essencialmente não lhes interessa; e então sua vida se torna miserável e, assim, vocês buscarão distração nos cinemas, na bebida,na leitura de inúmeros livros, em algum tipo de mudança social e outras coisas mais.

Então, pode o educador auxiliá-los a descobrir o que querem fazer durante a vida, independentemente do que seus pais e a sociedade possam esperar? Essa é a verdadeira questão, não é? Porque, ao descobrirem o que amam com todo o seu ser, se tornarão homens livres, com capacidade, confiança, iniciativa. Mas, sem saber o que realmente gostam de fazer, vocês acabam se tornando advogados, políticos, isto ou aquilo, e não haverá felicidade para vocês, porque a profissão escolhida será o meio de sua destrui­ção, e a dos outros.

Vocês precisam descobrir sozinhos o que gostam de fazer. Não pensem em escolher uma profissão para se ajustar à sociedade, porque assim jamais descobrirão o que apreciam. Quando se interessam por algo, não há problema na escolha. Quando gostam e deixam o sentimento agir, existe a ação correta, porque o amor nunca busca o sucesso, jamais é aprisionado pela imitação. Mas se dedicarem a vida a algo que não gostam, nunca serão livres.

Mas fazer o que gostam não significa apenas isso. Para descobrir o'que realmente apreciam, é preciso m uito aprofundamento, bastante insight. Não comecem pensando em ganhar o sustento; mas se descobrirem o que gostam de fazer, assim terão um meio de vida.

Pergunta: É verdade que somente os puros podem ser realmente destemidos?

Krishnamurti: Não busquem ideais de pureza, castidade, fraternidade, não violência e outros, porque eles não têm nenhum significado. Não tentem ser corajosos, porque isso é mera reação ac\ medo. Ser corajoso requer imenso insight, a compreensão de todo o processo do medo e sua causa.

Vejam, existe medo quando se deseja a segurança— no casamento, no emprego, na posição, na responsabilidade, nas ideias, nas crenças, no relacionamento com o mundo ou na relação com Deus. No momento em que a mente busca, de alguma forma, em qualquer nível, a segurança ou a gratificação, está fadada a sentir medo, e o importante é estar consciente desse processo e compreendê-lo. Não se trata de pureza. A mente alerta, atenta, livre do medo, é inocente. E somente aquela que é inocente pode compreender a realidade, a verdade ou Deus.

Infelizmente, aqui e em outros países, os ideais assumiram uma importância extraordinária; nomeio ideal aquilo que deveria ser: eu deveria ser não violento, eu deveria ser bom etc. O ideal, o que devería ser, está sempre em algum ponto distante e, portanto, nunca é. Eles são uma maldição porque impedem as pessoas de pensar direta, simples e verdadeiramente quando encaram os fatos. Trata-se de um escape daquilo que é. Aquilo que é é o fato que vocês temem — têm medo do que seus pais dirão, do que as pessoas pensarão, da sociedade, da doença, da morte. E se encararem aquilo que é, olhem de frente, penetrem nele mesmo que isso traga sofrimento a vocês, e compreendam-no, e então descobrirão que a mente se torna extraordinariamente simples, clara; e na clareza está o fim do medo. Infelizmente somos educados com todos os absurdos filosóficos dos ideais, que são mero adiamento; não possuem validade alguma.

Vocês têm, por exemplo, o ideal da não violência; mas não agem com violência? Então, por que não encarar sua violência, por que não encarar como vocês são? Se observarem a própria ganância, a ambição, os prazeres e distrações, e começarem a compreender tudo, descobrirão que o tempo como meio de progresso, como forma de atingir o ideal, chegou ao fim. Vejam, a mente inventa o tempo para realizar, e por isso nunca está em equilíbrio, nunca é tranquila. A mente tranquila é inocente, é viçosa, embora possa ter a experiência de milhares de anos; por isso, é capaz de resolver as dificuldades da própria existência no relacionamento.

Pergunta: O homem é vítima dos próprios desejos, os quais criam vários problemas. Como atingir um estado livre de desejos?

Krishnamurti: Querer um estado sem desejos é apenas um tru que da mente. Ao constatar que ele cria o sofrimento e ao querer escapar dele, a mente projeta o ideal da ausência de desejos e depois pergunta: “Como posso atingir esse ideal?” E, então, o que acontece? Para não ter desejo, vocês o suprimem, não é? Vocês o sufocam, tentam matá-lo, e assim acreditam que atingiram um estado sem desejos — o que é falso.

O que é o desejo? É energia, não é? No momento em que oprimem a energia, vocês se tornam apáticos, sem vida. Foi o que aconteceu na Índia. Todos os homens ditos religiosos reprimiram seus desejos; poucos são os que pensam e estão livres. Então, o im portante não é sufocar o desejo, mas compreender a energia e utilizá- la na direção correta.

Vejam, quando são jovens, vocês têm muita energia — aquela que os faz desejar escalar montanhas, atingir as estrelas. Então a sociedade intervém e lhes diz para manter a energia entre as paredes da prisão, que ela chama de respeitabilidade. Por meio da educação, de todas as formas de sanção e controle, a energia é gradualmente esmagada. Porém vocês precisam de mais energia, e não de menos, porque sem essa imensa energia nunca descobrirão V que é a verdade. Logo, o problema não é como diminuir a energia, mas como mantê-la e aumentá-la, como torná-la independente e contínua— mas não sob o comando de qualquer cren­ça oh sociedade —, para que ela se torne o movimento em direção à verdade, Deus. Então a energia adquire um significado bem diferente. Assim como um seixo atirado nas águas calmas de um lago cria círculos que se expandem sempre, a ação da energia na direção do que é a verdade cria as ondas de uma nova cultura. Então, a energia não tem limites, é imensurável — ela é Deus.

Relação das perguntas

Capítulo

Página

\ 1 (a) Se todos os indivíduos se revoltarem, você não acha que ocorrerá um caos no mundo?

13

(b) Revoltar-se, aprender, amar: são três processos separados ou simultâneos?

14

(c) É verdade que a sociedade está baseada no consumo e na ambição; mas, se não tivéssemos ambição, não cairíamos em decadência?

15

(d) Na índia, como na maioria dos outros países, a educação é controlada pelo governo. Nessas circunstâncias, é possível realizar a experiência do tipo que você descreveu?

17

2 (a) O que é inteligência?

22

\ (b) A mente rude pode se tornar sensível?

24

(c) Como a criança pode descobrir o que ela é sem a ajuda dos pais e professores?

25

(d) As crianças me disseram que viram nas aldeias alguns fenômenos estranhos, como obsessão, e também que elas têm medo de fantas­

J. Krishnamurti

Capítulo

Página mas, espíritos, e por aí vai. Também perguntaram sobre a morte. O que devemos dizer a esse respeito?

26

3 (a) Qual é a origem do desejo e como posso me livrar dele?

31

(b) Como me libertar da dependência enquanto estamos vivendo em sociedade?

32

(c) Por que os homens brigam?

34

(d) O que é ciúme?

34

(e) Por que nunca estou satisfeita com as coisas?

35

(f) Por que devemos ler?

36

(g) O que é timidez?

36

4 (a) A adoração a Deus é a verdadeira religião?

43

5 (a) O descontentamento impede o pensamento claro. Como superar esse obstáculo?

50

(b) O que é autoconhecimento, como alcançá-lo?

52

(c) O que é alma?

53

6 (a) Por que desejamos ser famosos?

59

(b) Quando você era jovem, escreveu um livro no qual disse: “Estas não são palavras minhas, mas do meu mestre.” Por que agora você insiste para que pensemos por nós mesmos? E quem foi seu mestre?

60

(c) Por que o homem é orgulhoso?

62

(d) Quando somos crianças, nos dizem o que é bonito e o que é feio, e o resultado é que passa-

276

Pense nisso

Capítulo

Página mos a vida repetindo: “Isto é bonito, aquilo é feio.” Como saber o que é verdadeiramente belo e o que não o é?

63

(e) Perdoe-me, mas você não disse quem foi seu mestre.

63

7 (a) Por que você é tímido?

69

(b) Como podemos realizar a verdade em nossa vida diária?

69

(c) As imagens, os mestres e os santos não nos ajudam a meditar corretamente?

70

I (d) Quais são os deveres de um estudante?

71

(e) Qual a diferença entre respeito e amor?

72

8 (a) O que é raiva e por que ficamos zangados?

79

(b) Por que amamos tanto nossas mães?

79

(c) Estou cheio de ódio. Você poderia me ensinar como amar?

80

(d) O que é felicidade?

81

(e) O que é vida real?

83

9 (a) Por que desejamos viver com luxo?

88

« (b) Pode haver paz em nossa vida enquanto estivermos lutando contra nosso ambiente?

89 x (c) Você é feliz ou não?

90

(d) Por que choramos, o que é tristeza?

91

(e) Como podemos ficar integrados sem conflito?

91

10 (a) A alma sobrevive à morte?

96

(b) Quando ficamos doentes, por que nossos pais se preocupam tanto conosco?

97

2 7 7

/ . Krishnamurti

Capítulo

Página

(c) Os templos deveriam ser abertos a todos para a cerimônia de adoração?

98

(d) Qual a função da disciplina em nossas vidas?

99

(e) Agora há pouco, quando você falou sobre o templo, referiu-se ao símbolo de Deus como uma mera sombra. Não podemos ver a sombra de um homem sem que o homem real a projete?

100

(f) As provas podem ser desnecessárias para os jovens ricos cujo futuro está assegurado, mas não serão uma necessidade para os alunos pobres que precisam estar preparados para ganhar o sustento? E a necessidade deles seria menos urgente, especialmente se considerarmos a sociedade como ela é?

100

(g) O rico estará preparado para abrir mão de parte do que tem pelo bem do pobre?

101

11 (a) Como você aprendeu sobre tudo que está falando, e como poderemos aprender também?

106

(b) Devemos formar uma ideia sobre o outro, ou não?

107

(c) O que é sentimento, como sentimos?

108

(d) Qual a diferença entre a cultura indiana e a norte-americana?

109

(e) O que você acha dos indianos?

111

12 (a) Senhor, por que desejamos ter um a com panhia?

117

(b) É seu passatempo dar palestras? Não fica cansado de falar? Por que está fazendo isso?

118

2 7 8

Pense nisso

Capítulo

Página

(c) Quando eu amo uma pessoa e ela fica zanga­ da, por que sua raiva é tão intensa?

118

(d) Como a mente pode ultrapassar seus obstá­ culos?

120

(e) Por que Deus criou tantos homens e mulhe­ res no mundo?

120

13 (a) Por que sentimos prazer nos jogos e não nos estudos?

125

(b) Você disse que quando alguém vê que algo é

I falso, a coisa falsa é suprimida. Vejo diariamen­ te que fumar é algo falso, mas ele continua a existir.

127

(c) Por que temos medo quando pessoas mais velhas ficam sérias? E o que as deixa tão sérias?

128

(d) O que é destino?

129

14 (a) Por que detestamos pessoas pobres?

136

(b) Você falou sobre a verdade, o bem e a integra­

ção, o que implica que do outro lado estão o falso, o mal e a desintegração. Então, como ser verdadeiro, bom e integrado sem disciplina?

137

(c) O que é poder?

139

^ (d) Por que buscamos a fama?

140

15 (a) Como nos livrarmos das preocupações men­ tais se não podemos evitar as situações que as originam?

144

(b) Como podemos nos conhecer?

146

2 7 9

J. Krishnamurti

Página

Capítulo

(c) Podemos nos conhecer sem alguém que nos

148 inspire?

(d) Com todas as nossas contradições, como é possível ser e fazer simultaneamente?

149

(e) Pelo bem do que amamos fazer, podemos nos esquecer dos nossos deveres com os pais?

150

(f) Mesmo que eu deseje muito ser engenheiro, se meu pai se opuser e não me ajudar, como po151 derei estudar engenharia?

16 (a) Como podemos colocar em prática o que você

156 está nos dizendo?

(b) Por que nossos desejos nunca são totalmente realizados? Por que sempre existem obstáculos que nos impedem de fazer coisas exata158 mente como desejamos?

(c) Vejo que sou tolo, mas os outros dizem que sou inteligente. O que deveria me afetar: minha

159 visão ou o que os outros falam?

160

(d) Por que somos travessos?

(e) Estou acostumado a beber chá. Um professor diz que se trata de um hábito nocivo e outro diz

161 que não.

17 (a) O que nos faz temer a morte?

(b) Dizem que em cada um de nós a verdade é permanente e atemporal; mas, como nossa vida é transitória, como pode haver verdade em nós?

169

(c) Posso ter alguma ideia do que é perfeição?

170

2 8 0

Pense nisso

Capítulo

Página

(d) Por que desejamos nos vingar de alguém que nos atingiu?

170

(e) Eu me divirto provocando os outros, mas fico zangado se implicam comigo. Por quê?

171

(f) Qual é o trabalho ideal para o homem?

171

(g) Por que adoramos a Deus?

172

18 (a) Ontem, após o encontro, nós vimos você observando duas crianças da aldeia, caracteris- ticamente pobres, brincando na margem da estrada. Gostaríamos de saber quais os sentimentos que surgiram em sua mente enquanto as observava.

176

(b) Como a mente pode ouvir várias coisas ao

I mesmo tempo?

178

(c) Por que gostamos de ser preguiçosos?

178

(d) Você diz que devemos nos revoltar contra a sociedade e, ao mesmo tempo, diz que não devemos ter ambição. O desejo de melhorar a sociedade não é uma ambição?

179 j (e) Por que me detesto quando não estudo?

180

(f) Mesmo se criarmos uma nova sociedade revoltando-nos contra a atual, essa sociedade recém-criada não seria uma forma de ambição?

182

19 (a) O menino travesso pode mudar por meio da punição ou do amor?

187

(b) Como me tornar inteligente?

188

2 8 1

J. Krishnamurti

Capítulo

Página

(c) Sou muçulmano. Se não seguir diariamente as tradições da minha religião, meus pais amea­

çam me expulsar de casa. O que devo fazer?

189

(d) Você nos diz que não devemos usar resistência no ato de prestar atenção. Como conseguir isso?

190

(e) Por que estamos interessados em fazer per­ guntas?

192

20 (a) Se eu tiver alguma ambição quando criança, serei capaz de realizá-la quando adulto?

196

(b) No atual sistema social não é muito difícil co­ locar em ação o que você tem falado?

198

(c) O que quer dizer com mudança total, como ela pode ser realizada no próprio ser?

199

(d) Senhor, o que é autoexpansão?

200

(e) Por que o homem rico é orgulhoso?

200

(f) Por que somos sempre pelo “eu” e pelo “meu”, e por que continuamos a trazer para esses nos­ sos encontros os problemas que tal estado da mente produz?

200

(g) Por que as mulheres gostam de se vestir bem?

201

21 (a) Por que esquecemos com tanta facilidade aqui­ lo que achamos difícil aprender?

206

(b) Qual o significado da palavra “progresso”?

207

(c) Por que os pássaros fogem quando nos apro­ ximamos?

208

(d) Qual a diferença entre mim e você?

209

2 8 2

Pense nisso

Capítulo

Página

(e) Por que o professor chama minha atenção quando eu fumo?

210

(f) Por que os homens caçam tigres?

211

(g) Por que somos afligidos pelo sofrimento?

211

22 (a) Por que sempre as pessoas ricas e im portan­ tes são convidadas para assumir cargos na escola?

216

(b) Você diz que Deus não está na imagem esculpida, porém outras pessoas dizem que sim, e que se tivermos fé em nossos corações seu poder se manifestará. Qual a verdade sobre a adoração?

218

(c) Você disse que devemos nos sentar em silên-

| cio e observar a atividade da nossa mente;

<

porém, nossos pensamentos desaparecem assim que começamos a observá-los conscientemente. Como podemos perceber nossa mente quando a mente é que percebe e tam bém aquilo a ser percebido?

219

(d) O homem é apenas mente e cérebro ou é algo

\ mais?

221

(e) Qual a diferença entre necessidade e ganância?

221

\

(f) Se mente e cérebro são um só, então por que, quando um pensamento ou um impulso sur­ ge e o cérebro nos diz que é malévolo, a men­ te, com frequência, continua com ele?

222

23 (a) Qual a diferença entre conscientização e sen­ sibilidade?

228

2 8 3

J. Krishnamurti

Capítulo

Página

(b) P or q u e r im o s q u a n d o a lg u é m tr o p e ç a e cai?

230

(c) Um dos nossos professores diz que tudo o que você está dizendo não é prático. Ele o desafia a criar seis meninos e seis meninas com um salário de 120 rupias. Qual a sua resposta a essa crítica?

231

(d) Qual o bem da educação, se enquanto somos educados somos também destruídos pelos lu­ xos do mundo moderno?

233

(e) Tenho a pele bem escura, e a maioria das pes­ soas prefere a mais clara. Como posso con­ quistar a admiração delas?

234

24 (a ) P or q u e o s b r itâ n ic o s g o v e r n a r a m a ín d ia ?

239

(b) Mesmo durante a meditação, as pessoas pare­ cem não perceber o que é verdadeiro; por fa­ vor, diga-nos o que é verdadeiro.

240

(c) Se cometemos um erro e alguém chama nos­ sa atenção, por que cometemos o mesmo erro novamente?

241

(d) O que é a vida, como podemos ser felizes?

242

(e) Por que lutamos entre nós?

243

(f) Por que a mente abusa dos outros e também de si mesma?

243

(g) A mente que almeja o sucesso é diferente da que busca a verdade?

244

25 (a) Quero fazer uma determinada coisa, e embora tenha tentado várias vezes, não obtive su-

2 8 4

Pense nisso

Capítulo

Página cesso em nenhuma delas. Devo desistir de lutar ou persistir no esforço?

248

(b) Por que somos fundamentalmente egoístas?

Poderemos tentar ao máximo não ser egoístas em nosso comportamento, mas quando nossos interesses estão envolvidos, tornamo- nos autocentrados e indiferentes aos interesses dos outros.

250

(c) Por que, do nascimento até a morte, o indivíduo deseja sempre ser amado, e se ele não consegue, ele não é equilibrado nem cheio de confiança como seus companheiros?

252

(d) Por que adultos roubam?

253

26 (a) Como o homem obteve tanto conhecimento?

Como evoluiu materialmente? De onde tira tanta energia?

259

(b) Por que meus pais se zangam quando digo que desejo seguir outra religião?

261

(c) Qual o modo verdadeiro de construir o caráter?

263

(d) Como a idade influencia na maneira de compreender Deus?

263

2^7 (a) Quero realizar um trabalho social, mas não sei como começar.

268

(b) Por que o homem é tão insensível?

269

(c) Ao nos refrearmos daquilo que gostamos de fazer, mesmo assim é possível encontrar o caminho para a liberdade?

270

2 8 5

/ . Krishnamurti

Capítulo

Página

(d) É verdade que somente os puros podem ser realmente destemidos?

271

(e) 0 homem é vítima dos próprios desejos, os quais criam vários problemas. Como atingir um estado livre de desejos?

273

2 8 6

“O autoconhecimento vem quando vocês se observam em seu relacionamento [...] com todas as pessoas à volta; vem quando observam o comportamento do outro, os gestos, a maneira como se veste, como fala [...]; surge quando vocês observam tudo em vocês, sobre vocês, e quando veem a si mesmo ao enxergar o próprio rosto no espelho.”

Nascido em uma pequena aldeia da

índia, Jiddu Krishnamurti (1895-1986) tornou-se um dos maiores mestres espirituais do século X X . Livre pensador – jamais deixou-se seduzir por qualquer crença, guru ou filosofia -e scre v e u dezenas de livros, muitos deles publicados no Brasil.

CAPA: S ÉR G IO C A M P A N T E

Quantas vezes já paramos para refletir sobre o que representa ser livre, sentir am or e desejar o sucesso para si e para os outros?

Querem os que nossos filhos recebam a educação mais completa, que tenham as melhores oportunidades, que conquistem os objetivos mais ambiciosos. N o entanto, não costumamos levar em conta que ser bem-sucedido não significa possuir fortuna, status e poder. Para encontrar satisfação na vida, é necessário apenas vivê-la. Pense nisso.

Considerado pelo X IV Dalai Lama um dos maiores pensadores da nossa era, Krishnamurti foi eleito pela revista Time um dos cinco santos do século X X , numa lista que inclui também Madre Teresa de Calcutá. Com mais de setenta livros publicados em quase trinta idiomas, J. Krishnamurti estendeu uma ponte entre ciência e religião e criou fundações e escolas visando uma educação que enfatizasse a compreensão da mente e do coração.

Exceto quando houver diferente indicação, o conteúdo deste site está licenciado sob a 'Creative Commons Attribution 4.0 International License'
Feedback
Web Statistics